Índice

    Índice

A memória dos devastadores fogos florestais de Junho de 2017 persiste, mas, como é habitual em Portugal, apenas na vertente emocional – em termos racionais, pouco ou nada foi aprendido ou interiorizado (ou “inscrito”, para usar a terminologia do filósofo José Gil). O incêndio que, entre 17 e 24 de Junho, consumiu 53.000 hectares em Pedrógão Grande e concelhos limítrofes e causou 66 mortos e 254 feridos foi o mais mortífero ocorrido em Portugal e o 11.º mais mortífero de sempre a nível mundial, mas nem a crueza dos números nem a espectacularidade macabra das imagens de devastação repetidas até à náusea pelos media são capazes de moderar o apetite nacional por dias tórridos de céu azul.

Um Verão glacial?

A queixa mais difundida neste início de Verão é que não temos Verão. Todavia, em Junho de 2017 tivemos Verão a mais: a temperatura média do ar foi de 22.34 ºC (2.92 ºC acima do normal), o que faz dele o 3.º Junho mais quente desde 1931 (a anomalia foi ainda maior quando se considera a temperatura máxima do ar, que atingiu 29.57 ºC, ou seja, 4.21 ºC acima do normal). Foi também muito seco: os 9.6 mm de precipitação representaram apenas 30% da chuva que costuma cair em Junho.

Acontece que o mês anterior tinha já registado uma temperatura média do ar de 18.47 ºC (2.74 ºC acima do normal), o que faz dele o 3.º Maio mais quente desde 1931. A precipitação em Maio de 2017 foi próxima (93%) do normal, mas como o Inverno tinha sido seco, a quantidade de água no solo era, no final de Junho, preocupantemente baixa: 7.3% do país estava em seca extrema, 72.3% em seca severa, 17.0% em seca moderada e 3.4% em seca fraca, segundo os critérios PDSI (Palmer Drought Severity Index) utilizados internacionalmente.

Entre 16 e 19 de Junho, Portugal ficou sob o efeito de uma massa de ar invulgarmente seca e quente, que fez com que no dia 17 a temperatura média atingisse 29.4 ºC (10.0 ºC acima do normal) e a temperatura máxima atingisse 39.12 ºC (13.8 ºC acima do normal). Com a ajuda de trovoadas secas e outros fenómenos meteorológicos adversos (incluindo os famigerados downbursts) e, sobretudo, de décadas de desordenamento florestal, incúria, irresponsabilidade e abandono (imputáveis a particulares, empresas, administração central e local), estavam criadas as condições para um incêndio de dimensões e poder destruidor inéditos.

As consequências dos incêndios na região de Pedrógão Grande foram devastadoras

Em Junho de 2018 a temperatura média do ar foi de 19.52 ºC, o que faz dele o 4.º Junho mais frio desde 2000 e a precipitação média foi de 48.5 mm (150% do valor normal), o que faz dele o 2.º Junho mais chuvoso desde 2000. O teor de água no solo no final de Junho de 2018, medido pelos critérios PDSI, está em franco contraste com o registado um ano antes: 11.8% do país estava em chuva severa, 68.4% em chuva moderada, 19.8% em chuva fraca.

Podemos então concluir que tivemos um Junho invulgarmente frio e chuvoso? Não: quando consideramos o período 1931-2018, Junho de 2018 teve temperatura média normal (na verdade 0.10 ºC acima do normal) e foi apenas o 37.º Junho mais frio. E a pluviosidade não foi extraordinária: foi apenas o 16.º Junho mais chuvoso desde 1931.

Em resumo, Junho de 2018 só parece frio e chuvoso porque o final do século XX e início do século XXI têm sido invulgarmente quentes e secos, dando razão aos especialistas em clima que prevêem que, em resultado do aquecimento global, o clima na bacia mediterrânica se tornará mais quente e seco e com ocorrência mais frequente de fenómenos meteorológicos extremos.

Evolução da temperatura média na Terra, tomando como referência a média do período 1951-80

E mesmo que tivesse sido frio e chuvoso, seria isso de lamentar? Não para quem tem na agricultura a principal fonte de rendimentos ou para quem, vivendo em zonas rurais e florestais, tema pela segurança das suas casas e bens. Mas, claro que estas pessoas representam hoje uma pequena (e minguante) fracção da população portuguesa e só têm visibilidade quando são atingidas por calamidades – na “época de fogos” recebem a designação de “populares” e são figurados nas televisões em “cenários dantescos”, tentando extinguir muralhas de chamas com baldes e mangueiras de jardim ou torcendo as mãos em desespero enquanto o fogo consome os seus estábulos e as suas ovelhas; no resto do ano são invisíveis.

