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A imagem chocou o mundo. Na manchete de um dos jornais mais vendidos do mundo, em meados de julho, via-se um bebé de 18 meses desnutrido, apresentado como uma prova da fome que muitos habitantes da Faixa de Gaza têm sentido nos últimos tempos na chamada ‘guerra da fome’ levada a cabo por Israel. Mais tarde, o New York Times emitiu uma nota a esclarecer que afinal a criança padecia de um problema de saúde, que realçava a sua magreza extrema, mas garantiu também que lhe tinha sido diagnosticado um quadro clínico de desnutrição grave.
O caso foi apresentado de imediato por Israel como um símbolo de que a imprensa tradicional transmite narrativas contra o país. Insistindo na tese de que não existe fome na Faixa de Gaza (ou que a culpa reside no Hamas por não distribuir bens alimentares pela população), a diplomacia de Telavive considera que muitos jornais do Ocidente são instrumentalizados na “guerra de propaganda do Hamas”. “Sem explicações, sem contexto médico, sem ética jornalística.”
Numa conferência de imprensa este domingo, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, atacou o New York Times e a imprensa do Ocidente. O líder do executivo israelita até admitiu que “estava ponderar” processar o diário nova-iorquino. “Não vamos permitir que isto seja assim. Espero que as pessoas consigam abrir os olhos ao simples facto de que o Hamas mente”, sublinhou.
▲ A foto usada pelo New York Times: a criança tinha desnutrição, mas também uma doença que realçava a sua magreza e o jornal emitiu uma nota
Ahmed Jihad Ibrahim Al-arini/Anadolu via Getty Images
As fotografias da Faixa de Gaza mostram, ainda assim, pessoas desesperadas à procura de comida, o que comprova muitos dos relatos feitos por várias organizações internacionais que estão no terreno. As Nações Unidas denunciam uma situação alarmante de fome na região, que chegou a um “nível sem precedentes”. O Ministério da Saúde palestiniano, controlado pelo Hamas, enumera diariamente os números de vítimas mortais resultantes da fome.
Até o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, confessou ver as fotografias e ter ficado chocado. “Algumas das crianças vivem mesmo com fome. Não se consegue falsificar”, disse. Sendo um dos maiores aliados de Israel, o líder norte-americano considerou prioritário que entrasse mais ajuda humanitária no enclave palestiniano, algo com que Telavive acabou por concordar.
Israel empenha-se agora numa missão: demonstrar que muitas das fotografias publicadas na imprensa internacional não passam de “propaganda”. Ainda na passada quarta-feira, a conta oficial de Israel no X, depois da polémica sobre o New York Times, criticou a capa da edição mais recente da revista Time. “Os fotógrafos do Hamas encenam para fins de propaganda”, lê-se numa publicação, em que se utiliza o termo “Pallywood” — uma mistura entre Palestina e Hollywood. Muitas das imagens que fazem manchete, prossegue Telavive, servem para “provocar emoções” com a “cumplicidade dos meios de comunicação social” que “descartam a verdade”.
One photo was staged. The other debunked it.
While @BILD revealed how Hamas photographers engineer scenes for propaganda, Time Magazine plays into the propaganda.
This is how Pallywood works:
Manufactured emotion. Media complicity. Truth discarded. @TIME Where is your… pic.twitter.com/kpwlyqxgqB— Israel ישראל (@Israel) August 6, 2025
Israel não permite jornalistas em Gaza, Hamas controla quem entra
Israel não permite a entrada nem de jornalistas, nem de fotojornalistas na Faixa de Gaza. Numa entrevista à CNN Portugal, o embaixador israelita em Lisboa, Oren Rozenblat, garantiu que o país não estava a planear mudar esta norma, justificando que a situação no terreno era “muito complicada” e explicando que havia “terroristas que apareciam como civis”.
Isto significa que os fotojornalistas que estão na Faixa de Gaza têm de receber autorização do Hamas para estar no terreno — e estar suscetíveis às suas pressões. Em declarações ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, Christopher Resch, porta-voz da organização Repórteres Sem Fronteiras para o Médio Oriente, esclarece que, mesmo antes de 7 de outubro, nenhum jornalista em Gaza criticava diretamente o grupo islâmico, mesmo que o “trabalho jornalístico sem influências fosse possível”.
Atualmente, numa altura que o grupo islâmico trava uma guerra contra Israel, Christopher Resch considera que “há poucas coisas que passam despercebidas ao Hamas”, particularmente no sul da Faixa de Gaza. Ou seja, as fotografias serão, em última instância, sempre do interesse da organização islâmica que sejam publicadas.
