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A corrida dos vizinhos aos postos espanhóis também acontece do lado francês

Anadolu via Getty Images

A corrida dos vizinhos aos postos espanhóis também acontece do lado francês

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Combustíveis espanhóis ampliam vantagem fiscal face a Portugal com a crise nos preços

Mesmo após repor a taxa normal do IVA, Espanha ampliou a vantagem fiscal nos combustíveis face a Portugal desde que começou a crise nos preços. Há mais países a perder receita para travar escalada.

A diferença entre o nível de impostos cobrado sobre os combustíveis entre Portugal e Espanha agravou-se desde que começou a escalada dos preços na sequência da crise de abastecimento provocada pelo estrangulamento do comércio no Golfo Pérsico.

Nos primeiros dois meses do ano, o gasóleo espanhol tinha uma carga fiscal 20 cêntimos mais baixa que o português. A vantagem fiscal na gasolina chegava aos 24 cêntimos por litro, de acordo com os dados reportados à Comissão Europeia sobre os preços médios semanais de cada país, e que são usados no estudo aprofundado que o regulador português fez ao mercado dos combustíveis. Uma parte desta diferença resultava de uma taxa de IVA mais baixa que a portuguesa — 21% versus 23% — mas a maior fatia é justificada pelas taxas de imposto petrolífero, mais reduzidas, que são aplicadas historicamente do outro lado da fronteira.

Espanha foi o país que mais apoios públicos mobilizou para travar a escalada dos preços nas bombas, tendo inclusive descido temporariamente o IVA para uma taxa intermédia de 10%, mas retirou a medida em julho, sob a pressão da Comissão Europeia. Esta retirada levou a um disparo expressivo dos preços finais, para além do provocado pela conjuntura internacional, o que elevou a taxa de inflação em agosto para 4,3% — acima da portuguesa.

Perante o agravamento das restrições ao abastecimento mundial provocadas pelo conflito e o seu impacto nos preços, o Governo de Pedro Sánchez não demorou a anunciar mais apoios, com um desconto de 20 cêntimos por litro no gasóleo e de 10 cêntimos por litro na gasolina. E mesmo com o regresso do IVA à taxa normal, a vantagem fiscal face a Portugal é agora maior do que era no início do ano – mais 5 cêntimos na gasolina e mais 6 cêntimos no gasóleo.

Esta comparação tem por base os preços médios semanais das últimas cinco semanas e considera já o efeito da descida de impostos feitas do lado português, que se limitam a anular os ganhos que o Estado teria com a arrecadação de IVA devido à subida dos preços antes de impostos.

Segundo essa comparação, a carga fiscal da gasolina em Espanha é 29 cêntimos mais baixa do que em Portugal. No gasóleo está nos 26 cêntimos por litro.

O estudo aprofundado feito pela ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) defende que é apenas graças aos impostos que os combustíveis são mais baratos do lado espanhol. Durante o período de maior apoio fiscal aos combustíveis, entre março e julho deste ano, os preços espanhóis chegaram a ser 41,8 cêntimos mais baixos na gasolina e 25 cêntimos mais baratos no gasóleo.

Gasóleo antes de impostos chega a ser 10 cêntimos mais caro em Espanha, mas portugueses pagam mais devido à carga fiscal

A ERSE reconhece que a disparidade fiscal já existia antes desta crise, mas considera que as “medidas fiscais espanholas ampliaram posteriormente a diferença entre os preços finais dos dois países”. E sustenta que este diferencial “não resulta de preços nacionais mais elevados antes de impostos. Pelo contrário, a componente sem impostos é inferior em Portugal, sendo essa vantagem mais do que anulada pela diferença de fiscalidade”.

Esta realidade tem sido mais ou menos constante, mas na primeira semana de setembro a gasolina portuguesa foi mais cara do que a espanhola, mesmo antes de impostos. Esta foi a semana anterior à descida de 4 cêntimos por litro que terá sido aplicada esta segunda-feira.

As diferenças na política fiscal entre os dois países foram atenuadas com o regresso da taxa normal de IVA em julho, mas com os novos apoios de Espanha, continua a existir um fosso entre os preços dos dois lados da fronteira.

O agravamento destas diferenças também se verifica em França face a Espanha e alimenta a corrida dos condutores do outro lado da fronteira — portugueses e franceses — aos postos espanhóis. Há também mais combustível ilegal a entrar em Portugal, denunciou a ANAREC (associação de revendedores) que é vendido mais barato devido à vantagem fiscal made in Spain.

Portugal não lucra… mas há vários países a perder receita

Uma comparação europeia com base nos dados usados pela ERSE mostra que Espanha é um dos países que mais receita perdeu nos combustíveis para apoiar os preços. Mas não é o único. Comparando os impostos cobrados em cada país, por cada litro de combustível nos primeiros dois meses do ano, com os valores arrecadados entre março e julho, encontramos pelo menos sete países que estão a perder receita por litro de gasóleo e dez que perdem na gasolina.

