De símbolo de status passaram para o pulso das pessoas comuns, até que os telemóveis os tornaram redundantes, mas luxuosos. Esta é a história dos relógios e das marcas que os fabricam.
Cada língua tem as suas particularidades: enquanto em português “relógio” designa qualquer dispositivo de medição do tempo, a língua inglesa usa o termo “clock” para relógios em geral e reserva “watch” para os relógios portáteis. Esta é a 1.ª parte de uma história dos relógios em cinco partes, que contempla sobretudo os relógios portáteis, pois foram estes que se tornaram dominantes a partir do século XIX, e que acompanha a marcha das principais marcas, por ordem cronológica (aproximada) da sua fundação. É uma história que decorre em boa parte na Suíça (por razões que envolvem conflitos religiosos) e que se desviou do propósito inicial de providenciar uma medição fidedigna da passagem do tempo e passou a ser impulsionada por critérios de moda e status social.
Dando corda ao relógio
Os relógios de sol, de água (clepsidras) e de areia (ampulhetas) são conhecidos há milhares de anos em diferentes civilizações, mas foi preciso esperar pelo século XIII para que, nas catedrais europeias, começassem a surgir relógios mecânicos, em que a energia necessária ao funcionamento provinha da acção da gravidade sobre um sistema de pesos. Por esta altura, a relojoaria e a astronomia andavam intimamente ligadas, pois estes avanços nos mecanismos de relojoaria medievais serviam também para simular o movimento dos corpos celestes e muitos relógios das catedrais combinavam as funções de dar horas – chamando para os ofícios religiosos – e de replicar o movimento das esferas celestes.
Relógio astronómico concebido e instalado em 1473 por Bartolomeo Manfredi, na Torre dell’Orologio, na Piazza delle Erbe, Mântua. A excelência do trabalho de Manfredi é atestada pelo facto de o relógio ter funcionado durante os seus primeiros 93 anos sem uma avaria
A primeira menção conhecida a um relógio portátil envolve alguém que combinava as funções de matemático, astrónomo e relojoeiro, o italiano Bartolomeo Manfredi (não confundir com o pintor homónimo, um discípulo de Caravaggio). Manfredi, que iria construir um magnífico relógio astronómico para Ludovico III Gonzaga, Marquês de Mântua (de 1444 a 1478), presenteou, em Novembro de 1462, Federico Gonzaga, filho de Ludovico, um relógio de bolso, que, garantia na carta que acompanhava o presente, era superior ao que o Duque de Modena possuía. Por aqui se vê que, mal o conceito de relógio pessoal nascera, já estava inquinado pela competição e pela necessidade de afirmação – factores que se tornariam absolutamente preponderantes nos relógios de luxo dos séculos XXI, uma vez que estes deixaram de desempenhar a função de medir o tempo, que foi delegada numa constelação de gadgets electrónicos.
Federico Gonzaga (1441-1484), uma das primeiras pessoas a ter um relógio de bolso. Retrato por autor anónimo
Em meados do século XV, o relógio portátil era ainda um exotismo, uma máquina prodigiosa concebida para o gabinete de curiosidades de um magnata, mas no início do século XVI já o relojoeiro alemão Peter Henlein (1485-1542), com oficina em Nuremberga, produzia regularmente relógios portáteis. Estes não eram usados no pulso (eram volumosos demais para tal), nem no bolso, antes eram suspensos de uma corrente, à maneira das “pomander”, que eram umas esferas contendo perfumes (o nome vem do francês “pomme d’ambre” = maçã de âmbar), que se tinham vulgarizado no final da Idade Média, devido à crença de que as fragrâncias intensas manteriam a pestilência à distância; como tantas vezes acontece, as “pomander” acabaram por ser convertidas em “acessórios de moda” e a sua função inicial foi esquecida.
