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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Do sangue no quarto ao martelo atirado ao Tejo. 36 horas para deter a filha e o genro da professora /premium

Pesquisaram na internet sobre como esconder as provas. Queimaram o corpo e deitaram a arma do crime ao Rio Tejo. A investigação de 36 horas acabou com dois familiares de Amélia a confessar o crime.

Deitada ao lado da cadela, num cobertor perto da sua cama. Era ali que Amélia passava algum tempo do seu dia a dar atenção ao animal de companhia, já velho e em estado terminal. Foi ali também que, naquele domingo, a dona adormeceu e acabou por ficar estendida. Amélia Fialho, professora de 59 anos, teria sido drogada — o primeiro passo de muitos do plano da filha adotiva, de 23 anos, e do genro, de 27, “para lhe tirar a vida”, como prefere escrever a Polícia Judiciária (PJ) no comunicado desta sexta-feira que dava conta da detenção daqueles dois familiares.

Os comprimidos, uns medicamentos que tinham lá por casa, terão sido esmagados pela filha e colocados na garrafa de Amélia. Só ela bebia de lá. Diana Fialho sabia-o e foi controlando a mãe para perceber se esta estava a beber o líquido e, com ele, os comprimidos, revelou fonte da PJ ao Observador. Com a mãe desmaiada (ou já morta), o casal terá usado um martelo para a agredir violentamente no crânio e garantir que não acordava. Assim, o transporte do corpo ficaria facilitado.

Com a mãe desmaiada (ou já morta), o casal terá usado um martelo para a agredir violentamente no crânio e garantir que não acordava.

Diana e o marido, Iuri, envolveram Amélia na própria manta onde se tinha deitado e, pela madrugada de domingo, saíram de casa com o corpo. Entraram no elevador e saíram no piso que dava acesso à garagem, da moradia onde viviam os três, no Montijo. Colocaram o corpo na bagageira de um dos carros e seguiram até Pegões. Pelo caminho, pararam para comprar gasolina, como se vê nas imagens de videovigilância de uma bomba a que a PJ teve acesso. Abandonaram o corpo embrulhado na manta num descampado e deitaram-lhe fogo, utilizando a gasolina para acelerar o processo. No local, junto ao corpo carbonizado, a PJ viria a encontrar ainda pedaços de manta queimados.

O plano para “tirar a vida” a Amélia não se ficou por ali, pelo momento em que o casal se desfez do corpo. A própria Diana Fialho participou o desaparecimento da mãe às autoridades, deixou um alerta nas redes sociais e apelou à comunicação social para que divulgasse o caso — julgando que, ao fazê-lo, estaria a afastar quaisquer possibilidades de desconfiarem dela e do marido. Não só não afastou, como atraiu atenções. Em 36 horas, a PJ tinha reunido provas suficientes para deixar o casal sem margem, confessando (como veio a acontecer) ou não. Ficaram em prisão preventiva, por suspeitas da prática dos crimes de homicídio qualificado e profanação de cadáver.

O post no Facebook que alertou a PJ, as contradições da filha e o corpo encontrado pela GNR

“Isto vai lá ter comigo”. Foi este o pensamento de um inspetor da PJ do Departamento de Investigação Criminal de Setúbal, ao ver nas redes sociais que uma professora do Montijo tinha desaparecido. Curioso sobre os moldes do desaparecimento, o inspetor acabaria por dar caras com a publicação original. A de Diana Fialho. “Considerei que era de uma grande frieza e estranhei logo”, confessou ao Observador.

Diana Fialho fez um apelo nas redes sociais para o suposto desaparecimento da mãe, às 23h29 de segunda-feira (Foto: Facebook)

Estava certo. Na manhã do dia seguinte, quarta-feira, a PJ toma contacto oficial com o caso do desaparecimento, que tinha sido remetido pela PSP do Montijo, onde a participação foi feita. Num primeiro momento, foi no sentido de um desaparecimento que a investigação foi conduzida. O objetivo era óbvio: encontrar a pessoa desaparecida. Mas ao longo do dia, a PJ fez uma série de diligências que deixaram dúvidas sobre o desaparecimento e suspeitas de um crime. De um conjunto de elementos, que isoladamente tinham pouco interesse, resultaram as suspeitas:

As contradições no depoimento à PSP, na segunda-feira. Num primeiro momento, Diana Fialho disse que a mãe tinha levado os documentos, o telemóvel e o carregador. O inspetor da PJ ouvido pelo Observador considera que a inclusão do carregador de telemóvel nesta lista transmite a ideia de uma saída planeada por parte de Amélia. Ora, esta ideia jogaria contra aquilo que a filha Diana queria que as autoridades pensassem: que a mãe saiu de casa para se suicidar ou que tinha sido alvo de um crime violento. Por isso, mais tarde, disse que, afinal, o carregador não tinha ido. Depois já os documentos também tinham ficado em casa. “Foi ajustando os seus relatos para se salvaguardar. Decidiu tirar o carregador da história para dar a entender que lhe tinha acontecido alguma coisa, como um acidente ou suicídio — cenários que seriam melhor para ela”, adiantou a mesma fonte.

A publicação no Facebook e os comentários suspeitos. Além da frieza que já tinha sido notada pela PJ, algumas respostas de Diana Fialho aos comentários levantaram suspeitas. Vários utilizadores sugeriram, na quarta-feira, que a filha recorresse à PJ. “De segunda a quarta, ela [Diana Fialho] nunca falou connosco. Quem está desesperado, não é isso que faz”, assegurou fonte da PJ ao Observador.

