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Thomas Edward Patrick Brady contou até 199 antes de ouvir o seu nome a ser chamado. Corria o ano de 2000 quando as 32 equipas da NFL, a ultra-competitiva liga de futebol americano, viram maior potencial em outros 198 atletas acabadinhos de sair da faculdade. Especificamente na posição de Brady – quarterback – foram escolhidos seis jogadores à sua frente. Nenhum deles acabou por vingar na liga. Mas ‘Tom’ Brady, que à saída do college football era visto como um menino das praias da Califórnia que de atleta tinha muito pouco, vai disputar a sua sétima finalíssima da NFL pelos New England Patriots e, frente aos Atlanta Falcons, arrisca vencer o seu quinto anel de campeão da SuperBowl.

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Em Portugal, a Sport TV dá início à transmissão em direto do NRG Stadium, em Houston, a partir das 23h00. O jogo começa meia hora depois e deverá acabar por volta das 03h00 em Portugal, salvo interrupções imprevistas ou prolongamento. Antes do jogo, George Bush (pai) e a mulher Barbara atiram a moeda ao ar para decidir quem escolhe campo e/ou bola. Ao intervalo atua Lady Gaga. Se houver polémica, isso não será novidade num Super Bowl jogado em Houston: foi nessa cidade, a 1 de fevereiro de 2004, durante o Super Bowl 38 (já vamos no 51), que o mamilo de Janet Jackson se mostrou ao mundo no final da atuação com Justin Timberlake, num episódio que ficou conhecido como nipplegate.

O draft: diamantes em bruto e maçãs podres

O processo é parecido com a forma como, na escola, se faziam as equipas para jogar à bola no recreio. Cada equipa escolhe, à vez, um jogador, ao longo de várias rondas sucessivas. O primeiro a ser escolhido é, claro, o Ronaldo da aldeia e, no final, sobra um qualquer desajeitado para ir à baliza. No draft para a NFL, como para as ligas de outros desportos nos EUA (NBA, NHL, MLB, etc…), passa-se o mesmo — com a diferença de que é o culminar de um processo de escrutínio de longos anos em que estão muitos, muitos milhões de dólares em jogo, para jogadores e para equipas.

Uma vasta rede de olheiros espalhada pelos 50 estados; relatórios exaustivos sobre as potencialidades e fraquezas de cada prospect; conversas com a família, amigos e professores dos atletas mais promissores; consultas com a polícia local para conhecer o apetite por sarilhos deste ou daquele jovem. E tudo isto multiplicado por 32, porque são 32 as equipas da NFL que não olham a meios nem a despesas para acertar no draft, conscientes de que o segredo para o sucesso duradouro na liga é saber detetar os diamantes em bruto e saber evitar as maçãs podres.

No final, a cada ano, por alturas de maio, faz-se uma festa, como só os norte-americanos sabem fazer, com audiências televisivas fenomenais. É o dia do draft, recentemente retratado por Hollywood num filme protagonizado por Kevin Costner.

O dia do draft é sempre dia de festa para a NFL. (foto: Kena Krutsinger/Getty Images)

O draft é um dos vários mecanismos promotores de competitividade que a NFL tem, a par dos tetos salariais sobre os quais lhe falámos há um ano, antes da última Super Bowl. A equipa que terminou em último na época anterior é a primeira a escolher, em cada uma das sucessivas rondas. São sete rondas, no total, com mais de 200 jogadores escolhidos para integrar, como rookies, os centros de estágio das suas novas equipas.

“Olá. Chamo-me Tom Brady e sou a melhor decisão que este clube já tomou”

A fazer fé na descrição feita pelo dono dos New England Patriots, num dos primeiros dias de treino geral da equipa, para preparar a época de 2000, o milionário Robert Kraft, presidente do clube de Boston, foi abordado por um rookie magricela que trazia uma pizza debaixo do braço.

“Ainda me lembro da primeira vez que vi o Tom, um magricela, a descer as escadas do estádio, com uma caixa de pizza na mão. Dirigiu-se a mim e apresentou-se: ‘Olá, Sr. Kraft‘. Eu interrompi-o e disse: ‘Eu sei quem tu és, és o Tom Brady, a nossa escolha da sexta ronda do draft‘. Ele olhou-me nos olhos e disse-me ‘e sou a melhor decisão que este clube já tomou‘”. Assim recorda Robert Kraft, dono dos Patriots.

A “sexta ronda” de que se falava era a ronda em que Tom Brady foi escolhido, como 199º jogador a sair do draft daquele ano. Apesar de toda a ciência envolvida no processo do draft — os olheiros, as conversas com a família e com a polícia, etc. –, a História é fértil em tiros ao lado. O mais divertido, exceto para os clubes protagonistas, é recordar como alguns jogadores entraram na liga como escolha número 1, 2 ou 3 e nunca serviram para mais nada do que para vender umas camisolas a fãs esperançosos que, pouco tempo depois, ficaram com o coração despedaçado e sem uso digno para os equipamentos.

