Da Elláda à Shqipëria: como o nome de um país pode gerar paixões e guerras /premium

09 Fevereiro 2019

A polémica em torno do topónimo “Macedónia” coloca excessiva ênfase num nome. Na verdade, muitos países e cidades são conhecidos por nomes diferentes daqueles que os próprios habitantes lhes dão.

Após 28 anos de polémica, a Grécia e a República da Macedónia conseguiram pôr-se de acordo quanto ao nome da segunda, que vai passar a chamar-se Macedónia do Norte, de forma a evitar ser confundida com a região grega com o mesmo nome (ver Macedónia: a história, a glória e as tragédias de um país que é muito mais que um nome). Na verdade, os gregos acham que os habitantes da República da Macedónia são uns arrivistas eslavos que só chegaram aos Balcãs no século VI e estão a tentar apropriar-se da gloriosa e antiquíssima história da Grécia. A disputa em torno do nome da região pode parecer absurda quando vista por habitantes de outros pontos do globo com uma história geopolítica e étnica relativamente simples e tranquila. Mas na complexa e conturbada região dos Balcãs, algo aparentemente tão inócuo como a designação formal de um país pode ser motivo para disputas apaixonadas.

Composição étnica dos Balcãs, c. 1890-1903

No caso da Macedónia do Norte, o nome agora acordado irá ser semelhante em todas as línguas do mundo, mas há muitos países em que o nome pelo qual são conhecidos internacionalmente é muito diferente do nome que os seus habitantes lhe dão. E os Balcãs são uma região em que essa discrepância é frequente.

Elláda

A sul da Macedónia do Norte, estende-se a Elláda, ou, mais formalmente, Elleniki Dimokratia, que o resto do mundo designa por Grécia, Greece, Gréce, Griechenland ou algo parecido – entre as raras excepções estão os noruegueses, que usam Hellas.

O nome corrente na Antiguidade era Hellas, mas os romanos passaram a designar todos os helenos com o nome de uma tribo em particular, os Graeci, e foi este nome que se impôs (há quem sugira que deriva de “Graikoi”, usado pelos vizinhos ilírios e de etimologia desconhecida).

Bandeira nacional da Grécia

Shqipëria

Fazendo fronteira com a Macedónia do Norte e a Grécia situa-se a Shqipëria, um nome que parece saído das Mil e uma noites. Mas a Shqipëria existe mesmo: é o país que os portugueses conhecem como Albânia e que na maioria das línguas europeias tem grafia similar.

Bandeira nacional da Albânia

No tempo dos romanos a Albânia correspondeu grosseiramente às províncias da Ilíria e da Dardânia, sendo os Albani (ou Albanoi) uma das tribos de ilírios mencionadas por Ptolomeu; os Albani persistiriam no latim medieval e dariam origem a “Albânia”. A sua origem está provavelmente no indo-eruropeu “alb” (montanha), já que o território é muito acidentado.

Quando o Império Romano se fraccionou nas componentes ocidental e oriental, a Albânia ficou sob controlo de Constantinopla. Conheceu nos séculos XIII-XIV uma existência semi-autónoma como Reino da Albânia, um estado auto-proclamado por Carlos de Anjou, um dos nobres europeus que usou o pretexto das Cruzadas e a debilidade do Império Bizantino para se assenhorear de territórios nos Balcãs. O reino fundado por Carlos de Anjou foi disputado por bizantinos e sérvios, mas a Albânia não ficaria nem para uns nem para outros: a partir de meados do séc. XV foram os turcos otomanos a tomar conta do território, apesar da resistência tenaz liderada pelo herói nacional albanês Skanderbeg (cujo nome albanês é Gjergj Kastriot – Jorge Castrioto (!) em português – sendo Skanderbeg a versão ocidentalizada do nome pelo qual era conhecido entre os turcos: Iskender Bey, “príncipe Alexandre”).

Skanderbeg, numa gravura tardia, c. 1648

Foi na época em que o território fazia parte do Império Otomano, por volta dos séculos XVI-XVII, que os seus habitantes começaram a designá-lo por Shqipëria ou “terra das águias” (de “shqipónjë” = águia).