Para além de Espanha, que está a perder entre 9 a 16 cêntimos por litro no gasóleo e gasolina, também a Polónia está a cobrar menos 11 cêntimos por litro do que estava antes da crise. Os dois países aplicaram a redução extraordinária da taxa de IVA, que em Espanha vigorou entre abril e julho e que a Polónia adotou em agosto. Outros países estão a recorrer ao imposto petrolífero para amortecer os aumentos de preços. É o caso da Irlanda, que abdicou de 7 a 8 cêntimos por litro. Eslovénia, Itália e Suécia também estão a perder receita fiscal.

No caso sueco, foi mesmo necessária uma autorização da Comissão Europeia para o país poder baixar o imposto para além do mínimo permitido na União Europeia. Ao contrário dos vizinhos nórdicos, que penalizam fiscalmente os combustíveis rodoviários, a Suécia tem dos impostos mais baixos da União Europeia, a que correspondem também preços menores. Na primeira semana de setembro, a gasolina sueca era a terceira mais barata da União Europeia, abaixo da espanhola — custava 1,588 euros por litro.

Na lista dos países que ganham e perdem (em receita fiscal por litro), Portugal apresenta ganhos residuais em cada litro de combustível vendido, mantendo o mesmo nível de fiscalidade que tinha antes de rebentar a crise. Este resultado é consistente com a política defendida pelo Governo de neutralidade fiscal — devolver no ISP o que é arrecadado a mais no IVA. Segundo os dados de março a julho, a gasolina nacional era a sétima mais taxada da União Europeia. O gasóleo era o 12º com maior carga fiscal.

O regulador identifica os países que aplicaram mecanismos de apoio, através de intervenções temporárias nos preços ou nas margens — Áustria, Chéquia, Croácia, Hungria, Polónia e Roménia — mas apela à prudência na hora de comparar os custos orçamentais de cada um.

“O custo de uma redução generalizada dos impostos por litro depende dos volumes vendidos e pode não surgir autonomamente quantificado nos observatórios internacionais”. Além disso, “os montantes associados a alguns estados-membros abrangem pacotes mais amplos, incluindo eletricidade, gás natural, aquecimento e apoios ao rendimento, não podendo ser integralmente imputados aos combustíveis rodoviários”.

Governo mantém apoios focados e prefere dar mais rendimentos

As contas apresentadas pelo Governo apontam para um impacto superior a mil milhões de euros este ano, apenas resultante do mecanismo de ajustamento do ISP ao IVA. Este valor não traduz uma perda de receita face à situação de partida, mas sim a receita a mais de que o Estado abdica. Mesmo perante os aumentos sucessivos das últimas semanas do gasóleo, e a perspetiva de nova subida com o petróleo a negociar nos 108 dólares por barril, o Executivo continua a afastar medidas mais musculadas de ajuda que sejam transversais. E mantém o foco em ajudar os setores mais expostos aos combustíveis — transportes, bombeiros e agricultores e pesca.

Maria da Graça Carvalho tem sido o principal rosto do Governo nesta opção política, que em vez de subsidiar os combustíveis para todos, opta por libertar mais rendimentos (via IRS e bónus nas pensões). A ministra do Ambiente e Energia diz que apoios dirigidos são mais eficientes do que uma descida indiscriminada de impostos, que iria incentivar o consumo de combustíveis. Uma procura que, argumenta, não está a abrandar. A governante descarta ainda uma intervenção nos preços ou margens do mercado de combustíveis.

Estudo do regulador afasta “efeito foguete pluma” nos combustíveis. “Preços não sobem sistematicamente mais depressa do que descem”

Por um lado, a análise feita pelo regulador aos preços não identificou desvios ou abusos por parte das petrolíferas, não obstante o Governo ter avançado com um imposto sobre os lucros extraordinários na área da refinação. Contra intervenções no mercado, a ministra recorda ainda os efeitos colaterais que teve o teto ibérico fixado ao gás natural usado para produzir eletricidade na crise de 2022. Diz que levou a uma queda no investimento em nova potência eólica em Espanha.

[Outubro de 1965. O diplomata suíço Raymond Quendoz espera pela mulher na pista do aeroporto de Havana, mas a portuguesa Annie Silva Pais simplesmente não aparece. O desaparecimento dela vai dar origem a um mistério de dimensão internacional que vai mobilizar o responsável da CIA em Cuba, o chefe dos serviços de segurança suíços, o mais alto representante de Portugal no país, e até Salazar e Fidel Castro. Porque Annie não é só casada com um diplomata suíço. Também é filha de um dos homens mais importantes do Estado Novo, Fernando Silva Pais, o diretor da PIDE. Já estreou “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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