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Éric Chacour e um amor impossível no Egipto dos anos 60: "Este não é um romance exótico. É sobre o que não se diz quando não se pode dizer"

“O que não sei de ti” é uma estreia literária com uma sociedade patriarcal como cenário. Falámos com o escritor canadiano de origem egípcia, que esteve em Portugal a apresentar o seu primeiro livro.

Com O que não sei de ti, o escritor canadiano de origem egípcia Éric Chacour estreia-se com um romance que tem conquistado leitores e crítica em vários países. Ambientado no Cairo do final do século XX, o livro revisita o Egipto através de um olhar íntimo, entre a memória e a imaginação, para contar uma história de amor proibido entre dois homens, Tarek e Ali. “É, de certa forma, um livro sobre o que não se diz”, sublinha o autor em entrevista ao Observador. E é talvez nesse silêncio – nas culpas, nas hesitações e na impossibilidade de nomear o amor – que se encontra a força desta narrativa.

Numa conversa em Lisboa, por ocasião do lançamento da versão portuguesa, Chacour descreve o romance como “uma carta de amor ao Egipto”. Através de uma escrita contida e elegante, constrói o retrato de uma sociedade em transformação, marcada por convenções e tabus que moldam o destino das suas personagens. “Um homem pode ser esmagado pelo peso da responsabilidade que a sociedade coloca sobre os seus ombros, e uma mulher pelo peso da responsabilidade que lhe é negada”, observa o escritor, que prefere explorar as contradições humanas a emitir juízos morais.

Mais do que uma história de amor, O que não sei de ti é também uma reflexão sobre a família, o exílio e a herança emocional das sociedades tradicionais. Entre o peso da história e o desejo de liberdade, Éric Chacour dá forma a um romance onde o amor e o silêncio caminham lado a lado, que é sobre o Egito, mas também sobre todos os lugares onde as palavras não chegam a tempo de dizer o que se sente.

▲ A capa da edição portuguesa de "O que não sei de ti", de Éric Chacour, pela Alfaguara

Nos títulos em inglês, espanhol e francês do seu romance mantém-se o mote “O que sei sobre ti”. No entanto, na edição portuguesa, optou-se por uma variação curiosa – “O que não sei de ti”. Segundo a editora portuguesa, esta alteração foi considerada e aceite por si. Porquê?
É curioso porque Portugal é um dos poucos países que alterou o título, mas sem deixar de se relacionar com a ideia original. Aconteceu também em Itália, porque já existia um livro com o mesmo nome, e aí chamaram-lhe Le domande proibite (“As perguntas proibidas”). Mesmo no Brasil, o título é igual ao original. Aqui, quisemos algo um pouco menos direto e talvez mais intrigante. Gosto da ideia de que cada língua se adapta à história e à sua musicalidade própria. O processo de tradução é um mundo de possibilidades — é respeitar a história, mas também reinventá-la noutra língua.

Este romance tem uma voz muito íntima e, por vezes, também bastante dolorosa. Como surge a necessidade de contar esta história de um amor proibido entre Tarek e Ali?
Não sei se houve uma “necessidade”. Diria que havia duas intenções quando comecei o livro. A primeira era escrever uma carta de amor ao Egipto, e não necessariamente ao meu, mas ao Egipto dos meus pais, o da minha imaginação. A segunda era escrever a minha grande história de amor. Queria escrever o meu Romeu e Julieta, mas entre dois homens, passado no Cairo, numa sociedade onde existem tabus muitos afincados e onde nem todas as histórias de amor são permitidas.

