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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Confrontos no Saldanha, fotos de feridos e assobiadela a Moedas. PSP condena "uso massivo" de pirotecnia, mas não espera retaliações na Taça

Preparada para o Jamor, a PSP não espera retaliação dos adeptos do Sporting depois dos incidentes nos festejos do campeonato e condenam o "uso massivo" de pirotecnia em contextos desportivos.

Uma semana depois dos confrontos entre elementos da PSP e adeptos do Sporting, nos festejos da conquista do bicampeonato, que deixaram um homem cego depois de ter sido atingido por uma bala de borracha, novo jogo de alta tensão — desta vez com o Benfica, para a final da Taça de Portugal, no Estádio do Jamor. A posição da PSP em relação aos episódios que deixaram vários adeptos feridos é a de que a atuação teve como único propósito garantir a segurança dos festejos — e garante ao Observador que não espera retaliações. Mas a última semana deixou claro, em vários momentos, que os adeptos sportinguistas estão, no mínimo, ressentidos com a atuação das autoridades.

“A PSP está à espera de que os adeptos do Sporting tenham o comportamento correto. A PSP espera que os adeptos do Sporting e do Benfica evitem confrontações e conflitos”, descreve fonte desta força de segurança ao Observador.

Entrada antecipada e policiamento reforçado. As medidas de segurança para a final da Taça entre Benfica e Sporting

Oficialmente, nos comunicados que tem lançado a propósito do jogo da final da Taça, este domingo, a PSP elogia a “cooperação” dos sportinguistas no último sábado — com festejos em todo o país e, sobretudo, em Lisboa, mais concentrados no eixo Alvalade-Marquês de Pombal. Mas também deixou um reparo ao uso “massivo de pirotecnia”, que esta força de segurança alega ter estado na origem dos disparos com balas de borracha que cegaram Bernardo Topa num olho, na Praça do Saldanha.

“Há um uso massivo de pirotecnia. Enquanto [é lançada] na vertical, deixamos a festa decorrer. Depois, a certa altura, não sei se por negligência, nota-se que o fogo que estava a ir na vertical começa a ser direcionado na horizontal, na direção de outras pessoas e dos polícias”, descreve fonte policial ao Observador a propósito dos acontecimentos que levaram à intervenção junto ao Saldanha, no último sábado. A PSP frisa que a utilização perigosa dos engenhos pirotécnicos pode ter acontecido “por negligência” — e não intencionalmente contra os seus elementos —, mas, ainda assim, “pelo menos cinco” das dezenas que foram lançados atingiram agentes.

Esse “uso massivo” criou ainda outra dificuldade: o fumo intenso reduz a visibilidade dos operacionais e torna mais difícil a reação precisa contra os adeptos que deflagram engenhos pirotécnicos, o que não seria o caso de Bernardo Topa, de acordo com o testemunho que o próprio deu à CNN Portugal. “No meio do fumo, sai uma equipa de intervenção com shotguns na mão a disparar para todos os lados. Estava de frente [para a polícia] com certeza. Tenho um metro e noventa e dois, não sei como é que me atingiram no olho, mas foi um tiro certeiro”, disse Topa, defendendo que não tinha consigo artefactos pirotécnicos.

Outro vídeo, também partilhado nas redes sociais, mostra um agente da PSP, no meio do fumo, a disparar balas de borracha a poucos metros dos adeptos, enquanto um deles grita: “Qual é a necessidade?”

Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Oficiais da Polícia, defende que a PSP “não está, em momento algum, isenta de responsabilidade”. Mas, por outro lado, ressalva, esta força de segurança “enfrenta contextos” únicos.

O líder sindical também aponta o dedo ao uso de pirotecnia e denuncia a “normalização” e falta de censura de atos de violência em contexto desportivo: “Andamos há décadas a falar sobre violência no desporto. Continuamos a ter um mundo desportivo que continua a ser potenciador e gerador de cenários destes. Não venham dizer que é normal que milhares e milhares de adeptos andem a queimar e a deflagrar pirotecnia como se fosse o 4 de julho nos EUA e a utilizar os engenhos contra pessoas e prédios, como se fosse normal e razoável.”

O presidente do SNOP — que, tal como a PSP, lamenta os ferimentos causados ao adepto do Sporting — entende que as críticas feitas à violência policial não correspondem ao sentimento de confiança que os portugueses têm para com as forças de segurança.

Esta sexta-feira, a Lusa divulgou dados da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) que evidenciam o aumento do número de queixas contra a atuação das forças de segurança. No ano passado, o organismo que fiscaliza a atividade das polícias recebeu 1.511 denúncias, o número mais elevado da década.

Inspeção recebeu 1.511 queixas contra atuação dos polícias em 2024, maior número da década

Na terça-feira a PSP anunciou a abertura de um inquérito aos “polícias intervenientes na reposição da ordem pública” que provocaram ferimentos no adepto leonino. O Sporting também reagiu a esses acontecimentos e admitiu que “está a encetar todas as diligências possíveis e necessárias, com vista à investigação da ocorrência e à adoção das medidas que se revelem adequadas” — sem concretizar exatamente que “diligências” estão em curso e que “medidas” admite vir a adotar.

