Era quase hora de picar o ponto quando Sérgio (nome fictício) chegou à empresa onde trabalha há três anos, no setor de desmantelamento de cobre. Às 6h30 da manhã ainda não tinha decidido se entrava para o turno ou se aderia à greve geral desta quinta-feira. “Estava à espera de perceber o que vão fazer os outros”, afirmou ao Observador. Perto da operadora de resíduos, na zona de Sacavém, havia cartazes de apelo da CGTP para aderir à greve geral desta quinta-feira, mas nenhum piquete de greve.
Quando António, com 30 anos de casa, e José, que já soma uma década na Blueotter, chegaram, Sérgio acabou por seguir a onda e apresentar-se ao serviço. “Já fizemos greves aqui e não deu resultado. Há uns anos tentámos, mas há colegas que têm medo das represálias e fogem da greve. Por isso é que isto não anda para a frente”, refere o trabalhador mais antigo, que admite ter ponderado aderir à paralisação, mas avançado no sentido contrário. “Para quê uns pararem e outros continuarem a trabalhar?”, questiona. Se tivesse havido um acordo entre todos o desfecho podia ter sido diferente.
▲ Trabalhadores de uma empresa de gestão de resíduos não aderiram à greve, mesmo sendo contra o Pacote Laboral
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
José também pensou em não ir trabalhar, mas pesou na balança a perda da remuneração do dia nas contas do mês. Os dois são contra o pacote laboral. “Estamos em Portugal, os políticos são patrões e portanto fazem as leis para eles”, atira, e refere que se os jovens “vão para fora” por causa de decisões governamentais como aquela que agora é proposta para alterar a lei laboral.
Rosa chegou pouco depois, empregada da limpeza da mesma empresa há quatro anos decidiu não fazer greve porque não percebe que alterações são essas na lei do Trabalho ou a “razão pela qual as pessoas estão a fazer greve”. Normalmente começa a trabalhar às 6h00, mas entrou mais tarde por causa da greve nos transportes. Foi para o local de trabalho a pé, mas acabou a apanhar boleia de um colega no caminho e encurtar a distância.
▲ No exterior de várias empresas, cartazes apelavam à greve geral de 11 de dezembro
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
O pacote que tem coisas “menos boas do que boas” e o segurança que não fez greve por causa da “atenção” de anos
Não muito longe dali, num café que é o ponto de encontro matinal de vários trabalhadores de uma empresa de montagem de andaimes, pelas sete da manhã, José, Manuel e Mauro não tiveram os mesmos constrangimentos para chegar ao trabalho. A empresa foi buscá-los e vai pô-los a casa no final do dia, como é habitual. Nenhum dos três trabalhadores ponderou fazer greve, mas têm a certeza de que o pacote laboral tem coisas “menos boas do que boas”. E para os que entram no mercado de trabalho não têm dúvida que as alterações incluem “coisas muito más.”
Na empresa em que estão integrados não souberam de ninguém que aderisse à greve. Juntar-se à paralisação seria “ficar mal na fotografia”, consideram.
▲ "Se 80% não vai fazer greve para o que é que vamos nós fazer"
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
José e Mauro já trabalharam em França para a mesma empresa e recordam como em dias de greve, em 2019, nem sequer conseguiam aceder ao local de trabalho. “Íamos com a intenção de ir trabalhar e voltámos todos para casa porque ninguém entrava. Lá os piquetes de greve montam barracas, agarram em pneus e fazem fogueiras e ninguém entra e acabou”, recordam, comparando este tipo de ações com o movimento sindical de Portugal, que consideram menos persuasivo: “Se 80% não vai fazer greve para que vamos nós fazer!?”
“Em França, se o Estado lhes disser que dá um cêntimo e não der eles param o país e ganham aquele cêntimo. Em Portugal até estou admirado de a greve não ser amanhã, à sexta-feira, para se ir de fim de semana”, diz José.
A uns metros de onde estes trabalhadores começam a seguir em carrinhas para começar o dia de trabalho na montagem de andaimes, Carlos, segurança da Securitas na sede de uma empresa de alumínio, antevê que ali a greve não se faça sentir com expressão já que os funcionários são “maioritariamente pessoal do escritório”.