Este livro inspira-se num Egipto real e, ao mesmo tempo, simbólico. Em que medida essa ligação familiar o levou a perceber que a história tinha de acontecer ali?
Cresci a ouvir as histórias dos meus tios, das minhas tias e dos meus pais, e claro, todas histórias passadas no Egito. Cresci a ouvir coisas como: “Lembras-te daquela passagem de ano em que fomos acampar, assim meio à aventura, mesmo em frente às pirâmides?” E eu pensava: meu Deus, houve um tempo em que jovens de 17 ou 18 anos faziam campismo selvagem em frente às pirâmides. Essa imagem ficou-me gravada, estimulou muito a minha imaginação. Ficava fascinado quando a minha mãe contava que ia ao Sporting Club [um lugar que surge no romance] ouvir música – e era exatamente a mesma música que se ouvia na altura em França ou no Quebec, como o Charles Aznavour, a Dalida… quis contar algo sobre isso. Lembro-me de, às vezes, estar a passear pelas ruas do Cairo com o meu pai, e ele dizer-me: “Sabes, a tua avó trabalhava aqui. Era uma pequena loja, e as mulheres iam lá com revistas vindas da Europa a dizer ‘quero exatamente esta roupa, com este tecido, e tudo igual'”. A loja, disse-me, chamava-se Tout pour la femme [Tudo para a mulher]. Hoje em dia, ninguém imaginaria uma coisa assim. Quis recriar um pouco esse Egipto, que ainda hoje me surpreende e me fascina.

"Um homem pode ser esmagado pelo peso da responsabilidade que a sociedade coloca sobre os seus ombros, precisamente por ser homem. Mas, ao mesmo tempo, uma mulher pode ser igualmente esmagada pelo peso da responsabilidade que lhe é negada, apenas por ser mulher. E quis dizer algo sobre isso, que vemos no Egipto, mas de certa forma podemos ver em muitos países e especialmente em muitas famílias."

Partindo dessa ideia de escrever uma carta de amor, como foi depois criar personagens como o Ali, o Tarek e toda a família?
O plano é muito importante. Preciso de ter um plano muito preciso, saber exatamente, capítulo a capítulo, quem são as personagens, que informação vão trocar e o que, na minha perspetiva, pode fazer com que o leitor vire a página para descobrir o que vai acontecer a seguir. Isso é essencial para mim. Quando tenho esse plano bem definido, posso escrever o romance, e até o posso escrever de forma aleatória. Ou seja, os capítulos surgem numa determinada ordem no livro, mas o primeiro pode ter sido escrito quinze anos depois do seguinte. Claro que não se escreve da mesma maneira no início dos vinte anos e depois, perto dos quarenta. No final, há sempre um trabalho de coerência, de consistência. Garantir que a linguagem se mantém, que a forma de contar a história é a mesma. As palavras podem mudar ligeiramente, mas a história em si não mudou assim tanto no processo.

Este livro levou muitos anos a escrever, como já disse.
Era muito importante para mim, ao escrever as personagens, compreender o seu conflito interior, perceber contra o que lutam, o que lhes aperta o estômago de manhã. Isso é o mais importante, mas levou tempo a maturar. Não faço grandes descrições físicas das personagens, mas conheço profundamente a sua luta interior. Por exemplo, a criada da família é uma das minhas personagens favoritas. É uma mulher já de certa idade, com tantas coisas para dizer ao mundo, mas ninguém a ouve. É, de certo modo, parte da família, porque chega todas as manhãs, sai ao fim do dia, vai com eles de férias para cuidar da casa, preparar as refeições e tudo o resto. Mas, ao mesmo tempo, não pertence verdadeiramente à família. Todos lhe perguntam como está, mas ninguém escuta a resposta. E tem muito a dizer: sobre os patrões, sobre antigos amores, sobre cantores já desaparecidos. Há um momento no livro em que finalmente encontra o seu público, alguém que precisa de informações dela. Para criar este tipo de conflitos interiores e para levar as personagens até um novo lugar, diferente daquele onde partiram, exige tempo.

Trata-se de uma história proibida de amor, entre diferentes classes sociais e perspetivas de vida.
Claro que sim. O Tarek e o Ali não têm nada em comum. Vêm de meios, religiões e mundos completamente distintos. Só partilham uma coisa – são dois homens, naquele Egito do final do século XX. Ironicamente é precisamente essa semelhança que os condena. Todas as outras diferenças poderiam ser toleradas, mas esta semelhança é inaceitável.

