Em entrevista ao Observador, o vice de Rui Moreira e candidato à Câmara Municipal do Porto defende as vantagens da sua candidatura — “livre, independente e experiente” — por oposição aos problemas que vê nas candidaturas de PS e PSD, onde encontra propostas “despesistas”, que só servem para discurso de campanha, que “hipotecam a vida dos portuenses” e respondem aos “diretórios partidários que pululam em Lisboa”.
Ainda assim, parece ver um problema ainda mais grave na candidatura de Pedro Duarte, que ao lado de Luís Montenegro tentou convidá-lo a integrar as suas listas: um problema de “caráter”, dispara, acusando o candidato de PSD, IL e CDS de mentir sobre os convites que fez, além de “copiar propostas” suas e de assustar a população com o discurso sobre segurança — “é inadmissível, desconhece o que se passa na cidade”.
Nesta entrevista, Araújo defende que é o único verdadeiro herdeiro do legado moreirista, lembrando que Rui Moreira fez frente a uma Associação Nacional de Municípios que é “caixa de ressonância do Governo” — mesmo que Araújo não conte com o apoio do atual autarca — e explora as suas soluções para agravar o IMI de mais devolutos, disponibilizar casas para a classe média ou criar um pelouro para a integração dos imigrantes na cidade.
“PSD copia-nos, mas portuenses preferem o original”
Tem havido uma discussão sobre as visões dos candidatos para um Porto pequeno contra um Porto grande — um Porto com mais construção, com construção mais densa, ou em alternativa um Porto que, como dizia Pedro Duarte, podia ser uma aldeia grande. Onde é que se posiciona neste debate?
Quando vemos o Porto considerado como uma aldeia estamos a brincar com a grande cidade que temos, o Porto moderno, cosmopolita, que ao longo destes últimos anos soube crescer. O Porto inverteu a tendência de perda de população. Está com 253 mil habitantes e sempre tem vindo a aumentar, o que é bom: significa que temos esta capacidade de ter uma cidade com dinâmica, uma cidade do conhecimento. Temos cerca de 80 mil alunos do ensino superior, e uma cidade a crescer dá oportunidades a estes jovens de cá continuarem. Mas é uma cidade que tem também atraído muito investimento estrangeiro; muitas novas empresas foram criadas, aqui por portugueses, e cresceram, outras fixaram-se atraindo milhares de postos de trabalho. Portanto, entre uma cidade parada, do antigamente, acho que os portuenses preferem uma cidade com qualidade de vida, mas a crescer, que lhes dá oportunidades, cultura, dinâmica, condições para progredirem na vida.
A pergunta é precisamente se essa bandeira da qualidade de vida não tem isso em comum com a tal ideia de Porto mais pequeno, com menos gente a entrar na cidade, com menos confusão e, citando a outra candidatura, com menos betão.
De todo. A maioria das cidades que hoje olha para a qualidade de vida percebe bem que é preciso ter gente próxima. Precisamos de ter pessoas a habitar para que depois não percam tempo a andar, a deslocar-se e a entrar e sair da cidade. No Plano Diretor Municipal 2021 já preconizávamos essa cidade. Uma cidade que tem na sua essência a carta da estrutura ecológica, define bem quais são as áreas verdes, quais são as áreas azuis, e depois, a partir daí, desenvolver a cidade no edificado, as suas ruas. Ouvimos falar das cidades dos 15 minutos, que têm os seus trabalhos próximos à zona de restauração, onde poder fazer compras, onde ir a farmácia, etc. A densidade é sinónimo de qualidade de vida em muitos sítios. Hoje ouvimos falar de densidade e se calhar às vezes associamos a um tema pejorativo, não é? Pelo contrário. Todos percebemos que se tivermos capacidade de libertar espaço para jardins e para parques essa é uma boa medida, tendo que as pessoas vivam aqui e não andem de carro de um lado para o outro.
▲ Filipe Araújo é vice de Rui Moreira e candidato à Câmara Municipal do Porto.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Temos ouvido tantas promessas sobre Habitação e Filipe Araújo tem sempre surgido como um candidato que prioriza as contas certas e que acusa, aliás, outros candidatos de terem propostas muito despesistas. Não tem medo de que a sua proposta seja vista como austera, tendo em conta os problemas que as pessoas sentem na pele em dossiês como a Habitação?