Mas o contrário também acontece: atletas que, por esta ou por aquela razão, só foram chamados à pista de dança no fim do baile e tornaram-se estrelas. Mas Tom Brady é ainda mais que isso. Tornou-se mais do que uma estrela, tornou-se uma lenda que não dá quaisquer sinais de abrandar, apesar de já somar 39 anos de idade.

Seja sincero/a. Este tipo parece-lhe uma futura lenda do desporto?

Tom Brady, fotografado nos testes físicos antes do Draft de 2000.

No final do segundo dia do draft, Tom saiu de casa, afastou-se da família por umas horas, tal era o embaraço que sentia. A coisa funciona assim: no primeiro dia da festa, decorre apenas o primeiro round, ou seja, as primeiras 32 escolhas, uma por cada equipa (em rigor, pode haver trocas de picks, mas não compliquemos). No segundo dia, acontecem a segunda e a terceira ronda, ou seja, mais 64 jogadores escolhidos. Tom Brady acreditava que o seu nome seria chamado neste segundo dia, ou seja, no segundo ou no terceiro round.

Mas ninguém chamou Brady. As equipas optaram por vários outros quarterbacks que se viriam a revelar medíocres ou, mesmo, inaptos. Restava o terceiro dia, em que temos o quarto, o quinto, o sexto e o sétimos rounds. A probabilidade de alguém escolhido no terceiro dia se tornar uma estrela é muito baixa, muito menos alguém escolhido quase no final do sexto round.

Ao terceiro dia, portanto, os New England Patriots escolheram um miúdo meio desengonçado vindo da Universidade do Michigan. No college, Brady tinha tido dificuldades em afirmar-se como titular, quase sempre batido por um jovem espadaúdo chamado Drew Hanson que acabaria por fazer mais carreira no baseball do que na NFL. O treinador insistia em Henson e Brady só entrava quando o titular se lesionava ou quando o jogo estava (quase) perdido. Uma coisa é certa, a cada oportunidade que tinha, Brady revelava um talento quase inexplicável para dar a volta ao marcador e transformar derrotas iminentes em vitórias — ficou conhecido como o Comeback Kid, o miúdo das reviravoltas.

Mas o treinador, regra geral, voltava para o titular assim que este estava disponível. Brady tinha um aspeto desleixado e movia-se de forma aparentemente plácida, levando os olheiros a questionarem se estávamos perante auto-confiança ou desinteresse. O mais provável era ser desinteresse, acreditavam, e isso é um pecado capital na posição mais importante em campo — o general de campo, o quarterback. Seja como for, os Patriots deram um tiro no escuro e escolheram-no, sem grandes expectativas, provavelmente.

E não é que foi (mesmo) a melhor decisão de sempre?

Na primeira época, como rookie, Tom Brady não fez mais do que aquecer o banco, já que o titular era o experiente Drew Bledsoe. Ainda assim, o jovem Tom impressionou nos treinos ao ponto de suplantar os dois quarterbacks suplentes que estavam à sua frente. Logo no início da segunda época, contudo, Bledsoe sofreu uma placagem dura por parte de um defesa dos New York Jets e teve uma hemorragia interna. Brady saltou do banco e o resto é História.

Ao fim de uma mão cheia de jogos, Brady já tinha sacudido o nervosismo inicial e distribuía a bola com mestria pelos receivers. Os Patriots foram aos playoffs e chegaram à Super Bowl. A finalíssima foi muito disputada mas Brady fez um jogo limpinho e, no final, liderou a equipa de forma destemida até a uma vitória sobre os St. Louis Rams (hoje Los Angeles Rams). Foi o quarterback mais jovem de sempre a ganhar um anel de campeão e foi nomeado MVP dessa Super Bowl de 2001.

Foi a partir daí que a carreira de Tom Brady acelerou. Afinal era mesmo auto-confiança, e não desinteresse, e Brady aperfeiçoou continuamente a técnica irrepreensível e continuou a demonstrar a mesma precisão cirúrgica no passe e a mesma inteligência na leitura de jogo que desde cedo se tornaram evidentes. Os títulos sucederam-se e o sucesso (e mudança de aparência) também. Resultado: alguns anos depois, Brady estava noivo da supermodelo brasileira Gisele Bündchen.

