Os Carolina Panthers foram em 2011 a pior das 32 equipas da National Football League (NFL), a liga que tem na Super Bowl o apogeu do espectáculo desportivo do futebol americano. Nesse ano, os Panthers perderam 14 dos 16 jogos em que participaram (sim, são só 16 por época) e aproveitaram para baralhar e dar de novo. Um novo treinador, Ron Rivera, foi contratado para reconstruir a equipa e esse foi o início do caminho que os levou até este domingo, em que são favoritos — tendência confirmada pelas casas de apostas de Las Vegas — para conquistar a Super Bowl deste ano, a 50.ª da História da modalidade, frente aos Denver Broncos, liderados pela lenda viva dos quarterbacks Peyton Manning, que, se vencer, pode fazer deste o último jogo da carreira.

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Um atleta sobrenatural, Cam Newton era uma estrela na faculdade e conseguiu este ano, finalmente, impôr-se na NFL. Peyton Manning é um dos melhores quarterbacks da História e quer despedir-se em beleza

A rápida recuperação dos Carolina Panthers equivale àquilo que seria ver o honroso Tondela, atualmente último classificado da liga portuguesa de futebol profissional, a disputar o título de campeão nacional em 2020. No futebol, a que os americanos chamam soccer, dominado por agremiações de galáticos que podem gastar valores aparentemente ilimitados em salários e transferências, um Tondela campeão daqui a cinco anos pode considerar-se uma impossibilidade. Sem desprimor.

Na NFL, não é assim tão impossível. A liga, declaradamente privada, é um negócio que se preocupa muito com a sustentabilidade, isto é, com os lucros. Não seria bom para a modalidade, nem para o negócio, ter duas ou três equipas – sempre as mesmas, nos imensos Estados Unidos da América – a disputar a vitória final. É por isso que a liga foi pensada para ser o mais competitiva possível e permitir que qualquer equipa possa, com um pouco de engenho, aproveitar uma época em que nada correu bem para respirar fundo e, dali a uns anos, poder estar no topo.

O futuro é dos jovens

E tudo começa com o draft, os três dias nos finais de abril em que as 32 equipas da NFL escolhem, à vez, os atletas saídos das faculdades que se declaram elegíveis. É uma festa dentro da festa, saciando a fome a um imenso público que só tem futebol americano – a sério – entre setembro e início de fevereiro. O resto do ano é um deserto, e os fãs da modalidade sabem aquilo de que o Observador está a falar.

A característica principal do draft é a ordem em que as equipas escolhem, ao longo das sete rondas sucessivas. É uma escala invertida: a equipa que terminou em último é a primeira a escolher, nos sucessivos rounds, e a equipa campeã (que venceu a Super Bowl do ano anterior) é a última a escolher os seus atletas. Ou seja, em 2011 os Carolina Panthers tiveram oportunidade para escolher o melhor atleta (ou o mais promissor) com a primeira pick e tiveram, depois, as picks número 33, 65, 97 e por aí em diante.

NEW YORK, NY - APRIL 28: A general view of the draft stage during the 2011 NFL Draft at Radio City Music Hall on April 28, 2011 in New York City. (Photo by Chris Trotman/Getty Images)

Uma imagem da noite de draft de 2011, aquela em que os Panthers selecionaram, com a primeira escolha, Cam Newton (foto: Chris Trotman/Getty Images)

Este esquema invertido do draft é uma das principais ferramentas que a NFL tem para ir nivelando o talento entre as 32 equipas da liga. É senso comum na NFL que as melhores equipas, que conseguem manter um nível de sucesso mais consistente, são aquelas que se dão melhor nos drafts ao longo dos anos.

