Índice
Índice
Corria o ano de 2016, a guerra civil lavrava na Síria e um grupo terrorista, o Jabhat al-Nusra, assumia-se entre os outros, devido ao seu líder misterioso. A sua reputação era a de um homem prudente e carismático, que não tinha problemas em derramar sangue, mas procurava sempre outras soluções. A sua identidade era desconhecida e o seu nome de guerra, Abu Mohammad al-Julani, era sussurrado entre os militantes como o de uma “criatura mítica”.
Nesse mesmo ano, Julani quebrou o mistério ao aparecer pela primeira vez em frente a uma câmara, para anunciar a separação do grupo da Al-Qaeda. De trajes militares, barba comprida e turbante, a voz calma e os maneirismos do homem foram reconhecidos pelos habitantes do bairro de Mezzeh, em Damasco: eram os mesmos de Ahmed al-Sharaa, o jovem que partira dali para lutar no Iraque com apenas 20 anos de idade e que julgavam estar morto. “Inicialmente nem pensámos que fosse ele, porque o nosso amigo não era um radical extremista”, lembra um amigo de infância ao Financial Times.
Quase dez anos depois, Ahmed al-Sharaa liderou a ofensiva rebelde que derrubou o regime de Bashar al-Assad. Logo a seguir, trocou o traje militar por um fato, uma gravata e uma barba mais curta e assumiu o cargo de Presidente interino. Depois de onze anos de guerra civil, a possibilidade de uma nova Síria está nas mãos deste homem, que consolidou a sua liderança no seio de grupos terroristas islamitas.
“Ele não é um democrata, trabalhou a vida toda para um Estado religioso”, argumenta Aron Lund, analista no think tank Century International, ao Observador. Na verdade, o próprio Presidente apenas admitiu uma vez a possibilidade de a Síria se tornar numa democracia, numa entrevista à The Economist. Mas, independentemente do destino final, o caminho imediato para a Síria estava bem traçado: “Vai promover a justiça e vai ser baseado na participação de todos os segmentos da sociedade”, prometeu na mesma entrevista.
As promessas de Sharaa sofreram esta semana o maior revés desde que Assad caiu, depois de 803 pessoas terem sido mortas em apenas cinco dias, em confrontos entre forças leais a Assad e às do novo regime. Entre os mortos contabilizados pela Rede Síria para os Direitos Humanos (SNHR), mais de metade foram mortos pelas forças de Sharaa. O Presidente interino reconheceu, em entrevista à Reuters, que os massacres terão “impacto neste percurso”, mas prometeu “retificar a situação o máximo possível”. Às palavras seguiram-se os atos: em menos de uma semana, anunciou a criação de um comité independente para investigar as mortes e, paralelamente, assinou acordos para a integração de dois grupos étnicos minoritários: os curdos e os druze.
Os analistas ouvidos pelo Observador confiam nas intenções de Sharaa de conduzir a Síria para a estabilidade política. Mas apontam que as divisões internas no país, “os ressentimentos profundos” e as “hostilidades” entre os vários grupos étnicos, assim como a economia destruída, são obstáculos que têm de ser endereçados.
[Terapia de Casal é o podcast que pode acabar com o casamento do Guilherme Fonseca e da Rita da Nova. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
A contra-ofensiva das forças de Assad e os massacres de alauitas
“Eles esconderam-se no hospital por trás da minha casa, dispararam contra a segurança pública e alguns entraram na esquadra da polícia e queimaram-na”. O relato da noite da passada quinta-feira foi feito por um habitante de Jableh, uma cidade no oeste da Síria ao The Guardian. Foi nesta região costeira do país que, na quarta-feira, as forças leais a Assad começaram uma ofensiva contra as novas forças de segurança — que, até há três meses, eram rebeldes.
Cerca de 4 mil homens desencadearam um ataque “coordenado e premeditado” contra postos de controlo das autoridades, relatou o Ministério da Defesa. Desde o início do ataque até segunda-feira, os homens de Assad mataram 172 pessoas das forças do regime e 211 civis, segundo a SNHR.
O Ministério respondeu com uma operação militar — que terminou na segunda-feira — que reuniu as forças de segurança e polícias do regime, mas também fações militares não reguladas e civis. O que começou como uma resposta aos ataques das antigas forças acabou como um ataque contra a comunidade alauita, que habita a região. Forças com ligações ao regime invadiram casas e fizeram dezenas de execuções sumárias.
