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[Esta é a 5.ª e última parte de uma história dos nomes das marcas de relógios, que segue, aproximadamente, a ordem cronológica da sua fundação (real ou mítica). As partes anteriores podem ser lidas aqui:]

Seiko

O Japão tem sido o único país a desafiar seriamente o domínio helvético na indústria relojoeira. Uma das mais antigas companhias japonesas no ramo é a Seiko, que remonta a uma oficina de reparação de relógios aberta em 1881, em Tóquio, por Kintarō Hattori (1860-1934), então com apenas 21 anos. Hattori só se lançou na produção de relógios em 1892, sob a marca Seikōsha (“casa requintada”), que seria convertida em Seikō em 1924 (a designação Seikōsha seria mantida durante algum tempo como uma divisão da Seiko). Hattori começou por fabricar relógios de parede, estendeu-se aos relógios de bolso e em 1913 estreou-se nos relógios de pulso.

Em 1960, a Seiko entrou no campeonato da relojoaria de luxo, lançando a linha Grand Seiko e, em 1964, ao ser escolhida para cronometrista oficial dos Jogos Olímpicos de Tóquio, viu reforçada a sua projecção internacional. Mais decisivo ainda para o triunfo da Seiko foi o lançamento, em 1969, do Astron 35SQ, o primeiro relógio de pulso de quartzo no mercado – embora fosse rapidamente suplantado por modelos mais aperfeiçoados, representou o dealbar de um novo período da história da relojoaria.

Seiko Astron 35SQ (1969)

A relojoaria suíça designa os anos 70-80 como a “crise do quartzo”, mas do ponto de vista da relojoaria japonesa foi um período de afirmação e pujança e a Seiko esteve na linha da frente da “vaga japonesa”, com inovações como o primeiro relógio digital multifunções, em 1975; o primeiro relógio-televisão, em 1983; o primeiro relógio-computador, em 1984; e o primeiro relógio de quartzo automático (i.e., em que energia é gerada pelo movimento natural do utilizador), em 1988.

A Seiko desdobra-se hoje pelos ramos da joalharia, da electrónica e dos semi-condutores, tem 12.000 trabalhadores e uma receita anual de 1900 milhões de euros e continua a ser dirigida pela família Hattori. Produz relógios com preços que vão de menos de 100 euros a mais de meio milhão de euros, que são comercializados sob diversas marcas para lá da Seiko: umas são sub-marcas da Seiko, como é o caso da Grand Seiko, da Credor (criada em 1974, gama alta), da Alba (criada em 1979, clientela jovem) e da Lorus (criada em 1982, gama baixa), e outras resultaram de aquisições, como a Orient (fundada em 1901, em Tóquio) e a Pulsar (fundada em 1971 pela Hamilton Watch Company). Curiosamente, apesar de ter sido a lançadora do relógio de quartzo, a Seiko acabou por recentrar a sua actividade nos relógios mecânicos de gama média e alta, o que, dadas as cicunstâncias actuais do mercado, com os relógios de quartzo baratos em quebra vertiginosa devido à difusão dos smartphones e smartwatches, acabou por revelar-se uma opção acertada.

A loja principal da Seiko em Ginza, Tóquio

Citizen

A Citizen remonta a 1918, com a criação em Tóquio do Instituto de Investigação de Relojoaria Shokosha, que em 1924 lançou o seu primeiro relógio de bolso – um destes foi oferecido a Shinpei Gotō, presidente da câmara de Tóquio, que o baptizou como “Citizen”, reflectindo a esperança de que que o relógio, então limitado a uma elite, se tornasse acessível ao cidadão comum. O nome Citizen foi depois atribuído à empresa criada em 1930 por investidores suíços e japoneses a partir do referido instituto.

A Citizen Watch Co. (designação introduzida em 1948) foi crescendo – sobretudo no sector do quartzo – até se tornar num das maiores empresas da relojoaria mundial, com 15.000 trabalhadores e um volume anual de vendas de 2500 milhões de euros.