Mulher com um “pomander”, por Pieter Janz Piurbus, c.1560-65
Quando o relógio portátil surgiu, aproveitou uma estrutura e um uso pré-existentes e limitou-se a substituir o recipiente contendo um preparado aromático por um relógio, adaptado à forma esférica da “pomander”. A opção de usar o relógio como “pomander” poderá também ter sido ditada também por considerações de status: de que serve sermos suficiente ricos para comprar o nec plus ultra da tecnologia da época, se escondermos esta máquina prodigiosa num bolso?
O mais antigo relógio portátil que chegou aos nossos dias foi construído em 1505 por Peter Henlein e pode ser vista como o precursor dos “Eierlein” ou “ovos de Nuremberga”, relógios de forma esférica que dominaram a produção relojoeira daquela cidade alemã na segunda metade do século XVII, período em que a Alemanha esteve na vanguarda da relojoaria europeia. O termo “Eierlein” é um diminutivo de “Eier” (ovo), mas parece ter resultado da corrupção de “Uhrlein” (diminutivo de relógio).
O relógio construído em 1505 por Peter Henlein. O estojo inclui a inscrição “dvt me fugient agnoscam r”, que tem sido interpretada como significando “O tempo foge-me, mas [o relógio] conhece o tempo certo”
Outra peça notável dos primórdios da relojoaria portátil é o relógio fabricado em Nuremberga em 1530 (muito possivelmente também por Peter Henlein) e que foi destinado ao humanista alemão Philip Melanchthon (1497-1560), uma das figuras cimeiras da cidade e da Reforma protestante (ignora-se se o relógio terá sido encomendado por Melanchthon ou se foi uma oferta do conselho municipal). Tal como no relógio de 1505, as ranhuras no estojo permitem consultar as horas (nesta fase só há ponteiro de horas) sem ter de se abrir o estojo.
O relógio de Philip Melanchthon
Os relógios portáteis ganharam difusão a partir de meados do século XVII, graças às inovações introduzidas por Christian Huygens e Robert Hooke, que permitiram construir mecanismos menos volumosos e mais precisos, que, passada a moda das “pomander”, eram guardados no bolso, presos por uma corrente. A produção industrial de relógios teve início na Suíça do século XIX e foi também neste país que surgiram os primeiros relógios de pulso – estes foram, até ao final do século XIX, usados exclusivamente pelas mulheres, enquanto os homens se mantinham fiéis ao relógio de bolso. Foram as imposições práticas da guerra moderna, com a necessidade de acções perfeitamente sincronizadas – primeiro na Guerra dos Boers (1899-1902) e depois na I Guerra Mundial – que levaram os oficiais a adoptar o relógio de pulso. Os pioneiros da aviação e das competições automóveis e os exploradores também tinham as mãos demasiado ocupadas para sacar o relógio do bolso, pelo que também eles aderiram ao relógio de pulso – e não tardou que a sociedade os imitasse.
Uma sucessão de revoluções
A atmosfera de excitação tecnológica e futurista da década de 1950 (a conquista do espaço entrara na ordem do dia) foi propícia ao surgimento do Hamilton Electric 500, o primeiro relógio eléctrico (isto é, em que o mecanismo que gerava a pulsação regular não era de natureza mecânica), que começou a ser comercializado em 1957. Para realçar a sua natureza inovadora, foi também lançado com designs assimétricos, o mais famoso dos quais foi o Hamilton Ventura, mas, apesar de a sua precisão ser superior à dos relógios mecânicos, acabou por não se impor. O mesmo aconteceu com o Bulova Accutron de 1960, que recorria a um diapasão para gerar a pulsação regular, substituindo a roda de balanço dos relógios mecânicos.
