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A Rua Sésamo é o programa de televisão mais importante de sempre, o único a ter um impacto prático e direto em milhões e milhões de espectadores, com emissões em mais de 140 territórios e versões locais em 34 países
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▲A Rua Sésamo é o programa de televisão mais importante de sempre, o único a ter um impacto prático e direto em milhões e milhões de espectadores, com emissões em mais de 140 territórios e versões locais em 34 países

COURTESY OF NETFLIX

▲A Rua Sésamo é o programa de televisão mais importante de sempre, o único a ter um impacto prático e direto em milhões e milhões de espectadores, com emissões em mais de 140 territórios e versões locais em 34 países

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Gualter, Egas e o Monstro das Bolachas (re)entram no streaming: à procura da sobrevivência, a "Rua Sésamo" volta a ser morada global

Com o corte do financiamento federal nos EUA e o fim do contrato com a Warner, o clássico infantil ficou em risco. Um novo acordo com a Netflix mantém a produção viva e dá-lhe um público de milhões.

Tenho um traço geracional que me denuncia logo como parte integrante do grupo que ainda aprendeu a ler e a escrever com a versão portuguesa da Rua Sésamo. Quando digo a lengalenga do abecedário, incrustada na minha memória como uma sucessão de sons cujo objetivo é ir o mais rápido possível, o Y é um “i grego” e um W é um “duplo v”. Sempre. Era assim que nos ensinavam, não havia cá ipselons ou dabliús estrangeirados. A Rua Sésamo é o programa de televisão mais importante de sempre, o único a ter um impacto prático e direto em milhões e milhões de espectadores, com emissões em mais de 140 territórios e versões locais em 34 países. E depois de um ano difícil, de morte anunciada, eis que agora chega à sua plataforma salvadora, a Netflix.

No ar desde 10 de novembro de 1969, Sesame Street (no original) esteve em vias de acabar depois do presidente dos EUA, Donald Trump, ter retirado o financiamento ao canal gratuito Public Broadcasting Service (PBS). Trump emitiu uma ordem executiva para bloquear o financiamento federal da PBS e da rede National Public Radio (NPR), alegando que estas promoviam “cobertura noticiosa tendenciosa e partidária”. Isto resultou num profundo corte de fundos de uma iniciativa federal que financiava programas infantis, incluindo a Sesame Street, talvez temendo que o Elmo fosse um perigoso militante comunista, já que até tem pelo vermelho. Para este futuro incerto também contribuiu que a própria Warner Bros Discovery, proprietária da plataforma HBO, não ter renovado o acordo de transmissão com o histórico programa. E eis que chegou o príncipe num cavalo branco: a Netflix, que descreveu a Rua Sésamo como “uma pedra basilar e muito querida dos conteúdos infantis”.

A ideia original para o pioneiro da televisão pré-escolar surgiu de uma pergunta do psicólogo Lloyd Morrisett: será que a tão diabolizada televisão pode, de facto, ensinar-nos alguma coisa? Num jantar com a produtora de uma estação pública, Joan Ganz Cooney, a ideia começou a ganhar forma e foi uma questão de tempo até se juntarem a mais educadores, artistas, guionistas, especialistas em desenvolvimento infantil, líderes de comunidades religiosas e aquele que é, talvez, um dos maiores génios do século XX: Jim Henson, o criador dos Marretas, especialista em criaturas mágicas que encantam crianças ao ponto de elas quererem não só ver os episódios, como querem a lancheira e a mochila.

[o trailer da “Rua Sésamo” que está agora disponível na Netflix”:]

O formato assentava na sucessão dinâmica de vários momentos, inspirado no ritmo de anúncios televisivos, o que garantia a atenção das crianças. No fundo, usando as capacidades do meio de sugar o foco tantas vezes criticadas e tidas como sinónimo de uma certa dormência intelectual, e empregando-as para o bem. Resultou: no livro Street Gang, de Michael Davis, que conta a história e o impacto do programa, o autor refere que estudos comprovaram que as crianças que viam Poupas e companhia aprendiam mais letras, números e conceitos básicos em comparação com os petizes que não eram espectadores. Rua Sésamo foi talvez o primeiro exemplo comprovado de que seria injusto reduzir a televisão a algo supérfluo ou até prejudicial. Desde aí, já ganhou 221 Emmys, 11 Grammy Awards, vários Peabody Awards e foi o primeiro programa de TV a ganhar um Kennedy Center Honor.

“Rua Sésamo”: a melhor escola que a televisão já teve

Nos primeiros tempos de desenvolvimento do programa, a equipa chegou a discutir chamar-lhe 123 Avenue B. Mas, como este é um endereço real na cidade de Nova Iorque, a proposta foi abandonada em favor de Rua Sésamo. Diz-se que a ideia por detrás do nome vem da expressão “abre-te sésamo”, que pretende evocar a imagem de um lugar onde coisas divertidas ou inesperadas acontecem.

