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Nos grupos psicopedagógicos de ajuda mútua da ADEB - Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, partilham-se dificuldades, medos, histórias que se cruzam, experiências que se tocam
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▲Nos grupos psicopedagógicos de ajuda mútua da ADEB - Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, partilham-se dificuldades, medos, histórias que se cruzam, experiências que se tocam

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲Nos grupos psicopedagógicos de ajuda mútua da ADEB - Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, partilham-se dificuldades, medos, histórias que se cruzam, experiências que se tocam

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Grupos de partilha, sem guião ou filtros, para doentes depressivos e bipolares. "Se há alguém que nos percebe é quem tem a doença"

ADEB – Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares tem grupos psicopedagógicos para doentes e familiares em Lisboa, Porto e Coimbra. São momentos que ajudam a aceitar o diagnóstico.

Carlos Romão não dispensa as reuniões dos grupos psicopedagógicos de autoajuda da ADEB – Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares que frequenta desde 2004. “Gosto muito de participar, são partilhas, são coisas confidenciais, falamos de tudo, choramos, rimos. Cabem muitas pessoas, muitos desabafos, muitas vidas”, conta. O que é dito nesses momentos, tão íntimos e intensos, fazem-no pensar, ler mais, pesquisar tudo o que consegue, sobretudo textos sobre a diversidade comportamental. “É importante haver esses laços, esses afetos, essas partilhas, as pessoas conhecerem outras pessoas que vivem na mesma realidade e as mesmas dificuldades.” As conversas duram habitualmente hora e meia, de quinze em quinze dias. “Pelo facto de haver essas partilhas, há uma descarga emocional, ganha-se mais força e mais motivação.”

“Quando cheguei à ADEB, foi difícil admitir que era uma pessoa doente”, recorda Carlos Romão. Foi há mais de 20 anos. Aos poucos, foi-se reconhecendo como doente bipolar, falando de si, ouvindo os outros, percebendo que havia gente tão semelhante, tão parecida. Aceitou o que tinha, deixou de pensar que era um “coitadinho” e, aos poucos, foi ficando estável a nível emocional. Aos 18 anos, viveu a primeira depressão, os episódios de bipolar vieram aos 23, há mais de três décadas. “Muitas vezes, a doença manda em nós, mas não deixo que a doença mande em mim”, diz-nos através de uma videochamada – fraturou uma perna, de momento não consegue ir à ADEB.

▲ “Muitas vezes, a doença manda em nós, mas não deixo que a doença mande em mim”, conta Carlos Romão, doente bipolar, nos grupos da ADEB há 20 anos.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

A ADEB, Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) de utilidade pública com respostas continuadas e integradas de saúde mental desde 1991, tem seis grupos psicopedagógicos para doentes depressivos e bipolares na sede em Lisboa e nas delegações do Porto e de Coimbra. Todos têm nome. “Arco-íris”, “Sombra e sol” “Reviver/renascer”, “Espiral”, “Azul em chamas”, e um só para famílias que acontece online uma vez por mês. Os restantes têm uma periocidade quinzenal, uns online, outros presencialmente numa sala multiusos da ADEB em Lisboa, com cadeiras azuis, quadros de utentes expostos nas paredes, janela virada para a movimentada Avenida de Ceuta, num edifício no bairro da Quinta do Cabrinha. De momento, participam entre 75 e 80 pessoas, entre doentes, a maioria na faixa etária dos 40 aos 50 anos, equilibrado em termos de género, e familiares.

Nicolau Albarran está no grupo “Azul em chamas” há quase 10 anos. “Os grupos são muito importantes, fazem-nos sentir que não estamos sozinhos neste dia a dia, neste mundo, que há mais pessoas a passarem pelo mesmo. O facto de nos identificarmos é muito bom.” E não só. “Não há julgamentos, estamos ali todos para o mesmo, para partilhar as nossas histórias, as nossas vivências, para nos ajudarmos uns aos outros.” Participa quando o horário lhe permite, está na hotelaria, num emprego por turnos. “Não deixo de trabalhar, de ser humilde, de evoluir.”