Hamilton Ventura de 1957, uma variante do Hamilton 500
O mercado dos relógios manteve-se, assim, sem grandes sobressaltos até 1969, quando a Seiko lançou o Astron 35SQ, o primeiro relógio de quartzo a ser comercializado. Nestes relógios, a vibração, numa frequência fixa (32.768 Hz), de um cristal de quartzo (talhado com a forma de um diapasão) faz a vez da roda de balanço nos relógios mecânicos. O Seiko Astron era um artigo de luxo – custava 1250 dólares, ou 9000, ajustados à inflação – mas a tecnologia de quartzo rapidamente provou ser adequada ao fabrico em massa de relógios mais simples, leves , baratos e precisos do que os relógios mecânicos. E foi assim que os relógios de quartzo tomaram conta do mercado, sobretudo a partir do momento em que apresentação com ponteiros foram substituídos por um mostrador digital. O primeiro protótipo deste tipo, o Pulsar LED, surgido em 1970 e fabricado pela Hamilton-Büren, era, como o Seiko Astron, um artigo de luxo, mas pelo final da década de 1970 os relógios de quartzo digitais tinham entrado em produção mecanizada em massa (em contraste com o laborioso fabrico manual que imperava nos relógios mecânicos), permitindo que o seu preço caísse vertiginosamente.
Três versões do Seiko Astron 35SQ: a versão à direita é a original, de 1969
Os relógios de quartzo alcançaram um formidável volume de vendas, enquanto os relógios mecânicos com ponteiros ficaram restritos ao segmento de luxo. Porém, as marcas de relógios de luxo souberam valorizar o seu fabrico artesanal, a tradição centenária, as toragens limitadas, os metais nobres e pedras preciosas e outras extravagâncias de forma a seduzir os clientes abastados e mais desejosos de um símbolo de status do que de um dispositivo de medição do tempo – a estratégia funcionou e permitiu-lhes continuar a dominar o mercado, em termos de volume de negócios, até aos nossos dias.
Entretanto, a aparição do telefone móvel e do smartphone e a sua rápida promoção ao estatuto de “indispensável” (se for dado a escolher prescindir dos sapatos ou do smartphone, a maioria das pessoas optará por ficar descalça) levou a que o mercado dos relógios de quartzo digitais sofresse, por sua vez, um rude golpe. A este veio sobrepor-se, a partir de meados da década de 2010, a concorrência dos smartwatches.
[Já saiu o quinto episódiode “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic.E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]
Os primeiros smartwatches surgiram, ainda com capacidades incipientes, na viragem dos séculos XX/XXI, mas só em 2013, com o TrueSmart, da Omate, apareceu um dispositivo que se aproximava das funcionalidades do moderno smartwatch. A Samsung, a LG e a Microsoft lançaram os seus smartwatches no ano seguinte, mas foi com a comercialização da primeira versão do Apple Watch, em 2015, que o mercado de smartwatches ganhou impulso (hoje o Apple Watch já vai na 7.ª geração). É compreensível que, tendo de escolher entre um dispositivo que só dá horas e outro, de dimensão similar, que, além de marcar o tempo, oferece as funcionalidades de recepção de chamadas, e-mails e SMSs, calculadora, agenda, GPS, fonte de música, monitorização de de exercício físico, funções vitais e estado de saúde e, mais recentemente, até de diagnóstico de covid-19, prefira o segundo. Foi assim que em 2021 se atingiu a marca recorde de 127.5 milhões de smartwatches, com a Apple em posição de clara dominância (com uma quota de 30.1%, mas em tendência declinante, devido ao acirrar da competição), seguida pela Samsung (10.2%), Huawei (7.7%), Imoo (5.2%), Amazfit (5.1%), Garmin (4.6%) e Fitbit (3.8%) – tudo marcas alheias ao mundo tradicional da relojoaria.
O volume de vendas de smartwatches em 2021 foi apenas um pouco inferior ao dos relógios de luxo – 21.300 milhões de euros – e, a manter-se a tendência ascensional, estima-se que atinja 92.000 milhões de euros em 2028.
hiroaki sumitomo
Apple Watch Series 5
Se o mercado dos smartwatches é dominado por marcas americanas, sul-coreanas e chinesas, nos relógios mecânicos a Suíça continua a ser a potência dominante, representando 53% do valor das vendas, embora em termos de número de unidades vendidas, o país represente apenas 2% do mercado mundial. Isto resulta de as marcas suíças estarem centradas no fabrico de relógios mecânicos de luxo, segmento que, em 2021, atingiu um valor recorde de 22.300 milhões de euros, ligeiramente acima do valor de 2019 (recuperando, assim, da quebra de 2020, decorrente da pandemia de covid-19).