Não há passes. Ninguém paga por um jogador. O que conta é o salário

Quem se engana menos vezes no draft, dá-se melhor – sobretudo porque ir buscar jogadores a outras equipas sai (muito) caro. Mas caro de uma forma diferente, porque na NFL ninguém paga dinheiro vivo pelo passe dos jogadores. Há poucas transferências e as que há são troca por troca ou trocas de um jogador no ativo por uma pick num draft futuro. Todos os jogadores são free agents com o passe na mão, assinando contratos com as equipas mas que podem ser quebrados a qualquer momento.

E é aí que entra a outra ferramenta da NFL para nivelar a liga: o salary cap, o limite anual de salários, que é o mesmo para todas as equipas da liga (com algumas especificidades) e que foi introduzido em várias ligas desportivas americanas há muitos anos, quando algumas delas, como a NBA, estavam quase falidas dado o crescimento galopante dos salários oferecidos aos jogadores.

Vejamos um exemplo de como o salary cap funciona, em termos simplificados. O talentoso John Smith tem um contrato de quatro anos com um clube da NFL, com remuneração crescente. No primeiro ano, o salário anual é de dois milhões de dólares, no segundo ano de quatro milhões, no terceiro de seis milhões e no quarto ano, o último, o valor dispara para dez milhões de dólares. À entrada no último ano de contrato, por exemplo, o clube pode decidir interromper o contrato, evitando gastar dez milhões de dólares com esse único jogador e ganhando margem de manobra abaixo do teto salarial.

Esse jogador fica, então, livre para ir para o mercado, potencialmente conseguindo os dez milhões de dólares – ou mais – numa outra equipa que tenha menos atletas de topo e que, portanto, tenha mais espaço disponível abaixo do teto salarial. Consegue-se, assim, que todas as equipas consigam, por regra, ter alguns dos jogadores mais talentosos da modalidade e evita-se que uma ou outra equipa consiga reunir no plantel os melhores jogadores de cada posição, esmagando a concorrência.

A fórmula dos Panthers para o sucesso

Ficar mal colocado na liga não é, por si só, garante de recuperação imediata nas épocas seguintes, pese todo o sistema acima descrito. Dez das 32 equipas da NFL não se apuram para os playoffs (a fase onde as seis melhores colocadas de cada uma das duas conferências jogam entre si, a eliminar, para encontrar o seu representante na Super Bowl) há cinco anos ou mais. É preciso saber aproveitar o draft, construir uma equipa equilibrada, acertar no treinador e, não menos importante, ser paciente.

Ron Rivera, que se tornou head coach dos Panthers em 2011, a mesma época em que a equipa seleccionou Cam Newton com a primeira escolha do draft, esteve prestes a ser despedido em 2013, depois de um início de época em que somou apenas uma vitória nos primeiros quatro jogos. Jerry Richardson, o fundador e dono da equipa, segurou-o contra tudo e todos. E não se terá arrependido da decisão. Nos 12 jogos seguintes os Panthers perderam apenas por uma vez, conquistando, pelo caminho, o primeiro de três títulos consecutivos da divisão NFC South — a liga divide-se em duas conferências, NFC e AFC e cada uma delas está sub-dividida em quatro divisões, cada uma respeitante a um ponto cardeal — apurando-se, assim, para os playoffs.

CHARLOTTE, NC - JANUARY 24: (L-R) Head coach Ron Rivera and owner Jerry Richardson of the Carolina Panthers smile after defeating the Arizona Cardinals with a score of 49 to 15 in the NFC Championship Game at Bank of America Stadium on January 24, 2016 in Charlotte, North Carolina. (Photo by Streeter Lecka/Getty Images)

Ron Rivera, o treinador, e Jerry Richardson, o fundador e dono dos Carolina Panthers
(foto: Streeter Lecka/Getty Images)

O mérito da transformação da equipa começa, por isso, no seu treinador, cuja alcunha, Riverboat Ron, se deve a uma súbita mudança de estilo, coincidente com a recuperação da equipa: Rivera deixou de lado as decisões conservadoras que o caraterizavam e tornou-se um treinador adepto do risco. Com excelentes resultados, escreva-se. Ajudou, claro, ter em campo, a liderar a equipa ofensiva, na sua posição mais importante — quarterback — um portento físico, talentoso e sorridente: Cam Newton.