Tarek pertence a um sistema patriarcal, onde a honra, a religião e as tradições ditam tudo. Como quis representar esse sistema?
Venho da América do Norte, e na América do Norte – sobretudo na parte anglófona – existe muito a ideia de que a escrita é, por natureza, política. Não acredito nisso. Não penso assim. Quando escrevo, não o faço para defender ou promover uma causa. Mas, claro, escrevo dentro de um contexto, e nesse contexto, há sempre algo de surpreendente, até de perturbador. Por exemplo, um homem pode ser esmagado pelo peso da responsabilidade que a sociedade coloca sobre os seus ombros, precisamente por ser homem. Mas, ao mesmo tempo, uma mulher pode ser igualmente esmagada pelo peso da responsabilidade que lhe é negada, apenas por ser mulher. E quis dizer algo sobre isso, que vemos no Egipto, mas de certa forma podemos ver em muitos países e especialmente em muitas famílias.

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▲ "A minha ideia inicial era sobrepor a grande história do Egipto à pequena história do meu protagonista, Tarek"

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É um Egipto que pode ser visto como uma metáfora para qualquer sociedade? Aquelas em que o destino de cada um já parece traçado à nascença?
É algo que se vê em muitas sociedades tradicionais. Imagino que fosse semelhante Portugal há algumas décadas. Mas também no Canadá e em França, países que conheço melhor porque vivi neles. O primeiro capítulo do livro é, aliás, uma conversa entre um pai e o seu filho. O pai pergunta-lhe: ‘Que carro gostarias de ter?’ E o filho não faz ideia. Só quer dar a resposta certa, aquela que o pai espera ouvir. Ao mesmo tempo, a irmã dele sabe perfeitamente o que quer – quer um carro vermelho, grande – e acredita que, se insistir o suficiente, talvez um dia o consiga conduzir. Mas, claro, o pai nem sequer a ouve, porque é mulher. O que o interessa é desenvolver toda a sua argumentação com o filho: ‘Se queres esse carro, tens de ter um bom emprego; para teres um bom emprego, precisas de um bom salário; e para teres um bom salário, precisas de estudar’, e assim por diante. É todo um discurso que o pai precisa de transmitir ao rapaz. E, nessa idade, nem o pequeno Tarek nem a irmã compreendem porque é que o pai dá tanta importância à resposta do filho e ignora a da filha. Há, evidentemente, algo de metafórico nisto. Mas, mais uma vez, não escrevo para denunciar nada – apenas procuro representar a sociedade tal como era, para aquela comunidade, naquele tempo e naquele país.

Simultaneamente, a mãe e a avó parecem ser as guardiãs de uma ordem moral. E, nesse sentido, embora estejamos num sistema patriarcal, as mulheres assumem por vezes um papel de consolidação desse mesmo sistema patriarcal.
Depois da morte do pai, o único homem da família (Tarek) exila-se no Quebec. Ele era, como se costuma dizer, o pilar daquela casa. E quando uma casa perde o seu pilar, todos os que ficam precisam de a manter de pé, caso contrário desmorona-se. As que ficam são as mulheres: a irmã, a esposa, a mãe e até a criada da família. Penso que, nas sociedades tradicionais, quando se recusa às mulheres a possibilidade de exercer poder na esfera pública, elas acabam, por vezes, por o exercer na esfera privada – no espaço íntimo, familiar. Daí que pareçam muitas vezes guardiãs de algo que lhes era garantido patriarcalmente, mas nem por isso deixam de exercer o seu poder.

É mais fácil olhar para tudo isso fora do Egipto?
Não sei se foi mais fácil estar de fora. Mais uma vez, o Egipto que descrevo no livro não é o contemporâneo. Nem sequer representa todo o Egipto daquela época. Representa uma comunidade muito específica: a comunidade levantina, composta sobretudo por libaneses, sírios e palestinianos, maioritariamente francófonos, na sua maioria cristãos e bastante ocidentalizados. Era esse o contexto que queria retratar – até porque é, de certa forma, o pano de fundo da minha própria família, embora a história do livro não seja autobiográfica. Por exemplo, há uma personagem de quem gosto muito ou, pelo menos, quis que o leitor gostasse dela. Mas, a certa altura, tem uma reação que, com o vocabulário de hoje, poderíamos classificar como homofóbica. Não quero inventar personagens mais feministas, mais revolucionárias ou mais progressistas do que teriam sido. Quero escrevê-las como as imagino, com o seu comportamento, o seu sistema de valores, mas também moldadas pelas regras da sua comunidade, do seu país e do seu tempo.

