Um primeiro-ministro voltou este domingo a envolver-se numa campanha presidencial 15 anos depois. A última vez que aconteceu foi em 2011 quando José Sócrates subiu ao palco numa ação de campanha de Manuel Alegre. Mas é preciso recuar 40 anos para haver memória de um primeiro-ministro do PSD a participar numa ação numa campanha presidencial: em 1986, Cavaco Silva esteve várias vezes ao lado de Freitas do Amaral. Um ponto curioso: em nenhum destes três casos, o candidato acabou Presidente da República.
Indiferente a isto, Marques Mendes apresentou Luís Montenegro como arma no primeiro dia oficial de campanha. O primeiro-ministro apareceu na estrada para acusar Henrique Gouveia e Melo e André Ventura de serem duas faces do populismo. Para os travar, sugeriu Montenegro, é preciso impedir que António José Seguro e João Cotrim Figueiredo roubem votos a Luís Marques Mendes. A intensidade com que o líder social-democrata apareceu na campanha provocou uma reação dura de todos os adversários visados.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
Ventura diz que Montenegro está com “medo” e quer uma “marioneta”
André Ventura aproveitou a entrada de Luís Montenegro na campanha de Luís Marques Mendes para empolar o discurso contra o sistema e os candidatos que são, como costuma dizer, mais do mesmo. Aos olhos do candidato apoiado pelo Chega, o primeiro-ministro apela ao voto por estar com “medo” e querer uma “marioneta” no Palácio de Belém.
“Eu acho que o primeiro-ministro não devia ter entrado na campanha presidencial. Acho que é um erro que cometeu, mas sobretudo mostra que está com medo de alguma coisa. E se está com medo de quem pode estar na segunda volta e tem receio de eu ir à segunda volta das eleições, é porque não está a fazer as coisas bem”, acusou André Ventura. Se o primeiro-ministro está com medo que seja Presidente da República, é porque se calhar não está a cumprir o seu papel como deveria cumprir”.
E isto foi no primeiro dia oficial de campanha. Esta segunda-feira, numa arruada em Sines, Ventura deu força à ideia de que não servirá para ser uma “marioneta” e avisou até os eleitores: “Quem quiser um Presidente não interventivo, não vote em mim. E, atenção, eu quero voto, mas se quiser um Presidente para ser um corta-fitas, não vote em mim, porque não é o que eu vou ser.”
“Eu vou ser um Presidente interventivo, vou ser um Presidente que quer conduzir o país, dar indicações ao país de como ele deve ser conduzido, e abanar o sistema político, não é intrometer no trabalho do Governo, mas é dizer ao Governo para onde tem que ir muitas vezes.”
Para Ventura, Montenegro só mostra desespero ao apelar ao voto de socialistas e jura que não andará “desesperado a pedir os votos dos outros partidos” para chegar à segunda volta — na verdade, o candidato apoiado pelo Chega apenas precisa de convencer quem já votou em si, nas últimas legislativas, para atingir esse feito.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Gouveia e Melo acusa Montenegro de inclinar eleição favor de Mendes
Henrique Gouveia e Melo continua a apostar em ser o anti-Mendes — mais até do que o anti-Marcelo que se antecipava há meses — sem se preocupar com as relações futuras entre Belém e São Bento. E amigo do seu inimigo, seu inimigo é. O candidato apoiado pelo PSD arrancou a campanha ao lado de Luís Montenegro e o almirante (que preferiu um arranque ao lado de Rui Rui — kriptonite do atual primeiro-ministro) deixou a resposta para esta segunda-feira. E com dureza.
Gouveia e Melo diz que ouviu com “desagrado” as declarações de Montenegro na Batalha. Para o almirante, “o primeiro-ministro esteve mal, porque ele não se pode esquecer que, mesmo enquanto presidente do PSD, continua a ser o primeiro-ministro. Não consegue dissociar as duas coisas. E vai ter de conviver com o futuro Presidente. Seja ele qual for.”
As acusações foram ao ponto de acusar o primeiro-ministro de estar a utilizar o cargo para influenciar a eleição a favor do seu candidato Marques Mendes. Gouveia e Melo diz que Montenegro “não pode condicionar os portugueses a escolherem o Presidente da República que ele acha que lhe faz jeito”. Diz que, se fosse ele próprio o chefe de Governo, “não entrava na campanha” e que “fazer determinado tipo de comentários, não é positivo para o futuro do sistema português.”