Nicolau retrocede alguns anos para contar o que lhe aconteceu. “No final de 2015, início de 2016, estava com a maior depressão que já tive na minha vida. Depois da depressão veio um estado maníaco-depressivo que fez com que tivesse um surto psicótico e saísse da realidade.” Passou o mês de fevereiro de 2016 internado. Uma experiência complicada, difícil de encaixar, jurou a si mesmo que não voltaria a ser internado e que iria fazer por isso. E assim foi, nunca mais foi internado. “Fui diagnosticado como sendo bipolar e começou aí o meu caminho.”

“Os grupos são, muitas vezes, uma oportunidade de a pessoa poder voltar a socializar, poder voltar a falar de si, partilhar questões que são pessoais, íntimas, num contexto seguro”, refere Sérgio Paixão, psicólogo da ADEB.  

Tal como outro homem que nos fala e que está num dos grupos desde 2003. Não quer nome, não quer fotografia, não quer ser identificado, mas faz questão de contar a sua história porque sente que o seu testemunho é importante. Tinha 22 anos e diziam-lhe que era maníaco-depressivo. “Na altura, estava apenas a ser medicado para a depressão e não como doente bipolar”, lembra. Até que se sentou frente a frente com um médico de clínica geral que quis entender melhor o que se passava. “Varreu-me de um lado a outro, puxou tudo, criou a suspeita de eu ter a doença bipolar e mandou-me para um psiquiatra.” Foi há cerca de 30 anos. Andava muito ansioso, bastante caído psicologicamente. O diagnóstico foi dado, percebeu o que tinha de facto e quis tratar de si.

Soube da ADEB pela televisão, identificou-se com o que diziam no programa, uma irmã também lhe falou da associação, não tardou a bater à porta e a entrar nos grupos. O que é dito nesses momentos é compreendido por quem ali está, sem filtros ou análises demoradas. Ali sente-se entre iguais. “Quando uma pessoa está deprimida ou é bipolar, ninguém a compreende porque não passa por isso. Se há alguém que nos percebe é quem tem a doença.” Sem complexos pelo meio. “Ali pode-se ser quem se é e falar. A pessoa tem sempre necessidade de desabafar, se é com alguém que não sente não vai haver empatia. Ali estamos completamente à vontade, podemos desabafar e somos compreendidos.”

“Sentir é mais do que saber”

Sérgio Paixão é um dos psicólogos da ADEB que acompanham os grupos. “Procuramos criar um espaço privilegiado para que as pessoas, de forma segura, possam partilhar entre si questões que noutros contextos não são fáceis de contar”, refere. Até porque são doenças, sublinha, que lidam com estigmas. “Estas doenças têm um rótulo que, de certa forma, cria um grande sofrimento para quem tem esse diagnóstico. É um rótulo cheio de preconceitos, estereótipos, como a pessoa poder ser perigosa, preguiçosa, imprevisível.”

▲ As reuniões dos grupos são confidenciais, os doentes sabem que as conversas, íntimas e intensas, ficam naqueles momentos onde se sentem como iguais

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Na depressão, a falta de esperança é comum, há dificuldade em acreditar que as coisas podem melhorar. Na perturbação bipolar, é mais complexo, há a fase da depressão, de um grande sofrimento interior, de culpa e isolamento, e períodos que, muitas vezes, criam uma enorme instabilidade. Há pessoas que terminam relações, casamentos, trabalhos. Segundo Sérgio Paixão, ouvir outras pessoas que vivem situações semelhantes, com as quais há pontos de contacto, é bastante importante. “Os grupos são, muitas vezes, uma oportunidade de a pessoa poder voltar a socializar, poder voltar a falar de si, partilhar questões que são pessoais, íntimas, num contexto seguro”, refere.

O grupo de Carlos Romão chama-se “Sombra e sol”, comenta que o nome “é apropriado”, volta a realçar o bem que esses momentos lhe têm feito, de tão valiosos que são, que lhe marcam a vida pela positiva. Quando está sozinho, recorda o que as pessoas disseram nos seus desabafos, volta a essas conversas, reflete sobre elas. “Venho para casa, saborear essas biografias, essas verbalizações, essas palavras. Uso de empatia para compreendê-las, escutá-las. Estas pessoas são dignas de respeito, são lutadoras, são guerreiras”, diz.