Na altura, alguns dos psicólogos que serviam de consultores acharam que fantoches e humanos juntos num mesmo espaço iam assustar as crianças. Porém, os testes de visionamento mostraram que as crianças não tinham era interesse nas cenas só com adultos, que encaravam como pouco relacionáveis. Daí a importância daquele que é o protagonista de todas as versões de Rua Sésamo: Big Bird (em português foi o Poupas). O grande pássaro, figura gigante mas gentil e inocente, é uma espécie de representante do olhar infantil, aquele que faz as perguntas e os comentários que uma criança faria.

▲ Estreou-se em 1969, teve versão portuguesa entre 1989 e 1996, passou pela HBO e está agora na Netflix. A conclusão é a mesma: é mesmo difícil competir com a "Rua Sésamo"

Clint Spaulding/NETFLIX

A gentileza é, aliás, uma das imagens de marca da Rua Sésamo, o programa em que até os monstros (como o Monstro das Bolachas, Gualter/Grover ou até o nosso resmungão Ferrão) são bonzinhos. É um raro conteúdo infantil sem vilões e onde o sentimento mais importante é a amizade. E dizer aos miúdos que a escola é uma seca é fácil; o difícil é convencê-los que a escola é a coisa mais fixe que lhes pode acontecer na vida e que o conhecimento é o mais próximo que temos de um elevador social. O impacto da Rua Sésamo no aproveitamento das crianças é generalizado, mas particularmente evidente em classes mais economicamente desfavorecidas.

Rua Sésamo esteve igualmente na vanguarda de algo que hoje pode parecer óbvio: é importante levar as crianças a sério, tratá-las como pessoas pensantes e emocionais, com capacidade para escrutinarem o mundo à sua volta. Alguns dos episódios causaram polémica exatamente por isso, por abordarem temas que não são consensualmente considerados por normais para um contexto infantil.

O exemplo clássico é a morte. Em 1982, o actor Will Lee, que fazia de Mr. Hooper, morreu. Em vez de trocar por outro intérprete, os guionistas simplesmente escreveram um comovente episódio em que Poupas descobre que o Sr. Hooper morreu e não vai voltar, mas vamos sempre lembrar-nos dele. A ideia era ser simples, sem metáforas rebuscadas, não escamoteando o que implica a perda. Mas foram mais as controvérsias, incluindo a proibição do programa no Mississippi, em 1970, devido ao elenco mistura negros e brancos; a introdução em 2002 de uma personagem seropositiva; ou a o personagem Karli, uma amiga do Elmo cuja mãe está em tratamento por abuso de substâncias.

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▲ Jim Henson (ao centro) em 1970, com a equipa que dava vida às personagens da Rua Sésamo

Getty Images

Em Portugal, a Rua Sésamo continua a ser recordada com carinho como um bastião do serviço público. Estreou-se na RTP em 1989, resultado de uma coprodução entre a estação pública e a Children’s Television Workshop. Foram produzidas quatro temporadas, entre 89 e 1996, e serão as primeiras essas as mais marcantes na memória coletiva. Apesar do sucesso, era um conteúdo muito caro para a realidade nacional. O preço dos direitos impede, por exemplo, que os episódios estejam na RTP Play (apesar das múltiplas páginas de Youtube onde muitos episódios podem ser vistos).

O programa combinava partes originais portuguesas com segmentos adaptados da série norte-americana, incluindo novos bonecos como o Ferrão (criador do vegetal agripino, que muito procurei em supermercados quando era pequena), a gata Tata Tita e o Poupas, para nós numa versão cor-de-laranja que se afastava do amarelo do Big Bird original. Foi também o programa que deu a conhecer ao mundo uma jovem Alexandra Lencastre, num elenco de humanos onde também constavam Vítor Norte, Pedro Wilson, Fernando Gomes, Fernanda Montemor e Lúcia Maria, que interpretaram os residentes da rua. As vozes de personagens de fantoches incluíram Manuel Cavaco (Monstro das Bolachas), Rui de Sá (Egas) e Rui Paulo (Becas). António Feio era o narrador e diretor de atores. Também a equipa de guionistas era de luxo, juntando a fina nata dos autores infantis. A escritora Alice Vieira foi um dos exemplos, sendo dela a autoria da adaptação da letra da incontornável canção Orgulho em ser uma Vaca.

A Netflix estreou agora a 56.ª temporada (primeiro com quatro episódios, de meia hora cada, seguem-se mais doses de capítulos, nunca com estreias individuais). Não tem Ferrão nem Alexandra Lencastre, mas é melhor que 99 por cento dos conteúdos da plataforma. As séries concorrentes que não levem a mal: é mesmo difícil competir com o mais importante programa de televisão de sempre.

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