Devolvendo as acusações de ser ele um perigo para o sistema, Gouveia e Melo lembra que “o primeiro-ministro não escolhe o Presidente da República. Quem escolhe é a população. E tentar condicionar a escolha do Presidente da República é para um mau sintoma democrático do que deve ser um Presidente”. O candidato recorda que “o Presidente da República não faz parte do partido. Isto não são eleições legislativas. Essa tentativa não me pareceu bem a um primeiro-ministro.”
Nem duas horas depois, após uma visita ao Hospital de Portalegre, Gouveia e Melo vinha imbuído de um espírito positivo a fazer corações com as duas mãos (à boomer, não à gen z), mas logo pôs cara séria. Criticou o estado da saúde e, acima de tudo, Luís Montenegro. “Quem decide sobre os ministros é o primeiro-ministro. O Presidente deve exigir resposta ao primeiro-ministro. E a resposta na saúde tem falhado sistematicamente.” E acrescentou, numa crítica velada à inação de Montenegro: “O senhor primeiro-ministro saberá ler os sinais e tirará as suas ilações e fará o que será necessário.” Foi uma pressão, com crítica à mistura, para Montenegro afastar a ministra.
Gouveia e Melo fez ainda uma espécie de defesa de honra para dizer que ficou mesmo desagradado com a comparação com Ventura: “O primeiro-ministro pode chamar-me o que quiser, mas eu não sou aquilo que ele me que chamar, porque nunca fui populista e os senhores jornalistas sabem muito bem que eu digo um conjunto de coisas e adoto uma atitude que não tem nada a ver com o populismo. Não digo as coisas fáceis”.
O almirante não teve pejo em criticar Montenegro, ainda assim, acredita que não está a comprometer — caso seja eleito — uma relação futura com o Governo. Gouveia e Melo garante que vai ter uma “relação construtiva” com o primeiro-ministro e que essa relação não está em causa: “Sou muito institucional e tenho toda a capacidade de trabalhar nesses papéis.”
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Seguro provoca: espera receber Montenegro daqui a dois meses
A estratégia de António José Seguro é clara: não entrar em picardias directas com adversários e fazer o seu caminho sem afastar eleitorado, incluindo o da direita. Já disse que “não é crime” ter o apoio de eleitores desse lado e por isso mesmo não hostiliza o PSD, nem mesmo Luís Montenegro — reserva-se para as conversas que acredita que irá ter com o primeiro-ministro em Belém a partir de 9 de março.
Foi desta forma que se esquivou a comentar as declarações de Luís Montenegro sobre a sua candidatura abrir caminho aos candidatos populistas. Tenta, assim, colocar-se como o elemento capaz de “coser as relações que existem na política portuguesa”. “Há demasiado radicalismo, há demasiado extremismo, há demasiadas trincheiras e alguém tem que juntar, designadamente, garantir que haja esta cooperação institucional entre o Governo e a República”.
Mas nem por isso deixa de picar os adversários com indiretas, como as muitas que deixou à hora de almoço, na Vidigueira, quando se atirou a Marques Mendes sem nunca o nomear. Falou na existência de “interesses partidários, mas também financeiros e económicos”, para dizer que com ele em Belém “os interesses ficam à porta”. E, assim, deixa aceso o capítulo Mendes/negócios que tem ocupado boa parte desta campanha e fragilizado o seu adversário.
Quanto à colagem de Mendes ao Governo, é um assunto que Seguro usa a cada discurso e que alimenta a sua tese dos ovos e dos cestos, a velha teoria soarista sobre a pouca inclinação dos portugueses para terem em Belém e em São Bento a mesma cor política. Mas Seguro garante que, aqui, o seu problema nem é com o PSD, “partido fundador da democracia”, mas com “um outro partido extremista que está a colonizar, com as suas ideias e propostas, essa mesma direita”. O “poder absoluto” entregue à direita pode trazer ao virar da esquina uma revisão constitucional, avisa, e sem ser necessária a esquerda moderada. Montenegro na estrada de Mendes acaba por servir a esta sua linha de raciocínio.
