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Bruce Springsteen: o macho sensível que nunca falha

Em dia de concerto no Rock in Rio Lisboa, Bruno Vieira Amaral escreve sobre o herói que não mudou nem desperdiçou talento, que canta o sonho americano como o de uma gloriosa normalidade.

A lenda de Bruce Springsteen começou a ser escrita no dia 22 de Maio de 1974, história com 42 anos, tal e qual. Até essa data, Bruce, jovem de New Jersey, lançara dois álbuns. Críticas razoáveis, algumas mais do que isso, vendas péssimas ou quase, a ponto de a editora enfiar a cabeça nas mãos a pensar nos milhares de dólares investidos em promoção no “novo Dylan”. Era assim que, naqueles tempos, 1973, Wilt Chamberlain a brilhar na NBA, o vendiam. Franzino, barba rala, casaco de cabedal. Parecia Bob Dylan, mas quem é que não parecia? Com os amigos lá do bairro, a E Street Band, Springsteen tocava noite após noite, a ganhar rodagem e pouco dinheiro, em bares esconsos de toda a América. Enquanto o sucesso não vinha era preciso tocar, tocar muito. Os concertos tinham admiradores e granjearam-lhe uma reputação. Só o ponteiro que assinalava as vendas é que não disparava: os radialistas não lhe davam o airplay de que a sua música precisava para respirar nas tabelas. Estava na categoria ambivalente dos artistas de culto, bom em palco, segredo partilhado por uns quantos, Miami Steve van Zandt, seu fiel escudeiro, a viver com um dólar por dia.

Então aconteceu. 22 de Maio de 1974, Jon Landau, editor da Rolling Stone, depois de assistir a um concerto de Springsteen em Boston, escreve um artigo extático – Moisés a olhar a terra prometida depois de décadas no deserto – a anunciar a salvação do rock’n’roll: “Vi o futuro do rock’n’roll e o seu nome é Bruce Springsteen”. O futuro que Landau vira não era o do rock mas o seu. Tempos depois estava a co-produzir o terceiro álbum de Springsteen, última chamada para a glória, que a editora estava a perder a paciência. Decidido a cumprir a sua profecia, Landau dedicou-se a procurar a centelha que testemunhara no concerto, mas que parecia ausente dos discos de Springsteen.

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Born to Run foi lançado em 1975. Meses depois Bruce Springsteen era capa da Time e da Newsweek. Na mesma semana. Quando isso acontece não é só rock’n’roll. Springsteen era um fenómeno americano (também a chuva ácida, dizia Woody Allen num filme). A partir daí passou a ser obrigatório usar a palavra energia em qualquer análise ao fenómeno Springsteen, Bruce, o Boss. O que era aquilo?

Aquilo era um corpo em palco, fonte inesgotável de energia. No célebre artigo, Landau comparava-o a Chuck Berry, Bob Dylan (claro!) e a Marlon Brando. O Brando de “The Wild One”, o Brando de “Um Eléctrico Chamado Desejo”, a reconfigurar as representações do corpo masculino, a forma como um homem se devia mover. Hey, Stella! Não é a voz de Springsteen? Tal como Brando parecia real e muito mais vivo do que quase todos os outros actores seus contemporâneos, Bruce parecia um homem real em época de máscaras, artifícios, transformações, exageros. Brinco de ouro na orelha esquerda, um crucifixo (“You don’t make up for your sins in church. You do it in the streets”, podia ele cantar como se ouvia em “Mean Streets”, de Scorsese), T-shirt, botas, casaco de cabedal coçado. A personagem dispensava acessórios. Uma certa rudeza aprendida nos westerns, uma nostalgia talvez bebida no Bogdanovich de “A Última Sessão”. Macho, sim, mas com sensibilidade. Além disso, como prova de maturidade e segurança, o controlo sereno da banda numerosa, todos de olhos no Boss, à espera que ele indicasse o caminho.

Ao contrário da anarquia do punk, que viria depois, Springsteen era a força controlada, a energia brutal que nunca acaba em descarga eléctrica, comboio a alta velocidade que nunca sai dos carris. Donde, a apregoada moderação e sobriedade do artista: não bebia, não tomava drogas, não dizia palavrões à frente de senhoras. Um rapaz como os outros, interessado em raparigas e carros, em carros e nas noites, como se estivesse a viver dentro de “They Live By Night”, em fuga no carro, pela noite fora. Banalidades, talvez, mas que de tão repetidas adquiriam uma aura mitológica. Sprinsgteen – criador de universos.

Ao longo dos anos, Springsteen saltou do nicho liceal e da moderada angústia adolescente para a linguagem da América média, de idade e de classe. Foi uma transição suave da cultura juvenil para a cultura de massas porque os seus fãs o acompanharam nessa passagem.

Em dez anos – até ao lançamento de Born In The USA – tornou-se uma instituição americana. Tinha respondido afirmativamente à pergunta que a Newsweek fizera em 1975: estaria ele à altura da “formidável tarefa de dar corpo à fantasia coletiva do que deve ser um herói do rock?” De pseudo-rufia escanzelado das ruas suburbanas de New Jersey até à quinta-essência da americanidade. Monte Rushmore musical, monumento nacional, como lhe chamou a sexóloga Ruth Westheimer. A encarnação definitiva da América comum (não confundir com América profunda), a América de uma certa candura, optimista, crente no futuro apesar de ter os pés bem assentes na terra (anos mais tarde, quando lhe perguntaram numa entrevista se ele achava que o adjectivo “real” era o que lhe assentava melhor, Springsteen preferiu “terra a terra” (“grounded”)). A América que, com um pé na valeta, continua a olhar para as estrelas.