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Uma das dimensões mais interessantes no livro é a forma delicada como retrata a relação entre Tarek e Ali, sem escândalo ou dramatismo.
É curioso, porque quando se está a escrever, sobretudo um primeiro romance, não se sabe bem como se qualificaria a própria escrita. Só depois, ao ler algumas críticas – na internet e nos jornais, a falar sobre o livro – é que começamos a perceber de que forma é que o nosso trabalho é descrito. Em França, por exemplo, muitas pessoas falam de uma forma muito modesta de contar as coisas. Diria que a última coisa que alguém faria, se tivesse de contar a história dos seus pais, seria descrever cenas de sexo entre eles… ou entre o pai e uma prostituta. Portanto, é natural que o tom seja, por vezes, contido. E há outra coisa interessante: até a própria palavra “amor” – como refere – é algo que as próprias personagens têm imensa dificuldade em dizer. Nunca a usam. Nunca dizem “amor”. A única vez que surge é no meio de uma discussão entre os dois quando o Tarek pergunta ao Ali se este o ama. O Ali é incapaz de responder porque naquele Egipto, naquela época, era algo que não se podia dizer. Não fazia parte do léxico, mas era algo que se sentia. Algo verdadeiro. Curiosamente, a prova mais antiga de uma relação amorosa entre dois homens vem precisamente do Egipto. Está escrita em hieróglifos. E, como era tradição, o casal foi sepultado no mesmo monumento, onde se registou toda a sua vida. Descobre-se ali que viveram e se amaram. Estão os nomes dos dois homens, a sua história, tudo gravado. Por isso, quando alguém diz que “a homossexualidade não existe aqui”, é importante lembrar que existe desde os tempos mais antigos. Sempre existiu.

É um livro sobre uma história de amor, mas também sobre o silêncio e a culpa. Acompanhamos o sentimento de culpa do Tarek. Mas é também uma culpa coletiva?
Não sei, porque não julgo as minhas personagens com base em critérios morais. Lembro-me de um dia, numa livraria em França, durante a parte das perguntas e respostas, alguém começou a pergunta dizendo: “Achei o Tarek muito cobarde porque…” e nem chegou a terminar, porque outra pessoa interrompeu: “Não concordo nada, acho que ele foi muito corajoso ao agir daquela maneira”. E, de repente, instalou-se um debate na livraria. Depois de minutos de discussão, olharam para mim e disseram: “Então, e você, que é o autor – ele foi corajoso ou cobarde?” A verdade é que não faço ideia. Acho que, às vezes, na vida, podemos ser muito corajosos connosco próprios e, ao mesmo tempo, muito cobardes com os outros, ou o contrário. E está tudo bem. Há duas semanas estive numa biblioteca a apresentar o livro. Nessa sessão, estava um homem egípcio que não quis fazer perguntas durante a conversa, mas no fim, na altura dos autógrafos, aproximou-se. Nem queria propriamente uma dedicatória, queria dizer-me algo. Disse que estava muito feliz porque tinha compreendido que a mãe do Tarek o amava. Que ela não agia daquela forma por ser má pessoa, mas porque fazia o melhor que podia dentro do seu sistema de valores e das suas crenças. Tinha entendido que, afinal, ela amava o filho. E claro, naquele momento, já não estava a falar da minha personagem. Não sei de quem falava – não conheço a sua história –, mas percebi que já não era do meu livro que se tratava. E fiquei feliz por lhe ter deixado essa possibilidade: a de ver, mesmo através da forma como ela agia, uma mãe que amava o seu filho. Não sei se isto é uma forma de refletir sobre o que sente o coletivo, mas pode explicar muita coisa.

