Numa sala escura, diante de cinco ecrãs, escuta-se atentamente a maneira como João Gilberto interpreta Samba da Minha Terra, de Dorival Caymmi. Ao dedilhar na guitarra juntam-se, um a um, outros instrumentos que constroem um código rítmico em perfeita sintonia com a pulsação do toque cabila, presente na música do candomblé. É uma imersão que revela as conexões profundas entre o samba de Caymmi e os ritmos da música religiosa afro-brasileira. A instalação artística é um dos possíveis pontos através dos quais se pode descobrir a exposição Complexo Brasil, que é inaugurada esta sexta-feira, dia 14, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. A partir dela – explicam os três curadores, José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik – abre-se um convite para pensar o Brasil como país da multitude, histórico e plural, que se reflete tanto no tempo anterior à chegada dos portugueses quanto nas reverberações do seu processo de descolonização.
Camada sobre camada, somos conduzidos pelo interior de um complexo que se desdobra através das diferentes expressões artísticas aqui reunidas, do campo visual às ligações mais subtis com a literatura e, naturalmente, com a música. Entre as centenas de obras presentes, afirma-se uma proposta curatorial ligada à ideia de travessia, como define José Miguel Wisnik, num Brasil que, afinal de contas, não se pode circunscrever a uma só dimensão. “Um país é uma entidade múltipla, que não é linear, apenas histórica ou compartimentável”, sintetiza. É, antes, um espaço de pulsões – sensorial e tantas vezes paradoxal. Como falar, então, desses tantos “brasis”?
▲ Num diálogo permanente entre passado e presente, a cultura indígena nunca deixa de estar em evidência ao longo de toda a exposição
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Desse “nó inextricável”, como escreveu Pier Paolo Pasolini sobre o Brasil, em 1971 – “desgraçada pátria, / devotada sem escolha à felicidade” –, a exposição abre-se, desde logo, num primeiro momento que os curadores chamam de “desencobrimento”. Aborda-se, assim, a ideia de um Brasil ancestral e indígena, marcado pelas pinturas rupestres da Serra da Capivara; mas é também um ponto de partida para refletir sobre o Brasil dos corpos – aquele que surge retratado na pintura Índio Tarairiu (1641), de Albert Eckhout, ou nas obras de artistas contemporâneos como Rubem Valentim e Gê Viana.
Todas essas peças compõem uma constelação que espelha um país tornado numa “empreitada extrativista com consequências humanas”, salienta o curador. Mas, ao mesmo tempo, sem esquecer o seu passado, o reinscreve para aprofundar o seu processo de encantamento. “Entre as nações, o Brasil é o país que mais resiste a esse desencantamento do mundo e, muitas vezes, o promove, mesmo no meio das adversidades, justamente através das suas expressões artísticas, como as que aqui vemos”, observa José Miguel Wisnik.
Um espaço de diálogo
Sem seguir uma linha cronológica ou ceder à tentação de ser mapeada por acontecimentos históricos, a exposição que ocupa duas galerias do edifício principal da Fundação Calouste Gulbenkian assume a forma de um mosaico em que “coexistem biomas, etnias, culturas, tempos, lógicas, línguas, religiões e processos económicos”. Destacam-se, ainda assim, três grandes incursões: por um lado, um vasto conjunto de obras que abordam, ou se ligam, à questão da negritude; por outro, um núcleo marcado pela importância do modernismo no Brasil, desde o seu papel na arquitetura até à sua influência sobre o movimento do Concretismo – que é, em simultâneo, herdeiro dessa tradição e forma de rutura com a vanguarda. Finalmente, sobressai um terceiro núcleo dedicado à exploração da floresta amazónica, numa lógica de desbravamento que se tornou, de resto, uma forma de colonização territorial, origem também de movimentos ativistas e de resistência que ainda hoje persistem.
Num diálogo permanente entre passado e presente, a cultura indígena nunca deixa de estar, no entanto, em evidência. No seio da exposição, destaca-se a presença de mantos rituais e festivos, incluindo o Manto tupinambá, o Manto da Apresentação de Arthur Bispo do Rosário e os parangolés de Hélio Oiticica, que representam o “poder de incorporação” e contêm, de alguma forma, o enredo desse Brasil multiplicado nas suas culturas populares contemporâneas. “Em todos estes objetos nunca se tira o corpo fora”, sublinha Milena Britto, perante uma equação que se verifica continuamente nas expressões artísticas atuais. “O corpo no Brasil continua a ser parte da dança, da música, sempre como forma de ressignificação. O funk ressignifica o corpo da favela; o manguebeat já puxa por esse corpo e pela arte indígena”, sustenta.