Os grupos não misturam doentes depressivos com doentes bipolares. São doenças diferentes. Neste momento, reúnem entre 75 e 80 pessoas, sobretudo na faixa etária entre os 40 e os 50 anos, equilibrado em termos de género, metade mulheres, metade homens. 

Não há um guião, não há um programa predefinido. Nos grupos, está sempre um psicólogo como facilitador ou como espectador. Os doentes estão à vontade para falar ou não falar, para ouvir. Tudo o que ali é dito é confidencial. E não ha filtros. Cada doente fala do que sente vontade de partilhar, da sua vida, dos seus medos, de assuntos relacionados com a doença, internamentos, o impacto que o diagnóstico tem nas relações afetivas e no trabalho. “Procuramos que os grupos tenham uma dinâmica muito natural. Há uma conversa, há sempre um facilitador, alguém que tenha o diagnóstico com experiência de grupo, estável”, explica Sérgio Paixão. São grupos abertos, a partilha é espontânea.

O psicólogo destaca mais uma característica desses momentos. “A pessoa não estando bem, ou tendo saído de uma crise ou de um episódio grave, muitas vezes, encontra no grupo pessoas que já estiveram nessa posição e que agora já estão bastante melhores. E isso também tem um grande efeito terapêutico.” O doente sai quando achar que deve sair, não há limite temporal para estar nos grupos orientados por uma equipa de oito psicólogos e uma assistente social na sede e delegações. Na ADEB, há outras respostas para esses doentes, apoio psicológico individual. A associação tem um grupo musical, sessões relaxamento e yoga, organiza convívios, idas a eventos culturais.

▲ Sérgio Paixão, psicólogo da ADEB, acompanha os grupos e sublinha que a partir da aceitação do diagnóstico, os doentes passam a ter um papel mais proativo nas suas vidas

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Muitas vezes, as pessoas chegam à ADEB na pior fase das suas vidas. “Quando aparecem vêm completamente desestruturadas. A maior parte das vezes, com uma grande incapacidade para o seu dia a dia. Quando vêm numa fase depressiva estão muito incapacitadas seja para o que for”, observa Sérgio Paixão. Os doentes passam inicialmente por um apoio psicológico da associação. Depois desse acompanhamento, transitam para os grupos psicoeducativos que dão formação sobre o que é a doença e estratégias para lidar com ela, trabalha-se esse conhecimento de si e da patologia mental. A seguir, os doentes mais estáveis são convidados a integrar os grupos de autoajuda.

O doente que não quer nome costuma resumir numa frase o que conta sobre o conforto que é estar entre iguais, entre quem o percebe porque vive o mesmo. “Sentir é mais do que saber.” E isso, para si, faz toda a diferença, mais do que alguém que estuda a doença anos e anos e fala na teoria. Estar nesses grupos da ADEB tem sido essencial, garante. “Gosto de conversar, gosto de apoiar as outras pessoas, é a melhor terapia que há, é um porto de abrigo. Os grupos de ajuda mútua são uma maravilha.” Fala-se da doença e fala-se de saúde, partilham-se experiências, medos, expectativas. Há dias melhores e dias piores. “Esta doença é afetiva, quando não tenho o afeto em dia, tendo a ir para a depressão”, revela. Há ciclos negativos e duros e há conquistas também. “Na minha doença bipolar, sou um privilegiado, a taxa de desemprego é muito alta, mas eu sempre mantive uma carreira profissional contínua.”

Trocar impressões para enfrentar situações stressantes

Os grupos existem quase desde o início da ADEB, desde meados dos anos 1990 e Sérgio Paixão vai vendo melhorias nos doentes. “Os grupos ajudam muito na aceitação do diagnóstico, promovem muito essa mudança. Quem tem um diagnóstico bipolar faz uma grande diferença, é a partir da aceitação do diagnóstico que a pessoa tem um papel mais proativo.” Só a medicação não é suficiente, é preciso respeitar a doença e ter uma atitude de autocuidado, responsabilizar-se por si para estar estável, observa o psicólogo.

