A Escandinávia era um dos destinos de trabalho mais comuns para Cláudio Cruz. Mas esta sexta-feira, ao volante de um camião da Volvo, o seu objetivo era chegar a Coimbra para expressar a sua indignação. “Nós somos ignorados sempre com sucesso. Até ao dia em que os transportadores se juntarem todos”, repetiu ao Observador, sem prestar grande atenção ao velocímetro e com as mãos afundadas na buzina. O ponteiro poucas vezes subiu, com o trânsito condicionado ao ritmo da lenta marcha organizada por empresários do setor das terraplanagens, que seguiu de Paredes até Coimbra.
O sol ainda não tinha nascido quando as várias ruas de Seroa e Lordelo, que dão acesso à A42, estavam repletas de camiões. Em conversa, nos passeios, esperavam dezenas de camionistas, muito ou pouco experientes. “Trabalho no setor há dois anos, nesta empresa há uma semana, acabei de me mudar”, relata Micael Martins. “Mas noto [uma] profissão um pouco esquecida, acho que é de alto risco e não é considerada, porque nós passamos mesmo muitas horas ao volante”.
Cláudio e Micael são apenas dois dos cerca de 400 condutores — a GNR fala em 380 camiões, a organização aponta para os 450 — que se fizeram à estrada para, entre muitas buzinadelas e aplausos de dezenas de pessoas nos viadutos, perseguir uma “vitória”. Para já, ouviram o ministro das Infraestruturas e Habitação a reconhecer que o setor tem sido “esquecido”, com Miguel Pinto Luz a prometer uma reunião já na próxima segunda-feira.
Bom indício para os camionistas, que se mantêm expectantes com o resultado desse encontro. Com uma certeza: se as suas reivindicações não forem cumpridas, podem tornar este movimento de centenas de profissionais em manifestações com maior impacto em todo o país.
IGOR MARTINS/OBSERVADOR
Entre buzinas e aplausos, camionistas dizem-se ignorados. “As empresas de transportes estão em queda livre”
Enquanto os camionistas esperavam a chegada da hora de partida (agendada para as 7h30), um colete refletor laranja destacava-se de madrugada. Na rotunda da Rua da Zona Industrial, em Paredes, Rui Cunha seguia imparável com uma folha na mão a mostrar o percurso, desdobrando-se entre conversas com os jornalistas e com os condutores ali presentes.
Com a pressa de garantir que a marcha começava a horas — falhou por apenas 15 minutos — explicou ao Observador que o movimento surgiu de forma espontânea, depois de uma reunião com cerca de 20 representantes de vários subsetores da área da construção, já na noite da passada sexta-feira, dia 18. “Decidimos avançar com esta manifestação ordeira. Não queremos com isto complicar a vida a ninguém, nem queremos criar desacatos nas ruas, queremos só fazer um protesto, fazer-nos ouvir, que saibam que nós estamos cá, porque ninguém fala de nós, nós não somos reconhecidos por ninguém, ninguém nos diz nada”.
Enquanto veem os outros setores a ter “benefícios”, sentem-se a ficar “sempre para trás”. “O setor das terraplanagens, transportes, extração de inertes, não temos qualquer tipo de benefício. Está na hora de alguém nos ouvir”. E assim o fizeram. Ao longo dos cerca de 140 quilómetros de percurso, a buzina foi a arma mais eficaz. De vez em quando, em várias áreas de serviço, Rui aparecia, de colete, a pedir mais barulho aos camionistas.
Cláudio não precisava do convite para fazer uso das várias buzinas do camião. Com largos anos de experiência ao volante dos grandes camiões, trocou a estrada pelo escritório depois de um episódio traumático de saúde, precisamente enquanto conduzia. Hoje, voltou a sentar-se ao volante. “Desde o momento em que é expedida a carga até ao importe da carga é muito complicado trabalhar numa empresa de transportes”, confessa o agora diretor comercial da Transnos, sediada em Fafe.
“Neste momento, as empresas de transportes estão em queda livre. Desde o início do ano é comunicado que fecham cerca de 10 empresas por mês com estas subidas de combustível”. Enquanto procura uma Coca-Cola no frigorífico do camião, frisa que se trata de “pequenas empresas”, mas que mesmo assim afetam todo o ecossistema. “O setor está a explodir de trabalho e não há como fazer tantas cargas”.
▲ Rui Cunha, um dos organizadores, pediu aos camionistas para se fazerem ouvir
Igor Martins
A pasta de dentes no tablier e a almofada em cima da cama tornam a cabine do condutor mais confortável para as longas viagens. Algumas são mais apetecíveis do que os trajetos em solo nacional. “Compensa-nos mais ir de camião [de Fafe] a Barcelona, do que a Lisboa, porque temos muito mais gastos” com portagens e, claro, com gasolina. “O combustível em Portugal está-se a meter, com os nossos descontos de frota, a 1,93 euros e em Espanha estamos a meter a 1,30 o litro”.