Em 2021, o sector da relojoaria mecânica de luxo teve a seguinte repartição por marcas, em termos de volume de negócios:
1.º Rolex (28.8%)
2.º Omega (7.5%)
3.º Cartier (6.9%)
4.º Longines (5.6%)
5.º Patek Philippe (4.8%)
6.º Audemars Piguet (4.2%)
7.º Tissot (3.1%)
8.º Richard Mille (2.7%)
9.º IWC (2.7%)
10.º TAG Heuer (2.3%)
11.º Breitling (2.2%)
12.º Hublot (2.2%)
13.º Jaeger-LeCoultre (2.1%)
14.º Vacheron Constantin (1.9%)
15.º Panerai (1.5%)
16.º Breguet (1.0%)
As restantes marcas (onde se incluem, nas posições seguintes, as marcas Tudor, Van Cleef & Arpels, Chopard, Hermès e Bulgari) correspondem a 20.5%. Com excepção das italianas Panerai e Bulgari e das francesas Van Cleef & Arpels e Hermès, todas as marcas são suíças, e, de qualquer modo, a Panerai e a Bulgari têm sede e fabrico na Suíça, a Van Cleef & Arpels tem como principal actividade a joalharia e a Hermès é uma marca de luxo que se espraia pela perfumaria, vestuário, joalharia, malas, mobiliário e acessórios, pelo que, quando se consideram apenas as marcas que se dedicam exclusivamente aos relógios, o domínio suíço é ainda mais avassalador.
A Rolex não só é, há muitos anos, a marca dominante no mercado, com um volume de negócios superior à soma dos seus quatro concorrentes mais próximos e à soma das 17 marcas do grupo Swatch, como registou em 2021 o seu melhor ano de sempre. A rapidez com que a relojoaria de luxo recuperou da quebra associada à covid-19, em 2020, articulado com dados de outros sectores da indústria do luxo, sugere que, amenizados ou terminados os confinamentos e restrições à circulação, as classes possidentes têm vindo a dar largas aos seus impulsos consumistas, quiçá encorajadas pelo acréscimo generalizado na desigualdade na distribuição do rendimento e da riqueza registado nos últimos anos –em 2000, os bilionários eram 2095 e a soma das suas riquezas perfazia 4.4% da riqueza global, em 2022 os bilionários são 2668 e soma das suas riquezas perfaz 13.9% do total (dados da Oxfam).
Baselworld 2015: Esta feira internacional de relojoaria e joalharia que teve lugar anualmente em Basileia (Basel), na Suíça, entre 1917 e 2019, foi um dos eventos mais importantes do universo da relojoaria. A interrupção pela pandemia de covid-19 levou a uma reformulação do conceito da feira, que passará a decorrer, essencialmente, numa palataforma digital
As raízes do domínio suíço
Por trás do domínio suíço na relojoaria existem razões político-religiosas: a região de Genebra tinha, desde o século XV, a reputação de estar bem servida de relojoeiros, mas o país dominante no domínio da relojoaria era então a Alemanha. No século XVI, esta perdeu a supremacia para a França, onde era exercida sobretudo por artesãos de confissão protestante, designados como huguenotes (que representavam também uma proporção considerável dos artesãos nas áreas da ourivesaria, da marcenaria e do fabrico de seda).
Porém, as perseguições religiosas promovidas pelos reis franceses empurraram boa parte dos relojoeiros para Genebra, uma vez que não só tinham perspectivas de encontrar trabalho na indústria local como a cidade suíça era um sólido bastião protestante. A emigração dos hugenotes para a Suíça foi sustida em 1598, quando, pelo édito de Nantes, Henrique IV concedeu liberdade de culto e plenos direitos civis aos seus súbditos protestantes, mas foi retomada em 1685, quando Luís XIV, pelo édito de Fontainebleu, revogou o édito anterior, levando cerca de 200.000 huguenotes a abandonar o país, tomando o rumo da Suíça, Províncias Unidas (Países Baixos), Dinamarca, Suécia, Escócia e principados protestantes da Alemanha.