Pelo caminho, adquiriu algumas marcas históricas, como a Arnold & Son (fundada em 1764, em Londres), a Bulova (fundada em 1875, em Nova Iorque), a Alpina (fundada em 1883, em Genebra) e a Wittnauer (fundada em 1885, em Nova Iorque); da sua carteira fazem também parte marcas mais recentes, como a Caravelle (fundada nos EUA em 1962), a Q&Q (fundada em 1976, no Japão e cujo nome significa “Qualidade e Quantidade” – não se porta mal no segundo domínio, pois já produziu 500 milhões de relógios), a Frédérique Constant (fundada em 1988, em Genebra), a Campanola (fundada em 2000, como sub-marca da Citizen) e a Ateliers de Monaco (fundada em 2008, em Genebra, e que se inspira na aura de luxo, ócio e aristocracia associada ao principado do Mónaco).

Anúncio à gama de relógios de quartzo Citizen Crystron, 1976

Casio

A Casio é um gigante com 11.000 empregados e um volume de negócios anual de 2.240 milhões de euros e que produz relógios, calculadoras, telemóveis, máquinas fotográficas e instrumentos musicais, mas os seus primórdios não poderiam ter sido mais humildes. O primeiro produto de sucesso da empresa de peças para microscópios criada em 1946, em Tóquio, por Tadao Kashio, era um anel de suporte para cigarros (yubiwa), concebido pelo seu irmão Toshio, que permitia manter as mãos livres enquanto se fumava e fumar os cigarros até ao derradeiro milímetro (uma vantagem não despicienda num país arrasado pela guerra e mergulhado na miséria). O lucro obtido com o yubiwa foi investido pelos quatro irmãos Kashio (os dois mencionados, mais Kazuo e Yukio) para desenvolver a primeira calculadora electrónica compacta. Em 1957, a empresa foi rebaptizada como Casio Computer Co., sendo a palavra “Casio”, para os japoneses, homófona de Kashio (pronunciam-se ambas como “káshió”), ainda que os portugueses a pronunciem como “cázio” e os anglófonos como “késiou”.

Anúncio à linha Casiotron

A Casio lançou-se nos relógios de pulso de quartzo em 1974, com o Casiotron e, após ter introduzido nestes uma série de funções até então inéditas, consolidou a sua posição no sector com a linha desportiva ultra-resistente G-Shock (de “Gravitational Shock”), iniciada em 1983 com o DW-5000C. Este foi apresentado com um spot televisivo em que o relógio tomava o lugar do disco (puck) que é jogado com o stick no hóquei no gelo – o anúncio foi desvalorizado como publicidade enganosa, mas quando um canal televisivo decidiu fazer um teste em que o G-Shock era submetido aos mesmos tratos de polé que sofria no anúncio, descobriu que o relógio saía deles a funcionar, o que contribuiu para criar a aura de durabilidade do G-Shock.

[Anúncio de 2018 ao G-Shock GMW-B5000, retomando o conceito do anúncio de 1974:]

O G-Shock conseguiu impor-se não só entre desportistas e entusiastas de actividades radicais, como entre quem faz trabalho burocrático em ambiente de ar condicionado (onde o maior risco à integridade física são os cortes de papel), mas gosta de dar a ideia de que possui espírito rebelde e aventureiro. Com o seu design maciço e ostensivamente abrutalhado (nos antípodas do conceito de relógio ultra-fino), que sugere que é capaz de trepar a serras escarpadas, atravessar rios caudalosos e conviver bem com a lama, o G-Shock está para os relógios como os SUVs estão para os automóveis.

Pulsar

A Pulsar ocupa hoje um lugar discreto e poucos fora do mundo dos aficionados da relojoaria terão ouvido falar dela, mas desempenhou um papel decisivo na história. Tudo começou em 1968, quando Stanley Kubrick, estando a rodar 2001: Odisseia no espaço, entendeu que no mundo do futuro não haveria lugar para relógios com ponteiros e encomendou como adereço um relógio digital à Hamilton Watch Company.