Nas redes sociais multiplicaram-se imagens, confirmadas por vários meios de comunicação, de corpos enterrados em valas comuns. Multiplicou-se também a desinformação, com relatos falsos de perseguições a minorias cristãs. A SNHR adianta que 420 civis e militantes desarmados, incluindo 39 crianças, 49 mulheres e 27 trabalhadores de saúde, foram mortos por forças ligadas ao regime.
As hostilidades entre sunitas e alauitas não são novas. “O novo regime é liderado por islamitas sunitas que tradicionalmente têm uma visão muito hostil dos alauitas por razões religiosas”, explica Aron Lund ao Observador. No caso da Síria, soma-se outro motivo: os Assad eram alauitas e esta comunidade ocupou os cargos de topo do regime. “Os alauitas estão numa situação muito difícil e perigosa, porque muitos sírios associam-nos ao antigo regime”, acrescenta o especialista na Síria.
Nos últimos três meses, este ressentimento contra os alauitas já tinha resultado em “pequenos surtos de ‘justiceiros’ aleatórios“, como resume o analista do Washington Institute, Aaron Zelin. Mas este foi o primeiro ataque em massa. Mais: foi levado a cabo por forças do novo regime.
▲ As Forças Armadas da Síria desencadearam uma operação militar que terminou com execuções sumárias
BILAL AL HAMMOUD/EPA
Ahmed al-Sharaa condenou imediatamente os massacres, num discurso no domingo e novamente na entrevista à Reuters. “Vamos responsabilizar quem esteja envolvido no derramamento de sangue de civis, ultrapasse a autoridade do Estado ou explore o poder para proveito pessoal. Ninguém estará acima da lei”, declarou o chefe de Estado. Imagens partilhadas pelo think tank Crisis Group mostram que uma parte das forças do regime está do lado de Sharaa, ao criar um perímetro de segurança em volta de algumas comunidades alauitas.
Os especialistas consideram que os ataques foram uma “rutura na cadeia de comando”. Porém, mesmo que os ataques não tenham sido ordenados pelo governo, recai sobre ele a responsabilidade. Por um lado, Sharaa deve acelerar a implementação das suas promessas de unificação. Por outro lado, deve restaurar o controlo sobre os seus militantes, tal como fez durante os anos de combates na guerra civil.
A liderança de Sharaa: do comando do HTS às promessas aos alauitas
“O palácio cavernoso, com seis vezes o tamanho da Casa Branca, estava vazio”. A descrição é feita pela The Economist, sobre quando entrevistou Sharaa em Damasco, no mês passado. Uma dúzia de palavras que escondem um significado muito maior — a falta de confiança do Presidente interino naqueles que o rodeiam. “A sua liderança é microgerida, sem delegação, sem confiança”, retratou um diplomata europeu à revista.
O modelo é herdado da forma como liderou o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), o grupo que formou em 2017, depois de separar o Al-Nusra da Al-Qaeda. A sua aura de mistério manteve-se, as suas aparições públicas eram cuidadosamente escolhidas e a comunicação diária era feita pelos membros do seu círculo interno — que agora ocupam as posições do governo interino em Damasco e são as únicas pessoas no “palácio cavernoso”.
▲ O HTS manteve um reduto em Idlib antes de avançar para sul, tomar Alepo e Damasco
KARAM AL-MASRI/EPA
Apesar de ser menor que outros grupos islamitas extremistas, o HTS era conhecido por ser muito disciplinado: não aceitava subornos e era um dos poucos grupos com quem as Nações Unidas negociavam — “Confiávamos no ‘sim’ deles”, justificou um funcionário da ONU ao The Economist. Foi assim que Sharaa governou Idlib, um reduto montanhoso no noroeste da Síria, a partir de onde planeou a ofensiva contra Damasco.
Mas o governo do HTS em Idlib esteve longe de ser democrático. A minoria alauita da cidade foi expulsa e outro funcionário da ONU relata os abusos dos militantes do HTS contra os camionistas desta comunidade que passavam nos postos de controlo na cidade: “Cortavam-lhes os dedos das mãos e dos pés e mandavam-nos voltar para onde tinham vindo”.
Porém, a hostilidade contra os alauitas não pontuou toda a vida do líder sírio. Regressando ao bairro de Mezzeh, onde Sharaa passou a sua juventude, os vizinhos lembram um jovem sunita muito devoto, mas que frequentou uma escola com outros sunitas, alauitas e cristãos. Foi aqui que conheceu Khaled al-Ahmed, um jovem alauita, que viria a receber anos mais tarde em Idlib, e que o ajudou a planear a tomada de poder em Damasco.