Não. O problema da habitação é global. Quem vier para estas eleições, como tenho visto, com promessas de que vai resolver o problema da habitação obviamente irá falhar, porque é um problema muito mais extenso. Temos é de ajudar a que haja mais oportunidades, acima de tudo para a classe média. O Porto tem 13% da sua população a viver em habitação social. Damos uma boa resposta, 300 a 400 casas por ano que são atribuídas, com uma renda média à volta de 70 euros. É importante nos próximos anos aumentar o parque de habitação acessível do lado do município e estimular os privados a virem a jogo. Temo-lo feito com sucesso em alguns programas, nomeadamente o Porto com Sentido — hoje têm cerca quase 300 habitações de privados que alugam à câmara e nós subalugamos em renda acessível. Queremos aumentar e continuar a explorar isso, e vamos criar uma task force para tratar dessa ligação com os privados. Iniciámos dois projetos pioneiros do build to rent, com mais de 350 habitações, e iremos explorar mais. Teremos a parte das cooperativas e habitações partilhadas para idosos. O que vejo em relação aos partidos, nomeadamente ao PSD, é uma cópia dos nossos programas, dizendo que os nossos estão bem feitos. Então, se são bem feitos, os portuenses preferem claramente o original, que tem 12 anos de experiência, a uma cópia sem experiência alguma.
Se a Habitação é uma das maiores preocupações dos portuenses e se esteve, como dizia agora mesmo, no atual executivo durante 12 anos, oito deles como vice, não é uma falha que também pode ser atribuída a si?
Não, de todo. Se há algo que nos distingue é que estivemos sempre a trabalhar em prol dos portuenses e não estivemos preocupados com eleições legislativas e com outras tricas partidárias. Há muito tempo que criámos o Porto Solidário, um programa de complemento a rendas. Já apoiámos mais de 7000 famílias.
Nesta altura continua a haver, ainda assim, uma preocupação muito grande sentida sobre a habitação, também na classe média.
Sem dúvida, mas fomos precursores. Fomos sempre criando novos programas: o Porto Solidário, o Porto com Sentido, os programas de build to rent, mesmo as próprias cooperativas — acabamos de atribuir um terreno à cooperativa em Campanhã. Nunca deixámos de utilizar os mecanismos que temos à mão. Agora temos cerca de 1400 casas programadas, já com projeto ou até concurso lançados para os próximos anos. Podemos ir até às duas mil nos próximos quatro anos. Não andamos a colar cartazes e a fazer promessas irrealistas, numa fantasia despesista, como acontece com o PS, que faz promessas que hipotecam a vida dos portuenses para os próximos quase 30 anos. Vamos ter sete presidentes de câmara a pagar aquilo que este candidato quer fazer na cidade. Isto é absolutamente inadmissível, e não nos podemos esquecer que somos uma cidade de contas certas. O movimento independente trouxe essa liberdade — já vinham de trás, mas não abdicámos e melhorámos. Aí sim, se joga o futuro do Porto. No momento em que ficarmos a pedir dinheiro, o Porto perde toda a independência e quem passa a mandar no Porto é Lisboa. Isto é absolutamente inadmissível e é isso que tenho visto, quer do PSD quer do PS.
Fala também em estimular a colocação de fogos no mercado e de devolutos através do agravamento fiscal. Em termos concretos, está a falar num agravamento do IMI? Ou uma aplicação mais alargada do que já existe?
Temos devolutos há muitos anos e importa saber como é que estimulamos que voltem ao mercado. Temos hoje um agravamento do IMI que é aplicado no município do Porto, que pode ir até oito vezes o imposto. Mas há um problema ao aplicar esse agravamento. Em 2022 e 2023, conseguimos cerca de 200 a 300 imóveis pagassem esse IMI — o resto não pagou, porque na lei existem coisas tão absurdas como isto: qualquer pessoa pode dizer que não paga luz nem água daquele fogo, mas que vai lá de vez em quando ler um livro à luz de velas.
É preciso, nesse sentido, pressionar para que a lei seja mais apertada no que é considerado um devoluto.