Mas mesmo com o combustível estrangeiro, as empresas são confrontadas com grandes despesas para fazer viagens mais longas, com Carlos a dar o exemplo de Paris: custa agora cerca de 700 euros mais do que antigamente.
Micael Martins não costuma cruzar fronteiras. Segue alguns quilómetros atrás de Carlos na A1 e herdou o gosto pela estrada do pai, também ele antigo camionista. O jovem que começou este mês a trabalhar na InovBetão juntou-se à marcha perto de Estarreja, onde está sediada a empresa. Faz a maioria dos serviços entre o distrito de Aveiro e a cidade de Pombal, mas chegam a ser “várias viagens por dia”. “Acaba por ser desgastante”, admite, sentado numa cabine arrumada.
De calções do Benfica e polo da empresa, o jovem pai assume que é difícil conciliar os horários de sono de uma filha com dois anos com as viagens na estrada, mas reconhece que a profissão até consegue ser atrativa. “Consegue-se ganhar melhor do que a trabalhar numa fábrica. Mas devido ao desgaste que se tem, acaba por não compensar. Acabamos por estar um pouco desvalorizados”.
Também ele entende que alguma ajuda na compra dos combustíveis poderia aliviar a vida dos patrões das empresas, e consequentemente refletir-se numa melhoria das condições dos condutores. Tal como outros colegas, Micael não perde tempo e buzina quando vê nos viadutos pessoas a aplaudir os motoristas, ou ergue o polegar em sinal de solidariedade para com a marcha lenta.
Enquanto ocupavam apenas a via da direita da faixa no sentido Norte-Sul, foram muitos os camiões de outras empresas (que não aderiram ao protesto) a fazer o mesmo percurso em trabalho, nas vias mais desimpedidas. Também esses veículos pesados ouviram mais as buzinas dos colegas na marcha, que apelaram à união dos profissionais para criar mais impacto, quiçá em protestos futuros.
Igor Martins
“Nós até devíamos ser mais agressivos”. Camionistas ameaçam com paralisações nacionais
Ainda a caminho de Coimbra, com a marcha a meio e sem saberem o impacto da manifestação, os condutores foram-se empolgando. Enquanto conduzia, nem nas maiores curvas Cláudio conseguia ver o início ou o fim do comboio de camiões. A mobilização — que adivinhou ser grande — já o fazia projetar novos protestos.
“Se o nosso país não nos dá atenção, temos que arranjar forma de ter atenção”, disse, enquanto sugeria um bloqueio total de todos os camiões de transportes e um bloqueio das fronteiras. “É o mais lógico que temos a fazer”.
“Eu julgo que esta saída já é uma demonstração ao Governo de que ninguém está satisfeito. Eu acredito piamente, e pelas mensagens que tenho visto [de outros colegas], se dentro em breve, uma semana ou duas, não houver nada que nos possam dizer que seja gratificante, eu julgo que vai existir mesmo essa paralisação nacional. É o que eu entendo, por aquilo que eu tenho vindo a falar com outros transportadores. Cada vez mais nos estamos a unir para fazer mesmo essa paralisação”, garantiu.
A mensagem de Cláudio foi repetida por vários camionistas ouvidos pelo Observador, quer nos camiões quer nas áreas de serviço onde pararam para rápidas pausas técnicas. Mesmo esperando cinco minutos para tomar um café, os motoristas conseguiam sair da marcha e voltar a entrar calmamente, numa fila que se foi tornando mais longa durante o percurso, com a entrada de camiões de empresas sediadas a sul do Douro.
IGOR MARTINS/OBSERVADOR
“Eu acho que nós até devíamos ser mais agressivos. Temos uma faixa a funcionar [mas] nós não devíamos era ter nenhuma, que era para o país sentir que sem nós, não anda. Se não houver transportes o país para”, concorda Micael, que olha para os exemplos de França, mas recusa replicar a violência. “Os exemplos que a gente vê em França normalmente costumam dar resultado. Acho que podíamos fazer protestos mais visíveis, para perceberem que nós estamos aqui e precisamos de ser olhados, respeitados e valorizados”.
No final da marcha, enquanto vê um por um as centenas de camiões a passar nas portagens da saída para Coimbra Sul, Miguel Machado Mendes é mais cauteloso. O advogado que representa o movimento que esta sexta-feira saiu à rua não se quer antecipar à reunião que terá, na próxima segunda-feira, com o ministro das Infraestruturas.
“Este setor tem força, demonstrou-o hoje, mas nós não estamos aqui para medir a força. Este ainda não é o momento. Nós temos que perceber que aquilo que se passou hoje fugiu da área de ação de qualquer associação de classe, associação industrial ou profissional ou força política. Se me dissessem há uma semana que era possível realizar a manifestação que fizemos hoje, toda a gente diria que era impossível, mas estes homens e estas mulheres conseguiram”, resumiu. “Hoje” com indignação, “amanhã” com responsabilidade, perante o Governo, para discutir apoios. Depois? As negociações ditarão o futuro (e eventuais novas mobilizações mais agressivas).
