Houve um antes e um depois do Rui Costa candidato. Mais: houve um antes do Rui Costa candidato que até podia ter terminado com um Rui Costa não candidato. O Maestro nunca ponderou de forma real em deixar a batuta que lhe caiu nas mãos após a saída de Luís Filipe Vieira na sequência da Operação Cartão Vermelho. Aliás, essa é uma das frases que mais vezes repete como presidente, como fazia antes como jogador, diretor ou administrador da SAD: “No Benfica, nunca se desiste”. No entanto, o contexto era tudo menos favorável no final da última temporada, com a ideia de poder ainda ganhar tudo a acabar com uma mão cheia de nada em oito dias. Quando foi para o Mundial de Clubes nos EUA, era um número 1 derrotado. Quando veio do Mundial de Clubes nos EUA, era um número 1 rejuvenescido e “vencedor”. Aí esteve a chave da viragem.
Ninguém consegue explicar o “porquê”, todos reconhecem essa mudança. É certo que o Benfica conseguiu o triunfo histórico frente ao poderoso Bayern e acabou por cair nos oitavos mas apenas no prolongamento com o futuro campeão mundial Chelsea. A par disso, havia dúvidas sobre as entradas e as saídas no mercado de transferências e um novo problema criado pela forte discussão entre Bruno Lage e Orkun Kökçü depois da substituição do turco no encontro mais acessível da competição diante do Auckland City. No entanto, por força também do maior contacto com o universo benfiquista mais fora da “bolha”, Rui Costa sentiu que era altura de fazer um reset completo ao que se tinha passado e dar o passo em frente que todos esperavam. Até pela possibilidade de Luís Filipe Vieira entrar na corrida era um risco. O Maestro assumiu-o.
“Só o Benfica importa. Os que o fizeram glorioso, os que o fazem vivo e enorme, em Portugal e no Mundo, os que o farão cada vez maior com identidade, ambição e vitórias. Prometi aos sócios e aos adeptos que esclareceria a minha posição antes do início da próxima época. O prometido é devido. Neste momento, a minha prioridade é clara. Criar todas as condições para uma época vitoriosa, repleta de conquistas e títulos para a nação benfiquista, em todas as modalidades e competições. A minha posição é a de sempre. Por amor ao clube, por compromisso com a sua história, a sua alma e a ambição de sempre. Porque no Benfica não se desiste, trabalha-se com visão, paixão e sentido futuro. Porque num momento mais difícil disse ‘presente’ e avancei. Porque juntos ultrapassámos o Cabo das Tormentas e garantimos estabilidade. Porque a mística, a ambição e a vontade de vencer fazem parte do nosso ADN. Porque é preciso fazer o que ainda não foi feito, assumo à Benfica: sou recandidato a presidente do Sport Lisboa e Benfica.
Como o tempo não pára e o Benfica será sempre mais do que uma circunstância. Porque há decisões a serem tomadas no interesse do clube e dos sócios. Porque confio na competência e na capacidade em fazer ainda mais e melhor. Porque o meu foco é a preparação da próxima época desportiva, oportunamente, apresentarei a minha candidatura, a minha equipa e o nosso projeto futuro para um novo mandato. Ninguém mais do que eu deseja vencer, fazer crescer esta ambição e continuar a escrever a história do maior de Portugal. Neste momento, a minha prioridade é clara: criar todas as condições para uma época vitoriosa, repleta de conquistas e títulos para a nação benfiquista, em todas as modalidades e competições. O Benfica é estruturalmente a maior, a melhor, a mais abrangente e inovadora instituição desportiva de Portugal. Ninguém mais do que eu deseja vencer. Voltamos com energia renovada, com ambição reforçada e com a mesma paixão de sempre. É esse o compromisso que continuaremos a honrar, focados no melhor para o Benfica, sempre de alma e coração. Com uma chama imensa, viva o Sport Lisboa e Benfica.”