A lei tem daquelas coisas que permitem toda a gente fugir ao agravamento. Nós aprovámos a Carta Municipal de Habitação, que permite agravar o IMI até 15 vezes mais. Portanto, há dois temas: devolutos e aqueles que são degradados. Nós, nos degradados, agravamos 30% do IMI e queremos também agravar mais. Mas os degradados têm uma diferença: há uma regra clara do LNEC que identifica o que é um degradado. Aí conseguimos aplicar, en todos os outros não conseguimos. A lei foi alterada agora neste último governo, para incluir uma coisa: todos os operadores de telecomunicações de energia tem que mandar o artigo matricial. Agora, qual é o português que faz um contrato de energia ou de água em que indica o artigo matricial? Sabe quantos chegaram ao município do Porto? Não chegou nenhum, porque ninguém tem artigo matricial. A lei está feita para proteger que os devolutos se mantenham nas mesmas condições. Nós queremos trazer os devolutos. Mas quem quer enganar os portuenses a dizer que é com os devolutos que vai resolver o problema da habitação está a atirar areia para os olhos, porque isso é um tema que vai demorar tempo e depende dos privados. Temos de trabalhar em várias frentes.
“Discurso de Pedro Duarte sobre segurança é inadmissível”
Faz sentido aumentar a taxa turística, que é uma base para o financiamento de tantas promessas nesta campanha?
É um absurdo o que tenho ouvido sobre o financiamento das propostas através da taxa turística. A taxa turística é fruto da atividade económica, ainda para mais uma atividade económica que é flutuante; depende muito da geopolítica, pode vir uma pandemia… Fazer crer aos portugueses que é a taxa turística que lhes vai pagar a gratuitidade dos transportes, as casas que querem construir… Desculpem, mas acho isso um absurdo e um perigo. A taxa turística não pode servir para pagar a despesa corrente e já ouvi várias propostas nesse sentido. É preciso que os portuenses percebam que temos candidatos do PS e do PSD a referir que vão utilizar a taxa turística para coisas com que é preciso ter cuidado. Sempre fomos muito cautelosos na forma como gerimos a câmara. Fizemos investimentos recorde ao longo dos últimos anos e quero continuar, mas nunca pondo em causa a independência do município.
Sente que a criminalidade é um ponto central de preocupação no Porto? Pedro Duarte tem sido um dos candidatos mais vocais sobre isto. Tem prometido ser implacável, tem dito que há idosos com medo de sair à rua, mulheres com medo de andar de transportes. Sei que tem várias medidas no seu manifesto, como um reforço de agentes da PSP e um combate forte e musculado ao tráfico de droga, mas não sei se o diagnóstico é o mesmo.
Não sei o que é que o Pedro Duarte quer com esse tipo de discurso. Isso é amedrontar os portuenses. Acho inadmissível um candidato à Câmara Municipal do Porto fazer esse tipo de discurso quando quer ser presidente. É uma pessoa que desconhece aquilo que se passa na cidade. Primeiro, os dados da criminalidade são claros.
Pedro Duarte tem dito que desconfia desses dados. Ainda esta esta semana dizia que para interpretar os dados é preciso que eles sejam fidedignos, porque nem todos os casos são reportados.
Vindas de um ex-ministro do Governo da República, essas declarações são inadmissíveis. Isso é uma desconfiança sobre todo o sistema, sobre a polícia de Segurança Pública, sobre as polícias de investigação criminal, sobre a Procuradoria Geral, isso não lhe fica nada bem. Sabemos perfeitamente que há uma criminalidade estável na cidade do Porto, até tem diminuído nos últimos anos. A cidade do Porto é segura, mas sabemos que existe a pequena criminalidade, motivada essencialmente por fenómenos de toxicodependência. Acho que é a isso que ele se refere, e temos de saber distinguir as coisas. Um presidente da Câmara do Porto tem de falar verdade. A criminalidade é praticada por toxicodependentes que têm um Ministério da Saúde, em sucessivos governos, completamente ausente: a primeira consulta de comportamentos aditivos demora mais de um ano. E é disto que, obviamente, a população também está farta. E eu concordo. Atribua-se as responsabilidades a quem esteve no governo durante estes anos, inclusive se foram ministros que são candidatos à Câmara e que nada fizeram pelo Porto para resolver estes problemas. Pedro Duarte fez parte de um governo que decidiu tirar, ainda há meses, mais polícias da Polícia de Segurança Pública e pô-los no novo SEF. Os polícias estão a diminuir por total inabilidade de sucessivos governos em tornar a profissão atrativa.