▲ “Ao mesmo tempo que se expõe todo o fundo problemático de um país extremamente violento e desigual, nunca se esquece essa pulsão de vida que contagia”
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Se as questões do corpo são centrais para compreender muito desse Brasil, também o são, de forma persistente, o colonialismo e a dimensão da escravatura. “A descoberta – ou achamento, como foi intitulada – do Brasil já é, em si, um ato de força, uma apropriação colonial que revelou a sua pior face através da escravatura”, resume José Miguel Wisnik. O músico, compositor e ensaísta brasileiro fala assim de um país herdeiro de uma violência e de um racismo estrutural que ainda hoje desafiam o pensamento contemporâneo sobre o país. “O Brasil é o país que, depois da independência, manteve uma monarquia com a dinastia de Bragança e a burocracia colonial, mas é também a nação que, já independente, continuou o tráfico negreiro até 1851”, relembra.
No seguimento desta linha de pensamento, a mostra surge também como um questionamento das relações seculares entre Brasil e Portugal, procurando dissolver estereótipos e abrir novas pontes de entendimento entre os dois países. Ainda assim, explicam os curadores, não deixa de revelar como persiste “uma continuidade entre o tempo colonial e o Brasil independente”, reflexo das desigualdades sociais e da violência que tantas vezes marcaram o quotidiano daquele que é o maior e mais populoso país da América do Sul.
Paralelamente à exposição, a Fundação Gulbenkian promove um programa de atividades complementares, com destaque para o espetáculo Complexo B, que junta Adriana Calcanhotto e José Miguel Wisnik, acompanhados pelo violonista João Camarero; um concerto da Orquestra Gulbenkian com obras de Heitor Villa-Lobos e Cláudio Santoro; além de conferências e debates que aprofundam as múltiplas dimensões culturais e políticas evocadas pela mostra.
Dois países que se olham ao espelho
De regresso ao percurso livre e revelador que Complexo Brasil propõe – incluindo a reabertura de uma escadaria entre as duas galerias do edifício-sede da Fundação, que não era utilizada há mais de duas décadas –, as letras brasileiras nunca deixam de estar presentes. De Mário de Andrade a Clarice Lispector, passando por Oswald de Andrade e Conceição Evaristo, entre tantos outros, somos também guiados por essa leitura poética do país. “A literatura aparece nas relações que fomos estabelecendo ao longo da criação desta exposição. Estas vozes complementam-se e mostram como as artes estão, no fundo, em constante cruzamento. É uma forma discursiva que organiza e alimenta tudo o resto”, explicam os curadores.
▲ Na Gulbenkian faz-se um convite para pensar o Brasil como país da multitude, histórico e plural, que se reflete tanto no tempo anterior à chegada dos portugueses quanto no que se seguiu
Sem se prender às formas de arte canonizadas nem aos nomes mais consagrados, Complexo Brasil afirma-se também pelo equilíbrio entre expressões centrais e periféricas. “Há uma relação entre a bossa nova e a música brasileira que se estabelece com as tradições africanas e indígenas, que nunca deixam de ecoar, mesmo nas artes visuais”, observa Wisnik. O Brasil, enquanto país das artes, surge aqui como uma dimensão essencial – mas também como um espelho para todos nós, que tantas vezes o olhamos apenas desse lado de fora.
“Ao mesmo tempo que se expõe todo o fundo problemático de um país extremamente violento e desigual, nunca se esquece essa pulsão de vida que contagia”, acrescenta Wisnik. “É por isso que a exposição termina com as vozes de vários brasileiros em ecrãs fixos sobre uma parede-espelho. É a melhor forma de sintetizar esta mostra, uma experiência que convida cada um a olhar-se neste reflexo, a enfrentar as questões difíceis e a abrir um diálogo, porque afinal somos feitos do mesmo. Aqui, o melhor lugar é e será o do encontro.”