Através de um vídeo colocado na sua página oficial no Instagram, que basicamente recuperou o projeto “Rui Costa 2021-2015” e atualizou-o para “Rui Costa 2025-209”, a recandidatura estava oficializada numa altura em que João Noronha Lopes, João Diogo Manteigas, Martim Mayer e Cristóvão Carvalho tinham anunciado que entrariam na corrida. Objetivos da mensagem? 1) deixar um pré-aviso que nas semanas seguintes seria mais presidente do que candidato, tendo em conta os assuntos pendentes em cima da mesa; 2) recordar a forma como teve de assumir a liderança do clube, adensando o cenário de “abismo” após a saída de Vieira para a partir daí apontar para uma recuperação de imagem depois de todas as questões com a Justiça; 3) a ideia de que iria montar plantéis mais competitivos para ficar mais próximo das vitórias. O tiro de partida estava dado, mesmo com essa consciência de que o sucesso estava também dependente dos resultados.
Quatro meses depois desse momento, Rui Costa desconstruiu essa realidade, conseguiu dobrar um outro Cabo das Tormentas criado pela falta de títulos (apesar dessa boa entrada na temporada com a conquista da Supertaça frente ao Sporting e a qualificação para a Liga dos Campeões) e saiu ainda mais reforçado naquela que foi a maior e mais concorrida eleição de sempre do Benfica. Se em 2021 o Maestro não escolheu ser líder mas teve que assumir pelas circunstâncias que rodeavam o conjunto da Luz, em 2025 mereceu uma escolha entre o benefício da dúvida e a convicção pela decisão que teve há quatro anos para renovar o mandato como presidente dos encarnados. Os sócios, aqueles que mais uma vez mostraram que são a força motriz do clube, escolheram-no para mais quatro anos. Se sair da “bolha” e ir aos EUA rejuvenesceu Rui Costa, foi também tudo o resto menos a “bolha” lisboeta que o voltou a eleger como já tinha acontecido na primeira volta.
▲ Rui Costa voltou a consolidar o peso que tem nas Casas do Benfica – não só como Maestro mas também como presidente
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Em paralelo, todo este sufrágio com direito a entrada no recorde mundial do Guinness (agora a contar, algo que não acontecera na primeira volta) com quase 100.000 votantes a irem às urnas ao longo de 13 horas e meia voltou a mostrar o ADN do Benfica. Por um lado, existe uma “maioria silenciosa” que não gosta nem permite nas urnas mudanças abruptas na liderança – a única exceção foi mesmo a eleição de 2000, quando Manuel Vilarinho contrariou todas as sondagens e um clima nada favorável para derrotar o incumbente João Vale e Azevedo. Por outro, é muito complicado encontrar um ponto de equilíbrio numa campanha para poder derrotar quem está do lado da “máquina” – e quando as intervenções públicas resvalam para palavras ou frases mais duras sobre o líder, o feitiço vira-se contra o feiticeiro. A isso juntou-se um outro fator não menos importante: Rui Costa é e será sempre Rui Costa e só um Rui Costa pode ombrear contra isso.
Houve uma imagem artificial que se foi criando sobretudo na primeira volta sobre os ventos de mudança que seriam demasiado fortes para que Rui Costa resistisse. Mais uma vez, era uma questão de “bolha”. Saindo da zona de Lisboa, rumando mais a Norte ou a Sul, a dúvida era mais entre o atual líder e Luís Filipe Vieira do que propriamente em Noronha Lopes e João Diogo Manteigas, que nunca tiveram a capacidade de entrar nos eleitorados mais velhos dessas zonas para discutirem as eleições. Depois, a partir do momento em que Rui Costa conseguiu um rácio de votos superior a Vieira em quase todo o país, a história estava “contada”. Todas as visitas de candidatos a Casas do Benfica motivaram reações apoteóticas mas comparar o que se passava era meio caminho andado para perceber que o Maestro é uma bandeira do clube, daquelas bandeiras que não se trocam por nada a não ser que a situação atinja um ponto de não retorno assumido por todos.