Bernardo Topa, comissário de bordo da TAP que chegou a trabalhar na Sporting TV, foi visitado no hospital por Frederico Varandas e admitiu à CNN Portugal que não foi contactado pela PSP. Fonte policial contraria essa informação ao Observador e revela que já existiram contactos entre as duas partes, lembrando que os próprios agentes auxiliaram o adepto de 28 anos no local.

PSP abre inquérito após adepto do Sporting ter ficado cego de um olho devido a bala de borracha disparada nos festejos

Adeptos do Sporting não esqueceram incidentes na festa do campeoanto

Da parte dos adeptos do Sporting, a recente deslocação da comitiva verde e branca à Câmara Municipal de Lisboa e consequente reação quando o líder autárquico, Carlos Moedas, iniciou o seu discurso mostrou que existem episódios recentes que não foram esquecidos.

Por um lado, a decisão das autoridades em fecharem todos os espaços de restauração e equivalente à volta do Estádio José Alvalade no dia do encontro decisivo entre Sporting e V. Guimarães foi visto quase como uma afronta, tendo em conta o que estava em causa, a falta de paralelismo com as ações tomadas (ou neste caso, não tomadas) uma semana antes no dérbi realizado na Luz e a proximidade das decisões com o dia da última jornada do Campeonato. Os responsáveis do clube encetaram esforços para minimizar o impacto das restrições junto da Câmara — incluindo conversas entre Frederico Varandas e Carlos Moedas — e das autoridades, algo que conseguiram alargando o período em que os espaços poderiam estar abertos, mas sobrou no final essa primeira imagem de condicionamento sem precedentes ao que deveria ser uma festa.

Por outro, os acontecimentos na noite de sábado, em particular os incidentes na zona do Saldanha, ficaram também na memória de muitos. Ao longo da semana, foram vários os relatos que se foram propagando em grupos de adeptos (e que chegaram em muitos casos à Direção do clube) de tudo o que ocorreu antes da passagem do autocarro rumo ao Marquês de Pombal. O caso de Bernardo Topa, adepto dos leões que perdeu um olho devido a uma bala de borracha disparada pela PSP no meio do maior momento de tensão, foi apenas o mais grave entre muitos outros registados nessa noite — alguns não conhecidos do domínio público —, num local onde estavam milhares e milhares de pessoas, entre as quais várias crianças.

“Quero agradecer ao presidente Carlos Moedas porque foram mais de 24 horas juntamente com o presidente do Sporting a tentar encontrar as razões técnicas e políticas para que não houvesse condicionamentos na festa, como assim aconteceu. Sou militar e respeito e muito todas as ordens de todas as forças de segurança, mas não tratem os adeptos do futebol como criminosos. Não prejudiquem algo que faz parte da nossa cultura. O futebol faz parte da nossa cultura, não prejudiquem centenas de milhares de adeptos que têm paixão apenas pelo seu clube, apenas porque uma minoria não se sabe comportar”, apontou Frederico Varandas, presidente do Sporting, no discurso feito na receção aos leões na Câmara.

O caso de Bernardo Topa foi apenas o mais grave entre muitos outros registados nessa noite. Forma como adeptos do Sporting vaiaram Carlos Moedas demonstra que não esqueceram desacatos na festa do título.

“É da responsabilidade de cada parte envolvida — dos organizadores, dos participantes e também daqueles que possibilitam a realização do evento — assegurar um comportamento adequado, de forma a garantir que a celebração decorra em segurança. Relativamente ao caso que veio a público envolvendo o adepto Bernardo Topa, e face à gravidade das consequências associadas, o Sporting informa que, para além do contacto já estabelecido com o próprio, está a encetar todas as diligências possíveis e necessárias junto das autoridades competentes, com vista à investigação da ocorrência e à adoção das medidas que se revelem adequadas”, referiu o clube em comunicado esta quinta-feira. “Em vésperas da final da Taça de Portugal, o Sporting apela a todos para que adotem uma postura responsável, contribuindo para que o espetáculo seja isso mesmo — um espetáculo — dentro e fora das quatro linhas”, completou.

Redes sociais potenciam uso da pirotecnia, mais comum nas claques de Sporting e Benfica

O jogo decisivo deste domingo corresponde ao primeiro dérbi de Lisboa na final da Taça de Portugal em quase 30 anos. A última vez que Sporting e Benfica se encontraram no Jamor, em 1996, ficou marcada pela morte de Rui Mendes, o sportinguista atingido por um very light lançado pelos adeptos rivais.

Esse acontecimento, bem como a disputa do campeonato entre os dois clubes até à última jornada e os ferimentos de Bernardo Topa, podem alimentar (ainda mais) a rivalidade histórica e potenciar possíveis desacatos.

Desta forma, e recordando o “trágico e fatídico” incidente de há 29 anos, a PSP enviou um comunicado às redações no qual alerta para os perigos “da utilização irregular” de engenhos pirotécnicos.

