Bruno Nunes, deputado e vereador do Chega que se candidata à presidência da Câmara Municipal de Loures, sonha com o poder local, acredita que o fato de presidente da Câmara lhe assentaria bem e que, nessa função, poderá fazer “mais para a vida das pessoas”. Tem Ricardo Leão — que arrastou para várias polémicas com propostas na oposição — como principal adversário e vai acusando o incumbente de populismo e eleitoralismo.
No Carpool do Observador, Bruno Nunes vai apontado problemas em praticamente todas as áreas — da segurança, à habitação, passando pela higiene urbana — e acusa até Ricardo Leão de ter feito um contrato de 100 mil euros por ano com a Associação Nacional Internacional Cigana para que esta faça mediação nas escolas do município. Pelo caminho, assegura que a posição contra os apoios à Hillsong Portugal e Comunidade Hindu se estenderia a qualquer Igreja católica, justificando o investimento aprovado para a Jornada Mundial da Juventude pela “questão territorial e não por uma questão religiosa” — uma “devolução” do espaço à população.
Após a passagem pelo bairro do Talude, onde o carro do Observador não se cruzou com qualquer política, o deputado do Chega reconhece que a remigração tem de começar a ser pensada e que é preciso perceber “quem é quem” e de que maneira entrou no país. Depois dessa consulta feita, Bruno Nunes admite que devem ser remetidos ao país de origem “todos os que estiverem ilegais, todos aqueles que entraram ilegais, todos aqueles que têm condições para cá estar”, mas também “todos aqueles que não respeitam a cultura e tradição” portuguesas.
Aproximação de Leão ao Chega é “tentativa de minimizar estragos eleitorais do PS a nível nacional”
Neste momento é deputado à Assembleia da República e vereador na Câmara Municipal de Loures, a que se volta a candidatar. Acha que o facto de presidente da autarquia lhe assenta melhor do que o de deputado?
Sinceramente, acho. A minha grande paixão na política sempre foi o poder local. Tive o desejo de ser deputado, gosto da minha profissão enquanto deputado, mas acho que podemos fazer muito mais com a política de proximidade e é muito mais palpável aquilo que é feito por um presidente de câmara. O autarca não está à espera da conta geral do Estado para analisar as taxas de execução. A sua popularidade e o seu trabalho é medida diariamente. É mais interessante ser presidente de Câmara. Podemos fazer mais para a vida das pessoas. A Assembleia da República ultimamente tornou-se um bocadinho uma peça de teatro.
Tendo em conta esse sonho, se não vencer, mais do que uma derrota política, é uma derrota pessoal?
Há quatro anos, a estratégia passava por tentarmos entrar dentro da câmara numa conjuntura que era diferente. O partido tinha dois anos, não éramos tão conhecidos no município, apesar de já fazer política no município há mais de 20 anos, mas não tínhamos a notoriedade, nem o Chega tinha a aceitação que existe hoje. Existia muito voto envergonhado no Chega, as pessoas não queriam assumir, vinham muito à boca pequena dizer ‘vou votar em si’ . Hoje, as expressões são públicas, as pessoas manifestam-se publicamente.
Foi mais fácil construir listas?
Há quatro anos já tínhamos uma estrutura aqui, o processo autárquico está tratado em Loures há mais de dois meses. Só existe uma mudança numa freguesia. De resto, mantemos praticamente todos os candidatos e toda a estrutura. Estamos satisfeitos com o trabalho que fizemos na oposição, Aliás, não tenho grandes dúvidas que o atual presidente da Câmara não negará que a única oposição que teve durante estes quatro anos de mandato foi o Chega. O PSD coligou-se com o Partido Socialista logo passado 15 dias das eleições, traindo o seu eleitorado, e a CDU é passado.
Ricardo Leão é o incumbente e tem-no acusado de ser populista, até eleitoralista em diversas situações. Há quem diga que o atual autarca se aproximou do Chega com algumas posições. Concorda que houve essa aproximação?