A Albânia só se tornaria independente em 1912, na sequência de várias revoltas contra os turcos e das Guerras dos Balcãs (1912-12), mas o território que lhe foi atribuído deixou cerca de metade dos albaneses étnicos fora das suas fronteiras, espalhados pelo Kosovo e Macedónia. A Albânia foi um protectorado até 1921, Reino até 1925, República até 1946 (durante a II Guerra Mundial foi ocupada por italianos e, depois, por alemães), República Popular até 1976 e República Socialista Popular até 1991, ano em que voltou a ser só República.

Crna Gora

Mesmo a norte da Albânia fica Crna Gora (que se pronuncia, aproximadamente, “tsrna gora”), um país que é conhecido em boa parte do mundo como Montenegro (fora dos Balcãs, há alguma dificuldade em enfrentar combinações de consoantes como “crn”), que não é mais do que a adaptação, através do dialecto veneziano, do nome latino Mons Niger. Os turcos, que ocuparam a região durante séculos, chamam-lhe Karadağ, que significa o mesmo: “monte negro”, que será talvez uma alusão às encostas densamente cobertas de florestas.

Bandeira nacional do Montenegro

A região era, como a Albânia pré-romana, habitada por tribos ilírias e após a conquista romana passou a fazer parte da província da Dalmácia; durante o domínio bizantino chegou a ser conhecida como Dukjla, a partir do nome da cidade romana de Dioclea.

Como os albaneses, os montenegrinos nunca se conformaram com o domínio otomano e a sua revolta e subsequente vitória sobre os turcos na batalha de Grahovac (1858) acabou por levar ao reconhecimento da sua independência em 1878. O Reino de Montenegro só durou entre 1910 e 1918, sendo incorporado no Reino da Sérvia e, depois, na Jugoslávia – quando da dissolução desta, em 1992, fez parte de uma república federada com a Sérvia, separando-se desta após um referendo em 2006.

Levantamento montenegrino contra o ocupante otomano, pelo pintor sérvio Dura Jakšić, c. 1878

Hrvatska

A noroeste do Montenegro fica a Hrvatska, que os portugueses conhecem como Croácia e o resto do mundo por nome similar. Apesar de parecerem palavras completamente diferentes, Croácia (e as suas variantes) derivou da forma latinizada de Hrvatska, que por sua vez teve origem no servo-croata “hrbat”, que significa “cordilheira” – as montanhas são tema recorrente na toponímia dos Balcãs, cujo nome poderá, aliás, derivar do turco “balkan” que significa “cadeia montanhosa arborizada”.

Bandeira nacional da Croácia

Suomi

Muito a norte da ensolarada Grécia, mas partilhando as cores da sua bandeira, fica a húmida e brumosa Suomi, que, com excepção dos seus vizinhos do lado sul do Báltico – Lituânia e Letónia – o resto do mundo conhece por algo parecido a Finlândia (o nome formal é República da Finlândia – Suomen Tasavalta).

Bandeira nacional da Finlândia

São divergentes as opiniões sobre a origem de “Suomi”, mas a que propõe “suo” (turfeira) + “maa” (terra) soa razoável, já que não faltam turfeiras nestas paragens. “Finlândia” poderá vir de “finna” (“escama” em escandinavo teutónico, ou “suomu” em finlandês), que teria origem num tipo de vestuário usado pelas tribos finlandesas. Mas o historiador Tácito (56-117 d.C.) também chama “fenni” ao povo do norte da Finlândia que conhecemos como lapões – e que, para tornar tudo mais confuso, se chamam a si mesmos “sami”.

Tal como os três países anteriores, também a Finlândia passou boa parte da sua existência sob domínio estrangeiro – umas vezes a Suécia, outras a Rússia – e só se tornou independente em 1918, aproveitando-se do facto de a Rússia (futura URSS) estar demasiado ocupada com a guerra civil para dar atenção ao seu ex-grão-ducado.