Uma campanha a três tempos onde Rui Costa só teve de ser Rui Costa
Esse estatuto era uma trave basilar para tentar segurar a liderança do Benfica. Antes, houve duas fases que preparam o terreno para que aparecesse nesse papel: assumir os erros, controlar os danos. E foi isso que marcou as primeiras semanas de uma campanha que, no caso de Rui Costa, começou apenas entre a segunda e a terceira semanas de setembro, quando Mourinho foi apresentado como novo treinador do Benfica e o atual líder marcou presença na primeira ação numa Casa dos encarnados, neste caso em Paredes. Nas primeiras intervenções, o objetivo era claro: assumir que o mandato não tinha corrido da melhor forma no plano desportivo, fazer passar a ideia de que apesar de a última época ter terminado sem Campeonato nem Taça de Portugal a equipa lutou até ao final e começar a zerar aquilo que seria o resto da corrida.
Meta seguinte? Resistir ao choque perante as críticas duras que Luís Filipe Vieira foi fazendo nas entrevistas iniciais que deu na condição do candidato. Rui Costa foi tentando defender-se sem nunca fazer escalar esse conflito, sabendo também que esse clima de maior hostilidade poderia ter reflexos nas urnas onde acabou mais tarde por capitalizar algum “voto útil” que transitou do antigo presidente dos encarnados, assumiu que estava magoado com alguns dos termos utilizados por Vieira e colocou sempre a tónica na forma como chegou ao poder na Luz num dia em que começou no Seixal como administrador da SAD e à noite era presidente a fazer um discurso em pleno Estádio da Luz para recordar o momento que o Benfica viveu aí.
▲ Rui Costa cruzou-se apenas uma vez com Luís Filipe Vieira desde 2021, teve o antigo presidente como adversário na corrida e levou a melhor na primeira volta
LUSA
Com esses dois objetivos cumpridos, Rui Costa só teve de ser Rui Costa – e esperar que tudo o que acontecesse em termos desportivos não fosse penalizador o suficiente para penalizá-lo. O presidente nunca quis perder o comboio mediático que todos os adversários tinham apanhado mas foi falando quase tanto como líder do clube sobre o que se passava no presente do que como candidato do clube sobre o que queria fazer no futuro. Mesmo sem ser apologista de dar muitas entrevistas, percebeu que era um “mal necessário”. Estava cumprida mais uma etapa antes ou entre paragens naquilo que gosta: o convívio com os associados. Muitas das visitas a Casas entroncaram na agenda do presidente pelos jogos do futebol mas nem por isso deixou de ir a pontos que sabia ser nevrálgicos para angariar o eleitorado que precisava – sempre atrasado, por fazer questão de não sair de qualquer local com um autógrafo por dar ou uma fotografia por tirar.
Na parte final da campanha ainda na primeira volta, Rui Costa quis apanhar o mesmo comboio de Noronha Lopes e assumir quase uma bipolarização num sufrágio a seis. Mais uma vez, ganhou a aposta. E porquê? O facto de haver a perceção de que havia uma lista de “continuidade” e uma lista de “mudança” começou a fazer mexer essa figura do voto útil, que no caso do líder dos encarnados permitia ficar com o eleitorado indeciso entre si e Luís Filipe Vieira. Era uma questão de deixar a “maioria silenciosa” falar, com um triunfo de 42,13% na primeira volta que não fechou as contas mas deixou a tarefa mais do que encaminhada para o xeque-mate numa segunda ronda a solo com Noronha Lopes onde voltava a acreditar ser capaz de ficar com muito eleitorado disperso e sem “nome”, nomeadamente o de Luís Filipe Vieira e o de Martim Mayer.
A segunda volta, essa, acabou por ser a mais “fácil”. Rui Costa saiu por cima no debate feito com os canais generalistas que poderia ser o espaço mais aberto para Noronha Lopes brilhar, as segundas figuras das duas listas foram ganhando mais espaço mediático também pelo desgaste que os número 1 tinham sofrido nas semanas anteriores, o presidente acabou por visitar mais Casas do clube do que o próprio adversário (ao contrário do que acontecera na primeira volta) e até no debate da BTV, onde não esteve tão bem, “ganhou” pela perceção que passou de que Noronha Lopes não tinha ideias e que se limitava a “atacar” o adversário. O último passo era garantir que haveria pelo menos tantos votantes como acontecera duas semanas antes, com o objetivo dos 100 mil a não ser alcançado mas com os mais de 93 mil a baterem novo recorde.