No seu caso ponderou fazer greve, mas não avançou “devido a toda a atenção” da empresa para onde trabalha ao longo dos anos. “Faria greve se estivesse noutras circunstâncias, noutra área profissional. Sou de esquerda e acho que os governos de direita estão mais ao lado dos patrões do que dos trabalhadores“, afirma e considera que o “pacote laboral transmite a pressão dos patrões e das empresas junto do Governo para que sejam retirados cada vez mais direitos aos trabalhadores”.
▲ Carlos assegura a segurança de um edifício em Sacavém. Não fez greve, mesmo sendo contra as alterações à lei do trabalho
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Mesmo revoltado com as potenciais alterações — que poderão alargar os serviços mínimos em caso de greve aos serviços de segurança privada de bens ou equipamentos essenciais — não falhou ao serviço, sempre de olhos postos nos anos de relação laboral saudável com a empresa para a qual presta serviços.
Se tivesse ficado em casa, a sua decisão teria tido impacto, já que o portão daquela empresa ficaria fechado. É o único trabalhador a garantir a segurança do local no horário de funcionamento da empresa e cada trabalhador teria de ligar, um a um, para a central da Securitas a pedir autorização para a abertura do portão.
O patrão que não quis os sindicatos a resolver os problemas dos seus funcionários
É através da boa relação com os trabalhadores que João Amaro, gerente da Autovidreira, uma empresa de transformação de vidro para a construção civil, diz conseguir garantir que não há greve na sua empresa. “Aqui ninguém é sindicalizado, eu pago acima da média e ninguém faz greve”, garante. Uma carrinha é carregada de vidro enquanto descreve as negociações com os seus trabalhadores.
“Não preciso de sindicatos para resolver os meus problemas com os meus funcionários”, afirma ainda, referindo que a “discussão anual com os trabalhadores sobre salários acontece anualmente, em janeiro, “porque é quando há aumentos das restantes coisas”. Nessa altura, garante, as subidas nos salários são sempre acima da taxa de inflação.
▲ O gerente de uma vidreira e Sacavém garante que não precisa de "sindicatos a negociar com os seus trabalhadores"
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Na chegada ao local de trabalho, em Sacavém, diz que não viu “nada de especial”. “Para mim está tudo normal”, garante. Só foi avisado que numa das lojas pode não aparecer um funcionário por causa da falta de transportes.
“A greve é contra os patrões, mas as únicas pessoas que são prejudicadas com esta greve são as que não têm transportes e onde deixar os miúdos”. Não sendo a favor da greve, admite que esta tenha mais reflexo nas indústrias maiores, e não se coloca nem contra nem a favor do pacote laboral. “Os políticos são sempre os mesmos e dizem sempre as mesmas coisas quando estão a governar e quando estão na oposição”, assegura.
“Eu trabalho a mais para receber dinheiro, não trabalho para descansar”. A revolta causada pelo banco de horas
À porta da empresa em que trabalham, antes de começar o turno na Sidefarma, Cristina e Luís têm uma visão diferente. “Não votámos neste Governo, mas eles estão a apresentar-se cada vez mais”, considera a trabalhadora, que é técnica para a produção de medicamentos nessa indústria farmacêutica com cerca de 120 trabalhadores.
São um casal e Luís partilha a mesma categoria profissional da companheira, os dois já são efetivos na empresa. São também os dois contra o pacote laboral e dizem ter dificuldade em perceber o trabalhador que seja a favor dele. Mas isso não chegou para fazerem greve, numa empresa em que apenas “duas ou três pessoas são sindicalizadas” e o movimento para a paralisação foi pouco expressivo.
▲ Na Sidefarma a greve não se fez sentir, mesmo com trabalhadores contra o pacote laboral
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
O banco de horas individual, que se prevê ser recuperado no anteprojeto do Governo para alterar a lei laboral, é a principal preocupação dos dois. “Eu trabalho a mais para receber dinheiro, não trabalho para descansar“, justifica Luís. Neste momento é isso que acontece no seu caso — sempre que faz horas a mais recebe por isso no final do mês, e é assim que quer que continue. Apesar de conhecer o mecanismo de compensação proposto pelo Governo para o tempo de trabalho extra, com os períodos de compensação acautelados na proposta de lei, Cristina tem dúvidas que na prática isso venha a acontecer. “As horas extras devem ser pagas”, defende.
