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Caro Claire Burke, “Yesteryear” e as "tradwives": história de um livro-fenómeno

Mulheres que abdicam da carreira para serem subservientes aos maridos: foi esta tendência que deu a ideia a Caro Claire Burke. As editoras queriam-no, fez-se bestseller e está publicado em Portugal.

Em 2024, Caro Claire Burke ainda só tinha escrito a primeira versão de Yesteryear, mas a apresentação às editoras foi de tal forma convincente que houve 15 candidatas a lutarem pelo livro. Os direitos ficaram nas mãos da Knopf, nos EUA, e a autora acabaria por ter mais dois anos para aperfeiçoar aquele que é o seu romance de estreia.

No mercado norte-americano, a obra foi publicada em abril de 2026. No mês seguinte, foi lançado em Portugal, pela Porto Editora. Mais de dois meses depois, continua a ocupar o primeiro lugar de conceituadas listas de bestsellers, como a do jornal The New York Times.

Teve a sorte — e o engenho— de ser publicado nos EUA num momento em que certos debates se multiplicam. Fala de mulheres “tradicionais”, subserviência, poder, religião e política e mantém atual a discussão “vida real VS. vida nas redes sociais”; é uma sátira social, mas também é um thriller psicológico.

Não tem sido consensual nas análises dos críticos, nem nas opiniões dos leitores — mas talvez seja por isso que toda a gente continua a falar dele. Tentemos perceber melhor este fenómeno chamado Yesteryear.

Qual é a história?

Natalie Heller Mills vive uma vida tradicional (é uma tradwife) numa quinta com vacas e galinhas; onde se faz pão de massa mãe e manteiga; onde há um marido que parece um cowboy moderno, uma fé que comanda os valores e seis filhos que crescem alheios às tecnologias que dominam o mundo. Todo este cenário perfeito alimenta um império que nasceu nas redes sociais — e que tem mais de oito milhões de seguidores — e já se expandiu para merchandise e a ideia de uma vida idílica.

Nos bastidores há amas, produtoras, pesticidas que envenenam as alegadas produções biológicas, frigoríficos e fornos de última geração, mas isso ninguém precisa de saber. Além de tudo isto, Natalie não gosta assim tanto do marido (que considera pouco inteligente e pouco ambicioso) e há um escândalo prestes a rebentar que pode fazer desmoronar tudo o que criou.

O twist que deixa os leitores agarrados

Um dia, Natalie acorda numa cama que não é a dela, numa casa que não reconhece, com filhos que não se parecem com os seus e numa época bem diferente: 1855. Sim, sempre elogiou as proezas dos pioneiros, mas será capaz de viver como eles (sem eletricidade, medicina, direitos)? Como é que isto aconteceu? Esta é a pergunta que alimenta grande parte do livro e que mantém os leitores colados às páginas, somando teorias variadas. Existe ainda uma segunda reviravolta mais para o final das mais de 400 páginas, mas esse não pode ser revelado sob pena de estragar toda a experiência.

▲ Título: "Yesteryear" | Autora: Caro Claire Burke | Editora: Porto Editora | Páginas: 436

O que é uma tradwife?

“O que é uma tradwife?”, pergunta a dada altura a filha mais velha da protagonista. Foi o termo que inspirou a criação de Natalie e é a abreviação de “tradicional wife (esposa tradicional)”. São mulheres que abdicam de uma carreira para terem um papel feminino ao estilo dos anos 50. Dedicam-se inteiramente a tarefas domésticas, cozinham tudo do zero, ficam em casa a tratar dos filhos, sendo o marido o ganha pão e o decisor. Muitas são agora criadoras de conteúdo digital, embora ironicamente tenham renunciado à vida moderna.

As protagonistas não precisam de ser boazinhas

Apesar de ser essa a imagem que Natalie quer passar (boa mãe, esposa dedicada, católica ferrenha), ela é o oposto: manipuladora, mesquinha, egoísta e obcecada com a imagem pública. Ainda assim, há momentos em que o leitor é levado a sentir alguma empatia e isso torna a personagem complexa na mesma medida em que é fascinante.