▲ Em algumas partes de Gaza, há poucas coisas que o Hamas não controla
Anadolu via Getty Images
Neste contexto, o tabloide alemão Bild também publicou uma investigação que prova que um dos fotógrafos que ainda está na Faixa de Gaza é Anas Zayed Fteiha, um fotojornalista freelancer contratado pela agência de notícias turca Anadolu. A Turquia continua a ser um dos principais aliados do Hamas e críticos de Israel na comunidade internacional.
Em certas regiões onde ainda mantém algum controlo na Faixa de Gaza, o Hamas consegue escolher os fotojornalistas que quer no terreno. Isso tem inevitavelmente repercussões na independência jornalística.
▲ Anas Zayed Fteiha, um fotojornalista freelancer contratado pela agência de notícias turca Anadolu
Anadolu via Getty Images
As fotografias são manipuladas?
Para Israel, não há dúvidas de que estas fotografias são manipuladas com o objetivo de comover os países do Ocidente. “Os grandes meios de comunicação social tornaram-se o braço de propaganda do Hamas. Publicam imagens dramáticas sem contexto e amplificam distorções que vilificam Israel”, acusa a diplomacia de Telavive, que considera que as fotografias “aumentam o ódio, incitam à violência e difundem ilusões ao mundo inteiro”.
“Parem de ecoar propaganda do Hamas” é o apelo de Israel. Ainda assim, depois das acusações de Telavive, o New York Times lamentou que o país continue com a “tentativa de ameaça aos jornais independentes que providenciam informações vitais ao público”.
Mas as fotografias serão mesmo manipuladas? Em declarações ao Süddeutsche Zeitung, Gerhard Paul, professor emérito de História e especialista em fotografia, refere que muitas das imagens de crianças famintas “não são falsificações”. “Mas as pessoas são apresentadas de uma determinada maneira ou recebem uma legenda enganosa para mobilizar a memória visual e as emoções.”
Para Gerhard Paul. “muitas das imagens de crianças famintas” são “encenadas”. Dito doutro modo, os fotojornalistas criam o contexto ideal para fotografar imagens que, à primeira vista, são chocantes. “O lado palestiniano está empenhado em emocionar as sociedades ocidentais. E isso funciona brilhantemente”, acredita o mesmo especialista.
Opinião ligeiramente distinta tem Christopher Resch, que defende que “é assim que muitos fotógrafos trabalham”. “Não acho que se deva repreender que um fotógrafo instrua as pessoas para que fiquem ali e acolá, com panelas nas mãos. Desde que descreva aproximadamente a realidade”, diz o porta-voz da organização Repórteres Sem Fronteiras para o Médio Oriente, sublinhando que as imagens não “mudam o facto de as pessoas em Gaza passarem fome”.
A Associação Alemã de Jornalistas denunciou também o “número crescente de tentativas de manipulação” através de “fotografias de imprensa produzidas profissionalmente”, nomeadamente a publicação de fotografias de crianças em condições graves de saúde, como a da capa do New York Times, confirmada pelo jornal e que obrigou à nota editorial, e que Israel diz não ser a única. “As partes em conflito de todos os lados, os meios de comunicação social nacionais e estrangeiros e os serviços de informações estão a usar o poder das imagens como nunca antes para influenciar a opinião pública”, afirmou o presidente da associação, Mika Beuster.
[Um homem desobedece às ordens dos terroristas e da polícia e entra sozinho na embaixada. Momentos depois, ouve-se uma enorme explosão. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto a embaixada turca em Lisboa e uma execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o quarto episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]
A fórmula das calorias de Israel e as acusações de fome
Enquanto pano de fundo na guerra entre o Hamas e Israel, houve sempre uma forte componente de propaganda. Nos últimos tempos, o grupo islâmico deseja mostrar-se como uma vítima de uma agressão e angariar apoios internacionais, ao passo que Israel está a preparar terreno para ocupar Gaza, ao mesmo tempo que nega as acusações de que causa fome no enclave palestiniano.
▲ Guerra em Gaza ganhou uma forte componente de propaganda
Khames Alrefi/Anadolu via Getty Images
As acusações de que Israel tem deixado a população de Gaza desnutrida aumentaram de tom nas últimas semanas. Uma nota do Programa Alimentar Mundial de 29 de julho refere que os dados mostram que 39% das pessoas em Gaza “passam dias sem comer”. “Gaza está agora à beira de uma fome generalizada. As pessoas estão a morrer de fome não porque não haja alimentos disponíveis, mas porque o acesso está bloqueado. Os sistemas agroalimentares locais entraram em colapso e as famílias não conseguem ter acesso aos meios de subsistência mais básicos.”