Luís refere ainda a“precariedade” que pode advir do que considera ser a criação de “contratos a prazo de longa duração”, referindo que esta alteração nos prazos dos contratos a termo representa um claro “retrocesso” relativamente à lei atual. “A prioridade agora devia ser a Saúde”, ressalva ainda Cristina.
Numa empresa do mesmo polo industrial e logístico no Prior Velho, Ana, trabalhadora dos recursos humanos na Vadeca, uma empresa de serviços de limpeza, chega ao trabalho apressada, depois de sair de um TVDE. Nesse momento ainda não tem noção da adesão dos funcionários, mas fará parte das suas funções durante a manhã analisar isso mesmo.
“Os supervisores que estão na rua estão a tentar acautelar os serviços onde as pessoas reivindicam mais”, sendo que a estratégia definida para acautelar as faltas dos grevistas ou de quem não se consiga deslocar é a de “mover as pessoas que estão a trabalhar em maior número num local” para aqueles em que há maior escassez.
▲ Trabalhadores usaram Ubers e táxis para chegar aos locais de trabalho
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Cimpor registou adesão à greve a rondar os 40%. Na ADP houve quem tentasse perceber adesão para decidir se trabalhava
Na ADP Fertilizantes, em Santa Iria da Azóia, já a meio da manhã, uma trabalhadora garantia ao Observador que “o movimento não foi o mesmo” durante as primeiras horas dos turnos. Ali, numa indústria de maior dimensão, a adesão à greve foi visível, com os sindicatos a não avançar para já números definitivos. Questionada pelo Observador, a empresa também não respondeu ao pedido de informação sobre o número de grevistas.
Um piquete da CGTP esteve no local, mas só pelas 9h00 da manhã, já depois do horário de entrada da maioria dos funcionários. Depois das 10h00, Manuela (nome fictício), uma empregada da limpeza que entrava a essa hora ao serviço ainda tentou perceber que colegas apareceram para trabalhar mais cedo, para decidir se entrava ao serviço ou não, “Não estou feliz, mas só iria fazer greve se as outras colegas fizessem“, admite. Acaba por entrar pouco depois e picar o ponto.
▲ Na ADP fertilizantes "o movimento não foi o mesmo" de um dia qualquer
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Em Alhandra, já era perto da hora de almoço quando um grande grupo de trabalhadores saiu das instalações para a pausa a meio do dia. Quase todos usavam um fato de macaco preto e amarelo florescente, diferente da farda preta e laranja da Cimpor. Eram os empreiteiros e trabalham na fábrica de cimento em regime de contratação externa, por isso mesmo, não houve adesão à greve entre esse grupo.
João era dos poucos trabalhadores da empresa que, a essa hora, estava no exterior do complexo. De manhã passou pelo piquete de greve com “cerca de 20 trabalhadores”, mas tinha falado antes com outros colegas, chegando à conclusão que a greve só teria efeito se conseguissem parar as máquinas. E não seria o caso numa greve de apenas um dia, já que são precisas muitas horas para arrefecer gradualmente os fornos industriais de modo a não danificar os equipamentos, e depois reaquecê-los da mesma forma. O trabalhador admite que o facto de ter sido contratado recentemente, há poucos meses, também pesou na decisão de não aderir à greve.
Ao Observador, Fátima Messias, sindicalista da CGTP na Cimpor, admite que a adesão não foi tão significativa na greve geral relativamente a greves internas em que se luta por uma reivindicação direta, como o aumento de salários ou do número de dias de férias. Nos três turnos do dia, diz que a adesão “rondou os 40%”. Uma secção inteira parou — a da eletrónica — e diz que isso terá tido impacto no resto da produção.
▲ CGTP diz que adesão à greve na CIMPOR rondou os 40%
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
De um total de 45 trabalhadores, 20 aderiram à greve no turno das 8h00 da manhã. Através do piquete, ainda conseguiram que dois ou três trabalhadores que foram à empresa para perceber o nível de adesão acabassem por voltar para trás e regressassem a casa.