Mas também é importante saber se não é a falta de peso político e de influência da Câmara junto do governo central. E já agora, se um candidato como Pedro Duarte, que é um ex-ministro dos governos Luís Montenegro, não teria mais peso do que Filipe Araújo nessas negociações.
O que se tem revelado é que peso não tem nenhum, porque as propostas são todas absolutamente demagógicas em relação a esses sítios; é criar medo na população e depois ter uma mão cheia de nada, porque na realidade temos de formar mais polícias para que venham para a PSP e depois para a Polícia Municipal. Há anos que os governos do PS e do PSD prometem 100 polícias. Nós já temos os carros, já temos as fardas, porque quando nos foram prometidos, nós achávamos que eles vinham. Até hoje, nada. Como presidente da Câmara, irei continuar a dotar a polícia de todos os meios, investir em videovigilância — temos mais de 120 câmaras e estaremos com 200 nos próximos meses. Quando falamos de segurança temos de dizer que é preciso mais polícias e esses devem vir da Administração Interna. E vou trabalhar nas minhas competências: ter mais fiscais que ajudem a Polícia Municipal a estar mais no terreno — esses fiscais vão estar a tratar do estacionamento em segunda fila, do estacionamento e nas passadeiras, etc. E para a fiscalização é criar um corpo de guardas noturnos, porque precisamos também de proximidade.
“ANMP é caixa de ressonância de partidos que dominam a democracia”
Falámos aqui da candidatura de Pedro Duarte, que na apresentação do programa dizia que tem faltado uma voz de liderança nacional do Porto. Vê essa menorização do Porto nos últimos anos?
Percebo esse tipo de discurso, mas é claramente um discurso de autárquicas e não corresponde à verdade. O município do Porto tem liderado vários temas. Lembro-me do tema da descentralização, onde claramente houve um arranjo entre o PSD e o PS. O presidente de Câmara foi uma voz muito ativa, até motivou a saída da Associação Nacional de Municípios, que é, ao fim e ao cabo, uma caixa de ressonância do governo. Sempre foi entre os dois partidos, o PS e o PSD, que dominam a democracia. Como independentes, conseguimos dialogar com qualquer governo. O que acontece neste país é que as pessoas só dialogam com pessoas do seu próprio partido. Não temos esse problema. Por isso é que conseguimos fazer acordos com o governo Passos Coelho, com António Costa. Os portuenses lembram-se perfeitamente do que foram esses 12 anos de progresso da cidade. O Porto hoje é considerado a nível nacional e a nível internacional, onde antes não estava sequer no mapa.
Promete criar um pelouro da integração, que se ocupará de forma transversal com todas as áreas relacionadas com a integração de imigrantes. Que problemas é que tem detetado nesta área? Como é que se vai materializar a ação deste pelouro?
Há dois eixos que queremos trabalhar: um da integração e outro que tem a ver com a fiscalização das atividades ilegais. O primeiro eixo da integração é extremamente importante porque, se não agirmos agora, daqui a dez anos estaremos a conviver com problemas que nós já vimos noutras cidades. Temos de tratar todas as pessoas com dignidade. Estamos a falar de imigrantes qualificados e imigrantes não qualificados. E dignidade é criar oportunidades, dotar as escolas, por exemplo, de mais professores de português. Sabemos que até nos próprios centros de saúde aparece muita gente que fala muitas línguas e temos de ajudá-los a fazer essa transposição. Daí a língua ser tão importante, porque também é importante tudo o que tem a ver com rastreios, vacinação, literacia de saúde. Na parte da fiscalização temos de ser implacáveis com coisas que achava que estavam desaparecidas, como a sobrelotação dos dos espaços e as lojas de fachada — já pedimos várias vezes que acabasse a lei do Licenciamento zero, que fosse alterada, que não permitisse que qualquer pessoa abra qualquer loja em qualquer sítio. Temos uma proliferação de lojas de souvenirs e de bugigangas que sabemos que não são para vender. Isso é algo que irei trabalhar nos próximos tempos, fiscalizar tudo o que sejam atividades ilegais e de fachada que estão a subsistir à custa de tráfico humano e de outros problemas. A criminalidade não está associada à imigração. Temos é de tratar as pessoas com dignidade, acolhê-las. E obviamente tivemos um problema, que foi o PS e a política de porta escancarada de António Costa.
