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Financiar a inovação para melhorar a saúde

Melhorar a eficiência e sustentabilidade do SNS requer capital, estrutura e foco em impacto. Conheça o caso de sucesso da Dioscope, que com a ajuda da Fundação Ageas está a mudar a saúde em Portugal.

Nos últimos anos, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem enfrentado desafios significativos que colocam em causa a sua sustentabilidade e capacidade de resposta. O aumento da procura por cuidados médicos tem levado a um crescimento contínuo da despesa em saúde, evidenciando as fragilidades financeiras do SNS.

Em simultâneo, a capacidade de resposta e a acessibilidade aos cuidados de saúde têm vindo a deteriorar-se, refletindo-se na falta de médicos de família, no encerramento de serviços de urgência e no aumento dos tempos de espera para consultas e tratamentos.

A pressão acrescida sobre o SNS tem repercussões diretas nos profissionais de saúde, que enfrentam cargas de trabalho cada vez mais elevadas para responder a uma procura crescente com recursos limitados. Esta sobrecarga tem contribuído para níveis preocupantes de burnout e depressão grave, afetando o bem-estar dos profissionais e comprometendo a eficiência e qualidade dos cuidados prestados.

Neste contexto, torna-se fundamental identificar estratégias e adotar novas formas de investimento em soluções que promovam maior eficiência operacional, reduzam a sobrecarga dos profissionais e reforcem a qualidade, acessibilidade e sustentabilidade do SNS.

Para dar resposta a estas questões, a Fundação Ageas criou o eixo de investimento de impacto, que utiliza instrumentos financeiros híbridos para financiar o crescimento de projetos com potencial de escala, com o objetivo de apoiar soluções capazes de responder a desafios concretos da sociedade.

A Fundação Ageas

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A Fundação Ageas, fundação corporativa do Grupo Ageas Portugal com âmbito nacional e estatuto de IPSS e de Utilidade Pública, tem vindo a apostar em soluções que procuram responder a desafios sociais com maior escala. Através de iniciativas de Investimento, Capacitação e Voluntariado Corporativo, apoia projetos com potencial de crescimento e impacto duradouro. Nos últimos anos, o Investimento de Impacto tem assumido um papel central nesta estratégia, enquanto abordagem ainda emergente em Portugal para financiar e expandir soluções sociais.

Um dos primeiros investimentos de impacto realizados pela Fundação foi na Dioscope, uma solução que promove a formação médica, com particular incidência no Serviço Nacional de Saúde.

Potenciar a capacidade dos médicos do SNS

Criada com o objetivo de responder à sobrecarga cada vez maior dos profissionais de saúde, a Dioscope é uma plataforma de formação digital que pretende agilizar o acesso ao conhecimento médico.

Através de vídeos, protocolos, casos clínicos ou assistentes de IA, a Dioscope procura reforçar a capacidade dos médicos para tomar decisões mais informadas, contribuindo para melhores e mais céleres diagnósticos e, consequentemente, para uma prestação de cuidados mais eficiente.

Em 2022, com uma operação já bastante consolidada – a empresa contava, na altura, com mais de 2 mil médicos inscritos e parcerias com quatro hospitais -, a Dioscope procurava escalar a sua plataforma. E foi aqui que o investimento de impacto da Fundação Ageas fez toda a diferença.

Depois de analisar o potencial da solução, a Fundação concluiu que a empresa preenchia os principais requisitos e investiu 158 mil euros que seriam utilizados para a Dioscope reforçar a sua equipa e adaptar a plataforma de conhecimento médico a cada hospital.

E os resultados não se fizeram esperar. No espaço de três anos, a empresa consolidou a sua atividade e conta, hoje, com mais de 20 mil médicos inscritos na plataforma e cerca de 300 mil horas de formação anuais, que têm influência concreta no SNS.

20000

Médicos registados na plataforma

300000

Horas de formação anuais

16

ULS parceiras

Em 2025, três estudos científicos publicados avaliaram o impacto da plataforma em contexto clínico. Um deles, demonstrou que um curso de educação médica desenvolvido pela Dioscope permitiu melhorar significativamente o conhecimento dos médicos sobre hidradenite supurativa, contribuindo para uma referenciação mais adequada para consultas hospitalares.