Para o Portugal urbano de classe média, que representa o grosso da população nacional e que é aquele a quem os media se dirigem, frio e chuva são sempre vistas como uma contrariedade – por vezes mesmo como uma ofensa pessoal – e não como parte integrante do mundo e da vida.

Projecções da evolução do aumento de temperatura, de acordo com estudos realizados por oito instituições diferentes, assumindo que não serão tomadas medidas para redução de emissões de gases de efeito de estufa

Subjugando os elementos: Danças e rezas

A origem dos rituais para subjugar a meteorologia aos interesses humanos perde-se na noite dos tempos e está disseminada um pouco por todo o mundo. Não houve civilização que não tivesse deuses para a chuva, o trovão, o relâmpago e o vento, uma deusa-mãe a quem suplicar colheitas abundantes, lendas sobre o Dilúvio Universal e sacrifícios e oferendas às divindades para pôr termo a uma seca, afastar tornados e granizo ou assegurar bom tempo para uma viagem marítima.

Chaac, deus da chuva maia, que causava a chuva e o trovão quando atingia as nuvens com o seu machado-relâmpago

De Adad, deus das tempestades assírio, a Zeus, senhor do trovão (e rei dos deuses) da mitologia grega, são inúmeras as divindades a quem foi atribuído o domínio dos elementos atmosféricos (por vezes acumulando responsabilidades nos departamentos de terramotos, da guerra ou do caos).

“A mão de Perkūnas”, deus do trovão lituano, por Mikalojus Konstantinas Čiurlionis (1875-1911)

A maior parte destes deuses atmosféricos ficou sem crentes há muitos séculos, de forma que uma das facetas que está mais presente no imaginário são as danças da chuva dos nativos americanos, que persistiram até ao início do século XX e cuja ocorrência foi mais frequente entre as tribos que viviam nas zonas das Grandes Planícies e do que é hoje o Sudoeste dos EUA

Cerimónia destinada a fazer chover, pelos índios Potawatomi, Kansas, c.1920

A precipitação nas zonas interiores da América do Norte – nomeadamente nas Grandes Planícies – e não só é pouco abundante (menos de 250 mm/ano, nalgumas regiões) como regista grande variabilidade de ano para ano, o que afectava a abundância da caça de que as tribos índias dependiam, pelo que se compreende o seu empenho em convencer o deus do trovão a ser generoso. A superior tecnologia e a capacidade de planeamento do homem branco não bastaram para afastar o espectro da seca e, na década de 1930, a conjugação de práticas agrícolas inadequadas e de anos de fraca precipitação converteu a camada superior dos solos das zonas mais áridas das Grandes Planícies em poeira, que ventos fortes levantaram em tempestades com efeitos devastadores sobre a agricultura da região. Neste período, que ficou conhecido como Dust Bowl, 400.000 Km2 de terrenos agrícolas foram afectados e milhões de agricultores arruinados foram forçados a migrar para a Califórnia.

Exploração agrícola devastada pelas tempestades de poeira, Dallas, Dakota do Sul, 1936

Mesmo na Europa e até há pouco tempo, estavam em uso rituais propiciadores de chuva, sobretudo na zona dos Balcãs: na “dodola” (também conhecida como “peperuda”, “perperuna” ou “caloian”, consoante as regiões), uma rapariga, envergando uma saia feita de ramos e folhas, percorre as ruas da aldeia a dançar e cantar e em cada porta em que se detém é borrifada com água.

O ritual conhecido como “dodola”, Bulgária, década de 1950

No Portugal do nosso tempo ainda há rezas e procissões destinadas a solicitar a intercessão divina em casos de seca prolongada, mas, até à data, os rituais da Igreja Católica e Apostólica Romana não se têm mostrado mais eficazes do que os rituais pagãos.

Subjugando os elementos: Libido

Mas se os deuses parecem – pelo menos nos nossos dias – pouco dispostos a atender súplicas por chuva, pode sempre tentar-se colocar a energia sexual ao serviço do controlo climático.