Conheço o Ricardo [Leão] há muitos anos e quando digo que é populista é por uma razão simples: o Ricardo [Leão] reage às sondagens, quando percebe que as sondagens estão a aproximar o [PS do] Chega, tenta tomar uma medida à Chega para tentar minimizar o impacto. Agora, uma coisa é tentar ter uma medida à Chega, outra coisa é ser Chega e o Ricardo [Leão] não é. Não deixa de ser socialista, não deixa de ser um ex-vereador de Carlos Teixeira, que é uma das fases de gestão municipal do PS mais tenebrosa que o município teve, que mais dívidas deixou, que deixou os bairros sociais com o problemas graves. E Sónia Paixão, a vice-presidente da Câmara, era a responsável da habitação também de Carlos Teixeira. Portanto, não vale a pena vir lobo com pele de cordeiro porque não lhe assenta bem.
Pelo que acaba de dizer também concorda que Ricardo Leão tomou algumas medidas “à Chega”?
Ricardo Leão tentou pegar nas nossas propostas e implementá-las. Não consegue porque obviamente não pensa como nós e não tem a nossa visão. Um socialista nunca pensará como nós pensamos e, por muito que queira implementar as medidas, não basta ler a epígrafe da proposta, tem que pensar exatamente como é que vai executar. Aquilo que aconteceu no Talude para mim foi um ato de populismo.
Já vamos passar no Talude e falar sobre isso, mas considera que Ricardo Leão está a fazer essa aproximação para ir buscar o eleitorado do Chega?
É numa tentativa de minimizar os estragos eleitorais que o partido a nível nacional tem tido. O PS tem caído, perde a sua franja e a massa crítica aqui no concelho e o Ricardo tenta estar numa lógica de catch all e tenta satisfazer todas as franjas da população.
Isso tem-lhe valido muitas críticas, dentro do próprio partido.
E mesmo na sociedade, porque as pessoas percebem que a estratégia de Ricardo Leão é essa e já só cai quem quer. As pessoas não vão cair nesta nesta conversa de ‘o Ricardo Leão de repente vem com a justiça social, de direitos para todos, direitos e deveres iguais para todos’ porque sabemos que na realidade não existe isso. Vou dar um exemplo concreto: porque é que Ricardo Leão continua a fazer protocolos de colaboração com a Associação Nacional Internacional Cigana para fazer mediação nas escolas? [Com isto] não assumindo a responsabilidade que o Estado tem na segurança do edificado e na segurança dentro das escolas, com a responsabilidade na gestão dos agrupamentos de escola e coloca uma associação, seja ela esta ou outra qualquer, para estar dentro da escola a gerir e a mediar conflitos entre crianças. Acho que os pais no concelho de Loures não têm noção disto.
Como é que isso funciona?
Sei que o Chega está muito conotado com a guerra ou a luta contra a comunidade cigana para a integração, mas aqui não tem a ver com o facto de ser cigano ou não ser cigano, tem a ver com a postura. Não me parece lógico que esteja uma associação privada dentro da escola, a receber mais de 100 mil euros por ano para que, caso as crianças tenham conflitos entre elas, exista um mediador, um adulto que não tem a ver com a comunidade escolar.
Está a falar de um contrato?
Um contrato que está registado na Base.Gov de Portugal. Foi aprovado pela CDU e pelo PSD e só o Chega se opôs a esta situação porque parece-me ridículo que os pais, a determinada altura, entendam que dentro da comunidade escolar está uma associação de âmbito privado, seja ela qual for, com os coletes amarelos refletores, a fazer mediação dos conflitos entre as crianças. Não me parece que isto seja o Estado a exercer o papel que deveria exercer. É Ricardo Leão no seu melhor.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Estamos a chegar ao novo edifício da Hillsong Portugal, que gerou muita polémica devido à atribuição que foi aprovada pela Câmara para apoio às obras neste edifício no valor de 150 mil euros. Neste momento, esse pagamento está em stand by por tudo aquilo que foi noticiado. Porque é que é contra este apoio à Hillsong Portugal?