“Pioneiros na Karelia”, pelo pintor finlandês Pekka Halonen, 1900. A região da Karelia ocupa um lugar de eleição no imaginário nacional finlandês, embora parte dela tenha sido perdida para a URSS em 1939-40

Latvia

O pequeno país na costa báltica que fica entre a Lituânia e a Estónia é designado pelos seus habitantes como Latvija (mais formalmente como Latvijas Republika), embora o resto da Europa lhe dê nome diferente – Letónia (português), Letonia (espanhol), Lettonie (francês), Lettonia (italiano), Lettland (alemão) – a partir da forma latinizada de Latvija cunhada por Henrique da Letónia (Latviešu Indrikis, em letão), um missionário católico do século XII que evangelizou os povos da costa báltica. Já a língua inglesa adoptou designação próxima do original: Latvia.

Bandeira nacional da Lituânia

Magyarország

Ter o nome de uma nação associado a Átila o Huno não é um bom cartão de visita, mas, nos últimos tempos, o Governo húngaro parece cada vez menos preocupado em causar boa impressão junto da comunidade internacional.

Bandeira nacional da Hungria

O nome pelo qual o resto do mundo conhece os húngaros vem de “ungri”, a forma latinizada do grego bizantino “oungroi”, que, por sua vez, virá de “On-Ogur” (“dez Ogurs”), nome pela qual se denominavam a si mesmas dez tribos Ogurs originárias do território ente o Volga e os Urais, que, sob o comando de Árpád (figura vista como o fundador da nacionalidade) se deslocaram, na viragem dos séculos IX-X, para a Planície da Panónia (a Panónia era uma província romana que corresponde grosseiramente à parte ocidental do actual território da Hungria). Por esta altura, os hunos já há muito tinham desaparecido da história: a morte de Átila, em 453, desencadeara uma encarniçada luta pela sucessão entre os filhos e o Império Huno, que tivera o seu centro na Hungria, desmoronara-se num ápice, vindo o seu espaço a ser ocupado pelos Ávaros, antes da chegada dos On-Ogur.

Embora breve, a carreira de Átila (“o flagelo de Deus”) e dos seus hunos ficou gravada a ferro e fogo na memória dos outros povos europeus, o que levou a que aqueles fossem associados ao povo que lhes sucedeu no mesmo território e houvesse quem se lhes referisse como “Hunnogur, os descendentes das hordas hunas” – foi assim que o seu nome ganhou um “h”.

Já os húngaros chamam ao seu país Magyarország, ou “terra dos magiares”, provindo “magyar” de “megyer”, o nome daquela entre as dez tribos de Ogurs que se tornou preponderante.

“O príncipe Árpád atravessa os Cárpatos”, detalhe de “A chegada dos magiares”, por Árpád Feszty, 1892-94

Hayastan

Hayk é uma figura lendária que seria neto de Jafé, um dos filhos de Noé, e que conduziu o seu povo numa luta contra Bel, um malvado gigante babilónio, que tentara submeter as gentes de Hayk. Hayk conseguiu matar Bel com uma flecha disparada de grande distância, o que fez debandar o exército do gigante. Hayk e os seus puderam então estabelecer-se tranquilamente no território de Ararat, que viria a ser conhecido pelo nome do seu mítico patriarca – mais tarde ganharia o prefixo persa “stan”, indicativo de lugar (como em Paquistão) e passaria a ser denominado por Haykstan (“terra de Hayk”), que evoluiria para Hayastan. Porém, esta denominação que só é válida para os seus habitantes, pois o resto do mundo conhece o país como Arménia.

O patriarca Hayk junto ao túmulo do gigante Bel, por Mkrtum Hovnatanian (1779-1846)

O termo “Arménia” surgiu pela primeira vez no século VI e embora existam muitas hipóteses para o explicar, nenhuma oferece solidez. A mais fantasiosa é de origem grega e associa os arménios à tribo dos Armen, cujo nome provém de Armenios, um dos Argonautas da expedição de Jasão em busca do Tosão de Ouro.

Bandeira nacional da Arménia

Eswatini

Entretanto, no passado dia 19 de Janeiro, o pequeno país encravado entre a África do Sul e Moçambique que até agora era conhecido em português como Suazilândia (ou, mais formalmente, por Reino da Suazilândia) e por nomes similares nas restantes línguas, passou a apresentar-se internacionalmente com nome similar ao que é usado “internamente”: Eswatini (Umbusu weSwatini, na língua Swazi).