A manosfera também lá está

Embora não seja o tema principal, está presente em vários pontos da narrativa. Natalie promove nas redes sociais a imagem de uma esposa submissa, precisamente uma das ideias defendidas no universo da manosfera, comunidades de homens que se manifestam sobretudo digitalmente sobre masculinidade, poder e política de género. As mulheres não precisam de ter carreira ou sequer uma vida fora de casa, o seu único foco deve ser a vida doméstica, a educação dos filhos e, claro, a obrigação de manter sempre o marido feliz.

O tema da política fica aquém das expectativas

A família de Caleb, o marido de Natalie, é uma espécie de versão low cost dos Kennedy. A política corre-lhes nas veias há várias gerações, fazem parte da discussão, mas nunca saem da segunda divisão. Porém, têm dinheiro, influência e são capazes de colocar em cargos importantes até aquele que parece ser o homem mais inútil do planeta — sem grandes spoilers, estamos a falar de Caleb. A premissa é boa, mas acaba por nunca atingir o potencial que apresenta, sendo esse um dos grandes defeitos apontados à obra.

O que significa “yesteryear”?

A palavra significa “no passado” ou “nos tempos do passado” e foi o pontapé de saída para o livro. Foi a primeira ideia a surgir à autora, já que é uma expressão que usa de vez em quando e, segundo aprópria, também a remete para um mundo de fantasia, ao estilo de Westworld — uma espécie de parque de diversões onde nem tudo é assim tão divertido.

O mais vendido há meses

Nos EUA, o livro foi publicado em abril deste ano e antes disso já fazia parte das listas dos livros mais aguardados de 2026. Foi destacado pelo Good Morning America Book Club, de enorme popularidade nos EUA, e é bestseller de publicações como The Cut ou Los Angeles Times. Continua em primeiro lugar do top de ficção em capa dura do The New York Times (dados atualizados de 5 de julho, está há 11 semanas na lista) e o mesmo acontece na lista da Publishers Weekly. Na Apple Books lidera os tops digitais e de audiolivros.

▲ Caro Claire Burke tem protagonizado uma "book tour" americana digna de uma rockstar e o livro conquista listas e formatos diferentes

O que dizem os críticos?

As vendas são consistentes, mas as críticas dividem-se — o que talvez ajude a impulsionar o sucesso em banca. Yesteryear é descrito como sendo uma crítica social mordaz e cativante, mas há quem diga também que está mal documentado e que o final tem pouca concretização e passa a ser, em vez disso, um drama psicológico com pouco tato. Há um plot twist mesmo no final que justifica os acontecimentos, mas que está a ser fortemente criticado como sendo de mau gosto.

“Para um livro tão promissor, Yesteryear é uma verdadeira lição sobre como não deixar que uma premissa divertida se sobreponha a uma boa história”, escreve o The Guardian ao detalhar aquelas que considera serem as maiores falhas do livro.

A revista The New Yorker diz que Natalie é “uma figura simbólica, não uma pessoa” e que o livro simplifica demasiado “temas políticos complexos para agradar a um público liberal ansioso por ver um inimigo político falhar”.

A pender para o outro lado da balança está o The New York Times que define a obra como “um thriller e uma crítica mordaz à forma como as mulheres se apresentam na Internet”. “É também um livro que aborda a religião, as crenças — e as ilusões.” Para The Los Angeles Times, a obra propõe “uma versão hilariante e, por vezes, comovente da clássica história do Instagram versus realidade, e oferece um espaço para refletirmos sobre a nossa própria culpa, dentro dos limites seguros da ficção”.

E o que dizem os leitores?

Mais uma vez, os comentários não são consensuais. “A cultura tradwife cruza-se com Shutter Island, com um toque de Amy de Em Parte Incerta. […] Tóxico e hipnotizante… Vou ficar a pensar nisto durante muito tempo”, escreveu Kate Quinn no agregador Goodreads. “Fenomenal. Faz-nos Refletir. Alucinante. FASCINANTE”, considerou Sydney Books.