A Hamilton tinha sido fundada em 1892 em Lancaster, na Pennsylvania, e, na viragem dos séculos XIX-XX, chegara a representar mais de metade do mercado americano. Em 1957, a Hamilton protagonizara um momento inovador da história da relojoaria, ao lançar o Electric 500, o primeiro relógio eléctrico a ser comercializado, mas este não conseguiu impôr-se aos relógios mecânicos, pese embora a sua superior precisão. A Hamilton ainda tentara implantar os relógios eléctricos no mercado japonês, esperando que este fosse mais aberto às novidadves, e estabeleceu um consórcio com a firma japonesa Ricoh, mas os resultados foram decepcionantes e a parceria dissolveu-se em 1965. Em 1966, com os negócios a correr de feição menos favorável, a Hamilton fundira-se com a suíça Büren e no final da década estava a consumar a transição de todas as operação dos EUA para a Suíça.

A introdução do relógio de quartzo, pela Seiko, em 1969, deixou o mundo relojoeiro em polvorosa e a Hamilton entendeu que o relógio construído a pedido de Kubrick podia ser uma boa pista para os novos tempos, pelo que, em 1970, apresentou um protótipo (em ouro de 18 quilates) do primeiro relógio de quartzo com mostrador digital com tecnologia LED (que, note-se, não foi o primeiro relógio digital, pois já tinham surgido relógios mecânicos digitais no final do século XIX, nomeadamente o IWC Pallweber). O protótipo foi visto pela primeira vez no Tonight Show, de Johnny Carson, que, quando soube que cada exemplar custaria 1500 dólares (10.000 dólares em valores actuais), comentou que “o relógio marca precisamente a hora em que o dono ficará falido” (na verdade, o modelo que chegou ao mercado em 1972 custava 2100 dólares, ou seja 14.000 a valores actuais). Carson também observou que “quem tem dinheiro suficiente para comprar um relógio destes não precisa de cumprir horário algum”.

Pulsar LED de 1970: o primeiro relógio electrónico digital da história a ser comercializado

Para o desenvolvimento e produção deste relógio, a Hamilton criou uma divisão à parte e cunhou uma nova marca para a sua comercialização, a Pulsar, um nome bem adequado à aura futurista do relógio e à sua génese “espacial”, já que “pulsar” é o termo que designa as estrelas de neutrões que emitem intensa radiação electro-magnética em pulsações breves e regulares, um fenómeno que os astrónomos tinham descoberto recentemente.

A Hamilton foi absorvida pelo grupo suíço SSIH em 1971 e passou por uma série de mutações, que acabaram com a sua inclusão no grupo Swatch. Entretanto, o desempenho da Pulsar começou a perder brilho a partir de 1975, com a proliferação de relógios LED baratos produzidos pelos japoneses e pela Texas Instruments, pelo que, após mudar de mãos algumas vezes, foi extinta em 1978. Em 1984 a japonesa Seiko adquiriu os direitos da marca Hamilton e voltou a comercializar relógios sob o nome Pulsar.

Raymond Weil

A Raymond Weil faz parte do círculo da relojoaria suíça de luxo, mas não tem os pergaminhos das empresas acima mencionadas, pois só foi criada em 1976, em Genebra. Os seus fundadores foram Raymond Weil e Simone Bédat e a maior parte das suas linhas foi baptizada a partir de personagens de óperas célebres – Fidelio (Beethoven), Othello (Verdi), Traviata (Verdi), Parsifal (Wagner), Don Giovanni (Mozart), Nabucco (Verdi) – ou faz referências genéricas ao mundo da música clássica – Allegro, Maestro, Toccata.