Quer na versão antiga quer na nova, o nome do país tem a particularidade, partilhada com a Arábia Saudita, de o seu nome derivar de um governante do país – neste caso, o rei Mswati II, que reinou entre 1840 e 1868, e de quem o presente rei, Mswati III (que foi coroado em 1986), descende.

As razões invocadas para a mudança foram as frequentes confusões com a Suíça – Switzerland, em inglês – e o facto de “Suazilândia” ter sido um nome cunhado pela potência colonial – a Grã-Bretanha, que governou o país em regime de protectorado até 1968.

Bandeira nacional de Eswatini

Portugal toma a Alemanha

Salvo as capitais e as duas ou três cidades mais importantes de cada país, não é frequente que a grafia das cidades estrangeiras seja adaptada para português. A excepção é a Alemanha, cujas cidades ganham em português nomes que nem sempre são reconhecíveis.

Regensburg – a “cidade/fortaleza (burg) no [rio] Regen” –  transforma-se em Ratisbona, através de um recuo etimológico que vai até à Idade Média, quando a cidade se chamava Ratisbon (do celta Radasbona). Em espanhol, italiano, francês e inglês a cidade também tem sido conhecida pelo seu nome antigo.

Poucos serão os alemães capazes de reconhecer o nome de Mainz em português: Mogúncia. Embora não pareça, ambas (e também a Maguncia dos espanhóis e a Mayence dos franceses) provêm do topónimo Mogontiacum usado pelos romanos, que por sua vez vem do antropónimo celta Magontios (ou do deus celta Mogons, que era adorado pelos soldados romanos estacionados nas fronteiras setentrionais do Império).

Vista de Mainz, na viragem dos séculos XIX-XX

Aachen tem grafias ainda mais divergentes – em português é Aquisgrana (Aquisgrán para os espanhóis) e para ingleses e franceses é Aix-la-Chapelle – mas vai a ver-se e há água na origem de todos os topónimos. Aachen e Aix vêm de “aha”, que em alemão antigo significa “água” e “Aquisgrana” vem do nome da cidade sob ocupação romana, Aquis Granum, que alude a água (“acqua”) e a Grannus, deus celta das curas, que abençoaria as nascentes termais que deram fama à cidade.

Carlos Magno inspecciona obras em Aachen/Aix-la-Chapelle, cidade onde instalou a sua corte. Quadro de Jean Fouquet, c. 1455-60

Köln é outra das cidades alemãs que vê o seu nome transfigurado em português  para Colónia, o que não anda longe do francês e do inglês Cologne. Em todos os casos, o nome remonta ao topónimo latino Colonia Agrippinensis, ou seja uma colónia baptizada em homenagem a Agripina, irmã de Calígula e mãe de Nero, que nascera nestas paragens e solicitou ao marido, Cláudio, que baptizasse a colónia recém-fundada com o seu nome. A água-de-Colónia (eau de Cologne) vem do nome da cidade, pois foi aqui que o perfumista italiano Giovanni (depois Johann) Maria Farina criou este tipo de fragrância.

Colónia/Köln em 1411

Conisberga é um infeliz aportuguesamento de Königsberg (“monte do rei”), nome que, desde 1946 deu lugar a Kaliningrad. A cidade foi fundada no século XIII por Otaker (Ottokar) II, rei da Boémia, e começou por chamar-se Královec em honra ao rei (“král”, em checo); foi refundada em 1255 pelos Cavaleiros Teutónicos, como Königsburg mas com o tempo o “burg” (fortaleza) transformou-se em “berg “ (monte, montanha). Permaneceu alemã até 1945, quando passou a ser uma cidade soviética, no âmbito da anexação de parte da antiga Prússia Oriental; em Julho de 1946, Stalin rebaptizou a cidade como Kaliningrad em honra a Mikhail Kalinin, falecido no mês anterior e que fora suficientemente dócil e inofensivo para permanecer no cargo de Secretário do Presídio do Soviete Supremo da URSS entre 1919 e a sua morte. Apesar da aparência imponente do título e de este corresponder, formalmente, ao de chefe de Estado da URSS, o papel efectivo de Kalinin na tomada de decisão era nulo – em A festa da insignificância, Milan Kundera sugere que foi como piada de mau gosto que Stalin deu o nome de uma figura tão insignificante a uma cidade com tão rica história.

