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O recinto estava praticamente repleto para ver o concerto de Sam The Kid com orquestra e Orelha Negra
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O recinto estava praticamente repleto para ver o concerto de Sam The Kid com orquestra e Orelha Negra

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

O recinto estava praticamente repleto para ver o concerto de Sam The Kid com orquestra e Orelha Negra

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Aos dez anos de vida, pode o Iminente ainda dizer-se da margem?

Com Moedas a condenar grafitis na véspera, o festival de Vhils arrancou em Marvila com enchente para ver Sam The Kid. O tema das pessoas em situação de sem-abrigo ficou à margem dos palcos.

Lisboa já não é a cidade de 2016, quando o Festival Iminente deu os primeiros passos. Abriu-se ao turismo, tornou-se mais cara, viu a população abandonar o centro e os lugares de criação escassearem. O Iminente acompanhou essa metamorfose e longe vai o tempo em que o bilhete diário para a edição de estreia, há dez anos, no Jardim Municipal de Oeiras, custava apenas dois euros. Era um preço simbólico e democrático para apresentar uma fusão de arte urbana e música que ainda não ocupava os maiores festivais do país. Desde então, a expressão artística da periferia — do rap e da arte urbana à herança afrodescendente — foi absorvida pelo circuito comercial e institucional enquanto o custo de vida foi empurrando os seus criadores para fora da cidade.

“O festival veio da margem, e é da margem”, considera ainda o seu criador, Alexandre Farto (Vhils), em declarações ao jornal Expresso no início do mês. Mas pode o Iminente ainda dizer-se da margem? No primeiro dia desta edição, que arrancou esta quinta-feira, Vhils esteve ausente por se encontrar na inauguração de uma exposição em Maiorca — sinal evidente do crescimento do próprio artista, que hoje assina obras de Miami à Arábia Saudita.

Neste dia inaugural, as filas tornaram-se morosas, com uma revista minuciosa por parte da equipa de segurança do festival

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A presença de marcas comerciais, como o automóvel em exposição no meio do recinto ou a escala do próprio cartaz, evidencia uma dimensão dificilmente categorizável como periférica. Até domingo, o festival ocupa a antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, encerrada há 16 anos, com mais de uma centena de propostas entre música, artes visuais, performance, cinema, conversas e projetos comunitários. Por ali desfilarão nomes históricos como DJ Premier (metade dos Gang Starr), Bahamadia, Black Milk ou Conway the Machine, a par de referências nacionais como A Garota Não, Ana Lua Caiano, Dino D’Santiago, Expresso Transatlântico, Luedji Luna, Mão Morta e Mind Da Gap. Segundo dados avançados pela organização ao Observador, são esperadas cerca de cinco mil pessoas por dia, tendo sido vendidos 85% dos bilhetes disponíveis e esgotados os passes gerais (250).

Ao final da tarde desta quinta-feira, enquanto os primeiros festivaleiros faziam fila à porta da escola, decorria uma visita institucional, com a presença do vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Diogo Moura. Cerca de 24 horas antes, o presidente do município, Carlos Moedas, divulgara um vídeo nas redes sociais a condenar os grafitis na cidade. “Vandalismo não é arte. Mais de 400 graffitis removidos todos os meses. São 2 milhões de euros por ano do dinheiro dos lisboetas gastos a limpar estes atos. Estas pessoas têm de ser punidas”, afirma o presidente da autarquia. “É inadmissível”, considera. Concordará o vereador com o pelouro da cultura com a posição do autarca? O que pensa do edifício que visitava, cujas paredes se apresentam repletas de grafitis? As perguntas ficaram sem resposta, uma vez que Diogo Moura, interpelado, não mostrou disponibilidade para prestar declarações a este jornal.

Para a organização do festival, que é apoiado financeiramente pelo município com 250 mil euros por ano (além da cedência do espaço e apoio logístico), o vídeo do presidente da autarquia foi uma surpresa. “Vimos o vídeo e falámos entre nós. É a opinião dele. Claro que, a alguns dias do Iminente, é uma situação… Mas cada um tem as suas opiniões e vontades. A dele é diferente do que acontece aqui”, afirma Juliana Almeida, diretora do festival. Certo é que o município não irá limpar as paredes da escola enquanto o festival ali decorrer (prevê-se até 2027), garante a responsável pelo certame. “Inclusivamente, em conjunto com a GAU [Galeria de Arte Urbana, plataforma municipal dedicada à salvaguarda do património artístico urbano], fizemos o registo de todos os grafitis que aqui estão, demorámos cerca de dois meses a fazer esse levantamento. Temos tudo catalogado e registado”, adianta.