Os títulos e as distinções acumularam-se numa carreira recheada de sucessos. Ao seu lado continua a supermodelo brasileira Gisele Bündchen. (foto: Mike Coppola/Getty Images)

Brady não é um jogador consensual. Os seus críticos acusam-no de ser protegido pela liga e pelos árbitros. E, por vezes, perde a cabeça quando as coisas não lhe estão a sair bem. Mas qualquer um reconhece o talento fora de série, capaz de elevar o talento dos colegas que o rodeiam e, sobretudo, a ambição contagiante que o tornaram uma lenda da modalidade. Apesar de todos os títulos que acumula, Tom Brady continua insaciável na procura de mais e mais vitórias.

Ainda assim, se Brady vencer este domingo, além de perfazer o número redondo de cinco títulos, esta vitória terá um sabor especial. Porquê? Porque Tom Brady foi castigado pela liga no início da época — quatro jogos de suspensão, isto é, 25% dos 16 jogos que se disputam na fase regular –, com a acusação de que tinha feito batota com a pressurização das bolas. Num caso complexo que ficou conhecido como o DeflateGate, Tom Brady foi acusado de ter um acordo com um funcionário da equipa para dar pouco ar às bolas usadas por Brady, o que ajuda a ter uma boa aderência sobretudo em quarterbacks com mãos comparativamente pequenas como o californiano.

Em cada jogo, há dois sacos de bolas, um para cada quarterback (de cada equipa). Quando a defesa sai de campo e entra a ofensiva, passa-se para o outro saco de bolas. Existe uma banda permitida para a pressão das bolas, mas um defesa dos Baltimore Ravens e, depois, um dos jogador dos Indianapolis Colts, aperceberam-se que algo não estava bem quando intercetaram passes de Brady, nos jogos dos playoffs de 2015 — as bolas tinham pouco ar. A queixa junto da liga originou um processo longo e controverso que chegou aos tribunais federais. Brady acabou por ser considerado culpado e, sem margem para pedir nova audiência, aceitou a suspensão de quatro jogos.

Se Brady vencer, será uma das vitórias mais saborosas da carreira. Será campeão numa época em que teve de passar o primeiro mês da época no sofá, presumivelmente um sofá mais sumptuoso do que o sofá da casa dos pais onde estava sentado quando viu o draft de 2000 e quando foi chamado pelos New England Patriots, escapando, nas palavras do próprio, a “uma carreira de mediador de seguros”.

Vamos ao jogo. Atlanta Falcons vs New England Patriots

Recordemos a questão colocada no título deste artigo: “Alguém consegue parar Tom Brady?” No que ao Super Bowl diz respeito, a resposta possível é só uma: a equipa adversária. Há um problema, porém: os Atlanta Falcons chegaram ao jogo decisivo muito mais por mérito do seu ataque demolidor2º na NFL em jardas alcançadas na fase regular e líder durante os playoffs — do que da respetiva defesa. Esta é apenas medíocre, só cinco equipas em toda a liga, num total de 32, concederam mais pontos ao longo da época. E isto apesar de os Falcons serem orientados por Dan Quinn, ex-coordenador defensivo dos Seattle Seahawks, onde montou uma unidade temível, que viria a contribuir, e muito, para a conquista do Super Bowl em 2013.

As possibilidades de os Falcons vencerem diminuem ainda mais perante um dos clichés mais repetidos nos desportos americanos: offense wins games, defense wins championships [“o ataque ganha jogos, a defesa ganha campeonatos”]. E apesar de esse mito ter sido, em tempos, desfeito por Stephen J. Dubner, co-autor de Freakonomics, a verdade é que as estatísticas não soam prometedoras para Atlanta: esta é a sexta vez que melhor ataque e melhor defesa se defrontam, nas cinco anteriores, só por uma vez o ataque triunfou. Este artigo do Boston Globe explica bem essa tendência.

Dan Quinn, treinador dos Atlanta Falcons, pegou na equipa em 2015 e operou uma reviravolta extraordinária em apenas duas épocas. (foto: Dustin Bradford/Getty Images)

Assim, será caso para invocar outro cliché: a melhor defesa pode mesmo ser o ataque. As esperanças dos adeptos de Atlanta residirão, em primeiro lugar, no quarterback Matt Ryan, comandante de uma talentosa equipa ofensiva que produziu uns impressionantes 80 pontos nos últimos dois jogos decisivos — 36 aos Seattle Seahawks, na divisional round e 44 aos Green Bay Packers, na final da conferência NFC, numa prestação de sonho. Ryan vem da sua melhor época de sempre, com estatísticas impressionantes: completou 69,9% dos passes tentados e acumulou 4.944 jardas, com um rácio impressionante de 38 touchdowns para apenas 7 interceções pela equipa adversária.