Raymond Weil Parsifal 7260

Hublot

É mais uma representante do luxo suíço de nova geração: foi fundada em 1980, em Nyon, pelo italiano Carlo Crocco, vindo dos relógios Breil. Como indicação da atenção que a Hublot presta aos detalhes, só a pulseira do primeiro modelo da Hublot custou (diz-se) três anos de pesquisa (este esmero é um argumento invocado amiúde para justificar o absurdo de um pequeno dispositivo de medida do tempo custar mais caro do que um automóvel novo). A ascensão da Hublot foi rápida: hoje tem 80 lojas espalhadas pelo mundo e detém uma quota no mercado da relojoaria de luxo de 2.2%, o que a coloca no 12.º lugar do ranking. Desde 2008 que faz parte do grupo LVMH.

Franck Müller

Foi fundada em Genebra em 1992 por Franck Müller (n.1958) e impôs-se rapidamente no segmento de luxo e ultra-luxo, para o que tem contribuído o facto de os seus relógios terem surgido nos pulsos de celebridades como Arnold Schwarzenegger, Cristiano Ronaldo, David Beckham, Elton John, José Mourinho, Kanye West, Kim Kardashian e Paris Hilton. A marca tem como divisa “mestre das complicações” e, com efeito, têm sido os modelos mais extravagantes e complexos a chamar as atenções: o expoente da marca está no Aeternitas Mega 4, surgido em 2009, uma máquina com 36 complicações, 18 ponteiros e 1483 peças e que se vende por 2.6 milhões de euros, preço que faz dele o relógio mais caro do mundo (entre relógios novos). A designação “Aeternitas” talvez seja uma alusão ao período de tempo de que um trabalhador que recebe o salário mínimo precisa para poder comprar este modelo.

Franck Müller Aeternitas Mega 4

Richard Mille

Foi fundada em 2001, em Les Breuleux, no Jura, por Richard Mille e Dominique Guenat. O primeiro tinha experiência na gestão na área da relojoaria desde 1974, o segundo representava a 3.ª geração da família Guenat à frente dos destinos da firma de relojoaria Guenat SA Montres Valgine, fundada em 1900 por Ali Guenat. A Guenat ficou, pela associação com Mille, com o encargo da concepção e fabrico dos relógios comercializados sob a marca Richard Mille.

O primeiro modelo, o RM 001 Tourbillon, surgiu em 2001 e a marca rapidamente se impôs nos segmentos do luxo e ultra-luxo, nomeadamente com o RM 008 Tourbillon, de 2003, que custa meio milhão de euros e que a marca apresenta como “um dos mais complexos objectos jamais criados”. Aparentemente, tem havido muitos milionários a dar crédito aos “marqueteiros” da empresa, pois, apesar de ser muito recente, por comparação com as marcas históricas, a Richard Mille tem, vindo a subir  no ranking da relojoaria de luxo: era 10.ª em 2017 e chegou a 7.ª em 2021, com uma quota de mercado de 2.7%.

Richard Mille RM 001 Tourbillon, de 2001

Swatch

Há que distinguir entre a marca Swatch e o Swatch Group. O Swatch Group é um colosso da indústria relojoeira suíça, resultante da fusão, em 1983, de dois gigantes agonizantes: um era a ASUAG (Allgemeine Gesellschaft der Schweirischen Uhrenindustrie, i.e. Sociedade Geral da Indústria Relojoeira Suíça), constituída em 1931 e que congregava fornecedores de movimentos e peças para inúmeras marcas, nomeadamente a ETA Manufacture Horlogère (ver entrada sobre Eterna), um fabricante de “movimentos” cuja maquinaria move inúmeros modelos de relógios das mais variadas gamas e marcas; outro era a SSIH (Societé Suisse pour l’Industrie Horlogère), resultante da fusão, em 1930 da Omega com a Tissot. As perspectivas eram sombrias e a ASUAG e a SSIH pareciam não ter outra saída que não a liquidação, mas o investidor libanês Nicolas Hayek, que fora chamado como consultor, defendeu que os dois grupos fossem fundidos e reestruturados. Hayek acabou por conquistar participação maioritária no grupo resultante da fusão, que fora baptizado como SMH (Societé de Microélectronique et d’Horlogerie) e passou a Swatch Group em 1998.