Primeiro, a Câmara não soube explicar o que estava de facto em causa e coloca um financiamento de 150 mil euros para obras na igreja. Por princípio, considero que, sendo o Estado laico, não deve fazer qualquer apoio para obras para nenhuma igreja e, portanto, critiquei não só os 150 mil euros para Hillsong, como os 250 mil euros para a construção do Templo de Shiva em Santo António dos Cavaleiros. Estamos na freguesia de Sacavém, Prior Velho, uma freguesia que tem debilidades enormes, não temos um espaço para os mais velhos, não existem infraestruturas [para que] o Estado possa responsabilizar-se e servir a população mais idosa da freguesia…
Reagiria da mesma forma se fosse uma obra da Igreja Católica?
Da mesma forma. Considero que o Estado não deve patrocinar nenhuma igreja. Não tenho absolutamente nada contra as igrejas evangélicas, mas o Estado não tem que patrocinar este tipo de obra.
Os municípios podem dar esse apoio, desde que não seja para obras?
Não é desde que não seja para obras, é desde que seja mensurável. (…) Houve muita gente a questionar sobre a Jornada Mundial da Juventude, a Câmara também fez o investimento e as críticas não foram estas. O Chega também levantou as questões na Assembleia da República em relação à dispensa de visto prévio do Tribunal de Contas para as obras da Jornada Mundial da Juventude, mas falando o investimento financeiro é uma situação de díspar porque o território onde está agora o Parque Papa Francisco era um território com milhares de contentores marítimos e que não era devolvido à população. (…) Fizemos investimento e recuperámos um parque que será para o município, onde está proibida qualquer construção e, portanto, é uma devolução. E há o facto concreto de termos investido naquele evento pela questão territorial e não por uma questão religiosa.
Já que passámos ao Parque Papa Francisco, e esta pergunta também já foi feita a André Ventura, não considera que certas medidas do Chega são pouco católicas não só relativamente aos direitos humanos, mas também à forma de tratar os outros?
O André [Ventura] tem resolvido bem essa questão e tem explicado bem. Primeiro, não misturamos a política com religião, ao contrário de outros partidos que tantas vezes utilizaram a religião para fazer a política. Aliás, o nosso novo cardeal, e com todo o respeito que tenho pelo Bispo de Setúbal, já foi deputado municipal do Partido Socialista. Quando estamos a falar das medidas que possam ser pouco católicas, referimos-nos à questão da imigração e de querermos, nalguns processos, ponderar inclusive a remigração ou que as pessoas não estejam cá? Acho que pouco católico será manter as pessoas, como vimos [no rio Tejo] dentro da água a fazer a apanha da amêijoa e taparmos os olhos e dizer que não existe exploração humana, escravatura.
Não tapa os olhos àquilo em que acredita quando propõe certo tipo de medidas?
Não consigo identificar assim uma medida que consiga tapar os olhos. A Câmara Municipal de Loures tem tapado os olhos a esta questão da imigração. Em São João da Talha tivemos a situação de pseudo-igrejas que exploravam as pessoas e as colocavam numa condição completamente desumana, a viver e dentro de dentro de lojas; temos a exploração das casas municipais, em que a Câmara, por muito que [fale em] direitos iguais, deveres iguais, não cumpre e sabe que as casas estão a ser subarrendadas, que há pessoas a serem exploradas na habitação municipal. Estamos a chegar a uma das zonas que maior intervenção necessita no concelho, a freguesia de Camarate, Unhos e Apelação. A limpeza dos terrenos não foi feita, apesar de ser uma responsabilidade da Câmara Municipal de substituir ao privado e depois onerar o privado com as contas. O problema de habitação nesta freguesia, o desordenamento do território, o problema de segurança. Aqui entra-se numa num multiculturalismo que destruiu por completo esta zona. A pobreza extrema que existe em partes concretas desta freguesia, nomeadamente nos Fetais, a falta de higiene urbana, a falta de condições que existem aqui. Estamos no município a sete quilómetros de Lisboa e em que algumas das zonas continuam sem saneamento básico. Há zonas na freguesia de Bucelas onde não há saneamento básico. Não estamos a falar no interior recôndito, estamos a falar de Loures.