Na edição da Time em que Springsteen foi capa, lembravam que tinham dito dele que era o “último inocente do rock”. A mistura de realismo e inocência, tal como a ideia de que conhecer o lado negro da vida não conduz necessariamente ao cinismo, é uma virtude americana e talvez explique por que razão canções com letras tristes como “Glory Days” ou “Born in the USA” sejam treslidas (ou tresdançadas) como hinos de alegria, marchas patrióticas. Há nelas, apesar da mensagem sombria, um invencível optimismo, uma inocência que não pode ser corrompida sobretudo porque já o foi.

[o vídeo de “Glory Days”]

Por ocasião da morte de David Bowie e, mais recentemente, de Prince, muitos foram os que lhes agradeceram por terem mostrado que era possível ser-se diferente, exuberante, sexualmente ambíguo, racialmente indeterminado. Se Springsteen dizia alguma coisa era “não há nenhum problema em ser absolutamente banal”. Quem se identificava com ele era a massa de adolescentes brancos da classe média que não tinham referências num mundo do espectáculo saturado de artifício. A Newsweek escrevia: “Em palco, Springsteen projecta o mesmo tipo de masculinidade e inocência liceais com que muitos jovens fãs do sexo masculino, para quem o glitter é aborrecido, se identificam”.

Mas até que ponto Springsteen era real? Num ensaio demolidor publicado na Esquire em 1988 – altura em que o fenómeno Springsteen começava a esfriar – John Lombardi argumentava que antes de ter tocado uma corda sensível da nação americana, Springsteen falara aos corações de alguns membros da indústria discográfica e do jornalismo musical. O Boss “era o punk perfeito, um tipo das ruas com energia ilimitada, mas que não lhes ia dar uma coça”. No fundo, alguém que projectava uma imagem de rebeldia não ameaçadora. A famosa energia que nunca seria canalizada para a rebelião. A indústria precisava de algo real e vital. E quando a indústria precisa de algo real, inventa algo que pareça real.

Um rapaz como os outros, interessado em raparigas e carros, em carros e nas noites, como se estivesse a viver dentro de "They Live By Night", em fuga no carro, pela noite fora. Banalidades, talvez, mas que de tão repetidas adquiriam uma aura mitológica. Sprinsgteen – criador de universos.

Lombardi ia mais longe. Para ele, Springsteen era também ele autor desta personagem e não apenas um títere nas mãos dos capitães da indústria. A obra de Sprinsgteen ganhara consciência e o que ele antes fazia de forma inconsciente – cantar as histórias das pessoas banais – passou a ser um programa, quase uma ideologia, tomar o pulso à América para lhe prescrever a música adequada. Lombardi acusava-o de “populismo musical”, de encenar uma fúria para consumo das massas, uma fúria completamente segura e que não era mais do que uma apologia do conformismo disfarçada com a maquilhagem da “energia”, o equivalente musical à programação do prime-time televisivo que mesmo quando agitava um pouco era apenas para que o seu efeito tranquilizador fosse mais sentido. O crítico acrescentava que a reacção do público de Springsteen era totalmente acrítica. Aqui revelava o seu desprezo pela misteriosa (ou nem tanto) simbiose entre o músico e o seu público.

Ao longo dos anos, Springsteen saltou do nicho liceal e da moderada angústia adolescente para a linguagem da América média, de idade e de classe. Foi uma transição suave da cultura juvenil para a cultura de massas porque os seus fãs o acompanharam nessa passagem. Lombardi citava desdenhosamente um desses fãs num concerto: “o Bruce tem sucesso, está limpo, é um daqueles tipos com quem vemos a bola. É um de nós que triunfou. É como se o conhecesse. Se tudo isto faz parte do espectáculo, então ele é o maior actor do mundo”.

[Springsteen no Saturday Night Live, no final do ano passado]

Quem sabe? Numa entrevista dos anos 90, Springsteen admitia que a relação com os seus admiradores era a mais importante da sua vida, logo depois da família. Tentar aferir o grau de sinceridade de um artista, alguém que ganha a vida a actuar, é arriscado. O certo é que Springsteen – o anti-camaleão – encarnou ao longo de toda a carreira o homem comum, James Stewart, average Joe, solidamente americano, Joe, o canalizador, a tocar com os amigos num bar sujo depois de um dia de trabalho. A meio da vida aconteceram-lhe coisas que não acontecem ao homem comum: facturar milhões de dólares, casar com uma modelo. Os fãs, esses, nunca se sentiram enganados. Os concertos são como aqueles momentos em que a grande estrela do futebol regressa ao bairro onde cresceu para visitar os amigos de infância. Springsteen, o Boss, é o tipo que não mudou, que não desperdiçou o talento, fiável como um carro americano, americano como a tarte de maçã, naquele estilo “terra a terra”, operário, metalúrgico, estivador, veterano de guerra, a cantar o sonho americano como um sonho de gloriosa normalidade, onde os homens podem não voar, mas nunca falham.

Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor e autor do romance As Primeiras Coisas, vencedor do prémio José Saramago em 2015

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