Entre 16 de março, quando Portugal registou a primeira morte por Covid-19, e o dia 14 de abril registaram-se mais 1.255 mortes em Portugal do que seria de esperar, tendo por base a mortalidade média diária da última década. Segundo o Centro de Investigação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública, na Universidade Nova de Lisboa, este excesso de mortalidade afetou de “forma desproporcionada” as pessoas com mais de 75 anos: com 1.030 mortes acima do esperado. Já entre os 65 e os 74 anos, houve mais 64 mortes do que a média fazia prever.
Segundo o estudo “Excesso de Mortalidade, em Portugal, em Tempos de Covid-19”, a que o Observador teve acesso, 49% deste excesso de mortes foi devido à Covid-19, enquanto os restantes 51% morreram por causa de outras doenças. No entanto, nesta percentagem de outras doenças poderão estar doentes de Covid-19 “que terão passado sem diagnóstico”. “Muitas pessoas terão falecido em casa ou em instituições de cuidados continuados antes de poderem ter sido testadas para a presença do vírus”, lê-se neste estudo. “Outras, ainda, com doenças agudas ou crónicas graves, terão procurado os serviços de saúde, mas encontraram as estruturas, os profissionais e os equipamentos fortemente dedicados à resposta aos doentes com a Covid-19, não tendo por isso recebido o nível de atenção que teriam recebido em circunstâncias normais”, acrescentam os especialistas.
Por outro lado, concluíram os investigadores André Vieira, Vasco Ricoca, Pedro Aguiar e Alexandre Abrantes, ainda entre 16 de março e 14 de abril, houve um decréscimo do número de mortes causadas por causas externas, como é o caso de acidentes de viação, relativamente aos que as estimativas apontavam. “Esta redução deve ser resultado das severas limitações à mobilidade viária impostas pelas autoridades”, concluem. Uma razão que pode tornar as conclusões deste estudo demasidado “conservadoras”, segundo os próprios autores”.
“O quase desaparecimento dos óbitos por causas externas, nomeadamente os devidos a acidentes de viação, devido às severas restrições de circulação viária impostas pelas autoridades pode igualmente contribuir para que o excesso de mortalidade seja ainda maior do que o valor que estimámos”, lê-se
Já na segunda semana de abril, o número de mortes pela Covid-19 baixou e o tal excesso de mortalidade “quase” desapareceu.
Entre janeiro e abril morreram 36.518 pessoas em Portugal
O primeiro registo de um caso de Covid-19 em Portugal foi declarado pelas autoridades de saúde portuguesas a 2 de março. A 16 de março, 14 dias depois, era confirmada a primeira morte. Durante os 30 dias que se seguiram a Direção-Geral da Saúde comunicou que tinham morrido com o novo coronavírus 599 casos e havia já 18.051 infetados. No mundo inteiro, segundo a Universidade Johns Hopkins, até 15 de abril o vírus já tinha atingido 2 milhões de pessoas e matado mais de 128 mil.
As 599 mortes registadas em Portugal somadas aos 18051 casos de infetados nesse período correspondiam, assim, a uma incidência de 176 casos por cada 100 mil habitantes.
Com base na mortalidade registada pelo Sistema de Informação de Certificado de Óbito, nos meses de janeiro, fevereiro e março dos últimos dez anos, estes investigadores estipularam um número estimado de mortes para o ano de 2020 (até ao dia 14 de abril). Feitas as contas, registaram-se entre 1 de janeiro e 14 de abril deste ano um total de 36.518 mortos, o que significa que são mais 157 do que o valor médio esperado.
Ao analisarem estes números, os investigadores perceberam também que a partir de 11 de março, o número de mortes diárias ultrapassou os valores médios dos últimos 10 anos. “Entre 16 de março e 14 de abril de 2020, registaram-se mais 1.255 óbitos do que seria de esperar com base na mortalidade média diária durante os 10 anos anteriores”, lê-se.
Excesso de mortes atingiu pessoas com mais de 75 anos
Quanto à faixa etária que mais tem sido atingida pelo novo coronavírus, os investigadores perceberam também que houve um excesso de 1.030 mortes nas pessoas com mais de 75 anos, entre março e abril, “comparando com as médias diárias de óbitos nesta faixa etária nos últimos 6 anos” (neste caso o Sistema de Informação só permite pesquisa neste intervalo de tempo). Um número muito superior quando se olha para as pessoas com 65 a 74 anos, que têm um excesso de 67 óbitos.
O Centro Europeu de Prevenção de Doenças já tinha deixado o alerta de que, apesar da contabilização dos casos em cada país, as estatísticas podem “não refletir a verdadeira magnitude dos óbitos associados ao Covid-19”, como se lê no estudo.
A Diretora-Geral da Saúde, Graça Freitas, já esclareceu que em Portugal os números até são muito abrangentes, porque mesmo que o paciente sofra de outras doenças, é a Covid-19 que vai constar como informação na certidão de óbito de o doente estiver contagiado.