“Se fosse presidente da Câmara tinha demolido todas as casas”
Há municípios que têm apostado fortemente nas câmaras de videovigilância, tem-se falado muito também de polícia, de proximidade. Qual a proposta do Chega para controlar essa insegurança?
Este mato onde estamos a passar… rezando que não aconteça problema nenhum de incêndios no município.
Estes terrenos são privados?
Independentemente de serem privados. O sistema integrado gestão de fogos florestais ou fogos rurais é claro. Se forem privados, a responsabilidade é do privado, se o privado não atua, deve a Câmara atuar. Veja o lixo e a forma como isto está pelo concelho todo. Não há recolha de lixo e temos um problema sério na recolha do lixo.
Entretanto, estamos a chegar à Apelação, a Quinta da Fonte…
Estamos a falar num dos bairros conhecidos por ser um dos mais problemáticos a população, nomeadamente a Quinta da Fonte, notícia tantas vezes pelos piores motivos.
Ainda existe habitação ilegal?
Sim, isto que está aqui é ilegal e ninguém faz absolutamente nada aqui à volta, mas dentro do bairro durante muito tempo as pessoas o próprio senhorio era mau senhorio, ou seja, a Câmara Municipal de Loures não fazia qualquer intervenção dentro das casas e não fazia por um motivo: a CDU deixou estas habitações com 18 milhões de euros de dívida em relação à habitação para com a Câmara Municipal. Ricardo Leão e o PS diz que recuperaram e baixaram para 18% aqueles que não pagam.
O inquilino de uma casa municipal que não paga a renda deve ser expulso?
No meu entendimento, temos que ver quem não paga porque não quer e quem não paga porque não pode. Quem não paga porque não quer, deve ser despejado de imediato. Não podemos chegar a estes bairros e ver grandes carros parados ali à porta. Não posso admitir que exista alguém que não paga há 18 anos de renda e tem um Mercedes com matrícula de um mês ou dois meses à porta de casa. Também há muita gente dentro dos bairros sociais que trabalha muito, a maioria às cinco da manhã está a sair, com os autocarros cheios, para ir trabalhar e fazer a sua vida em Lisboa. Se essas pessoas quiseram fazer um acordo, que foi isso que o Ricardo [Leão] conseguiu fazer e que o Partido Socialista conseguiu fazer… O acordo de pagamento não significa que a dívida esteja paga. Portanto, é uma meia verdade, uma meia mentira, porque a dívida ainda não está consolidada para para o município. O município ainda não resolveu essa questão, continua com aproximadamente 18 milhões de dívida e o PCP deixou de facto o estado do município numa lástima.
Antes de chegar ao Talude, sobre a questão da segurança, que medidas é que devem ser tomadas?
É importante aumentar o número de efetivos da Polícia Municipal. A Polícia Municipal não tem nem o poder da PSP, como Carlos Moedas quer fazer — que quer quase fazer uma brigada de intervenção e ou um departamento de investigação criminal —, mas também não tem as limitações que em Loures lhe aplicam, que a tornam quase uma polícia meramente administrativa. De acordo com a lei, existem competências para a Polícia Municipal que o município podia adotar e trabalhar melhor.
Mas a autarquia tem culpa de haver um efetivo curto em Loures?
Claro que tem e tem, essencialmente, uma falta de visão. Para termos videovigilância precisamos de fazer as candidaturas, o processo é moroso, acho que a lei deve ser simplificada e que não deveríamos ter uma dificuldade tão extrema, porque nos casos práticos há bons resultados, como aconteceu na Amadora. Pelo menos são medidas dissuasoras do crime e principalmente numas zonas de excesso de entradas e saídas dos bairros deveriam estar monitorizadas pela polícia. Depois, o caso da Polícia Municipal: formar um agente da polícia municipal demora muito tempo. Era importante que existisse uma simplificação dos processos, por exemplo, para fazer a internalização de carreiras.
