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Joe Pesci, Ray Liotta e Robert de Niro: ou como os bons raramente vencem os bons raramente vencem. Mesmo que, neste caso, os bons fossem os maus

Joe Pesci, Ray Liotta e Robert de Niro: ou como os bons raramente vencem os bons raramente vencem. Mesmo que, neste caso, os bons fossem os maus

"Goodfellas": 30 anos depois, tudo na mesma, tudo bons rapazes /premium

Para uns, é o melhor filme de gangsters de sempre; para outros, o melhor de todos os Scorsese. Afinal, a Máfia não era a honra e a "omertà"; também podia ser uma camisa às flores.

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Para um miúdo no início da década de 90, o nome “Goodfellas” começou por ficar na memória como um grande, um impressionante, um epá-isto-também-já-é-demais, fracasso. Só mais tarde nos haveríamos de aperceber que não era um acontecimento assim tão raro, mas, naquela noite de Óscares, ver um filme que se destacava dos outros pelo nome engraçado, que percebíamos deliberadamente mal escrito, e pela igualmente orelhuda versão portuguesa – “Tudo Bons Rapazes” – ser sucessivamente nomeado e logo ignorado, categoria após categoria, não poderia ser bom sinal. Os locutores insistiam que era dos favoritos, e que já tinha ganhado este e aquele prémio, e que agora é que era, mas nunca era. Das seis nomeações com que entrara, saiu, ia alta a madrugada deste lado do mundo, com apenas uma vitória: a de Melhor Ator Secundário, que Joe Pesci aceitou com o sexto discurso mais breve da história da Academia:

“É uma honra. Obrigado.”

Então, quem é que ganhou nesse ano?, pergunta o leitor e pergunta muito bem. Ganhou – ou melhor, limpou – “Danças com Lobos”. Sim, estes eram os dias em que Kevin Costner era a maior estrela do mundo. É importante lembrar estas coisas numa época em que pensamos que vivemos, talvez, os tempos mais absurdos das nossas vidas. É certo que não são fáceis, mas, em 1991, deram sete óscares a “Danças com Lobos”. Ah, pois é.

[o trailer de “Goodfellas”:]

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Antes de avançarmos mais, convém dizer o seguinte: este foi só um dos mais extraordinários anos da longa história de Hollywood. É que não são só os 30 anos de “Goodfellas” que celebramos em 2020 (foi revelado a o mundo a 9 de setembro de 1990, no Festival de Veneza). São os 30 anos da terceira parte de “O Padrinho”, do maravilhoso “Awakenings” (outro com Robert De Niro – e era por esse que ia nomeado), de Gérard Depardieu inesquecível em “Cyrano de Bergerac”, de Tim Burton a abrir o seu livro mágico com “Eduardo Mãos de Tesoura”, de “Wild at Heart” de David Lynch. Mas foi também o ano de “Pretty Woman”, de “Ghost – O espírito do Amor”, de “Dick Tracy”, de “Total Recall”, de “Caça ao Outubro Vermelho”, de “Dias de Tempestade”, do estranho “Hamlet” de Franco Zeffirelli e Mel Gibson, do segundo “Young Guns”, de “Sozinho em Casa”, gente! 1990 não foi bem um ano, foi uma década inteira. Foi o clube de vídeo de uma geração.

Pois, mas e “Goodfellas”? “Goodfellas” que muitos dos mais importantes críticos norte-americanos tinham eleito melhor do ano. Que levara de Londres cinco Baftas. Que o American Film Institute classifica hoje como segundo melhor filme de gangsters de sempre (entalado entre os dois primeiros “Padrinhos”). Que a revista Empire votou em 2006 sexto melhor filme de sempre e a Total Film, em 2005, melhor-filme-de-sempre-ponto. Que alguns acham o melhor Scorsese de todos os tempos (não iríamos tão longe). “Goodfellas”, que já tinha recebido cinco nomeações aos Globos de Ouro para nada, não conseguiu sequer o Óscar de melhor realização (ainda estávamos longe de “The Departed” e do ano em que Hollywood finalmente faria um mínimo de justiça a Marty), ou de melhor edição (embora o trabalho de Thelma Schoonmaker aqui seja hoje consensualmente considerado como uma das melhores montagens de sempre). Ray Liotta, que é, provavelmente, o primeiro rosto que nos vem à cabeça quando pensamos no filme, não foi sequer nomeado, num ano que seria o de Jeremy Irons, por “Reveses da Fortuna”.