Se Brady teve de contar até 199 para ouvir o seu nome no draft, já ao seu congénere dos Falcons bastou-lhe contar até 3. Estávamos em 2008. A estreia não podia ter sido mais auspiciosa: o seu primeiro passe resultou num touchdown. Chegaria aos playoffs logo na época de rookie, façanha que repetiria em 2010, 2011 e 2012. Nesse último ano esteve muito perto de atingir, pela primeira vez, ao Super Bowl — os seus Falcons perderam a final da NFC para os San Francisco 49ers por 28-24, depois de ao intervalo se encontrarem a vencer 24-14. Foi também essa a época de afirmação do alvo favorito de Matt Ryan, o wide receiver Julio Jones.

Um cenário que se repete com frequência: Matt Ryan pass, Julio Jones recebe. Touchdown.
(foto: Tom Pennington/Getty Images)

Julio é apenas uma alcunha que pegou. O seu nome verdadeiro é outro: Quintorris Lopez Jones. E foi em Foley, no estado do Alabama, onde nasceu e cresceu, que Jones despontou para o desporto. Não apenas para este desporto, o futebol americano, mas também para o basquetebol e o atletismo: entre 2006 e 2007 foi campeão estadual do salto em altura, comprimento e triplo salto, fazendo uso da sua estatura, 1,91m, e enorme capacidade física. A mesma que demonstra hoje em dia, dentro do campo, ganhando aos adversários em altura, rapidez e agilidade. Esta época tornou-se apenas o sexto jogador em toda a história da liga — e o segundo este século — a chegar às 300 jardas num só jogo: fê-lo no desafio contra os Carolina Panthers, em outubro passado.

Na defesa, a arma mais evidente dos Falcons é um jovem jogador que está apenas no segundo ano da sua carreira profissional. Victor Beasley Jr., ou Vic Beasley, como é conhecido, foi o rei dos sacks na NFL durante esta época. Dos quê? Um sack é o ato de chegar ao quarterback antes que este consiga passar a bola, impedindo-o de o fazer e, ao invés, levá-lo a dar um beijinho na relva. Beasley fê-lo 15,5 vezes ao longo do último ano (é possível fazê-lo em conjunto com um colega, sendo atribuído meio sack a cada). Será, por isso, o grande responsável por tentar anular o talento de Tom Brady.

Acontece, porém, que a estrela dos New England Patriots não joga sozinho. Aliás, a sua equipa vale sobretudo pelo conjunto, mérito do homem que a orienta há 17 anos, Bill Belichick. Genial para uns, batoteiro para outros — casos como Spygate ou o Deflategate fizeram o velho rival Don Shula chamar-lhe Beli-Cheat — este é o décimo Super Bowl em que participa, o sétimo ao serviço dos Patriots. Se o ganhar, torna-se o primeiro homem na história da NFL a chegar aos cinco anéis de campeão como treinador principal. A verdadeira mão-cheia.

Bill Belichick e Tom Brady, uma sociedade de sucesso: este pode ser o quinto Super Bowl que treinador e quarterback conquistam em conjunto. (foto: Maddie Meyer/Getty Images)

Este ano, Belichick montou uma defesa eficaz, muito dura de roer, que concedeu apenas 250 pontos em toda a temporada. O ataque explosivo dos Falcons não o deverá assustar por aí além: para vencer o primeiro Super Bowl pelos Patriots, em 2001, precisou de derrotar os St.Louis Rams, cuja unidade ofensiva ficou para a história com designação de The Greatest Show on Turf. Nesse dia, porém, o show foi outro, mas defensivo. E dos Patriots.

O plano para travar o adversário deverá passar por uma cobertura apertada a Julio Jones, de forma a impedir que Matt Ryan lhe faça chegar a bola. Será natural que um dos homens incumbidos dessa missão seja Malcolm Butler, o cornerback (os defesas que, junto às linhas laterais, cobrem os wide receivers) que foi o herói do Super Bowl 49, ao intercetar, nos últimos segundos, um passe do quarterback adversário, Russell Wilson. No final desse jogo, Tom Brady ofereceu-lhe o Chevrolet que ganhara enquanto MVP (most valuable player ou jogador mais valioso) da partida.

No ataque, e à falta do gigante Rob Gronkowski, de fora da competição desde dezembro, devido a lesão, Brady tem-se apoiado em diferentes alvos. O destaque, neste grupo, vai para Julian Edelman, um ex-quarterback universitário convertido em wide receiver que cumpre, todos os anos, uma tradição: chega à fase decisiva dos playoffs com uma longa barba. Porém, na final da AFC, frente aos Pittsburgh Steelers, a estrela do ataque não foi Edelman mas antes Chris Hogan, que na universidade até começou por jogar lacrosse em vez de futebol americano. Nesse jogo, Hogan apanhou nove bolas, duas delas para touchdown e somou 180 jardas. No Super Bowl pode até acontecer que não brilhe nenhum destes nomes e se imponha outro qualquer, do tight end Martellus Bennett ao running back Dion Lewis. Mas se a vitória lhes sorrir já sabe em quem é que as atenções estarão centradas.