Faz sentido Loures tentar algo idêntico ao que Carlos Moedas prometeu, haver um acordo específico com o Governo para a segurança?
Faz sentido introduzir em todos os concelhos. Temos fiscais na Loures Parque, que é uma empresa que considero que deve ser extinta porque a única coisa que faz é uma caça à multa diária… Deve existir estacionamento regulado, mas os fiscais devem ser transferidos para a Polícia Municipal, aumentando o número de efetivos. Porque mesmo com uma atuação reduzida e com pouca capacidade de atuação no terreno, o facto de passarem carros da Polícia Municipal, de estarem presentes agentes, transmite um sentimento de segurança e as pessoas sentem alguma segurança, para além da possibilidade que existe de eles ocuparem determinadas funções que podem ser desenvolvidas pela Polícia Municipal e libertar desta forma a PSP no município.
A Câmara Municipal foi alvo de muitas críticas durante o processo de demolição das habitações ilegais, também o Chega apontou o dedo a Ricardo Leão. Se fosse presidente da Câmara tinha deixado aquelas casas de pé?
Se fosse presidente da câmara tinha demolido todas as casas. Além desta questão do bairro do Talude, estas casas que estão aqui, estas que são de alvenaria, são legais ou legais? Nestas alguém colocou as famílias fora daqui? Fomos ali porque era fácil e mediático. No entanto, se fosse o presidente de Câmara demolia-as a todas. Há questões que mudaria o meu comportamento, tomar atitudes à Chega não é ser Chega e não sabem o que estão a fazer. Este bairro não existe há cinco anos nem há dez anos, há aqui um problema constante.
O timing foi eleitoralista?
Nem tanto. Nem é a questão do timing, tinha que ser feito algures. Se não fosse o timing agora, era porque era no início do mandato e estava cheio de força, mas depois não ia fazer tudo, se fosse a meio do mandato era porque já se estava a preparar para as eleições. O timing é o timing, não vou por aí. A minha questão é mais do que isso: quero acreditar que 99% da população quer que estas barracas vão abaixo porque isto não tem condições humanas, porque não tem condições de dignidade. Sou favorável é que as coisas vão abaixo…
Vimos algumas pessoas, durante o caminho até aqui, a fazer o percurso a pé, um percurso numa estrada que não está alcatroada. Estas pessoas não têm transporte aqui?
Não, porque supostamente isto nem sequer está na rota de nada. Cerca de 30% deste terreno pertence ao Estado Central, é o talude militar. Nuno Melo devia explicar, assim como todos os ministros da Defesa até hoje, deviam explicar porque é que o terreno foi ocupado e o Ministério da Defesa nunca fez absolutamente nada. O que eu acho que devia ter sido feito que não existiu, e por isso é que eu considero que foi populismo… há três entidades que deviam ter sido chamadas ao local, à Segurança Social, para garantir que todos aqueles que estão aqui legais e que trabalham tenham o acompanhamento feito pela Segurança Social e que o Estado olhe para aquilo que pode fazer; a AIMA para todas as situações de ilegais que estão aqui, que estão a ser explorados, a quem compraram barracas, a quem venderam barracas e que viveram nestas condições; e uma entidade que não foi chamada, que choca toda a gente, independentemente de ser do Chega, do PS, do PCP. Onde é que estava a CPCJ? Como é que assistimos a imagens de crianças a serem retiradas à força dentro das casas, a chorar, aos gritos, com o dramatismo… Mas a televisão dramatizou? É óbvio, a imprensa vai tentar explorar aquilo que pode transmitir melhor o cheiro e a imagem do que estamos a assistir aqui.
A Câmara Municipal continua a dizer que fez tudo o que era possível e que deu soluções às pessoas.