E foi então, ou melhor, um pouco depois, quando vimos o filme, que compreendemos o que, ao longo dos anos, se tornaria tão óbvio: que os bons raramente vencem. Mesmo que, neste caso, os bons fossem os maus.

Bons rapazes

“Goodfellas”. Ray Liotta, aliás, Henry Hill, explica no voice-over que conduz todo o filme: foi a expressão com que sempre se descreveram. A expressão que enunciava um tipo de confiança: é um bom rapaz, um tipo ajuizado, um “wise guy”, que era o título do livro original do jornalista Nicholas Pileggi e que deveria ter sido o título do filme não tivesse Brian de Palma, o mestre da cópia, mas, desta feita, insuspeito de culpas, lançado outro, poucos anos antes, chamado “Wise Guys”. Mas, afinal, que bons rapazes eram estes?

"'Goodfellas' mostra-nos como vivem, falam e fazem o que fazem os verdadeiros mafiosos. Sem a grandeza épica dos “Padrinhos”. Homens apenas, por quem podemos passar ao lado na rua e não notar. Homens, às vezes cães. Às vezes, ternos, às vezes ridículos, às vezes cruéis."

A história é baseada em factos verídicos. Hill, embora não tão importante como representado no filme, foi um mafioso de Brooklyn nos anos 50, 60 e 70, que salvou a pele dando em bufo. Graças às suas denúncias, 50 elementos da Máfia de Nova Iorque foram presos, entre os quais Jimmy Burke, que inspirou a personagem de Jimmy Conway, “the big irishman”, que haveria de morrer na cadeia vítima de cancro de pulmão em 1996, seis anos depois de se ver em filme representado por Robert De Niro e oito antes de ser elegível para uma condicional. Thomas DeSimone – o Tommy DeVito desempenhado por Pesci – já terminara a sua jornada, como se vê no filme, muitos anos antes, e com uma bala na cara para que a mãe não lhe pudesse dar um funeral de caixão aberto. Mas Hill, sobreviveu-lhes muitos anos – até 2012. Dois anos antes, quando ia nos 67, confessou ao “Telegraph” que nunca esperara chegar àquela “idade maravilhosa”. Mas sabia porquê: porque já tinham morrido todos os que tinham razões para o matar.

É a história de Hill que guia “Goodfellas”, a ascensão e queda dum tipo que nos diz, logo a início: “Desde que me lembro, sempre quis ser um gangster”. “Para mim, ser gangster era mais importante do que ser Presidente”. “Era ser alguém num bairro de zés ninguéns.” É a história de três décadas da Máfia, acompanhando uma nova geração que dá continuidade, dizia no cartaz a frase promocional, a velhas tradições.

A geração Netflix pode estar a achar isto parecido com “O Irlandês”. Não é. “O Irlandês” é que é parecido com isto.

Engraçado como?

É uma das cenas mais memoráveis de “Goodfellas”: conseguimos sentir a tensão, o desconforto, queremos, como a personagem de Henry Hill, sair dali o mais depressa possível. Tommy conta uma história de gangsters à mesa do Copacabana e o tenrinho Henry ri-se de mais, “You’re really funny”, diz. Tommy larga o sorriso: “What do you mean I’m funny?” O interrogatório prossegue: “és engraçado, tens piada, tenho piada?, divirto-te, é isso? Sou um palhaço?”, nós a ver a hora e o instante em que Tommy espeta um tiro no meio da testa a Henry e acaba o filme, nós e os atores e figurantes em volta, enchendo o bar, suspensos naquele incómodo. O diálogo foi escrito pelo próprio Pesci, a partir de uma história real, e Scorsese não o incluiu no guião. Dos atores em cena, só ele e Liotta sabiam que o iam fazer. O desconforto das restantes pessoas em plano é real e fundamental para que a cena seja tão boa.