▲ Araújo fotografado no jardim do Marquês, no centro do Porto.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Pedro Duarte apontou para si, como responsável do pelouro do Ambiente, na questão da segunda fase do Metrobus. Acusou-o de não ter feito nada, de não ter posto o pé na porta e de ter outras prioridades que o teriam distraído do fim do travão que deveria ter colocado a este projecto. Nesta segunda fase a Câmara não fez tudo o que podia?
Pedro Duarte tem nesta campanha feito algo que é revelador do seu caráter, e os portuenses devem saber avaliar, porque estamos a falar do presidente da Câmara do Porto — para mim, o cargo mais importante a nível nacional. Quando alguém tem estas falhas de caráter — e ele deturpou várias vezes a verdade, seja nos convites, dizendo que não me tinha sido feito um convite para número dois, seja ainda há bem pouco tempo, falando de um projeto de Genebra de transportes públicos que não era verdade… Estamos perante um candidato que é capaz de afirmações à medida do que lhe é mais favorável, naquilo que pode ser o soundbite da campanha. É absolutamente inadmissível. Em relação ao projeto da segunda fase do Metrobus, vamos ter no final mais de 114 árvores na Avenida da Boavista. Se fosse pela Metro, nos projetos da linha rosa ou até da linha rubi, tinha arrasado com as árvores o Jardim do Carregal. Defendi que não poderiam tocar naquelas árvores centenárias e a Metro chegou a alterar o método construtivo. Se hoje há árvores no jardim do Carregal devem-se a mim e à luta que fiz; se há árvores na Rotunda da Boavista, deve-se a mim, ao presidente da Câmara. No Parque da Cidade, Pedro Duarte tentou dar a imagem de que foi uma petição que resolveu — ele era conhecedor, quando lançou a petição, de que muito antes o município do Porto e eu próprio tinha solicitado que aquela parte não fosse tocada. Portanto, é neste nível de caráter que estamos com um candidato à Câmara do Porto.
“Tudo está a ser feito para criar facto com Metrobus antes das eleições”
A próxima administração da Metro já tomou posse esta semana, será liderada por Emídio Gomes. Pedro Duarte adiantou que tem falado muito com ele e que a partir da tomada de posse a conversa será diferente, tendo classificado a atual administração como socialista. Que interferências partidárias são estas na gestão da empresa? Cada administração depende disso?
É mais grave do que isso. É a forma como os partidos conduzem o país. O que os preocupa é, na gestão destas empresas, colocar pessoas dos partidos e não gestores eficientes. Quero acreditar que a gestão deve ser feita por pessoas idóneas e que tomam as melhores decisões. Quando ouço o Pedro Duarte e mesmo o novo presidente da Metro a falar, a pôr em causa o projeto do metro, obras que o próprio ministro tem pedido para andar… Há qualquer coisa que não está bem. A partir de dia 12 de Outubro [dia das eleições], se calhar tudo vai ser um mar de rosas. Até lá vão fazer o que têm feito ao longo deste último ano e meio, que é tornar o Metrobus uma questão política. E os portuenses, que sabem que o presidente da Metro disse que os autocarros já tinham chegado há meses e não os vêem a andar, conseguem tirar as suas ilações, com estas declarações e estas nomeações de presidentes da Metro que ocorrem a poucos dias das eleições, quando poderiam ter ocorrido há muito mais tempo. Tudo está a ser feito para criar um facto que possa influenciar as eleições. Nós somos livres, apartidários, não temos diretórios partidos que mandam em nós e essa se calhar é a grande diferença. É o que está em jogo no dia 12 de Outubro.
Não tem medo, quando faz essas afirmações sobre partidos e sobre os interesses dos diretórios partidários, que a sua conversa também tenha a sua dose de populismo? Em democracia os partidos são importantes.
Os partidos são importantes e têm vindo a desvirtuar aquilo que são as suas essências. Aliás, basta olhar para algumas propostas do PSD para estas eleições autárquicas. E não têm nada de social democracia, é para dar tudo a todos. Não consigo sequer perceber como é que a IL apoia uma candidatura que faz este tipo de afirmações. Temos do lado do PS a mesma coisa e ninguém se identifica com isso. Os partidos são necessários, mas nestes 50 anos de democracia foram perdendo a sua força e a sua génese, e foram-se tornando muito mais dominados por interesses e pelos tais diretórios partidários que normalmente pululam em Lisboa e que comandam. Faz falta a luta ideológica na Assembleia da República, é obviamente necessária. Mas quando falamos de autárquicas, os movimentos independentes têm sido uma lufada de ar fresco, porque representam de forma muito clara o que a população quer.