Enquanto vereador na Câmara Municipal, pedi que me mostrassem a notificação que foi feita à CPCJ. Foi acionada a CPCJ: sim ou não?
Não teve resposta?
Não tive resposta porque não há resposta, porque não foi acionada. Há aqui casas de alvenaria, porque é que não são deitadas abaixo? Foi ou não foi populismo?
A população de Loures pode esperar que, se for eleito presidente da Câmara, tudo isto que estamos a ver vai desaparecer?
Vai desaparecer.
E o que é que acontece a essas pessoas?
Vamos ter que ver quem é quem. Aqueles que passámos na Quinta da Fonte, que têm os Mercedes parados à porta, que não merecem ter a casa e que mesmo assim não a pagam, ou que estão com as casas a ser utilizadas por turismo porque vivem fora de Portugal e arrendam para turismo.
Mas as casas têm condições para ser arrendadas?
Estão como segundas habitações, a subarrendar chaves para que pessoas que não conseguem entrar no mercado da habitação possam lá estar dentro. Há aqui situações precárias de gente que trabalha, que desconta, que está legal. Existem aqui portugueses, não são só imigrantes que estão no bairro do Talude. Não podemos é tomar as medidas e deitar tudo abaixo e agora vamos dar dinheiro para a primeira renda e para a primeira caução… isso é apoio e auxílio à imigração ilegal, se as pessoas estiverem ilegais. Por alma de quem é que estamos a dar dinheiro?
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Durante este mandato, Ricardo Leão teve uma afirmação muito polémica, por acaso à boleia de uma proposta do Chega, no seguimento do caso de Odair Moniz, em que disse que as pessoas que tivessem cometido aqueles crimes deviam ser despejadas sem dó nem piedade. Considera mesmo que quem comete um crime deve ficar sem uma casa municipal?
A tipificação dos crimes em Portugal é muito abrangente. Aquilo que estava a ser discutido naquela altura era o pedido do Chega, proposta nossa para a alteração do regulamento municipal. O Partido Socialista, nomeadamente Alexandra Leitão, começou a dizer que isto eram apenas acessórias, não eram penas acessórias nenhumas e a proposta juridicamente estava fundamentada. Dizem que viola os direitos constitucionais do princípio da habitação, que é uma questão que continuamos com essa retórica desde 1976, a dizer que o direito à habitação está consagrado na Constituição… Está, de facto, mas é um direito constitucional programático, significa que a Constituição não diz em momento nenhum que o Estado tem de dar uma casa [a toda a gente].
Numa revisão constitucional feita pelo Chega, esse artigo desapareceria?
Não, não desapareceria. O artigo é bem claro, a esquerda é que tem tentado manipular, e não diz em momento algum que o Estado tem que dar uma casa às pessoas. O artigo diz que o Estado deve desempenhar e desenvolver políticas para que todas as pessoas que habitam no território nacional tenham direito a uma habitação condigna em segurança e higiene. Não diz, em momento algum, que o Estado tem de dar uma casa, porque o Estado não é pai nem mãe de ninguém.
Considera que uma pessoa que comete um crime deve ficar sem essa casa?
Não, depende do que estamos a falar. Quando estamos a falar contra o bem público, em tentativas de homicídio, que foi o que aconteceu com o Tiago Cacais, o jovem que estava única e exclusivamente a voltar a casa do seu trabalho e que é atacado brutalmente e que todos no município e nas reuniões de Câmara, exceto o Partido Comunista Português, considerámos que aquilo tinha sido claramente uma tentativa de homicídio.
Está a falar do motorista da Carris.
Sim e, na sequência disso, apresentámos uma medida em que aquele tipo de crime contra o património público, contra a sociedade. Nós, enquanto sociedade, enquanto humanidade, abdicamos dos nossos princípios da liberdade em prol de um contrato social que, à partida, nos limita em algumas coisas, mas que nos garante outras e, portanto, a segurança tem de ser uma delas.