Outro evidenciou que um protocolo da plataforma permitiu aumentar a testagem BRCA – os genes BRCA1 e BRCA2 estão relacionados com o risco de desenvolver diferentes tipos de cancro – nas três ULS onde foi implementado, passando de uma média de 14 testes para quase 30 por mês. Na prática, este aumento traduz-se num diagnóstico mais precoce e em maiores oportunidades de acesso atempado a tratamentos personalizados.

O terceiro mostrou como a implementação dos protocolos Dioscope contribuiu para uma melhor avaliação da dermatite atópica em 94 pacientes, resultando numa referenciação mais eficiente dos cuidados de saúde primários para os serviços hospitalares.

Investir com foco no impacto

O investimento da Fundação Ageas na Dioscope foi feito através de um Acordo de Partilha de Receitas, um mecanismo inovador na Filantropia nacional, que procura alinhar o sucesso financeiro da empresa com a geração de benefícios sociais.

Este acordo, com a duração de cinco anos, foi desenhado para potenciar o sucesso da solução. Assim, além de um primeiro ano de carência em que a Dioscope podia testar e afinar a sua operação, o contrato previa que a empresa só precisaria de partilhar receita com a Fundação a partir de um volume mínimo de negócios anual e com o valor máximo de reembolso a variar consoante o cumprimento das métricas de impacto. Este modelo, protege as startups pois reduz o risco em caso de incumprimento, ao mesmo tempo que incentiva a criação de resultados: quanto mais cedo cumprir, mais cedo termina a partilha de receita. Assim, em caso de sucesso – o projeto cresce e prova o seu impacto – a Fundação consegue recuperar todo o investimento e melhorou os sistemas de saúde a “custo 0”.

Este mecanismo permitiu então, à Dioscope, crescer e escalar o seu negócio, mas não sem desafios. Com a reestruturação do Serviço Nacional de Saúde – e com a criação das Unidades Locais de Saúde (ULS) – as necessidades formativas mudaram e a Dioscope teve de se ajustar. Assim, de um modelo baseado em protocolos hospitalares, a solução escalou e passou a basear-se em formações nacionais que melhoram o trabalho entre hospitais e centros de saúde, alcançando uma média superior a 1000 médicos inscritos em cada curso mensal.

Com esta mudança, a abordagem comercial da Dioscope prosperou e todos os indicadores refletiram o crescimento da organização: mais médicos, mais parceiros, mais impacto e um aumento da receita que permitiu acelerar o acordo de revenue-share, devolvendo todo o capital investido um ano antes do previsto.

Este reembolso total mostra bem a eficácia do investimento de impacto da Fundação Ageas: mais recursos disponibilizados às instituições que contribuem para a inovação social permitem escalar o seu impacto e criar sustentabilidade financeira de longo prazo, que é crucial para garantir os reembolsos e, por sua vez, continuar a investir em novos projetos transformadores na área da saúde e não só.

No fundo, a Fundação beneficia de parte do sucesso e assume o risco financeiro inerente à inovação, dando espaço às organizações para escalarem o seu impacto de forma sustentável.

Garantir a sustentabilidade do sistema de saúde exige mais do que reforçar o financiamento público. É necessário criar condições para que a inovação chegue à prática clínica e produza benefícios concretos quer para profissionais de saúde, quer para utentes.

O caso da Dioscope demonstra que as startups podem desenvolver soluções capazes de responder a problemas estruturais do setor público, mas também evidencia que a inovação, por si só, pode não ser suficiente. Sem modelos de financiamento adaptados às especificidades do setor, muitas destas soluções dificilmente conseguem gerar impacto à escala.

Neste contexto, o investimento de impacto afirma-se como uma abordagem capaz de conciliar inovação, sustentabilidade financeira e criação de valor social. Ao apoiar projetos com potencial para melhorar a eficiência dos serviços, reforçar a capacidade dos profissionais e elevar a qualidade dos cuidados, este modelo pode assumir um papel relevante na modernização do sistema de saúde em Portugal, demonstrando que investir de forma diferente pode ser parte da resposta para os desafios do SNS.

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