“Percebo que se queiram colar a Rui Moreira e à nossa gestão”
Se PS ou PSD vencerem estas eleições é visto como um candidato que poderia ajudar um dos lados a formar maiorias. Está disponível para isso ou preferia, sendo eleito vereador, ir decidindo conforme as propostas?
Sou candidato a presidente da Câmara do Porto. Temos uma equipa e propostas muito boas que os portuenses certamente saberão valorizar. Uma equipa que não vem dos aparelhos nem nem apenas do setor público, traz pessoas da sociedade civil e com muita capacidade. Depois saberei tirar as devidas ilações sobre os resultados e assumir as responsabilidades que daí vierem, porque os portuenses vão também dizer aquilo que querem que seja o futuro da cidade.
Já foi colega de executivo de Manuel Pizarro. Acha que podiam voltar a trabalhar bem juntos?
O meu grande foco é executar o manifesto e seguir os princípios e os valores que tenho. Sendo presidente da Câmara seguirei aquilo que propus e que proponho aos portuenses para os próximos quatro anos, assegurando também os princípios e valores dos quais eu não abdico, que é a tal liberdade, a independência, o que nos caracterizou nestes doze anos. Todos aqueles que se identificarem com as propostas do manifesto e com esses princípios poderão ser uma ajuda naquilo que é a governação da cidade. Sempre que negociámos um orçamento, falámos com todos os partidos. E acolhemos muitas propostas ao longo destes 12 anos. Fazemos política de maneira absolutamente diferente dos partidos.
Perguntava-lhe sobre Manuel Pizarro porque também tem parecido um bocadinho mais distante do PSD em vários pontos. Há um partido com quem seja mais fácil chegar a um alinhamento?
Não. O que vejo hoje, quer do PS quer do PSD, é um conjunto de promessas. Procuram ter mais um número, dizer que ganharam a Câmara do Porto no dia 12 de Outubro; prometem tudo a todos, num desnorte completo, o que leva a pôr o futuro da cidade em causa. E isso não se pode permitir, não me identifico. A questão da construção das 5000 casas, da gratuitidade dos transportes, da gratuitidade das refeições escolares; tudo uma série de iniciativas do PS onde as contas estão mal feitas e põem em causa o futuro da cidade. Temos de olhar e dizer claramente que há propostas que são feitas apenas para campanha eleitoral. O meu manifesto eleitoral é um manifesto de compromissos, de algo que é mensurável, concreto e que se pode ser executado nos próximos quatro anos.
Já referiu aqui, quando falava do caráter de Pedro Duarte, a questão de ter sido convidado por ele para ser número dois — Pedro Duarte desmentiu esse convite. Pode esclarecer aqui exatamente o que é que aconteceu? O convite foi feito por outra pessoa? Pedro Duarte chegou a dizer, numa entrevista ao Observador, que fez tudo o que era razoável para poder contar consigo.
Acho que já respondeu à pergunta. Acabou de me dar a resposta. O Observador noticiou uma reunião tida a 30 de dezembro, se não me engano, às 11h30, num hotel conhecido em Espinho. E, portanto, aquilo que eu disse e reafirmo é que essa reunião teve Pedro Duarte lá. E teve também o líder do PSD, e portanto é isto que interessa os portuenses saberem. As pessoas podem fugir às perguntas, não podem é mentir aos portuenses, porque isso é que os portuenses não podem admitir.
Tem dito que sente o apoio de Rui Moreira intimamente. O que é que isso quer dizer? Pediu-lhe esse apoio, dado que é seu vice e seria talvez natural contar com ele?
Rui Moreira tomará as suas decisões e acho que essa questão é sempre colocada ao Rui Moreira. Trabalhamos há 12 anos juntos. Eu tive a honra de ser também convidado em 2013 para integrar o movimento independente e Rui Moreira escolheu-me para vice nos últimos oito anos. Isto diz muito.
Mas compreende esta decisão de não se posicionar politicamente, quando poderia ajudar a sua candidatura se o fizesse?