Quando a ofensiva foi bem-sucedida, vestiu uma nova roupa: a de um homem diplomático que condena massacres e promete integração. As mudanças de roupa também são literais, tal como o próprio fez questão de assinalar na entrevista com o The Economist: “Não comentou a minha roupa…”, disse a brincar ao jornalista, apontando para o traje descontraído que escolhera nesse dia para falar a um dos media ocidentais pela primeira vez.
Mas a facilidade com que muda a sua postura leva antigos aliados a questionarem-se sobre a profundidade da sua devoção. “Ele não é um islamita. A religião é só uma ferramenta. Ele venderia o país a Satanás se lhe desse poder”, criticou um comandante rebelde que o conheceu no Iraque, na guerra contra as forças norte-americanas.
Ferramenta ou não, o seu sucesso em comandar o HTS parece ter-se esgotado com o envolvimento de antigos membros deste grupo nos massacres dos últimos dias. Sharaa tem de encontrar agora uma nova roupa que lhe permita manter as promessas aos alauitas e recuperar o controlo sobre os rebeldes que comandou, sem que estes se virem contra ele. Esta possibilidade bem real explica porque prefere manter o palácio presidencial vazio e o seu círculo de confiança apertado.
Os novos comités, um acordo histórico com os curdos e a “esperança”
Em maio de 2003, quando os Estados Unidos assumiram controlo de uma grande parte do Iraque depois de terem invadido o país, Washington anunciou o despedimento de 400 mil funcionários do governo e das Forças Armadas de Sadam Hussein. O objetivo era proceder à “limpeza” da ideologia de Hussein nos organismos iraquianos.
Passados 22 anos, o novo regime sírio de Sharaa utilizou o mesmo modelo depois de ter derrubado Bashar al-Assad. “Estamos a ver ecos dos erros do Iraque com o despedimento de centenas funcionários do governo estatal que são, na sua maioria, alauitas. Isto contribui em parte para ressentimentos profundos, instabilidade e incerteza”, considera Rahaf Aldoughli, professora de Estudos do Médio Oriente na Universidade de Lancaster, ao Observador.
Aos despedimentos, somaram-se despejos de famílias alauitas de bairros de habitação pública para alojar os novos funcionários — os rebeldes do HTS. Quando Sharaa anunciou o seu governo interino e um comité para trabalhar numa nova Constituição, nenhum alauita figurou na lista.
“A liderança de Sharaa deu a entender que os alauitas serão autorizados a viver na Síria e serão tratados como cidadãos, mas é claro que o que importa é a implementação dessas promessas”, ressalva Aron Lund. Apromessa foi cumprida pela primeira vez este domingo, quando o Presidente anunciou a criação de um comité independente para investigar as mortes.
Das sete pessoas nomeadas para este comité, nenhuma tem ligações conhecidas ao HTS ou a outras fações aliadas — a primeira vez que tal acontece num órgão criado por Sharaa. Além disso, inclui, também pela primeira vez, membros alauitas, avança a Reuters. O comité terá 30 dias para identificar os responsáveis pelas execuções de ambos os lados e responsabilizá-los pelos seus crimes.
Foi ainda anunciado um segundo comité, que funcionará como ligação entre as diferentes minorias e o governo, para garantir que todas têm representação no palácio presidencial e “preservar a reconciliação e a paz civil, porque sangue só pede mais sangue”.
O desejo do líder sírio de acabar com “a sede de vingança” não se esgotou na comunidade alauita. Na segunda-feira, Sharaa assinou um acordo histórico com Mazloum Abdi, líder das Forças Democráticas Sírias (SDF), a coligação de forças rebeldes curdas, que contam com o apoio dos Estados Unidos. O acordo prevê que as SDF sejam incluídas no Exército sírio, pondo fim aos confrontos entre as diferentes fações rebeldes que combateram durante mais de uma década de guerra civil, mas deixa algumas questões por responder.
▲ As SDF foram uma das muitas fações que combateu na guerra civil Síria. Eram apoiados pelos EUA
AHMED MARDNLI/EPA
“O acordo tem uma natureza simbólica uma vez que não enumera de forma exaustiva como se processará a integração das SDF no Ministério da Defesa. Por exemplo, as SDF têm recrutamentos obrigatórios, como é que isso vai ser alterado?”, ressalva a professora Aldoughli, que estuda atualmente as motivações e experiências dos militantes sírios das diferentes fações.
