Luís Filipe Vieira já faz parte da história do Benfica, por ser o presidente com mais tempo no cargo e, em paralelo, o líder com mais títulos conquistados no futebol. A partir destas eleições, escreveu outro capítulo nessa história: ao contrário do que aconteceu nos grandes sufrágios dos encarnados, como aquele onde João Santos conseguiu bater Fernando Martins em 1987 ou as eleições onde Manuel Vilarinho conseguiu tirar João Vale e Azevedo do poder em 2000, uma votação massiva não significou uma mudança no caminho que estava a ser percorrido. E entre várias explicações que podem existir para este resultado, do peso dos votos das Casas e nas Casas à preponderância dos sócios com mais anos de filiação, um número resumiu tudo o resto: ganhou em todas as categorias.

Luís Filipe Vieira reeleito para sexto mandato na presidência do Benfica com 62,59% dos votos. Noronha consegue 34,71%, Gomes da Silva faz 1,64%

O Benfica, com uma votação de quase 40.000 associados num dia de semana, que começou com chuva e que está envolvido num contexto de pandemia com valores cada vez mais alarmantes acabou por ser o grande vencedor da noite. Luís Filipe Vieira venceu de forma inequívoca com 62,59% dos votos. João Noronha Lopes, que reuniu um total de 34,71%, não deixou de ser outro dos vencedores mesmo a terminar na segunda posição com uma distância maior do que aquela que era comentada nos bastidores sobretudo entre as 22h e a meia noite. Rui Gomes da Silva, que se ficou por 1,64%, saiu como grande derrotado. Tomando posse menos de meia hora depois de serem divulgados os resultados, Luís Filipe Vieira começou o caminho para o adeus ao Benfica.

“O país assistiu hoje à maior manifestação eleitoral de um clube em Portugal. A minha primeira palavra vai por isso para os benfiquistas e para o exemplo que hoje deram. Tenho orgulho em liderar um clube com esta capacidade de mobilização, com esta militância. Vencer as eleições que tiveram o maior número de sócios a votar na sua história é um orgulho. Os sócios decidiram e os resultados são claros. Espero que todos assumam a sua responsabilidade e o seu benfiquismo. Somos mais fortes juntos, quando não nos dividimos. Esse é um dos desafios mais importantes para os próximos quatro anos. Conseguimos crescer e chegar até aqui porque não houve fações nem grupos apostados em dividir ou provocar desgaste. A partir de agora não há vencedores nem vencidos. Espero que respeitem os resultados e que a partir de agora haja só um Benfica. Aos meios de comunicação que foram durante os últimos meses e hoje continuaram a ser pouco sérios e nada isentos, um conselho: mudem de registo. O Benfica não é liderado pela comunicação social. Podem não gostar mas vai continuar a ser assim”, destacou.

Encher novamente o copo. E dar projeção do mesmo na Europa

Depois da frustração do penta inédito a seguir a um tetra que também nunca tinha sido alcançado, o Benfica voltou a falhar a conquista do Campeonato na última (atípica) temporada. Vieira defendeu durante a campanha as suas contas: sete anos, cinco Campeonatos. Os adversários salientaram durante a campanha as suas contas: três anos, um Campeonato. Ambos tinham razão na velha teoria do “copo meio cheio, copo meio vazio”. Agora, naquela que foi a temporada com maior investimento desde que chegou ao Benfica mesmo num contexto de crise onde o mais provável era não haver capacidade para esse reforço, os encarnados surgem apostados em ganhar todas as provas onde estão envolvidos, com a prioridade a recair no Campeonato e na Liga Europa. E depois?

Jorge Jesus assinou contrato apenas até 2022, permanecendo a incógnita se essa é a duração de um projeto ou de um mero vínculo (foi o próprio treinador que admitiu que muito dificilmente vai acabar a carreira na Luz). E existe ainda um binómio hoje menos presente entre jogadores formados no Seixal e oportunidade dos mais novos no conjunto principal. E, juntando a tudo isso, a promessa de criar condições para chegar ao final do mandato com um plantel e uma estrutura capazes de ambicionar mais em termos europeus, neste caso da Champions. Para isso, o primeiro objetivo dos encarnados é recuperar uma hegemonia que começava a ser incontestável no futebol nacional; a partir daí, projetar a equipa não só à presença fixa na fase de grupos da Liga dos Campeões. Até porque, como se percebeu também nestas eleições, o peso do rendimento do futebol tem grande peso nas decisões.

A resposta às perdas pela pandemia e como pagar o recente investimento

No plano financeiro, o último Relatório e Contas do exercício 2019/20, mesmo marcado pelo contexto de pandemia que marcou os três últimos meses até 30 de junho, resultou num lucro de 41,7 milhões de euros, naquele que foi o segundo maior resultado líquido da história da sociedade apenas superado pelos 44,4 milhões de 2016/17 e que aumentou em 48,7% o lucro em relação ao período homólogo. Mais: o resultado operacional cresceu 65,5% com 145,2 milhões em transações, o número de rendimentos totais subiu a um inédito valor de 294,4 milhões de euros e o passivo baixou 10,6% (o que deu o montante recorde de capitais próprios, acima de 160 milhões). Antes, Domingos Soares de Oliveira, administrador da SAD, explicara que depois de um ponto máximo de endividamento em 2013/14, já acima dos 300 milhões, houve uma redução de quase 250 milhões nesse valor até 2020 através de um modelo que contou com a venda recorde de João Félix e o contrato da NOS como principais pilares.