IGOR MARTINS/OBSERVADOR
Organizadores reclamam “vitória” depois de ouvirem Governo reconhecer esquecimento do setor
Apesar das ocasionais tarjas do Chega (nos viadutos da A1) a reclamar do aumento dos combustíveis, fontes do movimento ouvidas pelo Observador explicaram que não foi intenção da organização partidarizar o protesto. “O impacto político foi conseguido”, garante essa fonte, aludindo à reunião com o Governo, que tem capacidade de decidir melhorias para o setor.
Enquanto alguns camionistas seguiram para Sul depois de Coimbra — aproveitando o dinheiro gasto em combustível para fazer viagens de trabalho — outros regressaram a Norte com sentido de dever cumprido. Não tanto pelas considerações de Miguel Pinto Luz — que consideraram uma “verdade ‘lapalissiana’” — mas mais pela confirmação da reunião com o ministro.
“Acaba por não ser uma novidade”, reagiu Micael, em poucas palavras, depois de ter sido confrontado com as palavras do governante. Pouco antes, à margem de um evento da CNN Portugal, o ministro reconheceu que “é um setor que, de alguma forma, tem sido esquecido”, algo que o Observador já tinha ouvido de muitos dos manifestantes.
A maior novidade surgiu quando Pinto Luz anunciou uma reunião com representantes do setor já na próxima segunda-feira. “O Governo continua em diálogo e quer encontrar as soluções. (…) Na segunda-feira irei ouvir as reivindicações, iremos encetar o diálogo e, depois, faremos a nossa avaliação. Nessa altura tomaremos uma posição especificamente sobre este setor que agora está a reivindicar”.
“Continuamos a trabalhar para todos. Temos medidas, faremos mais se for preciso. Estamos a monitorizar e a perceber aquilo que vamos fazer no futuro”, repetiu, citado pela Lusa, depois de garantir que o “Governo continua em estreito diálogo com todos” e que ainda “não cristalizou o limite dos seus apoios”.
Igor Martins
A mensagem do ministro, a mobilização pacífica e o elevado número de participantes deixaram Miguel Machado Mendes a cantar vitória, de sorriso no rosto. “O balanço é muito positivo, nós conseguimos, em poucos dias, unir pessoas que não se conheciam mas que tinham os mesmos interesses. Um setor que não tinha voz, que era desconhecido. Agregámos 117 empresas, colocámos na rua 450 camiões e, mais do que isso, fizemo-nos ouvir, com a certeza de que o próprio Governo reconheceu hoje que este setor era desconhecido”, salientou, ainda nas portagens de Coimbra Sul.
O advogado que representa o movimento, e que estará sentado à mesa de negociações, na companhia de outro empresário, no encontro com o ministro, encara essa reunião como uma “vitória”. Mas, mais do que isso, destaca a “adesão de pessoas” de outros setores, ou dos “cidadãos comuns que se identificaram com as nossas causas” e também se manifestaram na autoestrada com buzinas e aplausos. “Toda a gente reconhece que esta causa é justa. É possível demonstrarmos a nossa indignação, é possível fazermos uma marcha como a que fizemos hoje, que correu de maneira ordeira e civilizada”.
Frederico Maciel, dono de uma pequena empresa familiar de transporte de resíduos e reciclagem, representa essa junção de empresários com diferentes origens. Mesmo sendo de outro setor, também é diretamente afetado pelo aumento do preço dos combustíveis, pelo que não quis deixar de se juntar ao protesto. “No meu negócio, que é um micronegócio, estamos a falar entre 3 a 5 mil euros mensais [de prejuízo com o aumento dos preços]”, confessa ao Observador, antes de arrancar na marcha lenta.
A GNR, muito presente ao longo do percurso, quer nos viadutos, quer com motas a acompanhar os camiões na A1, reconheceu “uma boa colaboração por parte dos respetivos promotores e uma postura cívica por parte de todos os participantes”, assumindo que tudo “decorreu dentro da normalidade, sem incidentes a registar”. Através de um comunicado, os militares destacaram “a colaboração das entidades gestoras das vias, nomeadamente da Ascendi e da Brisa, cujo apoio contribuiu para o acompanhamento da iniciativa e para a gestão dos constrangimentos à circulação”.
“É um projeto vencedor. Um movimento vencedor que nasceu de maneira espontânea e informal”, acrescenta Miguel Machado Mendes. Sem tempo a perder, aponta para o futuro. “A partir de amanhã [o movimento] já trabalha para conseguir participar nas decisões”.
Há vários pontos que o advogado confirmou que estarão, seguramente, em cima da mesa. Além do referido desconto no gasóleo industrial, querem explorar acessos a programas de incentivos financeiros para tornar “equipamentos industriais de grande porte” — “alguns deles obsoletos” — em “máquinas energeticamente mais eficientes”. Além disso, gostavam de ver uma “equiparação da tonelagem máxima [capacidade de carga dos carros]” igualada à indústria dos madeireiros. Mas não ficará por aí. “Temos mais” reivindicações, promete.