No dia seguinte a este acordo, Sharaa deslocou-se a outra região, Suwayda, casa da minoria étnica druze. Em cima da mesa terá sido posta em cima da mesa uma proposta semelhante, sublinha Rahaf Aldoughli. A possibilidade de um acordo com os druze foi anunciada por vários ativistas e jornalistas sírios nas redes sociais, ainda que não tenha sido confirmada de forma oficial.
Os dois comités e os dois acordos podem ser formas meramente simbólicas de incluir as minorias étnicas na nova Síria que uma maioria sunita está a construir. Ainda assim, os dois especialistas ouvidos pelo Observador utilizam a mesma palavra para os descrever: “Esperança“. “Isto é bom para garantir a estabilidade e um cessar-fogo. [E] é importante, pelo menos para conter os estilhaços”, remata a professora Aldoughli.
Desafios a longo prazo. A Constituição sob a Lei Islâmica e os problemas económicos
Ao longo de três meses de trabalho, Ahmed al-Sharaa visitou aliados regionais, prometeu a inclusão das minorias e previu eleições no futuro próximo. No meio de toda esta diplomacia, nunca se comprometeu com um conceito: o de democracia. Rahaf Aldoughli e Aron Lund procuram separar as águas e explicam que Sharaa está focado na estabilização social e económica de um país que ainda ultrapassa uma guerra civil. “A democracia é um processo totalmente diferente”, atira Aldoughli.
Pressionado diretamente com essa possibilidade na entrevista com a The Economist, Sharaa cedeu: “Na nossa região, há muitas definições de democracia. Se a democracia significa que as pessoas decidem quem as governa e quem as representa no Parlamento, então, sim, a Síria está a ir nessa direção”. Em muitos outros conceitos — a aplicação da lei islâmica, a inclusão das mulheres, o multipartidarismo — o Presidente adiou as respostas para o poder judicial e para a nova Constituição, que está a ser desenhada.
O primeiro rascunho da nova Constituição terá 48 artigos e é apresentado a Ahmed al-Sharaa esta quarta-feira, avançou a Al Jazeera na manhã do mesmo dia. O documento assenta no conceito de “justiça de transição” e na necessidade de criminalizar as “violações cometidas pelo anterior regime”, relataram fontes com conhecimento do documento ao canal qatari.
Ao contrário de uma democracia ocidental — e do que estava consagrado pelo regime de Assad –, a nova Síria não será um Estado laico, já que a Constituição prevê que a Lei Islâmica seja a base de toda a jurisprudência. Além disso, prevê ainda que as armas estejam apenas sob posse do Estado, que tem a missão de “proteger a pátria e manter a paz civil”. O texto constitucional prevê ainda que a Síria se mantenha um sistema presidencial, mas deixe de ter a figura do primeiro-ministro.
Já o período de transição deverá ter entre três e cinco anos, tal como Sharaa já prometeu por mais que uma vez. A aplicação da Lei Islâmica no país e a centralização do poder do Estado poderá ser um problema político para as minorias étnicas que se veem assim excluídas. Contudo, os problemas económicos são muito mais imediatos para a Síria.
▲ O rascunho da Constituição prevê um Estado baseado na Lei Islâmica
HASAN BELAL/EPA
O país enfrenta simultaneamente a devastação de uma guerra civil e de sanções internacionais e a economia está em colapso — por exemplo, só há eletricidade uma hora por dia. Com soluções em curso para a pacificação do país, Sharaa procura endereçar a questão das sanções. Inevitavelmente, a atenção dirige-se para o principal jogador da ordem internacional: os Estados Unidos.
O novo regime já se mostrou disponível para dialogar com Washington, mas, até agora, não houve qualquer contacto direto. Quando questionado sobre este silêncio, o líder sírio recusa ser o responsável. “O ficheiro sírio não está na lista da prioridades dos EUA. Devia perguntar-lhes esta questão a eles. A porta da Síria está aberta“, declarou. A União Europeia já tinha levantado alguma sanções, mas os massacres desta semana fizeram soar alertas sobre se o país está suficientemente estabilizado.
Os especialistas notam que “ainda é cedo” para tirar conclusões finais e declarar o fim da guerra civil, já que o novo regime não controla todo o território da Síria. Mas destacam que as medidas mais imediatas de unificação devem ser a prioridade. “Ahmed al-Sharaa não está a conduzir a Síria a uma democracia. Esperemos que esteja a conduzir a Síria a uma ordem mais estável e menos sangrenta e que não seja demasiado opressiva. Mas isso ainda está para ver”, remata Aron Lund.