A postura da filha, nas entrevistas e nos depoimentos. As entrevistas à comunicação social já tinham levantado suspeitas. “A própria forma como ela responde, como antecipa cenários, como coloca as questões e depois dá as respostas, para não lhe perguntarem, sempre dizendo: ‘Já me disseram que'”, explica fonte da PJ. Essa postura repetiu-se nos depoimentos que prestou à PJ. Numa das entrevistas à CMTV, Diana incluiu até um cenário semelhante àquele que viria a ser o real: “Com as notícias todas que há no Facebook, já me puseram todas as hipóteses. Podem a (sic) ter roubado e deixado estendida por ali”, disse.

Quando a PJ pensou em registar este caso como inquérito pela suspeita de crime, na noite de quarta-feira, recebem a informação que um corpo tinha sido encontrado pela GNR, numa zona isolada. “Se na quarta-feira, ao longo do dia, tínhamos estado à procura de uma senhora desaparecida do Montijo, não podíamos deixar de considerar a possibilidade de ser ela”, salientou a fonte da PJ ao Observador. As equipas foram reforçadas e deram indicações de que podia ser a mesma pessoa. Informaram que a Amélia Fialho tinha pouco mais de 1.50 metros de altura e que esse podia ser um dado relevante. E foi. O estado em que o corpo tinha sido encontrado não permitia sequer perceber se era homem ou mulher. Mas a estrutura morfológica era compatível: o cadáver carbonizado era, de facto, o de uma pessoa de baixa estatura.

A paragem para comprar gasolina e a paragem na ponte Vasco da Gama

Na manhã seguinte, a PJ só tinha um caminho: registar o caso como inquérito pela suspeita de crime — até porque seriam disponibilizados mecanismos e ferramentas de obtenção de prova não disponíveis num caso de desaparecimento. “Começámos a trabalhar já não na lógica do desaparecimento. Uma coisa é estar à procura de uma pessoa que estará de saúde mas que desapareceu. Outra coisa é estar à procura dos autores do crime“, explicou fonte da PJ ao Observador.

Logo nessa manhã de quinta-feira, a PJ fez algumas diligências que os levou à casa e aos carros da família. “Tínhamos de atacar com tudo e se não fosse muito rapidamente, este processo ia complicar-se muito do ponto de vista da prova”, considerou a fonte da PJ. A equipa do Departamento de Investigação Criminal de Setúbal contava já com o apoio do Laboratório de Polícia Científica. “Percebemos logo que teríamos aqui alguma dificuldade, porque os autores — sejam eles quem forem — normalmente procuram esconder as provas”, disse a mesma fonte.

"Percebemos logo que teríamos aqui alguma dificuldade porque os autores sejam eles quem forem, normalmente procuram esconder as provas"
Fonte da Polícia Judiciária

Não conseguiram esconder. A limpeza da casa e dos carros e outros cuidados que tiveram não foram suficientes para apagar todos os indícios. A PJ encontrou vestígios de sangue na bagageira de um dos carros da família e terra nos sapatos da filha e do genro. Na casa, também encontram vestígios de sangue em várias zonas do quarto onde Amélia terá sido assassinada. Os suportes informáticos do casal denunciaram pesquisas na internet relacionadas com o crime, nomeadamente sobre como esconder as provas. O telefone do genro ficou desligado durante algum tempo, no momento da prática do crime.

Algumas imagens de videovigilância mostram o casal a parar o carro, perto de um posto de abastecimento, para adquirir gasolina. Nesse momento, tinham o cadáver no carro. O casal parou na ponte Vasco da Gama, para atirar ao Tejo o telemóvel de Amélia Fialho e o martelo usado como arma do crime.

A confissão inevitável e a detenção. PJ aguarda resultado da autópsia e vai voltar à casa

Na noite de quinta-feira, Diana e o marido foram confrontados com a situação. As provas eram tantas que mesmo que não confessassem seriam detidos na mesma. Mas confessaram. “Eles podiam não prestar declarações mas acabaram por prestar e admitiram os factos. Admitiram a sua responsabilidade porque não tinham justificação para um conjunto de coisas com as quais foram confrontados”, revelou fonte da PJ ao Observador. Na madrugada de sexta-feira, às 2h00 da manhã, foram os dois detidos pela PJ.

Diana Fialho e Iuri Mata casaram em julho deste ano e vivam com Amélia Fialho, na sua casa no Montijo (Foto: Facebook)

Mesmo depois de confrontada com alguns elementos, a postura de Diana foi sempre a que tinha mantido nas entrevistas na televisão. O casal não conseguiu apresentar justificações para o que tinha feito. “O facto de terem casado em julho e de quererem ser mais independentes, mas com o dinheiro da mãe — queriam estar na casa da mãe e sogra com regras próprias — pode ter motivado mais discussões”, explica a fonte da PJ, alertando que, na sexta-feira antes do crime, Diana e a mãe teriam discutido.

A discussão poderia ter desencadeado a execução de um plano que já estava na mente do casal há algum tempo. Fonte da PJ alerta ainda que, embora Diana tivesse “um ascendente sobre o marido”, ambos são “responsáveis por todos os atos de igual modo”. “Nota-se que ela tem algum ascendente sobre ele, em aspetos relacionados com a capacidade de liderança e de controlo das emoções”, concluiu a PJ.

O caso está longe de estar encerrado. A PJ vai voltar à casa, agora que sabem que é ali o local do crime. “Vamos ter de lá voltar, agora com um cenário mais bem descrito, com uma forma completamente dirigida”, explicou a mesma fonte. O resultado da autópsia ainda está por chegar e deverá auxiliar a PJ na investigação, apesar do estado em que o corpo foi encontrado. As conclusões poderão determinar que tipo de medicamento foi dado para drogar Amélia Fialho. Será também possível saber a sua causa da morte: “Não se sabe que morreu dos comprimidos ou na sequência das pancadas na cabeça.”

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