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Os leitores nascidos depois de finais dos anos 90 já não reconhecerão o nome de Luís Almeida nem o seu cognome de “o papa concursos”. Nas décadas nas quais os concursos de cultura geral eram parte relevante da roda dos alimentos televisiva, Luís Almeida era um engenheiro, sempre de camisa impecável, que participava repetidamente (e amiúde ganhava) em quase todos os programas do género em Portugal, tornando-se ele próprio numa espécie de figura pública. “Quiz”, a mini-série da britânica ITV recentemente disponibilizada em Portugal pela HBO, também reflete um género de papa concursos, mas com contornos bem mais perniciosos:  falamos do caso verídico da ascensão e queda de Charles Ingram, o homem que ganhou um milhão de libras na edição original de Quem Quer Ser Milionário, sendo posteriormente acusado e julgado por ter feito épica batotice.

“Quiz” foi originalmente uma peça de teatro de sucesso no West End londrino, aqui revisitada num formato com apenas três episódios (talvez por isso não escape muito da estética de telefilme), estando já dois disponíveis no serviço de streaming e estreando o último na segunda-feira, dia 15. Conta no elenco com Matthew Macfadyen (“Sucession”), Sian Clifford (“Fleabag”) ou Michael Sheen (o homem que melhor faz de Tony Blair no mundo, que aqui encarna o mítico apresentador inglês Chris Tarrant). É uma serie criminal tão atípica como o caso que lhe deu origem e, não sendo um portento de realização ou até de representação, vive do fascínio da história real na qual se baseia, que chega e sobra para a tornar interessante. Se já olhou para um concurso e pensou “aquilo é tudo um esquema para só ganhar quem eles querem”, prepare-se ver como se engana a máquina.

Um dos pontos fortes de “Quiz” (talvez até o mais forte) é a viagem aos bastidores de um dos maiores fenómenos televisivos dos últimos 20 anos. No mesmo ano em que o pequeno ecrã levava esse pontapé na nuca do qual nunca recuperou chamado Big Brother, um relativamente pequeno canal britânico reinventava o conceito de concurso. Fora com o lado colorido, saltitão e bem-disposto das cores garridas e das assistentes sorridentes; olá a uma verdadeira noção de tensão, competitividade e até algum negrume, com um cenário construído ao detalhe para causar stress e confusão no concorrente.

[o trailer de “Quiz”, disponível na HBO Portugal:]

“Quem Quer Ser Milionário” chamava a atenção por prometer o tal colossal prémio de um milhão de libras (na edição portuguesa não ia além dos 50 mil contos, o que mesmo assim era cinco vezes mais do que o prémio máximo actual), mas sobretudo por ter uma eficácia e até uma noção de narrativa muito mais envolvente que os formatos seus antecessores, quase mais thriller do que joguinho para dizer qual é a capital da Namíbia. O sucesso foi tal que se tornou num fenómeno global, vendido pouco depois aos Estados Unidos e transmitido eventualmente em mais de 90 países. Quase metade de todas as nações do mundo tiveram a sua própria versão.

Só que esse avassalador e quase automático sucesso depressa se tornou numa obsessão no Reino Unido, com autênticas máfias organizadas para tentar ludibriar e vencer o concurso que parecia invencível. “Quiz” mostra como muito antes de todos termos Google no telefone se montavam autênticos esquemas em pirâmide, só que com respostas de cultura geral em vez de batidos da Herbalife.

Numa altura na qual o próprio concurso está a voltar a ser emitido um pouco por todo o mundo, à boleia de uma edição comemorativa dos 20 anos apresentada preferencialmente por comediantes (em Portugal a apresentadora será Filomena Cautela, que se estreia no ar no dia 20; nos Estados Unidos é Jimmy Kimmel), recordemos outros dez concursos que marcaram a televisão portuguesa.