Esta foi a época em que o líder dos Panthers fez, finalmente, jus à alcunha de Superman. Se os seus dotes atléticos já eram conhecidos (1,96m, 110kg e agilidade de um bailarino), a antiga estrela da universidade de Auburn revelou, ao longo da época, uma invulgar capacidade de causar estragos pelo ar: fez-se um passador exímio, principalmente em bolas longas, e acabou a época regular com estatísticas impressionantes. Assinou, ao todo, 45 touchdowns, marca que lhe deu o sétimo melhor registo de sempre na época regular e fez muitos miúdos felizes: depois de cada jogada bem sucedida, Newton tem por hábito oferecer a bola aos adeptos mais jovens.

CHARLOTTE, NC - SEPTEMBER 21: Cam Newton #1 of the Carolina Panthers gives a fan a ball after a 3rd quarter touchdown against the Pittsburgh Steelers during their game at Bank of America Stadium on September 21, 2014 in Charlotte, North Carolina. (Photo by Grant Halverson/Getty Images)

Uma cena repetida 45 vezes esta época: depois de um touchdown Cam Newton faz uma (pequena) adepta feliz (foto: Grant Halverson/Getty Images)

É Cam Newton e mais 10?

Nem por isso. É verdade que um excelente quarterback pode tornar uma boa equipa numa excelente equipa, tal como um mau quarterback pode transformar uma equipa razoável numa equipa medíocre. Mas, apesar do peso que a posição tem no desporto, é inaudito haver quem ganhe a Super Bowl à conta de um só jogador. Escrito isto: sim, os Panthers têm outros argumentos. Excelentes argumentos. A começar pelo linebacker Luke Kuechly, o esteio da defesa, que também veio via draft: foi a nona escolha em 2012. Toda a defesa é, aliás, um ponto forte do conjunto: além de Kuechly, destacam-se o poderosíssimo defensive tackle, Kawann Short, e um dos melhores cornerbacks da liga nas últimas duas épocas, Josh Norman.

No ataque, o alvo favorito dos passes de Cam Newton dá pelo nome de Greg Olsen, um tight end com enormes capacidades atléticas e que acumulou 77 receções (7 delas para touchdown) ao longo da época. O rejuvenescido Ted Ginn Jr. também deve ser tido em conta: o wide receiver conseguiu, aos 30 anos, receber quase tantos touchdowns em 2015 (10) como tinha recebido em toda a sua carreira desde 2007 (11).

Mas atenção: os Broncos podem surpreender

Chegado a este parágrafo o estimado leitor pode pensar que tudo vai ser, como alguns dizem por estas bandas, “limpinho, limpinho” a favor dos Panthers. Mas pode bem não ser assim. Nenhum adepto da equipa de Denver quererá repetir o resultado da última presença numa Super Bowl: uma derrota expressiva (43-8) às mãos dos Seattle Seahawks em 2014. Muito menos o respetivo diretor-geral — e seu ex-quarterback — John Elway, vencedor de duas ligas enquanto jogador, em 1997 e 1998.

E se Elway era já um veterano quando alcançou esses títulos, com 37 e 38 anos, respetivamente, Peyton Manning, atual quarterback dos Broncos, ainda o é mais. Quando o jogo começar, Manning estará a mês e meio de completar 40 anos. Para se ter uma noção da diferença de idade para Cam Newton atente-se no seguinte: quando Manning entrou para a liga, em 1998, Newton ainda estava na escola primária.