Wilhelm Reich (1897-1957) foi um dos nomes mais sonantes da psicanálise, cuja mundividência e princípios tentou harmonizar com os do marxismo. A sua concepção do orgasmo genital como remédio contra todas as neuroses e a sua apologia da libertação sexual (o que incluía a incitação ao sexo na adolescência, a distribuição de preservativos, a despenalização do aborto e a facilitação do divórcio) não foram, naturalmente, bem recebidas na católica e conservadora Áustria de entre-guerras e Reich mudou-se para Berlim em 1930. A subida ao poder de Hitler fê-lo andar pela Dinamarca, Suécia e Noruega, até que em 1939 se mudou para os EUA, onde viveria até ao fim da vida.

Foi por volta de 1939 que começou a desenvolver o conceito de “energia orgone”, que seria preponderante nos seus estudos e publicações daí em diante. Se as suas práticas clínicas pouco ortodoxas e a sua fusão de psicanálise e materialismo dialéctico já tinham feito franzir sobrolhos na comunidade científica, o conceito de “orgone” entra no domínio da pura charlatanice: tratar-se-ia de uma energia vital disseminada por todo o cosmos e que estava ligado à libido humana (as auroras boreais seriam uma das suas manifestações mais conspícuas). Após experiências com animais, constituiu em 1940 o primeiro acumulador de orgone à escala humana: uma caixa de contraplacado forrada a lã de rocha e folha de aço, com uma janela e uma cadeira no interior.

Wilhelm Reich com o acumulador de orgone por ele concebido (rapariga não incluída)

Reich não tardou a proclamar que o seu acumulador de orgone trazia benefícios para a saúde, sendo capaz de travar o desenvolvimento de cancros e aumentar a potência dos orgasmos. Continuou a aprofundar as suas “investigações” e, em 1951, anunciou a descoberta de uma variante da “energia orgone”, a que deu o nome de Radiação Mortal Orgone (Deadly Orgone Radiation), que seria responsável pelos fenómenos de desertificação. Para combater este flagelo, desenvolveu o “cloudbuster”, um dispositivo que consistia numa bateria de tubos de alumínio a que estavam ligados uns tubos de borracha cujas outras extremidades eram mergulhadas em água (e que Reich descreveu como “um acumulador de orgone invertido”).

Wilhelm Reich com o “cloudbuster” por ele concebido

Supostamente, o “cloudbuster” seria capaz de interagir com a “energia orgone” na atmosfera e desencadear (ou impedir) a precipitação. Em 1953, dois produtores de mirtilos do Maine, desesperados com uma seca prolongada, pediram a Reich que salvasse a sua colheita – no dia 6 de Junho Reich pôs o seu “cloudbuster” em funcionamento no local e à noite começou a chover. Não há registos fidedignos dos resultados (ou da sua ausência) das dezenas de outras experiências que realizou com o “cloudbuster”, sob o pomposa designação de Cosmic Orgone Engineering.

[Uma revisão romântica dos delírios de Wilhelm Reich: “Cloudbusting”, do álbum Hounds of love (1985), de Kate Bush. O videoclip foi concebido por Bush e pelo Monty Python Terry Gilliam, realizado por Julian Doyle (um colaborador próximo de Gilliam e dos Monty Python) e protagonizado por Donald Sutherland (no papel de Wilhelm Reich) e Kate Bush (no papel do seu filho Peter)]

Subjugando os elementos: Ficção

“Tive nas mãos, durante cinco anos, a regulação do clima e a distribuição das estações; o sol cumpriu os meus ditames e deslocou-se de trópico para trópico; as nuvens verteram águas consoante me aprouve e o Nilo transbordou quando eu lhe ordenei […] Só os ventos, entre todos os elementos, têm até agora rejeitado a minha autoridade e multidões têm perecido nas tempestades de equinócio que me vi incapaz de impedir ou mitigar. Tenho administrado com rigorosa justiça esta grande responsabilidade e às diferentes nações da Terra distribuí um imparcial dividendo de chuva e sol. Quão grande não seria a desgraça do mundo se eu tivesse limitado as nuvens a certas regiões ou confinado o sol a um dos lados do equador?” – assim fala o Astrónomo, personagem secundária do conto fantástico The history of Rasselas, prince of Abissinia (1759) de Samuel Johnson.