[a cena de Joe Pesci e Ray Liotta:]

O improviso, a surpresa, foram um dispositivo recorrente ao longo da produção e um fator importante por detrás de uma das razões do fascínio que “Goodfellas” exerce: o sabor a real. Sabemos que é um filme, sabemos que é o De Niro, sabemos que é o Joe Pesci, Ray Liotta não sabemos, a menos que tenhamos visto “Selvagem e Perigosa”, de Jonathan Demme, que foi onde De Niro o viu e por isso recomendou a Scorsese, em vez de Sean Penn, Tom Cruise, Alec Baldwin, John Travolta, ou qualquer um dos outros nomes alegadamente considerados para o papel e que eram muito mais conhecidos, mas sabemos que é um filme. E, ainda assim, sabemos também que é verdade. Que nos levou até à fechadura e nos pôs a espreitar. Que nos está a revelar a realidade, a mostrar como vivem, falam e fazem o que fazem os verdadeiros mafiosos. Sem a grandeza épica dos “Padrinhos”. Homens apenas, por quem podemos passar ao lado na rua e não notar. Homens, às vezes cães. Às vezes, ternos, às vezes ridículos, às vezes cruéis.

Acontece quando Paul Sorvino, enquanto Paulie Cicero, o chefe, dá um estalo a Liotta sem este esperar (é uma delícia o olhar de “wtf?” de Liotta. É preciso ir ao YouTube rever). Acontece quando De Niro e Pesci improvisam toda a cena à volta da mãe de Tommy, que é na verdade a mãe do próprio Scorsese, Catherine, e que ali fica, como nunca uma atriz conseguiria talvez desempenhar, uma verdadeira e inocente mãe, preocupada e perdida entre os jogos mafiosos do filho e dos amigos que ela não tem como imaginar. O travo a real.

[a cena improvisada, em casa da mãe de “Tommy”:]

30 anos depois

Porque é que “Tudo Bons Rapazes” permanece um filme de referência 30 anos depois? Por isso: parecer tão verdadeiro. Mas também por, talvez pela primeira vez, ter conseguido equilibrar, em doses iguais, violência, estilo e humor, sem que nenhum minasse os demais. “Funny how?” é uma cena violenta, estilosa e bem-humorada. Como é violenta e bem-humorada a sequência em que os mafiosos saem de um almoço em casa da mãe para irem matar um tipo com o facalhão de cozinha que acabam de pedir emprestada à senhora. Como é violenta e estilosa a cena em que Henry espanca com o revólver o vizinho armado em esperto que se fez à namorada dele, diante dos irmãos apatetados encostados ao Corvette. Como é violenta e estilosa toda a realização e montagem de Scorsese e Schoonmaker, com cenas breves e intensas, freeze frames e zoomadas, um protagonista que fala connosco e nos olha diretamente e outros truques tomados de empréstimo à nouvelle vague.

"'Goodfellas' também libertou a linguagem. Nenhum outro filme antes se atrevera a usar tantas vezes a palavra “fuck” (321, para ser preciso – mesmo que, no guião, só estivesse escrita 70 vezes). Hoje, ocupa um digno, porém modesto, 15º lugar. Os rapazes tornaram-se quase moderados. Quase bem-falantes."

Sem “Goodfellas”, não haveria “Sopranos” (que, de resto, vai buscar nada mais nada menos do que 27 atores ao filme – Lorraine Bracco, Michael Imperioli, Tony Sirico, só para citar alguns), não haveria Tarantino – não como o conhecemos. Não haveria muitas outras imitações de menor categoria (“A Queda de Wall Street”, “Golpada Americana” e tantas mais variações para scorseses banais que por aí andam – todos os anos, pelo menos mais uma). Fun fact: “Goodfellas” também libertou a linguagem. Nenhum outro filme antes se atrevera a usar tantas vezes a palavra “fuck” (321, para ser preciso – mesmo que, no guião, só estivesse escrita 70 vezes). Hoje, ocupa um digno, porém modesto, 15º lugar. Os rapazes tornaram-se quase moderados. Quase bem-falantes.

Nestes 30 anos, os fatos, o cabelo, os carros, enfim, todo o swag de Ray Liotta no filme já foi o máximo, já foi um desastre e já ascendeu a clássico. Nunca lhe chegámos aos calcanhares, nós, os miúdos impressionáveis daquele início da década mais otimista das nossas vidas. Mas continuamos a compadecer-nos daquela frustração final. Aquela para a qual a nossa consciência moral não tem uma resposta. Diz Henry, depois de ter pago a liberdade com a troca da vida de estrela de um “goodfella”, por outra normal, numa cidade qualquer perdida no frio do Ohio, para onde o mandou o programa de proteção de testemunhas: “Essa é a parte mais difícil. Agora, tudo é diferente; não há ação… Tenho de esperar como toda a gente. (…) Sou um Zé-ninguém como os outros. Tenho de viver o resto da minha vida como um palerma.”

Alexandre Borges é escritor e argumentista

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