A menos de um mês dos Jogos de Tóquio, Carlos Lopes, o primeiro campeão olímpico português em 1984, foi o convidado do programa Nem Tudo o Que Vai à Bola é Rede especial que assinalou o segundo aniversário da Rádio Observador. Numa corrida contra o tempo, a que continua habituado – mantém-se em forma e desportivamente ativo aos 74 anos sem abdicar dos petiscos que tanto gosta –, o responsável pela madrugada em que Portugal se manteve bem desperto lembrou os bons momentos da sua carreira, o reconhecimento que mereceu nos EUA (e nem tanto) por cá e antecipou as medalhas que podemos trazer no Japão.
[Ouça aqui o Nem tudo o que vai à rede é bola da Rádio Observador]
Mas, sobretudo, Carlos Lopes contou a técnica que usou para ganhar em Los Angeles. Não, não comeu feijoada na véspera da prova, como muita vez se ouve dizer, isso é mito. À mesa, quer no dia anterior à prova, quer no da competição, teve bife com batatas fritas. Mas o importante mesmo foi ter tudo preparado ao milímetro, desde o tempo que tinha de fazer a cada quilómetro ao estudo dos adversários. Que adversários? O maior deles foi sempre o cronómetro. Foi esse que teve sempre na mira como grande inimigo. E foi a esse que ganhou.
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
O que é que faz de um atleta um campeão? O que é que torna um miúdo franzino de Viseu, que até começou a jogar futebol, num dos melhores atletas de sempre?
Muita coisa! Mesmo agora, com 74 anos, estou sempre ativo, o que é importante e só demonstra que o desporto dá saúde, nem sempre, mas dá. O mais importante é que é um prazer continuar vivinho da Silva, como se costuma dizer, e acima de tudo, não viver de memórias, viver do presente. É assim que vejo a minha vida e que me revejo: estar sempre focado naquilo que é a essência da vida.
O Carlos chegou a Lisboa no final dos anos 60, às vezes com saudades da família e da vida em Vildemoinhos. Foi serralheiro, fez o serviço militar e depois chegou a contínuo no Diário Popular. Como é que foi treinar nesses tempos e qual foi a importância daquele ano de 1970 quando foi campeão de corta-mato de bateu vários recordes?
A importância foi… Sempre muito feliz, porque fazia aquilo que gostava. Quando vim para Lisboa, vim com uma ideia muito focada: não voltar à minha terra como um falhado, e a fazer o que gostava de fazer. Embora o atletismo não fosse a modalidade de que mais gostasse, gostava mais de futebol em miúdo…
Tinha dado jeito também…
É verdade (risos). Tive a sorte de escolher um clube, o Sporting, o meu clube, que tinha os melhores atletas e o melhor treinador. Quando se junta os melhores temos tendência para melhorar e nunca piorar, ainda que nem todos se tenham adaptado. Eu consegui, acho que foi extremamente importante, aprendi imenso e depois foi explorar as minhas capacidades e o meu sentido prático de fazer as coisas. Deu o que deu e estou orgulhoso por aquilo que fiz. É um legado muito forte para todos os jovens deste país, mas também poderá ser de uma forma de se reverem: se eu fiz, eles também poderão fazer – penso que é extremamente importante passar esta mensagem. Antes de 1974 era muito difícil fazer desporto em Portugal, ninguém acreditava, ninguém ajudava, só o amor à causa é que nos levava a fazer coisas e transportar essas coisas para outros níveis. Entretanto deu-se o 25 de Abril e tudo se foi compondo, não foi um mar de rosas, teve alguns espinhos pelo caminho, mas tudo mudou e isso ajudou a desenvolver todo o desporto, todas as nossas capacidades, os talentos dos portugueses. Ainda bem que isso aconteceu, acima de tudo valeu a pena sacrificar-nos e ter por objetivo ser diferente dos outros e fazer melhor.
Ainda antes da revolução de 74 e de haver uma mudança do paradigma e na maneira como se olhava para o desporto, teve a sua primeira experiência nos Jogos Olímpicos, e logo marcada pelo ataque do grupo palestiniano Setembro Negro à delegação de Israel. Sendo os seus primeiros Jogos, qual foi a perceção dos atletas pelo que tinha acontecido? Na altura não havia internet, não havia telemóveis, as comunicações eram diferentes. Os atletas perceberam logo o que se tinha passado? Afetou a realização do resto das provas?