“A PSP reforça a importância do cumprimento das indicações dos polícias em serviço, respeitando não só as indicações das autoridades, mas também todos os agentes desportivos e demais adeptos, evitando comportamentos suscetíveis de comprometer a segurança ou o bom ambiente dos eventos, como o uso de pirotecnia, atos de violência ou desrespeito pelas regras e regulamentos dos estádios”, lê-se no comunicado.

A polícia refere que, motivados pela atenção que as redes sociais dão aos espetáculos com pirotecnia, o uso destes engenhos é um fenómeno que ultrapassa a realidade nacional e contribui, “de forma premente, para a dimensão reputacional dos Grupos Organizados de Adeptos”.

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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Segundo dados do Relatório de Análise da Violência Associada ao Desporto, na época 2023/24 a posse/deflagração de pirotecnia representou mais de metade dos incidentes — 63,9% das 8.879 ocorrências totais. Em comparação, na temporada anterior estes incidentes representavam apenas 40,5% do total o que, de acordo com a PSP, “demonstra que este tipo de infração continua a subir, facto que preocupa pela perigosidade que os artigos desta natureza representam, tanto para a integridade física dos adeptos, como pelos danos que podem provocar”.

Em Portugal, as claques de Sporting e Benfica “destacam-se como as mais prevalentes nesta tipologia de incidente” e o “fácil acesso” a estes materiais é apontado com um dos principais fatores para explicar o aumento “de forma significativa” da utilização destes engenhos que podem provocar queimaduras, lesões (por inalação, na visão ou na audição) e pânico — já tendo provocado vítimas, “algumas das quais menores de idade”, que ficaram com queimaduras.

“Paralelamente, no quadro de uma subcultura transgressiva da parte dos Grupos Organizados de Adeptos, assiste-se a um crescimento das situações de arremesso destes artigos (em deflagração) para a área do terreno de jogo e, durante festejos, contra outros adeptos e na direção dos polícias (conforme aconteceu na madrugada do passado domingo durante os festejos na cidade de Lisboa), resultando, muitas das vezes, na interrupção momentânea dos eventos desportivos, bem como em situações de risco para os agentes desportivos no local (atletas, árbitros) e polícias.”

Além do mediatismo e do fácil acesso aos engenhos, através de compras online, a PSP nomeia outros fatores que contribuem para a maior presença da pirotecnia nos eventos desportivos: a “normalização da posse destes artigos”, o “enquadramento legal permissivo”, o “desconhecimento da perigosidade”, a “facilidade de ocultação no corpo” antes da revista e até uma “rede de contactos que permite a colocação prévia destes engenhos no interior do recinto desportivo”.

O sindicalista Bruno Pereira sugere que a “falta de censura firme” destes comportamentos “por parte de comentadores desportivos, presidentes e altos dirigentes de clubes” leva à normalização da violência em recintos desportivos. “Independentemente de não ser o nosso clube a ganhar, temos que respeitar essa conquista e respeitar a festa dos adeptos de clubes que não são o nosso. É isto que se espera de uma festa: reconhecer os méritos. Não são batalhas campais”, denuncia.

HENRIQUE CASINHAS/OBSERVADOR

PSP espera colaboração de adeptos para tornar jogo calmo

Apesar da tensão naturalmente presente num dérbi (ainda mais quando está um troféu em jogo), a PSP espera dos adeptos “um comportamento correto”, mas, ressalva, sem a utilização de pirotecnia. Outra fonte consultada pelo Observador explica que, apesar de se tratar “de duas equipas grandes, com adeptos de risco”, a polícia acredita na cooperação e civismo dos adeptos. “Na prática, o nosso pensamento é sempre que as pessoas vão colaborar e que os adeptos vão ter um comportamento cívico. Depois, temos que nos adaptar à realidade”.

“A PSP espera que os adeptos do Sporting e do Benfica tenham um comportamento correto, evitem confrontações, evitem conflitos entre eles, respeitem as indicações dos polícias, não tenham ações de intolerância, de discriminação e de racismo. É o expectável e é o que nós queremos.”

Entre os dois clubes lisboetas, segundo dados divulgados pelo Diário de Notícias (DN), há cerca de cinco mil adeptos considerados de risco e que motivam preocupações redobradas — 3.000 do clube da Luz e os restantes do emblema de Alvalade. Cerca de 180 dos adeptos sinalizados requerem uma monitorização constante.

No Estádio Nacional, com capacidade para mais de 37 mil adeptos, há pelo menos 436 que não poderão entrar, de acordo com os números do DN. Desse total de adeptos impedidos de entrar em recintos desportivos, 107 são do Sporting e 88 do Benfica.

Este domingo, às 17h15, Sporting e Benfica garantem, à partida, que o troféu da Prova Rainha fica em Lisboa pela primeira vez em seis anos — nesse intervalo, o FC Porto venceu a prova quatro vezes e o Braga uma. Os leões conquistaram a Taça de Portugal pela última vez em 2019 e as águias duas temporadas antes, em 2017.

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