Foi talvez um dos pormenores mais simbólicos da receção ao Sporting na Câmara Municipal de Lisboa. Há um ano, quando os leões foram campeões nacionais, Viktor Gyökeres foi um dos primeiros jogadores a sair do autocarro, liderando uma comitiva que encerrou com Luís Neto e Coates, que transportaram o troféu. Esta segunda-feira, com os leões a sagrarem-se bicampeões nacionais, Viktor Gyökeres foi o último jogador a sair do autocarro, encerrando a comitiva liderada por Rui Borges e Hjulmand, que transportaram o troféu.
Recepção aos nossos Leões na Câmara Municipal de Lisboa ✔️???? pic.twitter.com/gwoBIEVgJF
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Se é certo que o avançado sueco já tinha sido crucial para a conquista do Campeonato em 2023/24, também é certo que a aura que foi construindo no universo leonino atingiu um expoente ainda maior ao longo da última temporada. Com 53 golos em todas as competições – mais dez do que em toda a época passada, sendo que ainda vai disputar a final da Taça de Portugal –, Gyökeres tem agora um estatuto de estrela maior no Sporting. Algo que ficou claro no momento em que finalmente desceu as escadas do autocarro, sendo recebido por uma avalanche de apoio que já se tem tornado um hábito.
Dois dias depois de carimbar o primeiro lugar da Primeira Liga, ao vencer o V. Guimarães em Alvalade e revalidar o título conquistado há um ano, o Sporting voltou a ser recebido por Carlos Moedas na Câmara Municipal de Lisboa. Centenas de pessoas juntaram-se na Praça do Município para uma espécie de continuação mais tímida dos festejos que encheram o Marquês de Pombal no sábado, com as camisolas ‘9’ a dizer Gyökeres a multiplicarem-se entre a multidão. Entre as habituais tarjas e a já cada vez mais comum bandeira da Suécia, surgia um pequeno cartaz que também dava o mote para o ambiente que se vivia: “Bicampeões da tasca”.
▲ Centenas de adeptos leoninos juntaram-se esta segunda-feira na Praça do Município para receber a equipa
LUSA
A alusão à interpretação das palavras de Rui Borges depois do jogo contra o Gil Vicente, onde o treinador leonino pareceu passar a ideia de que os gilistas apresentaram índices de competitividade acima da média em Alvalade, já tinha sido um momento comum logo no sábado. O treinador, na verdade, pareceu responder às críticas logo no discurso que fez no Marquês de Pombal, recebendo respaldo de Frederico Varandas na Praça do Município.
“E o que dizer sobre o nosso treinador Rui Borges? Já ouvi dizer que é de Mirandela, para mim é indiferente se é de Mirandela, Praça de Londres ou Cascais, a mim o que me interessa é a sua capacidade de liderança. E se nunca estudou, é licenciado e doutorado em valores de carácter e nobreza. Pode dar lições a pessoas que nunca conquistaram nada na vida mas se acham alguém por falar na televisão”, atirou o presidente leonino, que aproveitou o longo discurso para relembrar os contributos de Ruben Amorim, Hugo Viana e João Pereira, embora tenha sublinhado que “o grande destaque” é de quem ali estava.
Voltando à programação da receção oficial na Câmara Municipal de Lisboa, o momento incluiu várias diferenças face às mesmas cerimónias nas temporadas anteriores – incluindo a do Sporting, no ano passado, sendo que a de 2021 não contou com adeptos devido à pandemia. Desde logo, e num pormenor que parece fútil, mas que marca a diferença, a comitiva leonina apresentou-se sem camisa ou gravata, à exceção de Frederico Varandas: a t-shirt branca e o casaco azul escuro contrastavam com o fato completo do ano passado ou a camisa com blazer de há quatro anos, num look mais descontraído que encaixava no sol e no calor que se fazia sentir ao final da tarde em Lisboa.
▲ Rui Borges foi muito saudado pelos adeptos e elogiado por Frederico Varandas
EPA
Depois, a própria dinâmica da cerimónia. Mesmo com a típica fotografia de família nas escadas da Câmara, Carlos Moedas não recebeu o Sporting no Salão Nobre do edifício, como é habitual. Jogadores, equipa técnica e staff dos leões subiram diretamente à varanda para mostrar o troféu da Primeira Liga aos adeptos e ter um curto momento de comunhão com a multidão, mas não houve microfone a passar, como também era normal, e depressa voltaram a descer para o palco montado na rua.