Os países contam as mortes por Covid de forma diferente. Contagem em Portugal considera mais casos
No entanto, lembra Alexandre Abrantes ao Observador, um dos autores do estudo, numa altura em que não se testava tanto como agora, “acredito que houve pessoas a morrer em casa e em lares cujo certificado de óbito tem a doença de que sofriam e não a Covid-19. Porque não foram testados”, diz. Um outro estudo de Rui Santana, citado agora neste estudo estudo estatístico que Abrantes também assina, suporta esta hipótese “uma vez que mostrou que, no mês de março de 2020, houve uma quebra de 48% na procura de serviços de urgência e uma redução de mais de 144 000 episódios de urgência, para doentes com maior prioridade de atendimento (pulseiras amarela e vermelha), quando comparado com anos anteriores”.
É o que acontece em muitos outros países também, como lembra agora este estudo, em que “muitas pessoas que morrem com infeção por Covid-19 têm outras doenças (comorbilidades) e os respetivos óbitos podem ser, em países diferentes, classificados como causadas pela infeção ou por outra das comorbilidades “.
A Escola de Saúde Pública não conseguiu perceber através da base de dados disponível as causas de cada uma das mortes, porque elas não ali constam, mas por exclusão de partes chegou a algumas conclusões. Assim, os investigadores analisaram as mortes por causa natural — onde se inclui o Covid-19 –, e exlcuíram as mortes por causa externa, sujeita a investigação, baseada nos óbitos dos últimos seis anos. A conclusão foi “do excesso de 1.281 óbitos de causa natural, nos quais os óbitos por Covid-19 se integram, acima dos número de óbitos esperados, com base nos óbitos registados nos últimos 6 anos”.
Usando um outro modelo estatístico — com outros pressupostos — para corroborar estas conclusões, os mesmos investigadores concluíram desta vez que o excesso de mortes era de 1.214 (não muito longe dos 1.281 do primeiro modelo estatístico) e que 599 foram causados por Covid-19 e 915 morreram com outras doenças.
“O modelo cronológico estima que se teriam registado 9.231 óbitos, se não tivesse havido pandemia, o que representa excesso de 1.214 óbitos durante esse período. Como, durante esses dias, se registaram 599 por Covid- 19, estimamos que houve um excesso de 615 óbitos por outras causas não diretamente relacionadas com a pandemia”, lê-se.
Ainda assim, consideram os autores do estudo, “esta estimativa é conservadora, porque os óbitos esperados são influenciados pelos anos anteriores e estamos num ano com mortalidade inferior ao esperado em fevereiro e início de março e que já na segunda semana de março se verifica uma inversão da tendência”.
The New York Times diz que há mais 28 mil mortos em 11 países por contar
Um trabalho jornalístico do The New York Times mostra que morreraram, pelo menos, mais 28 mil pessoas no último mês de pandemia do que revelam as estatísticas de onze países. O número total de mortos inclui mortes pela Covid-19 e mortes por outras causas, incluindo pessoas que morreram por não poderem ser tratadas no hospital devido à pandemia. Este números revelam que muitas das pessoas que morreram com o novo coronavírus não teriam morrido se não tivessem sido o vírus.
Em Paris, por exemplo, registou-se mais do dobro de mortos que costumam existir, muito mais do que no pico de uma gripe sazonal. Em Nova Iorque o número é quatro vezes superior ao comum. Segundo dados oficiais divulgados terça-feira, são já 165 mil os mortos pela pandemia em todo o mundo. Mas os especialistas dizem que este não é o retrato completo. “Qualquer número relatado num determinado dia será uma subestimação bruta” alerta Tim Riffe, um demógrafo do Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica na Alemanha, citado por aquele jornal. “Em muitos sítios a pandemia já dura há tempo suficiente para que haja tempo suficiente para o registo tardio de óbitos, dando-nos uma imagem mais precisa do que realmente era a mortalidade”.
Tal como o estudo divulgado esta terça-feira pela Escola Nacional de Saúde Pública, também o The New York Times estimou o excesso de mortalidade em cada país, comparando o número de pessoas que morreu devido a todas as outras causas este ano, comparando com o mesmo período do ano anterior. Em muitos países da Europa, dados recentes mostam que morreram mais 20 ou 30% de pessoas que o normal. “São milhares de mortes a mais”, lê-se. E nalguns países está a tentar perceber-se quanto deste excesso pode estar relacionado com o novo coronavírus.
Em França, por exemplo, as autoridades começaram por contabilizar apenas as mortes nos hospitais, mas já em abril começaram a contar as mortes fora dos hospitais, mais concretamente em lares — onde o número de vítimas disparou. Já no Reino Unido contabilizaram as mortes de acordo com a certidão de óbito.
Dos países mais próximos de Portugal, destaque para Espanha, com mais 66% do número de mortes em relação ao normal, ou seja mais 19.700. Oficialmente entre 9 de março e 5 de abril havia 2.401 mortes por Covid-19, o que significa que o excesso de 7.300 mortos poderá ser resultado da pandemia, diz o The New York Times. Já no Reino Unido foram mais 33% das mortes (16.700), quando os casos reportados de mortes pela Covid-19, entre 7 de março e 10 abril, foram 10.335. Em França, foram mais 28% (13.100 mortes), sendo as vítimas de Covid-19 8.059 (mais 5.100).