Agora, a aposta será virada mais para a vertente desportiva. E já houve entretanto alguns pontos que mudaram este cenário traçado: o investimento de mais de 100 milhões de euros em contratações além do maior contrato feito com um treinador e respetiva equipa técnica; a perda do acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões, mitigada numa primeira instância pela venda de Rúben Dias e que pode ser menos penalizadora consoante o percurso na Liga Europa; a contração de um empréstimo obrigacionista, que numa segunda fase ascendeu aos 50 milhões; e uma recessão de receitas em alguns capítulos de receita ainda condicionados pela pandemia. Luís Filipe Vieira garantiu que o Benfica é o clube português melhor preparado a reagir à adversidade mas também afirmou esta terça-feira que um último relatório da UEFA traça um cenário negro em termos de quebra de receitas para as equipas europeias, algumas correndo sérios riscos de sustentabilidade. E esse é um desafio para o presidente dos encarnados: manter a competitividade adequando o cenário financeiro à realidade deste exercício 2020/21.

O desfecho dos casos de Justiça (que no limite podiam levar à saída antecipada)

A vertente desportiva tem um peso grande em qualquer Assembleia Geral, seja ela Ordinária, Extraordinária ou, como aconteceu, Eleitoral. E Luís Filipe Vieira correu também aí contra dois adversários: a eliminação na terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões e a promessa de não vender já Rúben Dias, capitão dos encarnados que era visto como uma “promessa” a médio prazo para funcionar como baluarte da formação e de passagem de valores benfiquistas. Houve outros fatores que contrabalançaram com isso, como o forte investimento no plantel e a série de triunfos consecutivos no Campeonato. No entanto, e para outro aspeto, não houve um outro prato da balança: os casos de Justiça ligados não só ao clube (ainda em fase de investigação) ou ao presidente dos encarnados, neste caso a Operação Lex onde Luís Filipe Vieira é acusado de recebimento indevido de vantagem.

“Estou de consciência tranquila e, se for condenado, no futuro, em algum dos processos de que nestes dias tanto se fala, serei o primeiro a tomar a iniciativa, saindo pelo meu pé da presidência do Benfica”, assegurou mesmo o próprio líder dos encarnados a meio de setembro, em comunicado. Mais tarde, Vieira foi mais longe: ao contrário dos que dizem que o Benfica é uma espécie de escudo para o seu líder, entende que é o facto de ser o número 1 do clube que lhe coloca um alvo. E chegou mesmo a colocar a questão no plano da “inveja”, dizendo que sente muitas vezes que o facto de ter chegado onde chegou na vida profissional e na Luz levou a retaliações de “mãos invisíveis”. Entre vouchers, emails e Mala Ciao, havendo pelo meio as informações do hacker Rui Pinto e o arquivamento do processo e-toupeira em relação aos encarnados, as questões com a Justiça ainda não foram superadas. E esse é um dos pontos fulcrais para garantir outra estabilidade a Vieira no seu último mandato no clube.

Como agarrar em 62,59% dos votos e transformar esse valor em 100%

A força da vitória de Luís Filipe Vieira e o anúncio de Noronha Lopes de que não pretende voltar a recandidatar-se à presidência do clube dão uma aparente imagem de acalmia no quotidiano do Benfica nos próximos tempos. No entanto, e mesmo com o gestor fora de uma nova corrida (ou seja, fora também da possibilidade de existência de uma oposição para fazer sombra), o presidente dos encarnados, tal como a sua equipa, tem noção de que ficou a semente de um verdadeiro projeto alternativo que aponta a uma mudança de paradigma na gestão que se tem vindo a enraizar no clube. E, com isso, a possibilidade de qualquer Assembleia Geral realizada num contexto menos favorável em termos desportivos poder levantar um ruído que prejudique a estabilidade tão desejada.

Sendo o último mandato, e tendo de preparar terreno para um sucessor que possa dar continuidade ao projeto que tem vindo a ser desenvolvido desde 2003 com resultados mais visíveis nos últimos sete anos, essa é uma das ideias chave para os próximos tempos, a que não foi alheio também um “recado” para a comunicação social dizendo que o clube continuará a ser gerido de dentro para fora e não de fora para dentro. O sucesso dessa luta será depois um reflexo da passagem de pasta que fará em outubro de 2024, seja para Rui Costa ou para outra figura do seu círculo mais próximo de confiança. Em contrapartida, o seu insucesso irá levar a um sufrágio mais aberto e com outras listas na luta por um poder que ficará órfão de Vieira. E se a ideia do candidato anti-sistema de Rui Gomes da Silva foi chumbada de forma rotunda, a mudança de paradigma com uma nova geração de pessoas de vários quadrantes da sociedade parece ter recebido um voto de confiança que vai para além do que o “não Vieira”.