Já percebi que há crimes em que concorda que as pessoas devem ficar sem casa. Em que situação é que ficam as famílias de quem comete esse crime?
Só para enquadrar: o Ricardo Leão [diz] ‘aqueles que fizeram o ataque ao Tiago Cacais…’ e isto parece que estou a defender o Ricardo, mas é para para enquadrar, porque tentou-se criar…
E está. Concordou com ele.
Não, ele concordou comigo. Entretanto, obviamente, o PS foi frouxo no município e voltou atrás. Dado ao mediatismo e ao impacto que isto ganhou. Se fossemos nós, não teríamos voltado atrás — isto é a diferença entre ser Chega e ser Partido Socialista. O socialista gritou porque percebeu que isto eventualmente era o que a população queria e a partir do momento em que percebeu [que estava a ser] crucificado na televisão [resolveu] voltar para trás.
Ainda não explicou em que situação é que fica essa família.
As famílias não podem ser penalizadas em momento nenhum.
Mas se o titular de contrato fica sem esse contrato…
As outras pessoas do agregado familiar estão dentro da casa. Há uns anos atrás existia uma coisa que eram os desdobramentos dos contratos, hoje em dia isso acabou, [que] era nem mais nem menos do que pai e mãe que entretanto constituíram família e tinham filhos e, aos 18 anos, os jovens tinham direito, também eles a ter uma casa da câmara. Sou contra os desdobramentos, mas acho que existem formas de regular através do Regulamento Municipal de Habitação. Existem formas de controlar.
Outra pessoa daquela podia ficar com outro contrato naquela casa.
Claro que sim.
“Nunca na vida farei qualquer coligação ou acordo de governação com o PS”
Ainda sobre imigração. Numa outra proposta polémica, disse, no seguimento das demolições no bairro do Talude, que os imigrantes que querem regressar a casa devem receber um bilhete de avião pago pela autarquia.
Vou tentar exemplificar para que não digam que isto é xenofobia ou racismo: imagine que é minha prima e decidiu ir viver para Inglaterra, cheia de esperança e vontade de construir uma nova família, uma nova vida. Se ao final de uns meses não consegue arranjar casa, arranjar trabalho e sei que está a viver no bairro do Talude, em Cambridge, eu, enquanto familiar, vou tentar pagar-lhe o bilhete de avião para voltar para cá.
Num cenário mais alargado, concorda que Portugal deve ponderar a remigração de migrantes?
Acho que estamos a chegar a uma situação em que é tempo…
Em que contextos e de que forma?
Antes de chegarmos à remigração devíamos ter uma medida preventiva. Devíamos estar mais preocupados no processo quando eles entraram do que agora, porque temos um problema estrutural complexo, um problema social complicado.
Mas agora que esse problema, como lhe chama, existe, como é que se resolve?
Vamos ter que perceber quem é quem, quem entrou com documentos ilegais, quem entrou através de redes ilegais, quem não tem condições para cá estar, quem não está a trabalhar.
No fim de percebermos. Quais é que devem ser remigrados?
Todos os que estiverem ilegais, todos aqueles que entraram ilegais, todos aqueles que têm condições para cá estar. E todos aqueles que não respeitam a nossa cultura, a nossa tradição, as nossas mulheres, os nossos princípios, devem sair muito bem. Em Roma, sê romano.
Estamos a passar o Pavilhão Paz e Amizade, onde fez questão de vir. Porquê?
Há muita gente que diz que o Chega chegou agora ao concelho e acha que vai poder opinar. O Chega pode, de facto, ter chegado aqui há seis anos, sendo que o André [Ventura] já cá tinha estado em 2017…
Como vereador, numa coligação encabeçada pelo PSD.
Como eu fui eleito também. Este pavilhão foi inaugurado na década de 90 e, na altura, jogava hóquei patins num clube do concelho e fiz a inauguração deste pavilhão.
Quis provar que não é um paraquedista político.