Um dos grupos é exclusivo para familiares de doentes. Há dois anos que ela, mãe de um jovem diagnosticado com depressão bipolar no início da faculdade, entrou no grupo das famílias que se reúne online uma vez por mês. Dá o seu testemunho sem nome e sem foto. “É muito recente, estamos a adaptarmo-nos a este novo estar na vida que envolve uma série de lutos”, justifica. Esse tempo de conversa com outros pais, familiares, que se juntam, tem sido bastante útil para si. “Há um momento de perceções que as pessoas têm e partilham que é interessante e que é terapêutico.” Gera-se empatia entre quem ali está, gente com mais história, com menos história, todas histórias diferentes. Fala-se do que se quer, adaptações, ajustes, projetos interrompidos, expectativas desfeitas, sofrimento interior, solidão.

Os doentes passam inicialmente por um apoio psicológico da associação, depois transitam para os grupos psicoeducativos, a seguir são convidados a participar nos psicopedagógicos. Não há limite temporal para estar nessas conversas que habitualmente duram hora e meia, de quinze em quinze dias. 

Normalmente, quando entram nos grupos, os familiares estão numa situação muito stressante, até em crise. “É o encontro de perceções que nos faz acalmar um pouco em relação à perplexidade de uma situação tão impactante e até limitativa em várias alturas da vida. E procuramos um encontro, uma empatia, nesta troca de impressões acerca da evolução das histórias”, descreve esta mãe que frequentou os grupos psicoeducativos da ADEB para entender melhor o que é a doença bipolar. Sem pressão, e à vontade e ritmo de cada um, partilham preocupações, contam as suas vivências, sempre com o dever de confidencialidade. “No fim, as pessoas empoderam-se, ficam mais fortes para enfrentar uma situação que é deveras stressante”, confessa.

Renata Frazão é psicóloga da ADEB, acompanha sobretudo os familiares, maioritariamente são mães e pais, também há conjugues, companheiros, irmãos, tios e primos. “Os grupos normalizam aquelas experiências individuais que, às vezes, são sentidas como únicas, diferentes, estranhas. As pessoas têm muitos anos de ouvir os psiquiatras e os psicólogos, ter alguém no grupo com quem se identifica e que partilha a experiência, normaliza e ajuda a aceitar”, afirma.

Os familiares falam dos seus e de si, adquirem estratégias para lidar com a doença, munem-se de várias ferramentas. “Partilham medos, impotência, muitas vezes, de ver alguém de quem gostam em sofrimento, principalmente os pais”, nota Renata Frazão. “As famílias que lidam uma vida inteira com alguém com um diagnóstico que não aceitam é o mais marcante”, refere.

▲ “Os grupos normalizam aquelas experiências individuais que, às vezes, são sentidas como únicas, diferentes, estranhas”, refere Renata Frazão, psicóloga da ADEB que acompanha os familiares

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Nos primeiros tempos, Nicolau Albarran não aceitava a doença e demorou a perceber a importância da medicação. “É fundamental aceitar que temos esta condição, tomar a medicação, fazer terapia. De 1 de setembro de 2016 até ao dia de hoje, conto pelos dedos de uma mão os dias em que falhei a medicação”, adianta. Há que lidar com as flutuações de humor, confessa, que são inevitáveis, agora muito menos frequentes e de menor intensidade. “É preciso ter as ferramentas e saber ver os sinais para ir atuando conforme as flutuações forem surgindo.” “Nestas condições, é fundamental a manutenção, podemos estar estáveis, mas se não fizermos a manutenção, tudo piora.”

Estudou, formou-se em hotelaria, começou a trabalhar, está a correr bem. “Se estou onde estou, neste momento, é devido a mim, claro, e devido à minha mãe.” Foi ela que procurou tudo o que havia, falou com pessoas, e descobriu a ADEB depois do diagnóstico. Nicolau Albarran sabe bem o papel da uma boa rede de suporte, seja onde for, em casa, nas terapias, no trabalho. Faz ginásio desde o ano passado e sente-se bem. “Tem-me feito muito bem à parte mental”, adianta. Continua focado, disciplinado, motivado. Está estável há bastante tempo. “Continuo a fazer por isso, a fazer terapia, a ir aos grupos, a falar com a psiquiatra.” Nicolau garante que tem uma vida normal e não esconde a vontade de ser feliz.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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