Aliviei-me de toda essa envolvência, não era uma guerra minha. Tivemos esse conhecimento, mas nós estávamos ali noutra missão. A minha era aprender para o futuro. Esses Jogos ensinaram-me imenso e passava mais tempo nos centros de treino e na pista do que propriamente na Aldeia Olímpica, porque queria ter conhecimento, queria aprender imenso e foi realmente um abrir de novos horizontes para aquilo que pretendia. Nós sentimos, ficámos um pouco aflitos, mas também, de certa forma, à margem dessa realidade. Estávamos ali para o nosso compromisso e tentámos fazer o melhor possível. Eu corri três provas – 3.000 obstáculos, 5.000 e 10.000 metros – mas não passei das eliminatórias, fiquei no nono lugar. Na prova dos 5.000 tive um azar tremendo, porque me entraram coisas no sapato. Tive de perder logo 200 metros, fiquei à margem e sem hipótese para ir à final. Mas são contingentes da vida, a vida é isso, o desporto é isso mesmo. Com o azar de uns tornam-se campeões outros e com habilidade a gente vai levando a água ao nosso moinho.
Foi a seguir a essa participação também que, como estava a dizer, o professor Mário Moniz Pereira deu um murro na mesa ao dizer que Portugal tinha atletas tão bons como os outros, não podiam continuar a ter a preparação que tinham, era preciso o salto para uma espécie de semi profissionalismo. Depois acabou por ser campeão mundial de corta-mato e em 1976 chegou à medalha de prata nos Jogos.
Moniz Pereira sabia das nossas capacidades, das nossas potencialidades, não era com um treino de 40 a 50 minutos que se podiam ganhar medalhas olímpicas, estava demonstrado. Ele tinha 5 a 6 atletas do melhor, não era por acaso que andávamos igualmente nos melhores meetings do momento e tinha a perceção de que com um bocadinho mais de paciência, treino, um pouco mais de consciência daquilo que éramos capazes de fazer, as coisas melhoravam imenso. Tive a felicidade de logo em março ser campeão do mundo e isso fez acreditar-me ainda mais. Quando cheguei aos Jogos [1976] só perdi porque fui enganado. E fui muito bem enganado. Mas essa derrota também me deu a certeza que tinha capacidade para fazer melhor. Infelizmente, não estive nos Jogos de 1980 devido a uma lesão nos tendões de Aquiles, porque senão aí tinha ganho outra medalha, possivelmente de ouro, e hoje ainda era mais feliz do que aquilo que sou. Não aconteceu, são os tais azares que nós temos de saber gerir muito bem, embora a sofrer, mas temos de saber gerir. Foram momentos em que o próprio Moniz Pereira teve a coragem e a determinação de se saber impor e os nossos políticos de então lá conseguiram abrir um bocadinho a pestana e nos deram as possibilidades certas, também com a consciência de que se falhássemos se calhar hoje o atletismo não era o mesmo.
O Carlos tinha uma frase: “Ser bom observador numa corrida era meio caminho andado para chegar a vitória”. Em 1976, os ingleses e os belgas andaram a fazer o jogo entre eles e teve de ir para frente da corrida logo na oitava volta. Quando diz que foi enganado foi porque teve de ir demasiado cedo para a frente e depois Lasse Viren aproveitou no final ou acha que a estratégia do Viren era mesmo aquela?
Quero dizer que a estratégia tem de ser montada dessa forma, embora tivesse já conhecimento dela, porque em 1972 o Lasse Viren fez precisamente a mesma coisa. Tive um azar tremendo foi com o facto de tanto os belgas como os ingleses, que tinham três atletas na competição, ninguém querer puxar a corrida e puxar aquilo para um nível elevado. Tive de assumir eu o papel de ir para a frente e gerir a corrida de forma a, no mínimo, ser segundo. Sabia que os últimos 51 segundos na última volta tinha muito poucas hipóteses. Quando aquilo aconteceu, para mim já não era novo. Essa coisa de observação é porque quatros anos antes percebi o que podia acontecer nos anos seguintes. Mas pronto, vale o que vale.
O Viren foi o seu grande adversário de carreira?
Não. Sempre disse e continuo a afirmar: os meus adversários não eram os atletas, era o cronómetro, que manda o destino das vitórias. Antes da maratona, o meu principal adversário eram os 42.195 metros, o cronómetro é que comanda o destino de todos nós. Se estivermos preparados, e nos Jogos Olímpicos só se vai para ganhar, não se vai para bater recordes. Pode acontecer, mas os Jogos são um mundo à parte, uma prova à parte, distinta de todas as outras, porque ou se está preparado para ganhar, ou então, Deus nos acuda porque não temos hipóteses nenhuma. Portanto, nestas alturas, nós temos de valer o dobro o normal.
O Carlos teve algumas lesões. Foi inclusive aconselhado pelo mestre Kobayashi a fazer acupuntura e teve algum sucesso com esse trabalho. Mas quando estava a preparar a maratona de 1984 foi atropelado perto do Estádio da Luz. Achou que era ali que tinha acabado tudo ou olhou para a perna que tinha esfolado e continuou a treinar?