▲ "Tenho outras cartas de amor para escrever, talvez não necessariamente ao Egipto", diz Éric Chacour

O exílio é, sem dúvida, um gesto muito significativo e simbólico neste livro, porque, de certa forma, é a única maneira que Tarek encontra para se descobrir e lidar consigo próprio. É também importante pensar em alguns escritores para quem o exílio foi uma forma de estar no mundo. Quando lia este livro, pensei em Mahmoud Darwish que, mesmo exilado da Palestina, permaneceu fiel ao que sente sobre o seu país.
Não sei se queria dizer algo sobre o exílio. Acho que houve um momento na vida do Tarek em que era impossível conciliar certas coisas. Quis escrever sobre a ausência, que é a consequência direta do exílio. O livro teria sido diferente se ele tivesse simplesmente saído do Cairo e ido para Alexandria? Não sei se teria sido assim tão diferente. Talvez fosse um pouco mais drástico para ele deixar o país completamente. Mas quis falar sobre o facto de não estar presente fisicamente, e, ao mesmo tempo, ser mais presente do que qualquer outro membro da família. Ele estava em todas as conversas, nas não-conversas, nos silêncios. Acho que todos nós já sentimos isso: ter um membro da família que já não está presente, seja porque morreu, se foi embora ou por outra razão, e, ainda assim, ser mais presente do que qualquer outro.

Fá-lo sobre a forma de escrita de cartas – não só como estrutura para contar a história, mas também pela ambiguidade: pode escrever-se uma carta sem que se espere por uma resposta ou até sem a enviar a um destinatário.
Queria situar a história numa época em que, se alguém partisse e não deixasse morada nem telefone, essa pessoa se perdia para sempre. Não se podia ir ao Facebook, ao TikTok ou insistir até se obter uma resposta. As cartas do livro são escritas por alguém que não se sente à vontade a escrever. Que sabe que talvez a carta seja intercetada, lida por outra pessoa, talvez até censurada. Por isso, tenta colocar no papel tudo o que sente no coração, enfrentando muitas restrições. Tive uma oficina com alunos em França – jovens, com cerca de 14 ou 15 anos – que tinham lido, pelo menos em parte, o livro com a professora. Uns meses depois, recebi na minha casa um conjunto de cartas enviadas pela professora. Foi comovente. Alguns dos alunos tinham decidido escrever cartas de amor, como as que mencionei, imaginando o que esta personagem escreveria para outra. Honestamente, emocionou-me ler essas cartas e imaginar um adolescente de 15 anos a tentar escrever uma carta de amor, consciente das limitações, do que não se pode dizer, mas esforçando-se para se colocar no lugar do Tarek.

Neste livro descreve uma comunidade cristã levantina. Era importante mostrar essas nuances religiosas e culturais?
Sim, porque o Egipto é um país muito diverso. Cerca de 10 a 12% da população é cristã, a maior comunidade cristã do Médio Oriente. Quis que o livro refletisse essa pluralidade.

Inclui também a história política recente do Egipto – de Nasser à Guerra dos Seis Dias, passando por Mubarak – e fala de um país que, no início deste século, procurou reconciliar-se com o mundo. Foi importante cruzar esse pano de fundo histórico com a história de Tarek?
A minha ideia inicial era sobrepor a grande história do Egipto à pequena história do meu protagonista, Tarek. Porque, se pensarmos bem, há algo de quase infantil na forma como Nasser via o mundo. Há um momento na vida em que tudo parece possível – em que se diz “não” ao mundo e, de algum modo, isso resulta. É uma atitude talvez errática, mas que contém algo da infância. Depois vem a era de Sadat: um tempo mais cínico, mais próximo da idade adulta. E, finalmente, Mubarak, que simboliza o lado mais conservador da velhice – a obsessão pela segurança, pelo imobilismo, pelo medo da mudança. Achei essa correspondência com Tarek curiosa. No entanto, o que realmente me interessava era contar uma história de corações que batem e não escrever um tratado histórico sobre o país. Por isso, acabei por retirar grande parte dessa camada política. Mais tarde, a minha editora no Quebec disse-me: “Sabe o que é realmente interessante no seu livro? É o Egipto e a sua história recente.” E eu pensei: quem é que, no Quebec, se interessaria por uma história passada numa comunidade egípcia do final do século XX? Mas ela insistiu: “É algo que raramente lemos”. Voltei então a integrar parte do que tinha retirado… não através de grandes referências históricas, mas criando um mapa emocional e geográfico que situasse a história. Foi divertido, por exemplo, sobrepor a Guerra dos Seis Dias a uma conquista amorosa. Este não é um romance exótico, não era isso que queria escrever. O meu objetivo era que o leitor sentisse apenas um vislumbre daquele contexto, daquela época, sem cair nem no exotismo nem no discurso político, mas deixando entrever o peso da história e da tradição.