Um dos romances pioneiros da ficção científica, Le vingtième siècle: La vie électrique (1890), de Albert Robida, que antevê, em registo satírico, como será a vida em França em 1955, antevê helicópteros, submarinos, a guerra biológica, o telefonoscópio (uma espécie de telefone com écran, com funcionalidades que combinam as do televisor e da webcam) e o controlo dos fenómenos meteorológicos.

“As estações regularizadas: Distribuição de chuva a pedido”: ilustração de Le vingtième siècle: La vie électrique

A journey in other worlds: A romance of the future (1894), John Jacob Astor IV imagina como será a vida no ano 2000: haverá uma rede planetária de telefone, energia solar, viagens aéreas, viagens a Júpiter e Saturno (recorrendo à força anti-gravitacional) e estão em curso relevantes mudanças no clima: as estações do ano serão atenuadas através da redução da inclinação do eixo de rotação da Terra (levada a cabo pela Terrestrial Axis Straightening Company), o que “permitirá tornar produtivas vastas áreas da Sibéria”, ao mesmo tempo que “a ligeira excentricidade da órbita causará mudanças suficientes para despertar recordações das estações do ano nesta nossa eterna Primavera”. Nem tudo é isento de inconvenientes nesta colossal manipulação do clima: “os ursos polares em breve terão de usar gelo artificial” – um cenário que parece ser cada vez mais plausível.

“Os Saharas convertidos à agricultura, graças à reforma do clima”: ilustração de Le vingtième siècle: La vie électrique

No romance de ficção científica When the world reeled (1924), obra póstuma de Cyril Ranger Gull (1875-1923), o vilão consegue assumir o comando do dispositivo que controla o clima e causar uma catástrofe planetária. Tema similar é explorado em The one sane man (1934), de Francis Beeding, em que a terra fica sujeita à chantagem de um cientista louco que descobre como comandar o clima mundial, e em White August (1955), de John Boland – neste a catástrofe resulta de uma experiência de manipulação do clima que sai fora de controlo (e, entre outras calamidades, faz nevar em Agosto nas regiões temperadas do Hemisfério Norte).

Sobrecapa de Brian Wildsmith para a edição original de White August

O conto The weather man, de Theodore L. Thomas, publicado na revista Analog de Junho de 1962, passa-se num futuro em que os eventos meteorológicos na Terra estão inteiramente dependentes do Gabinete do Tempo, cujo braço político, o Conselho do Tempo, governa o planeta.

Capa da revista Analog de Junho de 1962

O domínio da meteorologia passa pelo controlo da emissão de radiação solar na origem, com naves espaciais que actuam na superfície do Sol. Uma intriga secundária envolve um ancião de Holtville, uma soalheira cidadezinha californiana, que exprime como último desejo ver nevar ali, no meio do deserto, e um membro do Conselho do Tempo que, a fim de obter dividendos políticos, se empenha em dar cumprimento ao excêntrico anseio.

Dupla página da revista Analog de Junho de 1962

Subjugando os elementos: Realidade

O mundo climatizado previsto na ficção científica da ficção científica tem escassa concretização no século XXI: o melhor que se consegue é, desde que haja nuvens adequadas e condições favoráveis de temperatura e humidade, induzir chuva através da pulverização das nuvens com substâncias (geralmente iodeto de prata, mas também iodeto de potássio e idodeto de chumbo e gelo seco) que funcionam como núcleos de condensação. A “inseminação das nuvens”, que recorre usualmente a aviões mas também pode ser feita mediante foguetes ou projécteis de artilharia anti-aérea, tem sido usada para produzir chuva em regiões semi-áridas do interior da Rússia, China e EUA, ainda que alguns especialistas encarem esta prática com cepticismo, alegando que só funciona quando as condições são tais que a chuva teria lugar, mais tarde ou mais cedo, mesmo sem iodeto de prata.

A “inseminação de nuvens” foi também proposta como forma de retirar força a tempestades tropicais e furacões – o Governo americano criou para o efeito o projecto Stormfury, que operou entre 1962 e 1971 e “inseminou” vários furacões no Oceano Atlântico, até se concluir pela sua inutilidade (nada inesperada, pois que as premissas de física atmosférica em que assentava estavam erradas).