Ao longo dos anos, o Swatch Group tem vindo a adquirir várias marcas históricas e a revitalizar a sua imagem e desempenho, e engloba hoje uma impressionante constelação de marcas, assim repartidas: Breguet e Harry Winston (gama de luxo obsceno); Blancpain, Glashütte Original, Jaquet Droz, Léon Hatot e Omega (gama de luxo); Longines, Rado e Union Glashütte (gama alta); Balmain, Certina, Hamilton, Longines, Mido, Tissot e o sector de relógios da Calvin Klein (gama média); a marca Swatch e a marca de relógios para crianças Flik Flak (gama baixa).

A criação da SMH foi uma forma de, pela união e pela coordenação de estratégias, a relojoaria suíça tentar responder à profunda crise que atravessava, em resultado da competição dos relógios de quartzo baratos fabricados no Japão; a outra resposta foi a criação, também em 1983, da marca Swatch, liderada por Ernst Thomke (vindo da ETA SA) e vocacionada para os relógios de quartzo, fabricados em plástico, baratos, de design minimal, colorido e irreverente, e direccionados para um público jovem (ou que gosta de imaginar-se jovem). O nome Swatch virá de “Swiss watch”, ou, segundo outras fontes, de “second watch”, aludindo ao seu carácter “descartável”.

Swatch GB101 de 1983

A marca Swatch fez um esforço para reduzir o número de peças e automatizar o processo de fabrico, de forma a permitir baixar os custos de produção, sem prejudicar a durabilidade. O baixo preço (cerca de 30-40 euros, nos modelos dos primeiros anos) e o formidável ritmo de lançamento de novas colecções levou a que os Swatch passassem a ser vistos menos como um dispositivo de medição do tempo do que como um adereço coleccionável. Os Swatch foram diversificando-se nos materiais e no design (e a gama de preços também se estendeu para cima), embora sem se afastar muito da estética pop, e os consumidores foram respondendo entusiasticamente: em 1984 a Swatch já tinha vendido 3.5 milhões de relógios, em 1985 chegou aos 10 milhões, em 1992 eram 100 milhões e em 2006 as vendas acumuladas atingiam 333 milhões. O que ajuda a explicar que quando Hayek faleceu, em 2010, tivesse uma fortuna pessoal de 3900 milhões de dólares.

Swatch SFK100 Jelly Skin, de 1998, um variação do conceito do Jelly Watch translúcido lançado em 1986

Não contente com a revolução trazida à indústria relojoeira, Hayek ficou também na história da indústria automóvel, ao ter começado a acalentar, em 1982, o conceito de um automóvel ultra-compacto, “giro” e “moderno”. Este ideia seria concretizada em Outubro de 1998 com o lançamento de um veículo produzido em parceria com a Daimler-Benz. Hayek pretendera que o nome do veículo fosse Swatchmobile ou Swatch Car, mas a Mercedes entendeu que tais opções vinculariam o veiculo excessivamente ao mundo da relojoaria e a opção final foi Smart (supostamente a partir de “Swatch Mercedes Art”). Escassas semanas após o lançamento oficial do veículo, a Daimler-Benz adquiriu os 49% de capital que estavam nas mãos Swatch e a Smart passou a ser uma subsidiária da Mercedes.

Quem é dono de quê

O Swatch Group não é o único mega-grupo da indústria relojoeira. Na verdade, parte da estonteante diversidade de marcas de relógios encontra-se arrumada em cinco grandes grupos: Swatch, LVMH, Richemont, Movado e Fossil.

A multinacional francesa LVMH (Louis Vuitton-Moët-Hennessy), constituída em 1987, detém as marcas Bulgari, Celine, Chaumet, Dior, Fred, Hublot, Louis Vuitton, TAG Heuer e Zenith. A LVMH detém também dezenas de marcas de prestígio nos ramos das bebidas espirituosas, vestuário, perfumes, cosmética, hotelaria e iates de luxo, o que significa que pode levar-se uma vida regalada sem sair do universo LVMH (para mais detalhes sobre a LVMH ver a entrada sobre Louis Vuitton em De onde vêm os nomes das marcas? Vestuário 2).