O castelo de Königsberg, c. 1880-1890

Leipzig é Lípsia em português, mais uma vez por influência do nome latino por que foi conhecida na Idade Média. Lübeck converte-se em Lubeca e Tübingen em Tubinga, cuja sonoridade mais facilmente se associa ao Mali ou ao Burkina Faso. Ainda mais desagradável ao ouvido é Estetino, designação portuguesa para a cidade portuária polaca de Szczecin, na embocadura do Oder, que também foi, durante algum tempo sueca e alemã – sob o nome de Stettin.

Szczecin/Stettib, c. 1890-1900

Pela Europa fora

Uma das cidades cujas designações internacionais são mais divergentes é Den Haag, a sede do governo holandês, que é conhecida como Haia em português, La Haya em espanhol, La Haye em francês, The Hague em inglês. O seu nome original era ‘s Gravenhage, “a sebe do conde”, por a cidade ter nascido, em 1248, perto de um terreno vedado por sebes que pertencia ao conde Guilherme II.

Rua de Haia, por Sybrand van Beest, c. 1650

A pronúncia de nomes holandeses é árdua para os povos meridionais (e vice-versa), o que explica que Nijmegen (que soa a algo como “naimehen”) seja designada em português (e espanhol) por Nimega e em francês por Nimègue. O topónimo fez um longo caminho desde a sua origem: os batavos, os habitantes da zona da embocadura do Reno à chegada dos romanos, constituíram numa aldeia junto a um campo militar romano, a que foi dado o pouco imaginativo nome de Oppidum Batavorum (“povoação dos batavos”); o imperador romano Trajano rebaptizou-a em 104 d.C. como Noviomagus Batavorum, ou seja, “Novo Mercado dos Batavos” e Noviomagus evoluiu até dar Nijmegen.

Ainda na Holanda, Groningen deu Groninga em português e espanhol e Groningue em francês.

O rio Valkhof em Nijmegen, por Aelbert Cuyp, 1654

A maioria das cidades espanholas tem grafia idêntica em português e espanhol, mas entre portugueses está convencionado que é pedante pronunciá-las à maneira espanhola. Uma das poucas alterações de grafia envolve Zaragoza, que em português passou a Saragoça, e cuja etimologia regista uma curiosa evolução: a cidade celtibera de Salduba foi conquistada pelos romanos e rebaptizada como Caesarea Augusta, nome que os conquistadores árabes adaptaram como Saraqustah e que viria a dar Zaragoza.

Vista de Zaragoza/Saragoça, por Juan Bautista Martínez del Mazo, 1647

Em tempos, Oxford e Cambridge foram designadas em português por Oxónia e Cantabrígia, a partir dos seus nomes latinos medievais (que também estão na raiz do adjectivo inglês “oxonian”). Oxford, que, como Cambridge, ganhou, graças à universidade, uma aura de erudição e elitismo, tem uma das mais prosaicas etimologias que possa imaginar-se: significa “vau dos bois” (oxen + ford). Cambridge tem origem mais “nobre”: vem de Grantebrycge, ou seja “ponte no [rio] Granta”; quando a cidade passou a chamar-se Cambridge, já sob domínio normando, o rio mudou de nome, arrastado pela cidade, e passou a chamar-se Cam.

Vista de Oxford, c.1890-1900

O uso de Oxónia e Cantabrígia caiu no olvido, apenas sendo defendido pelos ultra-puristas da língua portuguesa. O aportuguesamento sistemático de topónimos estrangeiros era corrente num tempo em que Portugal era um país fechado e provinciano, mas é difícil de defender numa era cosmopolita, pois faz com que aqueles deixem de ser reconhecíveis. Por vezes, a confusão instala-se dentro da própria língua: em português é frequente que a cidade ucraniana de Kharkiv (Carcóvia) seja confundida com a cidade polaca de Kraków (Cracóvia).

Não há motivo para que troquemos Londres por London, ou para que pronunciemos Paris como “pári” (o que seria entendido como snobismo), ou para que abandonemos Albânia em favor de Shqipëria (o que nos aproximaria dos albaneses mas nos afastaria do resto do mundo), mas Oxónia, Lípsia, Conisberga ou Francoforte merecem repousar na poeirenta secção dos atavismos vocabulares.

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