A equipa do projecto Stormfury, em frente a um dos seus aviões, 1966

Entretanto, do outro lado do mundo, os americanos tentaram empregar a manipulação meteorológica para fins bélicos na Guerra do Vietnam, inseminando nuvens com iodeto de prata de forma a prolongar artificialmente a época de monções e deixar intransitável o “Ho Chi Minh Trail”, uma rede de estradas que fazia o abastecimento da guerrilha Viet Cong através do Laos e Cambodja. A operação, baptizada como Popeye, foi conduzida, em segredo, entre 1967 e 1972, e não há indícios de que tenha produzido qualquer resultado.

Trecho do “Ho Chi Minh Trail”

Nas regiões vinícolas francesas era comum fazer tocar os sinos à aproximação de uma nuvem que ameaçasse granizo, mas como o métodos não parece ter produzido resultados, apostou-se no disparo de canhões e foguetes. O princípio subjacente era o mesmo – esperava-se que a propagação das ondas sonoras impedisse a formação de pedras de granizo nas nuvens – e os efeitos também.

Canhões de granizo, ilustração de 1901

Todas estas forma de controlo dos elementos atmosféricos tiveram até agora eficácia muito limitada ou nula. O que não quer dizer que o homem seja incapaz de interferir no clima: o aquecimento global em resultado do aumento de dióxido de carbono na atmosfera em resultado da queima continuada de combustíveis fósseis é hoje uma realidade aceite consensualmente pela comunidade científica. Porém, é uma mudança inadvertida, na qual o homem não tem controlo e que produzirá, muito provavelmente, mais prejuízos do que benefícios.

Evolução da concentração de CO2 na atmosfera (em partes por milhão) nos últimos 800.000 anos, com gráfico inserido detalhando evolução nos últimos 1000 anos

Sendo o mundo muito diverso, o aquecimento global não afectará todos por igual: os finlandeses acolherão com agrado a ideia de gastar menos dinheiro com aquecimento durante o Inverno, enquanto a região mediterrânica verá o seu Verão quente e seco tornar-se ainda mais quente e seco.

Diferença entre as temperaturas no período 1999-2008, face às registadas em 1940-80

Interlúdio mitológico

O jovem Faetonte, gabava-se de ser filho de Hélio, o deus solar, mas os amigos gostavam de provocá-lo, pondo em causa a sua origem divina. Faetonte pediu confirmação à mãe, Climene, e esta deu-lha, mas disse-lhe também que o melhor era perguntar ao pai. Quando Faetonte se encontrou com Hélio pediu-lhe, não um teste de paternidade, que ainda não tinha sido inventado, mas que lhe desse uma prova inequívoca da sua estima paternal. Quando Hélio lhe disse que satisfaria qualquer pedido seu, o rapaz fez questão de conduzir o carro solar. De nada serviu que Hélio o tentasse dissuadir da ideia e lhe propusesse alternativas; como uma promessa é uma promessa, lá teve de lhe confiar as rédeas do carro. O inexperiente Faetonte não soube ter mão nos cavalos, o carro solar desviou-se do seu curso e perante o risco de o Sol estorricar a Terra, Zeus viu-se obrigado a lançar um relâmpago contra o carro solar, matando Faetonte e salvando a Terra.

“A queda de Faetonte”, por Peter Paul Rubens, c.1604-5

Isso não pode acontecer aqui

No final de 2017, quando a seca em Portugal despertou a atenção para outros locais do planeta que se debatiam com problemas de falta de água, foi amplamente divulgada nos media a crise enfrentada na Cidade do Cabo (ver O dia zero da Cidade do Cabo e as 11 cidades que podem ficar sem água).

O principal reservatório que abastece a Cidade do Cabo, a 11 de Março de 2018

O temido “dia zero”, em que a água na rede municipal da cidade sul-africana de 3.7 milhões de habitantes seria cortada, acabou por ser adiado indefinidamente, devido à eficácia do racionamento do consumo de água (50 litros/pessoa.dia), mas o problema de fundo mantém-se. Porém, por cá, o drama da Cidade do Cabo deixou de ser notícia assim que começou a chover em Portugal: para a população urbana a seca é um problema das zonas rurais e, a afectar cidades, é só “em países do Terceiro Mundo”.

Talvez não seja bem assim. Tomem-se duas metrópoles de países desenvolvidos: Perth e Lisboa. Perth, capital da Austrália ocidental, é uma florescente cidade cujos dois milhões de habitantes fazem dela a 4.ª mais populosa do país. É banhada pelo Oceano Índico e possui clima mediterrânico, de Verão quente e seco e chuva apenas no Inverno (que ocorrem em contraciclo com o nosso Verão e Inverno, uma vez que Perth se situa no Hemisfério Sul). Na classificação de Köppen o clima de Perth corresponde à designação Csa (temperado, chuva de inverno, verão seco e quente), a mesma de Lisboa e da metade Sul de Portugal (a metade Norte do país é Csb: temperado, chuva de inverno, verão seco e temperado).