Nas paredes da antiga escola, contudo, já quase não se contam registos ou história de quem ali viveu nos últimos anos. Durante a visita guiada, a presença dos antigos ocupantes, pessoas em situação de sem-abrigo, foi quase totalmente omitida. A única exceção partiu do artista Obey Sktr (José Rui Dias), ao explicar a sua obra “Quem decide o que merece ser preservado?”. Numa das antigas salas de aula, o artista cunhou as palavras “Paradise Lost”. “Estive aqui a pintar em agosto, quando alguns sem-abrigo ainda estavam aí. Também para eles isto era um paraíso”, disse aos presentes, de forma sucinta. Foi o único momento em que a realidade social do edifício foi mencionada, sem que fossem dirigidas perguntas sobre o tema pela comitiva, que prosseguiu rapidamente para a sala intervencionada pela artista Tamara Alves e, mais tarde, para o espaço com uma instalação do artista Miguel Januário (±MaisMenos±).

O artista Obey Sktr (José Rui Dias) a explicar a sua obra “Quem decide o que merece ser preservado?”. À direita, o vereador da cultura da Câmara de Lisboa, Diogo Moura

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Mais adiante, noutra divisão do edifício, a frase de uma obra da artista Rita Gomes (Wasted Rita) ecoa pela estrutura: “And if you’re lucky you’ll have a room to call home” [E se tiveres sorte terás um quarto a que chamar casa]. A artista não estava presente no local. Num edifício contíguo, um televisor a negro vai exibindo mensagens contínuas. Uma delas diz: “O espaço público não é dado, é construído. Torná-lo verdadeiramente público implica contrariar forças que o querem esvaziar ou elitizar”.

Esvaziado está, efetivamente, o espaço de quem dele fez teto nos últimos anos. Conforme revelado pelo Observador, a organização providenciou um Alojamento Local para as seis pessoas que ainda habitavam o espaço durante os dias do evento. Juliana Almeida confirma a solução: “Os seis aceitaram um Alojamento Local aqui em Marvila, a 15 minutos a pé.” A diretora adianta ainda os desenvolvimentos recentes com dois dos ocupantes: “No final, houve uma pessoa que começou a trabalhar connosco e depois não continuou porque encontrou outra alternativa. Outra das pessoas, sim, ajudou na assistência a artistas de artes visuais, na montagem do espaço e das obras.” No recinto, algumas das estruturas de madeira e cartão onde os moradores viviam encontram-se tapadas por divisórias. “A pedido deles, por uma questão de privacidade, achámos que o melhor era tapar”, justifica a diretora.

Os vários espaços da escola

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A visita institucional não passou por essas estruturas, focando-se antes no percurso artístico. Uma das peças em destaque é da autoria de Vhils: intitulada “Isto foi feito para durar para sempre?”. Consiste num vídeo do retrato feito pelo artista ao escritor José Saramago, onde o mar oculta e revela alternadamente o seu rosto. “Uma reflexão sobre o que desaparece, o que regressa e o que permanece”, lê-se no texto de parede. Pauline Foessel, diretora da galeria Underdogs, também de Vhils, recordou ao grupo que o Nobel português foi aluno daquela instituição: “O Vhils fez esta peça há dois anos. Não há muito mais para dizer”, resumiu.

Enquanto isto, pelas 18h, no lugar dedicado às conversas, três oradores discursavam para apenas cinco pessoas sobre a noite lisboeta. O tema era a onda crescente de espaços noturnos que têm vindo a ser progressivamente encerrados. “Tanto a Câmara como a polícia criticarem isto como um problema legal é desonesto”, ouvia-se a espaço, a par de críticas à “cidade que está a ser vendida ao desbarato” e à falta de interesse em clubes com “discurso crítico de como habitar a cidade”. A escassa assistência refletia, porventura, o adiantado da hora numa quinta-feira de trabalho.

Alguns dos espaços que estavam habitados por pessoas em situação de sem-abrigo foram tapados com comunicação do festival

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Ana Lua Caiano, Gisela João e a afirmação feminina em palco

O recinto começou a compor-se de forma expressiva perto das 20h, quando Ana Lua Caiano subiu ao palco principal. Apresentando “Um Mais Um”, tema lançado poucas horas antes, a artista pediu ao público para acompanhar o refrão — “Ai ó meu senhor se nos salvasses” —, numa canção que “fala sobre a morte”, diz, e que integrará o seu novo trabalho discográfico, com edição prevista para novembro. Ao longo de uma hora, a cantora aliou a eletrónica ao cancioneiro tradicional em temas como “Vou ficar neste quadrado” e “Mão na Mão”.