A suíça Richemont, fundada em 1988 por Johann Rupert, detém as marcas A. Lange & Söhne, Baume & Mercier, Buccelatti, Cartier, IWC Schaffhausen, Jaeger-LeCoultre, Montblanc, Panerai, Piaget, Roger Dubuis e Vacheron Constantin. A Richemont é o 3.º maior grupo na área do luxo, atrás da LVMH e da Estée Lauder Companies, e o seu fundador é o 2.º homem mais rico da África do Sul, com fortuna pessoal estimada em 5400 milhões de dólares.

A Movado, que está hoje sediada em Paramus, New Jersey (um subúrbio de Nova Iorque que está longe de ter o “cachet” de Genebra, Paris, Milão ou da baixa de Manhattan), tem raízes num histórico fabricante de relógios fundado em 1881, em La Chaux-de-Fonds, Suíça, por Léopold-Achille-Isidore Ditisheim, com o nome de LAI Ditisheim & Frères, rebaptizado como Movado em 1905 e comprado pela North American Watch Company em 1983. A Movado detém as marcas Concord, Ebel, Movado, MVMT e Olivia Burton e as secções de relojoaria das marcas de vestuário e acessórios Coach, Hugo Boss, Lacoste, Rebecca Minkoff e Tommy Hilfiger e ainda os relógios da Scuderia Ferrari.

Um dos primeiros relógios a ostentar a marca Movado, c.1900

A multinacional americana Fossil Group, que data de 1984, detém as marcas Abacus, Fossil, Michele Watch, Misfit, Relic, Skagen Denmark, WSI, Zodiac e as secções de relojoaria das marcas de vestuário e acessórios Armani Exchange, Burberry, Chaps, Emporio Armani, Marc Jacobs, Michael Kors e Tory Burch e estabeleceu uma parceria com a BMW para a concepção e fabrico de smartwatches (que estavam anunciados para 2019 mas ainda não apareceram, o que será motivo de angústia para muitas “fashion victims”).

Outro grupo relevante para a relojoaria de luxo, embora sem a dimensão do quinteto acima mencionado, é a Kering, que reúne as marcas históricas suíças Girard-Perregaux, Ulysse Nardin e JeanRichard e as secções de relojoaria da Boucheron, Gucci e outras marcas de moda.

Boucheron Collaborations Ladyhawke Tourbillon (2010): tem 833 diamantes, custa 220.000 dólares e até pode ser usado para saber que horas são

O grupo CityChamp, de Hong Kong (denominado China Haidian até 2014) detém marcas históricas suíças como a Eterna (fundada em 1856, em Grenchen), a Rotary (fundada em 1895, em La Chaux-de-Fonds), a Dreyfuss & Co. (fundada em 1925) e a Corum (fundada em 1955, em La Chaux-de-Fonds) e “ressuscitou” a J&T Windmills, de Joseph Windmills e do seu filho Thomas, que esteve activa em Londres entre 1671 e 1737 (não existe relação alguma entre a antiga e a nova J&T Windmills, trata-se de um ludíbrio análogo ao da JeanRichard). A CityChamp inclui também marcas menos antigas e prestigiadas, como a Rossini (fundada em 1984, em Singapura) e a Ebohr (fundada na China, em 1991), bem como uma marca suíça recente, a Codex (fundada em 2009).

O Invicta Watch Group com sede em Hollywood (a da Florida, não a da Califórnia) detém as marcas históricas suíças Invicta (fundada em 1837, em La Chaux-de-Fonds), S. Coifman (fundada em 1904, em Chiasso) e Glycine (fundada em 1914, em Bienne) e a TechnoMarine (fundada em 1997).