Perth

Perth tem 3200 horas de sol por ano (8.8 horas/dia), temperatura média anual de 18.7 ºC e precipitação média anual de 732 mm (oscilando entre 145.6 mm em Julho e 11.3 em Dezembro); os recordes de temperaturas registados foram de 46.6 ºC para a máxima e de –0.7 ºC para a mínima.

Lisboa tem 2800 horas de sol/ano (7.7 horas/dia), temperatura média anual de 17.4 ºC e precipitação média anual de 774 mm (oscilando entre 127.6 mm em Novembro e 4.2 em Agosto); os recordes de temperaturas registados foram de 42.0 ºC para a máxima e –1.2 ºC para a mínima.

São, pois, duas cidades com clima semelhante, ensolarado e de temperaturas moderadas – e não muito diferente do da Cidade do Cabo, que tem 3094 horas de sol por ano (8.5 horas/dia), temperatura média anual de 16.2 ºC e precipitação média anual de 515 mm (oscilando entre 93 mm em Junho e 14 em Novembro); os recordes de temperaturas registados foram de 43.0 ºC para a máxima e –4.3 ºC para a mínima. A Cidade do Cabo tem um clima mediterrânico Csb (o mesmo da metade Norte de Portugal, recorde-se), e, por comparação com Perth ou Lisboa, um Verão menos quente, uma distribuição mais homogénea de temperatura e precipitação ao longo do ano e um pouco menos de precipitação anual.

Os climas do planeta, segundo a classificação Köppen

Mas as médias resultantes de décadas de medições podem ocultar realidades em mudança: quase toda a Austrália passou na primeira década do século XXI por uma seca severa – que ficou conhecida como Millennial Drought – e o padrão de precipitação em Perth está a alterar-se desde a década de 1970, com diminuição da chuva de Inverno e a ocorrência durante o Verão de fenómenos extremos de precipitação (a 10 de Fevereiro de 2017 caíram em Perth 114 mm – mais do que a precipitação média de Lisboa em Janeiro). O biólogo australiano Tim Flannery, autor de vários livros sobre alterações climáticas (em Portugal estão publicados O clima está nas nossas mãos: História do aquecimento global e Os senhores do tempo: O impacto do homem nas alterações climáticas e no futuro do planeta), prevê que se este padrão se mantiver, Perth poderá converter-se na primeira metrópole-fantasma do mundo, por falta da enormes quantidades de água necessárias a uma população urbana de mais de dois milhões de habitantes.

Em resposta à preocupante situação dos recursos hídricos de Perth, foi construída, por 240 milhões de euros, uma central de dessalinização da água do mar recorrendo a tecnologia de ponta, que é capaz de produzir 140 milhões de litros de água potável por dia – porém, esta representa apenas 17% das necessidades da cidade e consome anualmente 180 Gwh de energia eléctrica.

Central de dessalinização de Perth

As situações de crise tendem a fazer surgir visionários e lunáticos cujas propostas, quase sempre de reduzida ou nula viabilidade, têm o efeito (nefasto) de tranquilizar as massas, dando a ideia de que não há motivos para preocupação ou para alterar hábitos, pois a tecnologia há-de sempre arranjar uma solução. Foi o caso da seca na Cidade do Cabo, que fez ressuscitar a ideia peregrina de rebocar icebergs para locais onde escasseia a água, desta vez pela voz de Nick Sloane, especialista em operações de resgate marítimo (esteve envolvido na operação que pôs o Costa Concordia novamente a flutuar), que propôs ir buscar um bloco de gelo à Antártida pela módica quantia de 100 milhões de dólares (ver Especialista propõe rebocar iceberg para combater falta de água na África do Sul).

[O plano de Nick Sloane para abastecer de água a Cidade do Cabo]

Perante problemas ambientais reais e incontornáveis surgem usualmente dois tipos de pseudo-soluções: as do “tipo MacGyver”, ultra-rebuscadas e dispendiosas e dificilmente capazes de sair do domínio da ficção científica, e as do “tipo Miss Universo”, que não passam de acções simbólicas, bem intencionadas mas sem efeitos práticos, como urinar do duche ou apagar a iluminação pública durante uma hora, uma vez por ano (ver Urinar no duche não adia o fim do mundo).