Ainda na varanda, o roupeiro Paulinho foi o primeiro a ser chamado pelo speaker, sendo depois muito aplaudido pelos adeptos. Luís Neto teve direito a uma espécie de serenata ao som de “O Ano da Fundação”, um cântico muito conhecido de uma das claques do Sporting, Rui Borges saltou quando assim lhe foi exigido pela onda verde e Gyökeres, Franco Israel, Trincão, Fresneda, Pedro Gonçalves e Conrad Harder foram os últimos a deixar a varanda, entre selfies de grupo e individuais, com o avançado dinamarquês a assumir um papel de protagonista da festa que já tinha ficado claro no sábado.
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Cá em baixo, no palco e perto de dezenas de crianças e jovens que estavam na primeira fila, Carlos Moedas foi o primeiro a discursar – ou a tentar discursar. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi muito assobiado pelos adeptos do Sporting, acabando por fazer parte do discurso aos gritos depois de parar de falar e pedir “um minuto”, com Paulinho a juntar-se aos apelos à calma. Na Praça do Município, ouvia-se “ninguém se esquece!”, ficando a ideia de que o desagrado estava relacionado com as limitações impostas pela Câmara Municipal de Lisboa à abertura e funcionamento dos estabelecimentos comerciais à volta do Estádio José Alvalade no dia do jogo decisivo, no sábado.
▲ Carlos Moedas foi muito assobiado pelos adeptos do Sporting durante o discurso
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Pouco depois, no seu próprio discurso, Frederico Varandas tentou serenar os ânimos e agradeceu a Carlos Moedas pelas “mais de 24 horas a tentar encontrar razões técnicas e políticas para que não houvesse condicionamentos na festa, como não aconteceu”. Mas não deixou de atirar para onde queria. “Sou militar, respeito e muito todas as forças de segurança, mas não tratem os adeptos de futebol como criminosos. Não prejudiquem algo que faz parte da nossa cultura, centenas de milhares de adeptos, por causa de uma minoria que não sabe comportar-se”, disse.
Pelo meio, durante os dois discursos, surgiu na Praça do Município algo que ainda não tinha aparecido desde o início da cerimónia: pirotecnia. Apareceram vários potes de fumo de cor verde, bem no centro da praça e perto do pelourinho, e a situação depressa foi sanada pela entrada de spotters da Polícia de Segurança Pública no recinto. Um adepto do Sporting foi mesmo retirado das imediações e identificado e a verdade é que, a partir daí, não voltou a ver-se fumo verde nos céus de Lisboa.
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Quem também foi retirado do recinto, mas por outros motivos, foi Jorge Pote. Ou só Jorge. Aos 79 anos e com “Jorge Pote” nas costas da camisola, numa alusão ao próprio nome e ao do jogador favorito, estava numa das primeiras filas quando começou a sentir-se mal e prestes a desmaiar, sendo rapidamente ajudado a afastar-se da multidão. Foi assistido por dois bombeiros e quis voltar ao lugar – mas não o deixaram, por precaução. Chorou, queixou-se a vários adeptos que estavam ali por perto, mas acabou por resignar-se a assistir à festa a mais alguns metros de distância.
▲ Quase toda a cerimónia decorreu num palco em frente à Câmara Municipal de Lisboa e não na habitual varanda ou no Salão Nobre
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No palco, a receção terminou com o habitual Santo António entregue a Frederico Varandas, a Rui Borges e a Hjulmand e ainda houve tempo para a fadista Kátia Guerreiro cantar “O Mundo Sabe Que”, a música que os adeptos entoam antes de todos os jogos em Alvalade, já depois de ter cantado a “Marcha do Sporting” quando os autocarros chegaram. A comitiva depressa deixou a Praça do Município, não sem que Conrad Harder gritasse “eu quero o Sporting campeão” ao microfone, e Gyökeres voltou a ser o último, distribuindo autógrafos e selfies por praticamente todos os que o abordaram.
No fim, a romaria de adeptos seguiu pelas ruas adjacentes – com cânticos, músicas e palavras de ordem e a ideia de que domingo, na final da Taça de Portugal, há mais. Pelo meio, e aproveitando o objetivo expressado por Frederico Varandas no discurso, surgiu o desejo óbvio: “E o tricampeonato está para chegar”.
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