"A prova mais antiga de uma relação amorosa entre dois homens vem precisamente do Egipto. Está escrita em hieróglifos. E, como era tradição, o casal foi sepultado no mesmo monumento, onde se registou toda a sua vida. Descobre-se ali que viveram e se amaram. Estão os nomes dos dois homens, a sua história, tudo gravado. Por isso, quando alguém diz que 'a homossexualidade não existe aqui', é importante lembrar que existe desde os tempos mais antigos."

A família é um tema central em muitos autores – até mesmo nos egípcios, como Naguib Mahfouz –, mas também em escritores como Albert Cossery, que viveu grande parte da vida fora do Egito e, ainda assim, escreveu sobre o país. No seu livro, a família tem também um papel essencial.
A família é a única comunidade que não escolhemos. E há algo de fascinante nisso. Se conhecêssemos algumas dessas pessoas num restaurante, numa festa, em qualquer outro contexto, bastariam dez minutos para perceber que nunca iríamos querer passar mais tempo com elas. Mas, por uma grande coincidência, nascemos na mesma família e isso obriga-nos a conviver, a lidar com essas pessoas, a aprender com elas. E é isso que me interessa: essa necessidade de encontrar equilíbrio entre pessoas muito diferentes, com sistemas de valores por vezes completamente opostos, e, ainda assim, viver com elas.

A homossexualidade continua a ser ilegal no Egipto. É um tema importante para si?
A minha primeira entrevista como escritor foi para uma revista gay de Montreal chamada Fugues. No mesmo número, havia uma notícia sobre homens gays presos no Egipto, apanhados pela polícia através de aplicações de encontros. E lembro-me perfeitamente da estranheza desse momento, de ver a minha entrevista sobre uma história de amor entre dois homens, que eu considerava bela, lado a lado com a realidade de um país onde, quarenta anos depois, ainda há pessoas que não podem viver livremente o seu amor. Mais uma vez, o meu livro não é político. Não é uma defesa nem uma condenação. Mas, inevitavelmente, fala de tragédias individuais. E o que torna esta história de amor impossível é precisamente o contexto em que ela acontece.

Podemos dizer que, de certa forma, o que faz também é afirmar que, mesmo sendo uma história “proibida”, este é um amor que existe desde os tempos mais antigos.
Claro que sim. Há alguns meses, estive no Egipto e um jovem aproximou-se de mim para me entregar um postal. Tinha escrito apenas isto: ‘Éric fala muito calmamente, mas quando fala, nós ouvimo-lo. E, às vezes, é tudo o que precisamos para manter os ombros direitos.’ Não me disse nada sobre a sua vida, sobre quem era, sobre a sua identidade ou orientação sexual. Mas, ao mesmo tempo, disse tudo e dá um sentido profundo ao que faço.

Como tem sido a receção do livro no Egipto?
Até agora, muito boa. O livro está neste momento a ser traduzido para árabe e vai chegar a mais pessoas. O mais bonito até agora foi ver leitores dizerem “neste livro encontrei memórias que já tinha esquecido”. Esse é o melhor elogio possível.

Porque também uma história universal, que podia acontecer em qualquer lugar?
É curioso, porque quando o escrevi, pensei exatamente o contrário: que era um livro nada universal. Se pensar bem, há uma história de amor entre dois homens e pode-se viver toda uma vida sem nunca experienciar algo assim. Há o tema do exílio e pode-se viver toda a vida no mesmo país. Há também uma personagem com um distúrbio alimentar, algo que a maioria das pessoas não vive. Mas percebi, ao falar com leitores, que quase todos encontraram no livro algo que lhes dizia respeito. Também falamos de ausência, é um livro sobre o silêncio. De certa forma, é um livro sobre o que não se diz quando não se pode dizer.

Haverá mais cartas de amor suas ao Egipto?
Não sei. Este livro vai ser traduzido para árabe e isso é um orgulho. Espero que esta carta de amor chegue ao seu verdadeiro destinatário. Tenho outras cartas de amor para escrever, talvez não necessariamente ao Egipto.

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