É uma questão que tem que ser colocada a ele. Não serei eu a responder por ele Agora, intimamente sempre senti o apoio dele. O que me move é continuar o projeto destes 12 anos e acreditar que há um sentimento sobre a necessidade dos movimentos independentes, quer pelo legado, por aquilo que fizeram, por aquilo que deixamos na cidade, quer pelo futuro que temos.
Sei que me vai dizer que a sondagem que interessa é a de 12 de Outubro, mas com a última sondagem que saiu colocava em causa a sua eleição. Não o preocupa este número, sendo actualmente vice da Câmara, tendo experiência de 12 anos? Não ganhou notoriedade suficiente? O que é que aconteceu?
Nós somos o movimento independente e o movimento de cidadãos; agora, no sábado, iremos percorrer a cidade de uma ponta a outra, ter a oportunidade de fazer muitos quilómetros com os portuenses, iremos estar nas sete freguesias. É uma iniciativa absolutamente sui generis e com com esta forma de estar na política que é sermos ambiciosos e levarmos as coisas para outros patamares. Não temos esta lógica dos partidos de arruadas. Gostamos de estar com as pessoas olhos nos olhos, falar com elas. Isso torna-nos diferentes. Somos cidadãos do Porto. Queremos é falar com as pessoas e queremos também explicar lhes o projeto e portanto, esse será uma iniciativa com com muita força, fora da caixa.
Tem havido aqui uma corrida ao título do candidato mais moreirista? E já agora, acha que merece esse título?
Claramente só há uma equipa que significa o percurso daquilo que foi a gestão da cidade dos 12 anos, e essa está muito relacionada com um pormenor — um pormaior, se quiser — que é a gestão livre e independente.
Mas tem havido um esforço de alguma colagem ao legado de Rui Moreira. Ou não?
Eu compreendo. Sabe porquê? Porque fizemos um bom trabalho e há uma população que reconhece esse bom trabalho, numa cidade que hoje tem uma dinâmica económica que não tinha, que tem uma dinâmica cultural, coesão social parques e jardins recuperados, que não tinha. Percebe porque é que se querem colar? Mas só houve uma capacidade de fazer isto acontecer. Foi aquele movimento que se juntou para fazer o melhor pela cidade e não ter os tais diretórios partidários. Essa é a diferença.
▲ A entrevista ao Observador foi realizada na sede de campanha do movimento.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Como é que vê é o facto de vereadores que estavam na sua equipa e na equipa de Rui Moreira não terem continuado essa jornada consigo? Não sei se tentou que continuassem Catarina Araújo e Fernando Paulo, que estão, respetivamente, nas candidaturas do PSD e do PS. Acha que não confiaram na continuidade do projeto?
Não vou responder por eles. São decisões pessoais. Um quis sair do movimento independente e ir para o PS, mas é uma pessoa que há vinte e tal anos desempenha funções autárquicas. Portanto, é a imagem que ele tem da política. A outra pessoa é do partido, do CDS, achou que deveria seguir para o PSD. O que interessa é que a maioria das pessoas que está connosco desde o início são pessoas que, mesmo sendo de partidos, acreditam que aquilo que é importante quando se discute a cidade é independência, liberdade. Se for ver as nossas listas, quer a lista de vereação, quer a lista da Assembleia Municipal, vai notar onde é que está a continuidade.
Tem falado em candidatos que usam esta candidatura como trampolim para para outros voos. Pedro Duarte não está com a cabeça no Porto?
Aquilo de que eu falo, falo por mim. A única coisa que me move é o Porto. A mim não me movem cargos nem lugares e deixei isso muito claro nestes últimos meses.
Não está interessado, por exemplo, em chegar à liderança de um partido e outros pode estar?
Os portuenses perceberam que várias vezes vieram ter comigo nestes meses. Ofereceram-me cargos ou lugares e eu não quero saber de nada disso. A única coisa que me importa é ser presidente da Câmara do Porto e conseguir continuar a servir a minha cidade como servi nestes 12 anos. Eu tenho a experiência, temos a liberdade e a independência de que os portuenses gostam e acho que é nisso que eles devem acreditar. Aqueles partidos do antigamente voltaram aos partidos do antigamente, ao preto e branco. Vivemos a televisão a cores e com qualidade. É nisso que devemos pensar quando estivemos a pôr a cruz no boletim de voto no dia 12 de Outubro.