INDIANAPOLIS, IN - AUGUST 16: Indianapolis Colts rookie quarterback Peyton Manning looks for a received during a pre-season game with the San Diego Chargers 22 August at the RCA Dome in Indianapolis, IN. (Photo credit should read JOHN RUTHROFF/AFP/Getty Images)

Esta fotografia já atingiu a maioridade: tem precisamente 18 anos, tantos quantos a carreira de Peyton Manning. Foi tirada na sua época de rookie durante um dos primeiros jogos em que participou (foto: JOHN RUTHROFF/AFP/Getty Images)

Experiência e pergaminhos não faltam, por isso, ao número 18 dos Denver Broncos, que conta com uma Super Bowl no currículo, ganha em 2006 ao serviço dos Colts de Indianapolis. Bons genes também não: o pai, Archie Manning, foi quarterback de três equipas entre 1971 e 1984 e o irmão mais novo, Eli, desempenha a mesma função nos New York Giants desde 2004, tendo ajudado a conquistar duas Super Bowls, em 2007 e 2011.

Mas esta não foi uma época fácil para Manning. Estatiscamente falando — as estatísticas interessam, e muito, no futebol americano — foi uma das piores de sempre. Entre exibições nada convincentes e problemas físicos diversos que o afastaram de alguns jogos da fase regular, não faltaram motivos nem ocasiões para que comentadores e adeptos especulassem que estaria acabado. Acabado não estará, mas o braço já não tem a força de antigamente e as pernas, que nunca foram famosas, vão servindo para isto e pouco mais. A grande arma de Peyton Manning é, no entanto, outra: uma inteligência acima da média, espelhada na forma como lê as defesas adversárias e altera as jogadas de acordo com o que vê em campo, que não tem rival em toda a NFL.

Além disso, Manning não vai subir ao relvado do Levi’s Stadium, palco da Super Bowl, mal acompanhado. Principalmente, no que respeita aos seus colegas do setor defensivo. Dizem os dicionários que um bronco é um cavalo selvagem. Pois bem, a defesa dos Denver Broncos assume-se como uma tropa de cavalos selvagens, pujantes e incansáveis, liderada por dois enormíssimos jogadores: os outside linebackers — responsáveis por atingir o quarterback adversário — Von Miller e DeMarcus Ware. Aqib Talib, um cornerback com tanto mau feitio como talento também será uma arma importante para tentar apagar os fogos provocados pelo explosivo ataque dos Panthers.

DENVER, CO - JANUARY 24: Fans hold a 'defense' sign prior to the AFC Championship game between the New England Patriots and the Denver Broncos at Sports Authority Field at Mile High on January 24, 2016 in Denver, Colorado. (Photo by Doug Pensinger/Getty Images)

D + ‘fence’, a forma como os adeptos de futebol americano ilustram, geralmente, a defesa. Se a dos Broncos se portar à altura das suas capacidades, a equipa de Denver terá uma palavra, ou várias, a dizer nesta Super Bowl. (foto: Doug Pensinger/Getty Images)

No ataque, os Broncos também não estão nada mal servidos, especialmente ao nível do jogo corrido. O treinador Gary Kubiak, homem experiente nestas andanças (é a sua sétima presença numa Super Bowl, embora seja a primeira como head coach), usa aquilo a que, na gíria, se chama um monstro de duas cabeças: os running backs C.J Anderson e Ronnie Hillman vão se revezando com frequência para manter a frescura. Caso Manning esteja em dia sim, aquele que é, talvez, o melhor duo de wide receivers da liga — o velocista Emmanuel Sanders e o intimidante Demaryius Thomas — pode provocar problemas à defesa dos Panthers. Por isso, além dos anúncios ao intervalo e do recém-anunciado espetáculo conjunto de Coldplay e Beyoncé, ainda nada está decidido. Que ganhe o melhor.

O jogo é transmitido em Portugal pela Sport TV 2, a partir das 23h30 de domingo, 7 de fevereiro. A CBS, estação americana responsável pela transmissão do jogo, vai disponibilizar essa mesma transmissão online de forma gratuita, através deste link.