Colocar o futebol a ganhar para ter espaço para os projetos prometidos no mandato
Em condições normais, pela participação recorde e pela expressão do triunfo a seis e a dois, Rui Costa tem o caminho aberto para um segundo mandato com tudo a seu favor assim consiga ser o presidente de todos os benfiquistas – e esse vai ser o seu primeiro grande desafio, tendo em conta que, com o fenómeno eleições a esvaziar depois de todo o mediatismo das últimas semanas, a atualidade voltará a ser muito ditada por um Benfica mais urbano, de Estádio e que se fecha em “bolha” até chegarem os sufrágios que mostram toda essa dimensão nacional e mundial dos encarnados que de quando em vez é esquecido na vida ativa. Vai depender dos adversários derrotados, vai depender do ambiente nas Assembleias, vai depender dos resultados.
Essa será a primeira grande necessidade de Rui Costa: continuar a lutar para o Benfica ganhar mais vezes, aproveitar a janela do mercado de transferências de janeiro para dotar o plantel de José Mourinho de outras soluções alternativas (com um novo chief scout que estará detetado e assegurado, podendo agora ser anunciado pela estrutura) e estabilizar o clube num plano institucional com listas renovadas que quebram de vez com as muitas ligações que ainda existiam com Luís Filipe Vieira e os seus mandatos na liderança em quase 20 anos. Em paralelo, e para evitar começar já a traçar cenários mais negativos, ganhar os próximos dois jogos da Liga dos Campeões em dezembro para entrar na fase decisiva em janeiro ainda a “sonhar”.
A partir daí, surgem os tais objetivos palpáveis para o mandato. Logo à cabeça, e na parte relacionada com as infraestruturas, avançar com o Benfica District. O projeto que foi inicialmente apresentado como um avultado investimento de 220 milhões de euros engloba não só o aumento da lotação do Estádio da Luz mas também a alteração de toda a sua fachada que envolve pontos como uma arena para 10.000 pessoas, dois pavilhões multiusos para as modalidades, uma piscina com 25×25 metros, um teatro/espaço para eventos, um campo de futebol, uma pista de corrida, instalações comerciais, hoteleiras e residenciais e um novo espaço de convívio antes e depois dos jogos. A par disso, numa promessa que transita do último mandato, Rui Costa quererá também fechar a pasta do espaço físico para erguer a Cidade Benfica e dar novos passos para fazer a expansão do Benfica Campus, no Seixal, onde espera acrescentar mais quatro campos.
▲ Rui Costa convidou todos os candidatos para assistirem na tribuna presidencial ao jogo do Benfica frente ao Casa Pia este domingo
JOAO PORFIRIO/OBSERVADOR
Outro dos pontos fundamentais passará pela questão dos direitos televisivos, numa primeira fase para fechar a venda das duas temporadas entre 2026 e 2028 até ao ano de centralização e a partir daí perceber qual será o posicionamento do Benfica junto da Liga e dos restantes clubes. A par disso, em referências apontadas no compromisso com os sócios em forma de programa eleitoral, chegar aos 500 milhões de euros de receita por ano, diminuir o passivo financeiro em 100 milhões, valorizar as ações da SAD, priorizar o aumento da receita e dos ativos e duplicar a receita em eventos não desportivos, merchandising e digital. No associativismo, há metas como os 500.000 sócios até 2029, fazer regressar o Congresso das Casas, implementar de uma Casa do Sócio, abrir mais três Casas 2.0, manter as conversações com a CP para retomar o Comboio Benfica e reformular a parceria TV/Net e Comunicações com as Casas.
Tão ou mais importante, o que estas eleições mostraram mais uma vez foi o peso que existe no verdadeiro Benfica, um Benfica profundo que não gosta de mudanças bruscas, que tem especial tendência para proteger quem está, que olha para o clube de forma distinta da “bolha” da Luz e das próprias Assembleias Gerais. Foi esse Benfica que, num cenário de mudança que todos apontavam como inevitável, se expressou em peso para dizer que quer Rui Costa (ou não quer os outros). É esse Benfica que voltará a ser o principal braço armado de Rui Costa para fazer um mandato com mais sucesso, vitórias e sócios do que o anterior.