A cantora Ana Lua Caiano conseguiu reunir a primeira multidão do dia, com um concerto de fim de tarde em que mostrou canções do álbum que editará em novembro

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A programação noturna manteve o forte cunho feminino, de seguida no palco Court, onde Gisela João surpreendeu o público com o repertório escolhido. Assumindo o desconforto com rótulos estritos — “Estou farta de cantar o ‘Senhor Extraterrestre’”, gracejou —, a fadista explicou que escolheu “cantar a liberdade”, dedicando grande parte do alinhamento à obra de José Afonso. Um dos momentos mais aclamados da atuação ocorreu com a interpretação de “Que força é essa, amiga”, variação criada por Capicua a partir do tema de Sérgio Godinho, que a fadista elogiou antes de interpretar.

À medida que a hora do jantar se aproximava, a dimensão do recinto permitiu a dispersão do público pelas diferentes opções gastronómicas, que variavam entre a cachupa servida por associações comunitárias e propostas de restaurantes da cidade. Na gestão de consumos, a organização corrigiu falhas de edições anteriores. “Ouvimos as reclamações, então agora cada um paga com o seu cartão”, explicou Juliana Almeida, referindo-se ao fim das aplicações exclusivas que causaram constrangimentos sobretudo na edição da Matinha. “Quem só tem dinheiro troca por um cartão específico nos pontos de atendimento.” O festival permitiu ainda a utilização de copos de edições e festivais anteriores, cobrando um euro pelos copos próprios.

Do quarto mágico em Chelas à orquestra no palco: o regresso de Sam The Kid

Conforme a noite avançava, o fluxo de entrada intensificou-se, gerando filas demoradas e revistas minuciosas na portaria. Às 22h, o recinto apresentava uma moldura humana composta para assistir ao regresso de Sam The Kid a Beats Vol. 1: Amor, álbum originalmente criado no seu quarto em Chelas, desta feita acompanhado por uma orquestra e pelos Orelha Negra.

Apesar de um percalço técnico ter atrasado o início da atuação, o concerto estendeu-se além do horário previsto. “A maior parte das pessoas sabe para o que vai, mas muitas continuam sem saber. Vou sempre passar por esta situação. Conhecem-me como rapper e depois dizem: ‘então, pensava que ias cantar’. Vou sempre passar por isso”, comentou Samuel Mira (Sam The Kid) ao Observador após o espetáculo. “Mas não me importo, é diferente. Não sou eu com aquela energia ao microfone, mas sou eu a divertir-me e a emocionar-me.” Sobre o atraso e a extensão do alinhamento, o músico foi perentório: “Ou toco a cena toda ou não toco. Para mim não faz sentido não tocar. O conceito é tocar o álbum.”

Começou com um atraso, mas valeu a pena esperar por Sam The Kid, que protagonizou um dos melhores concertos do dia

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O espetáculo foi uma derivação do concerto no Centro Cultural de Belém (CCB) em outubro do ano passado, que o artista planeia editar em vinil. “Acho que este trabalho ao vivo acrescenta ao disco. É o único concerto que eu já dei que gostaria de editar, porque acrescenta”, refletiu, explicando a escolha do local para a repetição: “Não fazia sentido em muitos mais festivais. A meu ver, só fazia sentido em Paredes de Coura ou no Iminente. Aconteceu aqui.”

Relativamente ao Iminente, evento em que participa desde as primeiras edições, Sam The Kid só tem elogios: “É um festival onde sinto que nenhuma cultura ou subcultura se sente ‘convidada’, sente que faz parte. Vendo o historial de outros festivais, o hip-hop é um convidado. Aqui não sentes isso, sentes que estás num festival de hip-hop porque há hip-hop todos os dias. A música eletrónica é a mesma coisa. Todas as culturas sentem que este é o seu festival.”

Segundo dados avançados pela organização ao Observador, são esperadas cerca de cinco mil pessoas por dia, tendo sido vendidos 85% dos bilhetes disponíveis e esgotados os passes gerais (250)

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A reta final da noite contou ainda com Capicua, que declamou um poema escrito após o nascimento da filha antes de interpretar canções de “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”. Encerrando a programação, os Mind Da Gap subiram ao palco com uma premissa direta — “Nothing but the classics” —, num desfile de clássicos do hip-hop nacional.

O Festival Iminente prossegue no espaço da antiga Escola Industrial Afonso Domingues esta sexta-feira, sábado e domingo.

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