Foi no passado dia 29 de julho que teve lugar, na sala dos geradores do MAAT Central, em Lisboa, a 2ª conversa de um ciclo de cinco, promovidas pela Fundação EDP. O motivo? O seu 20º aniversário e a vontade de trazer para o centro do debate os temas que constituem todo o trabalho desenvolvido pela mesma ao longo dos últimos anos. Desta vez, o foco foi dado à comunidade.
“A comunidade conta a nossa história”. Este foi o mote para uma conversa moderada pela host do Observador, Carla Jorge de Carvalho, e que contou com a presença de Filipe Santos, Dean da CATÓLICA-LISBOA e Presidente do Conselho de Curadores da Fundação EDP, Filipa Pinto Coelho, Presidente da Associação VilacomVida e CEO da Joyeux Portugal, e Filipe Almeida, Presidente da Portugal Inovação Social.
Até que ponto são as fundações um fator de transformação das comunidades e da promoção da inovação? Contarão elas a história sobre este impacto? Para um futuro que se quer cada vez mais conjunto e melhor, este tipo de trabalho pode fazer a diferença? Se nem todo o trabalho de uma fundação é mensurável…o que é que conta, de facto? Estas foram algumas das questões colocadas e que em muito uniram os três intervenientes.
“São 20 anos de uma fundação que tem sido tão importante em Portugal, no tema da inovação e do impacto social. A Fundação EDP teve, desde logo, uma atitude muito inovadora em várias dimensões. Sendo uma fundação corporativa, abraçou o tema da inovação social de uma forma sistémica, com uma ambição diferente das fundações anteriores. Apoiou projetos muito inovadores e diferentes. Trouxe, ainda, uma lógica diferente de olhar para o setor social e para a inovação social”, foi Filipe Santos quem ficou a cargo de um balanço inicial dos 20 anos de trabalho desenvolvido pela Fundação EDP até aqui.
Porque os tempos mudam e as necessidades são outras, o Presidente do Conselho de Curadores definiu o panorama atual com uma abordagem mais focada. “O programa EDP Energia Solidária é mais focado numa transição energética justa. Com o ecossistema em Portugal mais desenvolvido, mais setorial, mais próximo da área natural da EDP enquanto empresa e da Fundação, faz sentido que a área da energia e o desafio enorme que é a transição energética inclua todos. Esse é o foco atual”.
No caso do Café Joyeux os números também falam por si. Com mais de seis mil cafés servidos por mês, o impacto desta iniciativa tem sido notório e tem crescido de dia para dia. “Todos nós partimos do princípio de que cada um de nós é genuinamente uma pessoa boa, que quer fazer parte, que quer ter um propósito na sua vida, mas muitas vezes não sabemos como. E o que o Café Joyeux faz é mudar este olhar sobre a diferença, acreditando que um dia a diferença já não se vê porque fará genuinamente parte de nós”, partilhou Filipa Pinto Coelho, acrescentando a importância de parceiros e comunidade neste sentido: “tem sido um caminho extraordinário que temos vivido. Não estávamos à espera, quando abrimos o primeiro Café Joyeux, em 2021, de podermos ter uma vontade tão grande por parte dos parceiros, da comunidade, das câmaras municipais, que este projeto chegasse tão rapidamente onde chegou. São 6 mil oportunidades que temos para mudar o olhar sobre a diferença. E nada disto se faria se não houvesse parceiros atentos”.
Apesar destes dois exemplos, Filipe Almeida, Presidente da Portugal Inovação Social, salientou a importância da associação entre instituições e de uma ligação eficaz às políticas públicas. “Acho que é exatamente aqui que o papel das fundações se pode cruzar com o impacto nas comunidades em larga escala. Primeiro, financiando a experimentação de soluções inovadoras, trabalhando com a comunidade. Depois, fazendo advocacy, influência de políticas públicas, para que a escala seja de facto alcançada”, remata.
Na hora de olhar para as fundações, o Presidente da Portugal Inovação social faz ainda outro alerta: é importante encará-las como uma possibilidade de financiamento, mas não só. “Não podemos esquecer o papel da capacitação, do apoio técnico, da avaliação de impacto. As fundações podem ser, elas próprias, veículos de disseminação de resultados e de conhecimento, são também veículos de acesso a redes e a networking, são agentes prioritários para privilegiar a experimentação e a partilha de riscos com outros investidores, testando soluções inovadoras. E muitos destes papéis são, aparentemente, invisíveis. Vemos o financiamento do projeto, mas não vemos o resto. E é onde a Fundação EDP também tem vindo a ter um um papel determinante”.
Neste sentido, e falando da medição de impacto, que nem sempre é imediato, Filipe Santos acrescentou: “as fundações podem dar-se ao luxo de serem das poucas que podem pensar no longo prazo, com atuações mais sistémicas de capacitação, de criação de redes, de dinamização, de promoção da literacia, sabendo que estão a plantar sementes que não são visíveis nem óbvias imediatamente, mas que, passados três, quatro ou cinco anos, têm impactos”. Neste caminho, a academia é também um aliado de peso.
Assistencialismo vs Empoderamento
De olhos postos no futuro, sobrou tempo para uma reflexão. Assistencialismo e Empoderamento, podem coexistir? Precisamos apenas de um ou de outro? Precisamos de ambos? Onde se colocam?
“Eu diria que precisamos de uma convivência saudável entre os dois. A convivência, no nosso ponto de vista, é necessária e ajuda para que a mudança venha a acontecer”, começou por partilhar Filipa Pinto Coelho. “O sufixo -ismo significa disseminação, amplitude larga daquele conceito. Quando falamos de assistencialismo a palavra tem um peso negativo porque, digo eu, provavelmente associamos o assistencialismo a uma prática ampla, única, sem admitir outras possibilidades de responder a um problema que não seja através da assistência. Eu prefiro falar em assistência apenas ou apoio assistencial. E desse ponto de vista estamos de acordo. Nós não podemos negar o pão a quem tem fome. Isso é assistência, é apoio social. Mas devemos e temos obrigação de procurar uma solução para que amanhã essa pessoa não tenha fome ou possa escolher o pão que quer comer. E para isso precisamos de inovação social e de empoderamento”, contribuiu Filipe Almeida.
Já para o Presidente do Conselho de Curadores da Fundação EDP, a convivência será a resposta, sendo o empoderamento a lógica de continuidade mais “transformadora e sustentável”.
Ficou claro: as comunidades são o espelho de um trabalho. Trabalho esse que deve ser desenvolvido em conjunto, em cooperação e de olhos postos naqueles que se querem mais empoderados: os cidadãos. Com a 3ª conversa a chegar em breve, não perca a oportunidade de rever esta segunda, aqui!