Em Gaza, o grupo mais vulnerável é o das crianças. A UNICEF dá conta de que 6.500 foram assistidas por um quadro clínico de desnutrição apenas em junho. “Em julho, os dados ainda são mais elevados com cinco mil crianças hospitalizadas nas primeiras duas semanas. O risco de mortes relacionadas com desnutrição é mais alta do que nunca.” A Organização Mundial de Saúde fala numa “realidade alarmante”.
Em sentido inverso, Israel garante que tem apoiado a população de Gaza. Numa publicação do X, a diplomacia de Telavive indicou ter distribuído mais de dois mil milhões de quilos de ajuda com 100 mil camiões. “Israel tem trabalhado intensamente para que entre comida, medicamentos e bens essenciais em Gaza. Não há restrições. É um dos maiores esforços humanitários no mundo. Os factos falam mais alto do que as mentiras.”
Ainda assim, várias organizações internacionais acusam Israel de instrumentalizar a fome sentida em Gaza. Os dirigentes israelitas sabem perfeitamente a comida que é necessária que entre em Gaza, como nota o jornal The Guardian. Com base numa calculada fórmula matemática, conseguem precisar quantas calorias um habitante do enclave palestiniano precisa por dia para se alimentar, mas estará a diminui-las propositadamente.
No passado, Israel já terá optado por esta estratégia. Dov Weisglass, antigo conselheiro do ex-primeiro-ministro israelita Ehud Olmert, terá dito, em 2006, que o objetivo de reduzir as calorias seria colocar os palestinianos “numa dieta”, mas não “matá-los de fome”, de modo a incentivar os habitantes do enclave a agir contra a governação do Hamas. Daí se falar em desnutrição grave que pode levar à morte, mais do que de fome em concreto, até porque os alimentos são muito pouco variados e ricos em proteínas.
Por exemplo, chocolate, cerejas, amêndoas e romã estão proibidos. Essencialmente há batatas, farinha e arroz. E alguns enlatados.
Segundo os cálculos da agência israelita Cogat — que controla o envio de ajuda humanitária para a Faixa de Gaza —, cada palestiniano necessita de 2.279 calorias por dia. Atualmente, com os bens alimentares que entram no enclave, essa meta é praticamente impossível de alcançar. Para além de não serem suficientes, existe também um problema de distribuição, não se tratando apenas de escassez. Nem todos os habitantes de Gaza conseguem aceder aos mesmos alimentos e nem todos consomem as mesmas calorias diárias. Ou seja, qualquer que seja o cálculo, por posto de abastecimento, nem todos alcançam a sua parte dos alimentos (uns levarão mais, outros quase nada) e os mais fracos e mais idosos serão sempre mais prejudicados.
Israel garante que não há “fome” e relembra reféns
Os dirigentes israelitas têm negado que tenham adotado a estratégia da fome. Ainda que tenham permitido o aumento de ajuda humanitária que entra na Faixa de Gaza (com envio aéreo por parte de outros países, por exemplo), Benjamin Netanyahu tem garantido por várias vezes que não “há fome em Gaza, nem há qualquer política de desnutrição em Gaza”.
▲ Benjamin Netanyahu garante que não há fome na Faixa de Gaza
JACK GUEZ / POOL/EPA
Em paralelo, Israel denuncia que o Hamas não providencia bens alimentares aos reféns que ainda estão em cativeiro na Faixa de Gaza. O grupo islâmico até revelou recentemente vídeos em que mostra os israelitas bastante magros. “Não como comida suficiente. Estou em má forma física. Estou muito magro. Não há nada para comer”, lamentou Evyatar David, um refém de 24 anos num dos vídeos.
O Hamas parece utilizar a fome dos reféns como uma espécie de moeda de troca. Consternado com os vídeos — que causaram uma forte reação em Israel —, Benjamin Netanyahu pediu à Cruz Vermelha para interceder e fazer chegar comida aos reféns, algo que a organização se disponibilizou a fazer, ainda que tivesse realçado que fosse necessário um acordo entre o grupo islâmico e Israel.
Por sua vez, o braço armado do Hamas aceitou que a Cruz Vermelha entregasse comida às reféns. Mas apresentou uma série de condições, uma delas que Israel estabeleça corredores humanitários, “de forma regular e permanente”, nas passagens de fronteira, para a entrada de alimentos e medicamentos. Outra é que interrompa os bombardeamentos.
A fome que se vive em Gaza é uma realidade, reconhecida inclusivamente pelos aliados de Israel. A população que está no enclave palestiniano tem dificuldades em aceder a alimentos. Sobre as imagens na imprensa internacional — seja as de reféns em cativeiro, seja as de cidadãos palestinianos com panelas nas mãos —, é do interesse do Hamas que sejam divulgadas não só para gerar simpatia internacional, como também para servir como moeda de troca.