Um tipo quando vai no ar não se lembra de coisa nenhuma, quando se lembra já está no chão, todo esfolado, todo feito num oito. Quando me levantei, estava tudo no sítio, nada partido, e disse só: “Ainda não é desta que se safam de mim”. Foi doloroso, ainda fui para o hospital para fazer tratamento, mas passado 10 dias estava tudo tranquilo, estava tudo bem, aliás, só estive dois dias parado, comecei logo a treinar, estava realmente tudo em ferida, mas fui aliviando a carga. Aquilo não estava no programa, nem no plano estava ser atropelado pelo candidato a presidente do Sporting. Aí o Lobato Faria não esteve bem, ou então não gostava de mim [risos]…
Uma coisa que se diz há muitos anos, uma história que não se sabe se é verdadeira ou não: confirma que lhe pagaram uma feijoada uma noite antes de ganhar a medalha de ouro em Los Angeles?
Sempre gostei de tudo, desde feijoada a bacalhau com grão. Mas acham que eu era louco? Isso são coisas que as pessoas têm de ter consciência: há momentos em que temos o prazer de comer tudo e mais alguma coisa, mas também temos de ter consciência de que antes de uma competição dessas isso não nos leva a lado nenhum. Isso nem de longe nem de perto é verdade.
Já agora, lembra-se do que é que comeu antes de conquistar a medalha de ouro ou não?
Aquilo que mais gostava: um bom bife com batatas fritas. E no dia da competição foi igual.
Mas há uma coisa que é verdade: o Carlos foi o primeiro campeão olímpico numa prova com condições duríssimas — estava um calor terrível — e com grandes adversários, que se sabe que antes da competição tinha a pulsação a 45. Havia alguma que o deixasse nervoso, há alguma coisa que o ponha nervoso, ou é impossível pô-lo nervoso?
É impossível.
Como é que isso faz?
Em competições desta natureza, uma pessoa tem de ir o mais relaxada possível. Quando se fez bem o trabalho de casa, quando se tem a consciência do seu valor, quando se tem o conhecimento de todos os adversários, só tem de se estar preparado para o momento. Era aquilo que eu fazia. Preparava-me muito bem, tinha conhecimento de toda a gente. Fiz os treinos adequados, com a velocidade adequada, com o sentimento de trabalhar na perfeição. Estudei e sabia que os últimos 15 minutos ou os últimos 5.000 metros normalmente eram feitos em 15 minutos. E passei a fazê-los em 14.30.
Estava tudo preparadinho…
E também sabia que nos últimos cinco quilómetros era eu quem tinha de decidir e foi aquilo que fiz. Portanto, nada nasceu por acaso, nada aconteceu por acaso. Tive foi tudo estudado ao milímetro. E mais: o meu peso era 54 kg, e na altura tinha 53, perdi menos um quilo, mas não perdi forças nem energias.
Mesmo com o bife e com as batatas fritas…
Mesmo com isso tudo…
Já passámos pelas iguarias todas. Convém sempre recordar o churrasco de boi prometido por Mário Soares. A seguir a essa conquista da medalha de ouro que já ganha com 37 anos…
…e meio…
… com 37 e meio, toda a razão. Foi convidado para ir à Casa Branca pelo presidente da altura, Ronald Reagan, e entrou num episódio dos Simpsons. Os americanos agarraram na história de Carlos Lopes para mostrarem que com 37 anos e meio é sempre possível ir mais longe. Acha que cá em Portugal teve esse mesmo grau de reconhecimento?
Em relação aos portugueses, acho que sim. Ainda hoje se lembram de mim, quando me veem agradecem. Agora acho que podia ser mais elevado por parte de quem manda no país. Ainda agora se passa: hoje fazemos coisas maravilhosas e amanhã esquece-se. No futebol, na Seleção: foram campeões da Europa e hoje já toda a gente coloca em causa tudo o que foi feito. Portanto, nós sabemos o país em que vivemos, tenho essa consciência e não levo a mal, é como disse inicialmente: o mundo é sempre para frente e nunca para trás. Portanto, mesmo a lutar – e sou um lutador por natureza – , vamos caminhar, não me quero rever naquilo que poderia ter acontecido, ou no reconhecimento que devia ter ou não ter. Vou tendo, e agradeço às pessoas que realmente me vão dando esse reconhecimento.
Para fechar: os Jogos Olímpicos de Tóquio vão realizar-se num contexto muito diferente, foram adiados do ano passado para este, a pandemia continua a marcar o nosso dia a dia e a preparação dos atletas. Olhando para os portugueses, que expectativas tem? E no caso específico do atletismo?
Penso que há boas perspetivas de medalhas. Temos aí pelo menos dois grandes atletas que deverão trazer medalhas, que é o Auriol [Dongmo] e o [Pedro] Pichardo. Estes dois são uma aposta quase certa, apesar de percebermos, já o disse, que é uma prova muito específica, muito especial. Ou se vai para ganhar e trabalha-se para isso, ou se se descuidam um bocadinho, não trazem coisa nenhuma. Este é um facto e não vale pena estar a falar o contrário. O foco dos países é os três primeiros lugares, mas o primeiro é o primeiro e os outros são os segundos do primeiro…