Na app TheStoryGraph, que reúne igualmente avaliações de leitores, a utilizadora ashcookie32 escreveu: “Cativante e misterioso, caótico e repugnante, este livro expôs em toda a sua plenitude todos os lados mais sombrios da humanidade”.

No extremo oposto há outras tantas considerações. “O exemplo de textos que procuram incitar a raiva e [têm] uma estrutura péssima”, considerou Han no site Goodreads. “Que premissa interessante, arruinada por uma projeção descontrolada de ódio e escárnio”, descreveu Victoria Kelley. Na app TheStoryGraph, a utilizadora meg_law é clara: “Recomendem apenas este livro a pessoas que queiram ver sofrer”. “Parecia uma fantasia de humilhação inspirada na Hannah/ballerina farm, sobre quem a autora costumava comentar bastante antes de apagar a sua conta no TikTok”, descreveu o utilizador suhatspunglass no Reddit.

Quem é a autora?

Este é o primeiro romance de Caro Claire Burke, mas as redes sociais são um terreno que conhece bem. No TikTok começou a publicar vídeos um pouco sobre tudo, desde temas de feminismo até ao conceito de tradwives. Além disso, é uma das condutoras do podcast Diabolic Lies (Mentiras Diabólicas), juntamente com a autora Katie Gattie Tassin, sobre cultura e política.

Relação com redes replica a vida real

Para a autora, o livro foi uma espécie de catarse por se considerar um pouco de Natalie e um pouco das “mulheres zangadas”, figuras que no livro comentam negativamente e duvidam do estilo de vida da protagonista. “A minha relação [com as redes sociais] pode ser pouco saudável — posso sentir-me fora do controlo, posso sentir-me paranoica, posso sentir-me na defensiva”, explicou em entrevista à revista Variety.

A agente disse-lhe logo no início que o livro ia ser “grande” e que iria lançar-lhe a carreira de escritora, mas Burke garantiu que estava longe de imaginar o que isso significava na prática. “Tinha mesmo esperança de que este fosse um livro que muitas pessoas lessem e que isso bastasse para eu conseguir vender outro livro — é mais ou menos essa a esperança que se tem quando se lança o primeiro livro.”

▲ Hannah Neeleman gere a página de Instagram Ballerina Farm, com mais de 10 milhões de seguidores: tem oito filhos, cria gado e mostra tudo nas redes

Há alguma história semelhante na vida real?

Não com o desfecho da história de Natalie, mas sim, existem várias, com uma delas a destacar-se largamente pelo alcance que tem. Numa das avaliações feitas ao livro no Reddit, é mencionada a conta Ballerina Farm. Na descrição da página de Instagram pode ler-se “Casada com @hogfathering. Mãe de 8 miúdos. Licenciada pela Juilliard School. De citadinos a criadores de gado. @ballerinafarmstore”.

Em tempos não muito longínquos, Hannah Neeleman publicava no seu perfil fotos nas quais envergava calças de ganga, bebia margaritas e ia à Disneyland. Agora, para alimentar os 10,4 milhões de seguidores, enverga aventais ao estilo Casa na Pradaria, apanha alfaces e vende os produtos biológicos da sua quinta. Pelo menos, é isso que mostra nas redes sociais.

Vem aí um filme, claro

A Amazon MGM Studios conseguiu os direitos da obra, com Anne Hathaway ligada ao projeto como produtora e protagonista. Depois das 15 editoras a lutarem pelos direitos editoriais, a guerra pela adaptação para cinema teve quatro participantes e ficou fechada em 2024, igualmente antes de a obra chegar às livrarias. Caro Claire Burke também já admitiu ter algumas ideias para desenvolver outras personagens, como Caleb ou Clementine, a filha mais velha do casal, o que significa que a saga Yesteryear pode estar apenas a começar.

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