Adoradores do sol

Os portugueses são rápidos a perceber o que é, do ponto de vista social, repreensível ou digno de aplauso e a exprimir adesão a “bons princípios” (embora não necessariamente a boas práticas). Já em 2008 uma sondagem Eurobarómetro atestava que 89% dos portugueses (face a uma média europeia de 78%) consideravam que os problemas de ambiente tinham impacto na sua vida, e que 54% elegiam as alterações climáticas como o primeiro desses problemas (convergindo com a média europeia de 57%).

Seria legítimo presumir que a perspectiva de o quente e seco clima português se tornar mais quente e seco seria motivo de inquietação. Afinal de contas, entre as grandes cidades europeias, Lisboa é das que tem mais horas de sol por ano – as suas 2800 horas/ano superam Madrid (2769), Atenas (2771), Nice (2724), Barcelona (2524), Roma (2473) ou Nápoles (2371) e não ficam longe das campeãs Malta (2957) e Marselha (2858) – e possui o 3.º Inverno mais suave entre as cidades europeias com mais de meio milhão de habitantes (só é superada por Valencia e Málaga). Não só Portugal desfruta de um clima particularmente ameno, como as massas urbanas passam boa parte da sua vida em ambiente climatizado – em casa, no trabalho, no automóvel ou nos transportes públicos, nos centros comerciais e grandes superfícies – estando, portanto, relativamente isoladas dos caprichos atmosféricos.

Hélio, deus solar da mitologia grega, conduzindo o carro solar, relevo num templo em Iion, século IV a.C.

Todavia, o apetite das massas urbanas portuguesas por mais sol e calor é insaciável e um início de Verão de temperaturas moderadas, brisa fresca e dias ensombrados por nuvens que, de vez em quando, deixam cair uns borrifos – ou seja, o tempo que era frequente em Junho antes de as temperaturas terem começado a trepar nas últimas duas décadas –, é visto como uma calamidade: estraga as idas à praia, desfaz penteados, torna as esplanadas e rooftops (como agora se diz) pouco apetecíveis, obriga a que se leve um agasalho para as sunset parties nos bares de praia, enfim, é, de uma forma geral, adverso à plena fruição dessa constelação de ócios, pequenos prazeres e consumo conspícuo que é o fulcro das secções de lifestyle. É um alheamento compreensível em quem não tem a habitação em risco por mais escaldante que seja o Verão, em quem toma como certo que quando abre a torneira corre água e que quando liga o interruptor a luz acende, que dá como garantido que a secção de frescos do hipermercado ou da loja de produtos biológicos é uma cornucópia.

Tonatiuh, deus solar azteca

Os media ecoam esta perspectiva hedonista e hiper-simplificada do mundo: previsões de nuvens e chuva, mesmo que ligeira, são “mau tempo” ou “o tempo a fazer cara feia” e há cronistas sibaritas cuja principal preocupação é contar os dias que faltam para o primeiro banho de mar do ano e que barafustam como crianças mimadas contra as primeiras chuvas de Outono. Há mesmo quem, perante alguns dias consecutivos de tempo mais fresco, proclame que “é uma vergonha!”, como se estivesse a ser ludibriado e algo ou alguém lhe sonegasse o fornecimento de horas de sol previsto num contrato devidamente assinado. O desabafo é tanto mais intrigante por não se perceber qual o alvo da indignação: o Governo? O Instituto Português do Mar e da Atmosfera? Tāwhirimateā, deus maori das nuvens e tempestades?

O que causa esta irritação pueril e frívola contra a natureza imprevisível do tempo atmosférico é talvez o facto de, numa sociedade hipertecnológica, cada vez mais regrada, transparente e previsível, de onde foi escorraçado o acaso e a natureza está presente apenas na sua versão domesticada e disneyficada, o sol e a chuva serem das poucas coisas que não se submetem aos nossos caprichos. Ah, se houvesse uma app que permitisse suprimir de vez a chuva – vá lá, com alguma precipitação entre as três e as quatro da madrugada, para lavar as ruas, de quando em vez, e um dia inteiro de chuva por ano, para se ficar em casa, para dar uso à lareira da sala e à camisola de lã de estilo norueguês…