“A Roda da Sorte”

1990-1994 na RTP; 2008 na SIC

Se Carlos Cruz é, provavelmente, o melhor apresentador português de concursos de sempre, Herman José é aquele que trouxe mais frescura aos formatos que apresentou. Pegou num formato relativamente estanque e bafiento como “The Wheel Of Fortune” e deu-lhe porcazinhas na plateia, concorrentes obcecados em ganharem acendedores piezoelétricos da Singer e, claro, um cenário destruído à chumbada no último episódio. Em 2008 a SIC tentou retornar o formato diário, mas com um sucesso muito aquém do original. Em muito, porque já não havia Ruth Rita (vestida pela malograda Ruth Rita Boutiques).

Coube também ao humorista dois outros formatos de muito sucesso: “Parabéns” (1992 a 1996), o concurso das noites de sábado ao qual só podiam concorrer aniversariantes daquela semana; e o original hermaniano “Com A Verdade M’ Enganas” (1993), que ainda pode ser visto na RTP Memória.

“Casa Cheia”

1990-1999, RTP

Se “Roda da Sorte” teve um único e marcante apresentador, “Casa Cheia” não teve uma relação monogâmica com ninguém ao longo dos seus nove anos de existência. Fernando Pereira, Carlos Ribeiro, Serenella Andrada e Pedro Ribeiro foram alguns dos nomes que estiveram em direto de um local, esse sim, inalterado: esse ex-libris dos auspiciosos anos 90 chamado Casino do Estoril. Outra epítome de modernidade e irreverência era o facto do jogo também poder ser feito por quem estava em casa. Através do telemóvel? Ó pequenitos, não havia cá disso: era uma revista, mesmo, que era preciso ir buscar ao quiosque, chamada “Telejogos”. Na revista existiam cartões da “Casa Cheia”, com números aleatórios, numa espécie de bingo que garantia prémio se os números coincidissem com os que apareciam no jogo.

“Um, Dois, Três”

1984-1998; 2004 – RTP

António Sala e Teresa Guilherme chegaram a apresentar o concurso da mítica Bota Botilde, mas este será sempre um dos grandes sucessos de Carlos Cruz. O Senhor Televisão conseguia como ninguém baralhar a cabeça da dupla de concorrentes finalista, que já não sabia se ele os estava a ajudar a ganhar o carro e o apartamento (sim, já se deram apartamentos em concursos) ou a levá-los a aceitar uma montra só com caixas de pioneses. Cada emissão era uma grande produção temática, com bailarinos, figurantes, cenários e um momento de humor que o país parava para ver.

“Palavra Puxa Palavra”

1990-1994, RTP

Este concurso apresentado por António Sala tinha jogos de palavras na sua génese e juntava duplas de um convidado célebre e um concorrente. Mais do que explicar a mecânica, sugiro recordar o Tesourinho Deprimente que resultou da passagem do jornalista Raul Durão pelo concurso:

“Hugo”

1996-2000, RTP

A frase “continua lentinho e vais de carrinho” diz-lhe alguma coisa?  É possível desenhar a régua e esquadro a linha geracional que separa quem desconhece ou desmerece o concurso “Hugo” de quem achou isto a coisa mais fixe de todos os tempos. Para quem foi criança ou adolescente nesta altura, tratava-se simplesmente do maior portento de tecnologia e até quiçá de feitiçaria que o mundo já tinha visto. Hugo era um duende animado, perdido numa floresta, que apesar do seu ar jovial já tinha mulher e filhos. Pior: tinham sido raptados por uma bruxa e cabia a quem estava em casa ajudar a libertá-los. O processo era feito através das teclas do telefone (aquele fixo, mesmo), que qual comando da Playstation permitiam controlar o boneco animado. Os participantes tinham de ter entre 6 e 16 anos e eram geralmente crianças tímidas e monossilábicas que tinham de fazer conversa com o jovem apresentador, habitualmente alguém que tinha entrado na série “Riscos”.