Luís XIV por Hyacinthe Rigaud, c.1701
A perseguição aos protestantes em França perdeu intensidade durante o reinado de Luís XV, mas só terminaria um século depois, pelo édito de Versailles, assinado por Luís XVI em 1787.
A emigração de relojoeiros hugenotes contribuiu decisivamente para que, a partir do século XVIII, Genebra e do maciço montanhoso do Jura se tornasse no principal centro da indústria relojoeira mundial, o que justificou que, no final do século XX, fosse cunhado, o termo Watch Valley (por analogia com Silicon Valley) para designar o arco, ao longo da fronteira com a França, que vai de Genebra, no sudoeste, a Basileia (Basel/Basle/Bâle), a norte. Não obstante a perda de muitos dos seus melhores relojoeiros, a França continuou, durante os séculos XVII e XVIII a ser uma potência da relojoaria, mas ao longo do século XIX a Suíça foi consolidando a posição de líder mundial que ainda hoje detém.
Gallet
A Gallet, o mais antigo fabricante de relógios do mundo ainda em actividade, é anterior à perseguição dos huguenotes e até à Reforma, uma vez que foi fundada em Genebra em 1466 pelo relojoeiro Humbertus Gallet. A revogação do édito de Nantes não deixou de influir na história da empresa, pois forçou o ramo francês dos Gallet, que estava estabelecido na cidade francesa de Bourg-en-Bresse, a juntar-se ao ramo de Genebra. A liderança da oficina foi sendo transferido de pai para filho e cada novo patriarca Gallet imprimia o seu nome à oficina, tradição que foi quebrada em 1826 por Julien Gallet, que não só registou a empresa como Gallet & Cie. como a transferiu para La Chaux-de-Fonds, perto de Neuchâtel, no Jura.
Fábrica Gallet em La Chaux-de-Fonds, final do século XIX
O volume de produção da Gallet foi crescendo ao longo do século XIX; em 1864, sob a direcção de Léon Gallet, os negócios estenderam-se aos EUA e em 1899, por ocasião da morte de Léon, a empresa produzia 100.000 relógios por ano, repartidos por dezenas de marcas apontadas a diferentes sectores de mercado. Porém, a Grande Depressão levou a Gallet a descartar muitas das marcas subsidiárias e a concentrar-se em produtos de luxo e em relógios de alta precisão para aviadores. A Gallet é uma das poucas marcas históricas de relógios que se tem mantido independente dos grandes grupos.
O Flying Officer Cronograph (1939), concebido e fabricado expressamente pela Gallet para os oficiais da Força Aérea dos EUA
JeanRichard
A sua origem costuma ser situada no Vallée de Joux, no Jura, em 1681, quando Daniel Jeanrichard (1665-1741), que teria então 15 ou 16 anos e saberia algo de serralharia ou de ourivesaria mas pouco ou nada de relojoaria, recebeu um relógio para reparação. Desmontou o mecanismo, estudou-o atentamente e, pelo processo que a língua inglesa designa como “reverse engineering”, construiu um semelhante. Foi assim, que se lançou no mundo da relojoaria, ao que se supõe depois de ter aperfeiçoado conhecimentos em Genebra. O relógio mais antigo saído das mãos de Jeanrichard que sobreviveu até hoje data de 1710, mas pouco se sabe da vida e actividade deste relojoeiro e a sua firma extinguiu-se com a sua morte, em 1741.
Assim, quando, em 1986, Luigi Macaluso, distribuidor de relógios suíços em Itália, assegurou os direitos sobre a “marca” Daniel JeanRichard, tornou-se proprietário de uma pura abstracção. Em 1988, Macaluso decidiu passar da distribuição ao fabrico e fundou a Sowind, que comprou a Girard-Perregaux e “ressuscitou” a Daniel JeanRichard. A “histórica” marca ostenta orgulhosamente no logótipo a data “1681”, que é equivalente ao quadro de um falso bisavô aristocrata que o novo-rico pendura na sala sobre a lareira, a fim de obter respeitabilidade (está longe de ser um caso isolado numa indústria obcecada em invocar raízes antigas).
Em 2002 a Daniel JeanRichard passaria simplesmente a JeanRichard e em 2011 o grupo Sowind e as suas duas marcas (a histórica e a pseudo-histórica) foram absorvidos pelo grupo de luxo Kering.
Blancpain
Foi fundada em 1735, em Villeret, na região do Jura, por Jehan-Jacques Blancpain (1693-?) e o negócio manteve-se nas mãos da família até 1932, data em faleceu Frédéric-Émile, o representante da 7.ª geração Blancpain. Uma vez que a filha deste não mostrou interesse no negócio, a braço-direito de Frédéric-Émile, Betty Fiechter, comprou-lhe a empresa e tornou-se na primeira mulher a dirigir uma grande marca de relógios.
A fábrica da Blancpain em Villeret, c.1860
O negócio atingiu um recorde de produção de 200.000 relógios em 1971 e depois sofreu, como todas as grandes marcas suíças, o impacto da concorrência dos relógios de quartzo – pelos quais a marca nutre o maior desprezo, proclamando que “desde 1735 nunca houve um Blancpain de quartzo e não irá haver”.
Em 1961, a Blancpain juntou-se à SSIH (Societé Suisse pour l’Industrie Horlogère) e desde 1992 que faz parte do grupo Swatch.
Vacheron Constantin
Foi fundada em 1755, em Genebra, por Jean-Marc Vacheron (1731-1805), um relojoeiro que tinha no seu círculo de amizades os filósofos Jean-Jacques Rousseau e Voltaire, que também se interessavam por relojoaria, uma versatilidade que não era insólita na Europa de então (também o seu contemporâneo Pierre-Augustin Caron, mais conhecido como Beaumarchais, começou por distinguir-se como relojoeiro e só mais tarde ganhou fama como dramaturgo).
Jean-Marc Vacheron terá sido o primeiro a fabricar um relógio de bolso com “complicações” (complications), que na terminologia da relojoaria designa funções adicionais para lá da marcação de horas, minutos e segundos (por exemplo cronógrafo, calendário, fases lunares, etc.). A companhia passou de Jean-Marc para o filho, Abraham, e, depois, para o neto, Jacques-Barthélémy, que, em 1819, constatando que a expansão do negócio já não permitia que ele o gerisse sozinho, estabeleceu parceria com François Constantin, que ficou responsável pelas vendas e contactos internacionais.
Os Vacheron continuaram, todavia, a monopolizar a direcção da empresa, até que em 1936, a meio das dificuldades criadas pela Grande Depressão, ela foi assumida pela primeira vez por um Constantin – foi também a última, uma vez que quatro anos depois Charles Constantin vendeu a maior parte do capital a Georges Ketterer. Após um breve período em que esteve na posse do sheik Ahmed Zaki Yamani, ex-ministro do Petróleo da Arábia Saudita e inveterado coleccionador de relógios, em 1996 a marca foi integrada no grupo Richemont. Detém 1.9% da quota de mercado da relojoaria de luxo e ocupa o 14.º lugar do ranking.
Dando continuidade à sua reputação especialista em “complicações”, em 2015, por ocasião do seu 260.º aniversário, a Vacheron Constantin apresentou um modelo, o Reference 57260, que possui 57 “complicações” – o esforço e o engenho postos neste relógio de bolso são admiráveis, mas é um gesto quixotesco criar uma peça destas na era do smartphone, das apps e da Siri.