PAULO CUNHA/LUSA
Cotrim ironiza e diz que Montenegro está arrependido de apostar em Mendes
Do lado de Cotrim Figueiredo, a primeira reação ao apelo de Luís Montenegro para os liberais votarem em Marques Mendes já tinha surgido no discurso de domingo, perante 400 apoiantes. O assessor indicou que ele não responderia a perguntas dos jornalistas, precisamente para não retirar força ao que dissesse do palanque, de onde atirou duas indiretas a Marques Mendes, quando disse que não pretende ser eleito para continuar a “carreira de comentador” ou de “facilitador de negócios”. Atreveu-se mesmo a dizer que o espírito reformista de Sá Carneiro e a coragem de Passos Coelho estão na sua candidatura. Mais ao osso do eleitorado fiel à AD seria difícil.
Esta segunda-feira, depois da visita a um lar, Cotrim voltou a atacar Marques Mendes, dizendo que é uma “prova de fraqueza” recorrer ao envolvimento do primeiro-ministro numa fase tão precoce da campanha — e ousando mesmo alvitrar que “se calhar Luís Montenegro está arrependido” de ter apostado em Mendes para candidato da AD.
Sem nunca tirar o ex-comentador da mira, Cotrim de Figueiredo tem o cuidado de não hostilizar em demasia Luís Montenegro. Afinal, é da AD que vem uma parte significativa dos eleitores que lhe estão a declarar apoio nas sondagens.
Por exemplo, o ex-presidente da Iniciativa Liberal não colocou em causa a legitimidade de Montenegro para se pronunciar sobre as presidenciais, chamou-lhe “peso pesado” por liderar o partido com mais deputados no Parlamento e justificou o seu apelo ao voto útil com a alegada fragilidade de Marques Mendes: “Não seria necessário, se o candidato fosse capaz de mobilizar todo o eleitorado da AD.”
À noite, depois de sair a tracking poll da CNN que o coloca em 4º lugar, com 18%, em empate técnico com Seguro, Ventura e Gouveia e Melo, o eurodeputado liberal reforçou a convicção de que vai passar à segunda volta. E sublinhou de forma irónica o trajeto alegadamente descendente do ex-comentador, que surge em 5º, com 15%: “As sondagens já têm dado Marques Mendes em primeiro lugar, em segundo, em terceiro, em quarto, faltava-lhe o quinto. Está a fazer o pleno.”
Também respondeu aos ataques que lhe dirigiu Sebastião Bugalho. O eurodeputado da AD e apoiante de Marques Mendes acusou o ex-presidente da IL de não ter tomado nenhuma medida que tenha mudado a vida dos portugueses, nem ter redigido qualquer resolução no Parlamento Europeu. A primeira reação do candidato presidencial foi apenas assim: “Nestes quase dois anos do Parlamento Europeu fiquei a conhecer muito bem Sebastião Bugalho”. Desafiado a clarificar o que queria dizer, afirmou: “Prefiro nem comentar essas declarações, tenho a certeza de que um dia virá retratar-se. (…) Mal fora que uma carreira inteira e uma vida inteira fossem determinadas pela opinião de um ex-comentador ou, quem sabe, futuro comentador também”.
As declarações foram feitas durante uma pausa num jogo de futebol com dezenas de apoiantes, num campo da Alta de Lisboa, em que marcou um golo de penálti (que não foi ao VAR). Ao fim da tarde, em entrevista à Prova Oral da Antena 3, Cotrim de Figueiredo já tinha atirado mais duas acendalhas para este combate entre os dois candidatos apoiados por IL e PSD, partidos com grandes afinidades ideológicas e que em campanhas passadas para as legislativas já aventaram até a hipótese de trabalharem juntos, se não houvesse maioria (mas a IL não chegou a eleger deputados suficientes para fazer essa diferença).
Sobre o candidato que preferiria enfrentar na segunda volta, Cotrim arriscou: “Se uma eleição serve para clarificar e que as pessoas sintam necessidade de pensar a política e o país de forma diferente, talvez o que fosse mais esclarecedor fosse entre mim e Marques Mendes.” E numa pergunta inspirada no facto de ter trabalhado numa empresa de sumos, questionado sobre que candidato acha que lhe dava uma pêra, respondeu: “Nesta altura quem me acha menos graça é Marques Mendes”. Uma tensão que promete manter-se até serem contados os votos no dia 18.
Artigo atualizado às 0h16 com as declarações de Cotrim de Figueiredo a responder a Sebastião Bugalho