O Festina Group, criado em 1985, detém as marcas históricas suíças Perrelet (fundada em 1777, em Neuchâtel), Festina (fundada em 1902, em La Chaux-de-Fonds), Jaguar (fundada em 1938) e Candino (fundada em 1947) e ainda a Lotus e a Calypso (sub-marcas da Festina, fundadas em Espanha em 1980 e 1996, respectivamente).

Abraham-Louis Perrelet (1729-1826), fundador da Perrelet e inventor, em 1777, do relógio automático

Os cinco grandes grupos de relojoaria têm perfis diversos: a LVMH e a Richemont estão concentrados no segmento de luxo, o Swatch Group cobre todo o espectro de preços, e o Fossil Group e a Movado concentram-se nas gamas média e baixa. Claro que a hierarquização das gamas é matéria assaz subjectiva e o facto de haver relógios que custam meio milhão de euros enviesa inevitavelmente as perspectivas, pois leva a que se classifique um relógio de 300 euros como de “gama média”, o que se torna particularmente absurdo quando se considera que qualquer relógio de quartzo de 20 ou 30 euros desempenha satisfatoriamente as funções essenciais que se esperam de um relógio. O enviesamento de percepção devido aos preços exorbitantes de alguns modelos é tal que uma marca como a Ebel, cujos preços oscilam entre os 1000 e os 5000 euros, não seja classificada no “luxo”, sendo antes remetida para o “luxo acessível”, termo corrente entre “fashion bloggers”, “gurus de lifestyle” e “influencers”, que não se dão conta de que “luxo” e “acessibilidade” são conceitos opostos: luxo implica exclusividade, se é acessível, deixa de ser luxuoso.

Tempus fugit velut umbra

Muitos dos que adquirem regularmente relógios de luxo afirmam que não são impelidos pelo consumismo ou pelo exibicionismo, sendo antes guiados pela racionalidade: relógios de luxo são um sólido investimento financeiro, sobretudo em tempos de taxas de juro negativas e de volatilidade no mercado de acções como aqueles em que vivemos. Os entendidos em relógios recomendam que se comprem Rolex, Patek Philippe, Audemars Piguet e TAG Heuer, pois são marcas que tendem a ganhar valor com a passagem dos anos, sobretudo se forem de edições limitadas. Alguns especialistas recomendam mesmo modelos específicos como sendo susceptíveis de valorização: Rolex Submariner, Rolex Explorer 2016, Tudor Heritage Black Bay, Omega Seamaster 300, TAG Heuer Carrera…

Todos os relógios, sejam eles baratos ou dispendiosos, tornam perceptível a passagem do tempo, pelo que deveriam dar-nos uma consciência mais aguda da efemeridade da nossa existência e da vanidade das nossas ambições e porfias e inculcar-nos humildade. Não é por acaso que os relógios de antanho – sobretudo os de sol – vinham acompanhados de inscrições (quase sempre em latim) que recordavam quem os consultava da sua condição: “Utere, non reditura” (Usa [a hora], pois ela não torna), “Lente hora, celeriter anni” (A hora passa lenta, os anos, depressa), “Meam vide umbram, tuam videbis vitam” (Olha a minha sombra e verás a tua vida), “Omnes vulnerant, ultima necat” (Todas as horas ferem, a última mata), “Tempus fugit velut umbra” (O tempo foge como uma sombra).

Relógio de sol de 1747 na igreja de St. Buryan, Cornualha, com a divisa “Pereunt et imputantur” ([As horas] são consumidas e debitadas [na nossa conta]”), extraída de um texto do poeta romano Marcial (Marcus Valerius Martialis)

A atmosfera que rodeia os relógios de luxo do nosso tempo não poderia estar mais afastada desta perspectiva e embora a publicidade a algumas marcas históricas pareça exaltar os valores da perenidade e da tradição, na prática também elas seguem as estratégias típicas da sociedade de consumo, bombardeando incessantemente o mercado com novos modelos. A energia que movimenta os relógios pode ser a corda, uma pilha, a energia solar ou o movimento do pulso, mas as verdadeiras forças motrizes da relojoaria de luxo são a ostentação e a vaidade.