Breguet
Armand-Louis Breguet (1747-1823), fundador da casa Breguet, fez o percurso inverso ao da maioria dos relojoeiros franceses: nasceu em Neuchâtel, Suíça (descendia de Jean Breguet (?-1593), um pastor huguenote que terá sido próximo de Calvino), e estabeleceu-se em França.
Armand-Louis Breguet
Iniciou-se no mister da relojoaria como aprendiz na oficina do seu padrasto e prosseguiu a aprendizagem em França. Em 1775 fundou em Paris a Breguet, cuja trajectória de sucesso (graças a sucessivas inovações introduzidas por Breguet, como, por exemplo, um dos primeiros relógios automáticos, surgido em 1780) foi interrompida pelas convulsões da Revolução Francesa, que levaram o mestre relojoeiro, cujas peças eram muito apreciadas por Luís XVI e pela esposa, a refugiar-se temporariamente na Suíça.
Em 1810, surgiu uma das mais notáveis peças da Breguet, um relógio de pulso com múltiplas funcionalidades destinado a Caroline Bonapart, rainha de Nápoles. Mais impressionante ainda foi o relógio de bolso destinado a Marie Antoinette, que o (alegado) amante desta, o conde Axel von Fersen, encomendou em 1783 a Breguet, com a especificação de que deveria incorporar todas as funcionalidades possíveis e imagináveis. A formidável tarefa só foi terminada em 1837, 44 anos após a decapitação de Marie Antoinette e quatro anos após a morte do próprio Armand-Louis (foi o filho, Louis-Antoine, que o terminou), mas o Breguet n.º 160 Grande Complication tornou-se num marco da relojoaria.
Heritage Images/Getty Images
Breguet n.º 160 Grande Complication, 1783-1827
A direcção da Breguet foi sendo transmitida dentro da família, até que Louis Antoine (1851-1882), bisneto do fundador, a confiou, em 1870, ao relojoeiro britânico Edward Brown. Após um século na posse da família Brown, a Breguet foi comprada pela joalharia francesa Chaumet, que transferiu a produção para a Suíça. Desde 1999 que a Breguet faz parte do grupo suíço Swatch. Detém 1.0% da quota de mercado da relojoaria de luxo e ocupa o 16º lugar do ranking.
Girard-Perregaux
A marca remonta a 1791, quando, em Genebra, Jean-François Bautte (1772-1837) começou, com apenas 19 anos, a fabricar os seus primeiros relógios. Passados poucos anos, Bautte, um órfão, de origens humildes, que começara a trabalhar como aprendiz aos 12 anos, estava a fornecer relógios (e caixas de música) à realeza europeia. A firma passou em 1837, pela morte do fundador, para Jacques Bautte e Jean-Samuel Roussel.
Enquanto a Bautte ia fazendo o seu caminho, em La Chaux-de-Fonds, no Jura, Constant Girard (1825-1903) fundava em 1852 a Girard & Cie. Pouco depois, Girard casou-se com Marie Perregaux, proveniente, também ela, de uma família de relojoeiros, o que levou a que, em 1856, Marie e três irmãos seus entrassem no capital da firma, dando origem à Manufacture Girard-Perregaux. Esta tornou-se, em pouco tempo, num dos fabricantes suíços de relógios com maior dimensão e projecção internacional, a ponto de, em 1860, um dos cunhados de Constantin ter aberto uma sucursal da firma no porto japonês de Yokohama. Em 1880, a Girard-Perregaux foi a primeira marca a produzir em massa relógios de pulso para homem – uma encomenda do Kaiser Guilherme I para os oficiais da Marinha Imperial Alemã.
Constant Girard
Esta prosperidade permitiu que, em 1906, o filho de Constant Girard e seu sucessor adquirisse a Bautte, permitindo à rebaptizada Girard-Perregaux & Cie. gabar-se de fabricar “haute horlogerie desde 1791”. No final da década de 1980, a empresa foi integrada no grupo suíço Sowind, que, a partir de 2011, ficou sob o controlo do grupo Kering.
Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador
Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.
Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante .
Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.
Atingiu o limite de artigos que pode oferecer
Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.