Não, não sou paraquedista político e estou aqui há muito tempo. Faço política neste concelho há quase 30 anos. Mas, mais do que isso, era importante também pensar que, na altura em que o Paz e Amizade foi construído, era um símbolo de um projeto que existia aqui no município, que eram os Jogos da Paz, que gostava de recuperar.
No dia seguinte às eleições nas Câmaras Municipais, muitas vezes as negociações são mais sobre medidas do que propriamente sobre partidos. Se Ricardo Leão vencer sem maioria absoluta, pode assegurar que não aceita um convite para ser seu vereador com pelouro?
Ele pode-me convidar para o que o quiser, eu aceitar é que obviamente é diferente. Nunca na vida farei qualquer coligação ou acordo de governação com o Partido Socialista, nunca na vida farei com o PCP e o PSD no município tem uma expressividade muito reduzida para ser contabilizado para o que quer que seja.
Isso significa que também não está disposto a sentar-se à mesa com Ricardo Leão, ou com qualquer outro partido, para convites para vereações com pelouros, se vencer a Câmara Municipal?
Respeito muito da democracia. Se a democracia me der a vitória na Câmara e não for com maioria absoluta, é assim que irei governar. Se tiver que governar com um orçamento de duodécimos, será governado com duodécimos. Nunca irei ceder a qualquer negociação com o Partido Socialista.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
É um dos candidatos do Chega e um dos que aparece ao lado de André Ventura em todos os cartazes. Passámos por alguns nesta viagem. André Ventura ainda é o rosto necessário para tentar vencer estas eleições em alguns sítios?
André Ventura continua a ser, de facto, a figura mais mediática do partido, é o pai fundador do partido, como existe para os outros partidos. O facto de estarmos ao lado dele, a mim não me choca absolutamente nada, porque acho que é passar uma imagem de continuidade e de que as pessoas entendam que o Bruno [Nunes] em Loures é o representante da voz do André Ventura, assim como os outros nos outros concelhos são representantes daquilo que é o pensamento do André [Ventura] e que vimos com este princípio: agimos como um bloco.
E se for eleito, como pode acontecer com outros deputados, em que situação fica o Grupo parlamentar do Chega?
Como é que fica…
A verdade é que o Chega corre mesmo o risco de perder deputados.
Engraçado essa questão, que tem sido colocada por quase toda a imprensa, [porque] ao mesmo tempo que a imprensa diz o Chega só André Ventura, quando chegamos a esta fase diz que [podemos perder as nossas] principais figuras. Afinal existem figuras e já percebemos que essas figuras inclusive podem ganhar câmaras, mas figuras que a imprensa descontinuou e considerou que não existiam há seis meses. Para terminar, eu sou sportinguista, mas como o André [Ventura] é benfiquista é quase uma homenagem a ele: o Jorge Jesus a determinada altura, quando o Matic, que era um jogador emblemático no meio campo do Benfica, saiu e foi vendido para o estrangeiro, disseram-lhe ‘E agora, sem o Matic?’ e ele olhou para a câmara, com aquela calma dele, e disse ‘Não joga o Matic, joga ao Manel’”.
Estas eleições autárquicas são um desafio, podem levar o partido a governar em vários sítios, temo que sejam expostas algumas fraturas de Chega?
É normal que sejam expostas. Não sei quais são porque não me está a doer nada por enquanto, mas calhar vai chegar uma altura em que vamos ter e já tivemos as nossas dores…
Chegou a assumir erros de casting nas anteriores autárquicas.
E teremos agora novamente. Espero que menos, espero que nenhum. Eu coloco a esperança nos 308 candidatos, mas não consigo garantir que não vamos ter problema nenhum. Às vezes as surpresas acontecem, mas não é isso que vai culpabilizar o André [Ventura] ou o partido. Há uma coisa que é certa, digam que é populismo ou não, e o André [Ventura] tem razão: quando acontece no Chega, ao contrário dos outros partidos, o Chega resolve na hora e de imediato são colocados fora.