“Preço Certo”

1990-presente, com algumas interrupções pelo meio, RTP

Vejo religiosamente, e sem ironias, o “Preço Certo”. É um programa algo gasto, repetido até à exaustão, sim. Mas é um exemplo de um formato internacional totalmente moldado ao seu apresentador nacional. Fernando Mendes faz o que quer, como quer, e num meio com tantas fórmulas isso é uma alegria de ver. O concurso já foi apresentado por nomes como Carlos Cruz, Nicolau Breyner ou Jorge Gabriel e até teve uma edição entre 2002 e 2006 para ajudar os portugueses a converterem a sua vida de escudos para a moeda única (chamava-se, sem grande originalidade, “Preço Certo Em Euros”). O ator é a cara do programa desde 2003 e transformou-o numa espécie de Feira do Fumeiro em esteroides, com uns esquentadores e uns carros manhosos pelo meio. Lenka é a assistente mais mítica, mas uma palavra de apreço para Marinho, o assistente que pisca o olho a idosas, enfarda pasteis de Tentúgal e aponta para centrifugadoras com uma alegria de viver que genuinamente invejo.

“Caça ao Tesouro”

1994-1995, SIC

Este concurso só seria mesmo possível na altura que ficou conhecida no meio televisivo português como “a época das vacas gordas”. Havia muito dinheiro, caramba. Daí ser possível colocar Catarina Furtado num helicóptero que andava pelo país numa espécie de gincana. Os participantes tinham de decifrar pistas para que depois a apresentadora as executasse no castelo de Almourol ou numa gruta em Santarém ou numa feira medieval em Viseu. Durante 120 minutos (uma vida, portanto) uma dupla de concorrentes ficava assim trancada numa biblioteca com Fernando Mendes e Rita Blanco, enquanto Catarina laureava a pevide numa megaprodução feita à medida. Já não se torra dinheiro desta maneira.

“Não se Esqueça da Escova de Dentes”

1995, SIC

Para muitos, este concurso é conhecido pelo mito urbano de um casal que terá tido um pequeno faux pas na resposta à pergunta “onde foi o último sítio que fizeram amor?”. Se não conhecem, também não vou ser eu a bardajona, ainda por cima para quem pagou por um artigo premium. Apresentado por Teresa Guilherme, assistida por um então promissor Humberto Bernardo (desaparecido do audiovisual desde que trocou o nome da vencedora do Miss Portugal), o objetivo era oferecer uma viagem a um casal que soubesse tudo um sobre o outro. O público estava assim repleto de pares românticos já com as malas feitas, agitando no ar as suas escovas de dentes.

“A Amiga Olga”

1993-1994, TVI

O primeiro concurso de sempre da TVI foi apresentado pela partenaire radiofónica de António Sala, ele próprio um apresentador de concursos. Olga Cardoso tinha já quase 60 anos quando se estreou em televisão, o que hoje provavelmente seria impossível. Recordo ainda hoje uma mítica capa da TV Mais com todos os detalhes da operação plástica que fez alguns meses depois. O impacto foi tal que deu azo a sketches televisivos e até a uma rubrica humorística da Rádio Cidade chamada “A Amiga Osga”. Na altura, comentava-se que falava demasiado alto. Umas Cristinas Ferreiras depois, cá estamos. O jogo era feito de armadilhas e esparrelas nas quais os concorrentes tentavam não cair para ganharem dinheiro em vez de uma ervilha (prémio verídico), sendo Olga Cardoso auxiliada pelo rapaz do gongo dourado – um rapagão jeitoso que viria depois a ser ator em filmes de Manoel de Oliveira. OK, talvez seja importante esclarecer que era neto do realizador.

“Quem Quer Ganha”

2003-2010, TVI

Este é, para a grande maioria das pessoas, o formato menos memorável e impactante de todos desta lista. Então está aqui porquê? Porque foi o primeiro feito com a filosofia call-TV, num jogo interativo através de um número 760 de valor acrescentado. Traduzindo: é o primeiro exemplo do formato que não matou de vez os concursos de televisão, mas colocou-os em coma durante uns bons anos. Com prémios mais modestos e perguntas mais fáceis, é sobretudo um modelo de angariação de fundos para os canais de televisão, resultando num formato tão interessante como ver arranjar feijão verde. Os concursos de prime-time voltariam mais tarde a ter algum destaque, com exemplos recentes como o sucesso de “Joker” (RTP) e “Mental Samurai” (TVI).

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa