Haddad não fala em Lula, Bolsonaro defende a Constituição. Mensagens, verdades e mentiras da primeira entrevista da 2ª volta /premium

09 Outubro 2018137

Os dois candidatos à presidência do Brasil deram a primeira entrevista depois da primeira volta. Haddad não falou uma única vez em Lula. Bolsonaro foi o mais direto dos dois — mas também mentiu mais.

Sentados, em locais diferentes e um de cada vez. Foi assim que os candidatos Jair Bolsonaro e Fernando Haddad deram as primeiras entrevistas depois da primeira volta das eleições presidenciais, que ditou que será entre eles a escolha para o próximo Presidente do Brasil, a 28 de outubro. Ambos aceitaram o convite da estação de televisão Globo e entraram em direto, um a seguir ao outro, no Jornal Nacional, na noite de segunda-feira.

Jair Bolsonaro, que ficou em primeiro com 46%, falou com um jardim como pano de fundo e numa pose descontraída: de camisa preta e calças de ganga, apresentou-se aos brasileiros recostado numa cadeira, de perna cruzada e mãos sobre o colo. Fernando Haddad, cujos 29,3% lhe valeram o segundo lugar, escolheu uma sala fechada. Também sentado, com quadros na parede do fundo, sobre um ombro, e uma planta atrás do outro, apresentou-se de fato azul e gravata vermelha, entortada para o seu lado de esquerdo.

Imagem à parte, qual foi o conteúdo das entrevistas? E o que tentou fazer cada candidato?

Em qualquer segunda volta de umas eleições presidenciais, interessa aos candidatos em disputa conquistar os eleitores que não conseguiram convencer na primeira volta. E foi precisamente isso que cada um procurou fazer. Bolsonaro, que tem de conquistar mais 5,1 pontos percentuais para ser o próximo Presidente do Brasil, fê-lo de forma direta, apelando aos dois eleitorados que menos conseguiu seduzir na primeira parte da camapnha: os mais pobres e o Nordeste. Haddad, que para chegar a Presidente precisa de angariar mais 20,8% pontos percentuais, falou de forma mais dispersa. Procurando afastar-se da imagem de Luiz Inácio Lula da Silva, depois de tanto lhe gastar o nome na primeira volta, Haddad tentou agradar a dois mundos: procurou serenar o eleitorado de esquerda que ainda lhe falta e conquistar o centro que até agora lhe escapou.

As mensagens nas entrelinhas

As entrevistas foram relativamente curtas, cada uma com menos de cinco minutos. Por assim ter sido determinado em sorteio, Haddad falou antes de Bolsonaro. Primeiro, cada um teve direito a dois minutos para se dirigir aos brasileiros, em jeito de cumprimento. Depois, ambos responderam sobre a possibilidade de os seus governos virem a promover a redação de uma nova Constituição — algo que o programa do PT contempla e que o vice de Bolsonaro, o general Hamilton Mourão, defendeu num discurso. No caso de Haddad, o homem do PT respondeu ainda às declarações de José Dirceu, ex-presidente do PT, que disse ao El País que era uma “questão de tempo” até o PT “tomar o poder”, sublinhando depois que “tomar o poder (…) é diferente de ganhar uma eleição”. Por fim, os dois candidatos tiveram 30 segundos para se despedirem.

Entre o que disseram e o que quiseram dizer, olhamos para cada um desses momentos e procuramos ler nas entrelinhas.

Saudação inicial

Fernando Haddad

Telespectador, cidadão, cidadã brasileira. É uma grande honra estar no segundo turno com seu apoio. Uma honra poder participar no segundo turno de uma eleição presidencial. Situação em que nós vamos poder confrontar apenas dois projetos. Vai ficar muito mais claro para você a natureza de cada um dos projetos. Nós, do lado da social democracia, do estado de bem estar social que garante o direito do cidadão, que garante o direito do trabalhador, que cumpre a Constituição de 1988, que ampliou as possibilidades e as oportunidades. 

Fernando Haddad tem muitos votos a ganhar à sua direita e, com isso, procura agora projetar uma imagem diferente daquela que demonstrou na primeira volta, onde o PT tem por hábito ser mais radical. Nesta segunda volta, e ainda para mais quando tem pela frente um candidato outsider como Jair Bolsonaro, interessa ao PT afirmar-se como uma opção de estabilidade e razoabilidade. Por isso, Haddad quis demonstrar confiança no confronto entre os “dois projetos”. Sem procurar definir o projeto do adversário, avançou imediatamente para a defesa do seu. Nessa defesa, procurou apelar aos eleitores da esquerda com expressões frequentes no léxico do PT: expressões como “direito do cidadão”, “direito do trabalhador” e a ideia da ampliação de “possibilidades” e “oportunidades” não são aqui novidade. Porém, Haddad procura fazer um avanço, ainda que tímido, em direção ao centro, ao utilizar outras ideias. Uma é o uso da expressão “social-democracia”, piscando assim o olho ao eleitorado do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), de Geraldo Alckmin, cujos eleitores Haddad terá de cativar para vencer. Outra é a defesa, sem qualquer recurso a adversativas, da Constituição de 1988, apesar de o próprio PT ter no seu programa a instauração de um processo constituinte — e de, entretanto, já o ter posto de parte, como veremos mais à frente.

Eu tenho dito: uma pessoa tem que acordar e ter para onde ir. É como aprendi com meu pai. E isso exige do poder público oportunidades de emprego e de educação. É carteira de trabalho assinada numa mão e um livro na outra. Espírito desarmado em virtude do desejo de promover o desenvolvimento com inclusão social.

Mais à frente na sua saudação, Haddad cita o exemplo do seu pai. Neste caso, era mesmo do pai biológico que falava: Khalil Haddad, libanês que emigrou para o Brasil aos 24 anos para se fixar como comerciante de tecidos. No entanto, durante a primeira volta, o “pai” que Haddad citava e usava como exemplo foi invariavelmente outro: Lula, o seu pai político. Ora, o que Haddad procura aqui é evidente: conquistados que estão 29% dos eleitores, o homem do PT procura agora afastar-se da figura de Lula, que tanto divide opiniões no Brasil. Por isso, não lhe disse o nome uma única vez durante a entrevista — uma grande mudança para o homem que, na primeira volta, concorreu sob o lema “Lula é Haddad e Haddad é Lula”.

Jair Bolsonaro

Boa noite brasileiros. Primeiro, meu muito obrigado aos quase 50 milhões de pessoas que acreditaram em mim no último domingo. O nosso compromisso, a nossa plataforma, a nossa bandeira baseia-se em João 8:32: ‘E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará’. Meu muito obrigado às lideranças evangélicas, ao homem do campo, seja do agronegócio, quer seja da agricultura familiar. Obrigado caminhoneiros, obrigado policiais civis e militares, integrantes das Forças Armadas. Obrigado, família brasileira, que tanto clama para que seus valores sejam respeitados. E mais ainda que a inocência da criança em sala de aula esteja acima de tudo. Então o meu muito obrigado, em especial à região Nordeste que, apesar de ter perdido lá, nunca alguém que fez oposição ao PT teve uma votação tão expressiva como eu tive.


Bolsonaro usou a enumeração para assim poder chegar a quase tudo e a quase todos: desde os 46% de eleitores que votaram nele, até àqueles que votaram nele em menor número. Começou por agradecer “às lideranças evangélicas”, numa referência especial a Edir Macedo, bispo e fundador da IURD, que declarou o seu apoio a Bolsonaro; passou ao “homem do campo”, juntando na mesma frase os mais ricos e os mais pobres entre os que vivem da terra; saudou os camionistas, que em maio protagonizaram uma greve que parou o país; não se esqueceu da sua base, a segurança, ao falar de polícias e militares. Depois, falou da “inocência da criança em sala de aula” para dar a primeira alfinetada em Haddad, que nos seus tempos de ministro da Educação quase levou adiante um programa polémico de combate à homofobia nas escolas — algo que, com a revolta entre os parlamentares mais conservadores — e também com o veto da Presidente Dilma Rousseff — ficou para trás. Por fim, Bolsonaro terminou a sua saudação com um agradecimento “especial” à região do Nordeste: a única região, entre as cinco que compõem o Brasil, onde perdeu. Uma das formas de Bolsonaro ganhar no país é perdendo menos ali — e é nisso que o candidato da extrema-direita parece estar concentrado. Aliás, na reta final da primeira volta, Bolsonaro já sabia isso. Tanto que, numa entrevista à Rádio Jornal do Commercio de Pernambuco, no Nordeste, chegou a dizer que lamentava a prisão de Lula, ele próprio um nordestino, dizendo que, se não fossem os crimes de corrupção, ele teria tudo para ter sido um “grande presidente” e para “ter marcado a História”.

A Constituição

Fernando Haddad

Em primeiro lugar, sobre a primeira pergunta, nós revimos o nosso posicionamento. Nós vamos fazer as reformas devidas por emenda constitucional.

Um dos elementos do programa do PT era a defesa da convocatória de uma Assembleia Constituinte para “restabelecer o equilíbrio entre os Poderes da Republica e assegurar a retomada do desenvolvimento, a garantia de direitos e as transformações necessárias ao país”. Haddad chegou a defender que a revisão constitucional faria do texto fundamental da república brasileira um documento “mais enxuto” e tornaria possível a reforma de um “sistema tributário que penaliza gravemente os mais pobres”. Ora, essa proposta não caiu bem no eleitorado que não votou no PT na primeira volta. Até o candidato ideologicamente mais próximo do PT, Ciro Gomes, disse que aquela proposta servia para o partido de Lula, Dilma e Haddad se “vingar” do que lhe aconteceu nos últimos anos. Agora, um dia depois das eleições, de forma seca, Haddad voltou atrás com essa proposta — e, assim, tentou chamar para junto de si o eleitorado à sua direita, de Ciro a Alckmin.

Jair Bolsonaro

Ele [Hamilton Mourão, número dois de Bolsonaro]  é general, eu sou capitão, mas eu sou o Presidente. O desautorizei nesses dois momentos. Ele não poderia ir além daquilo que a Constituição permite. Jamais eu posso admitir uma nova constituinte, até por falta de poderes para tal. E a questão de autogolpe não sei, não entendi direito o que ele quis dizer naquele momento. Mas isso não existe. Estamos disputando as eleições porque nós acreditamos no voto popular, e seremos escravos da nossa Constituição. Repito: o presidente será o senhor Jair Bolsonaro. E nos auxiliará sim o general Augusto Mourão… Hamilton Mourão. E ele sabe muito bem da responsabilidade que tem por ocasião da sua escolha para ser vice. Nós queremos demonstrar com isso que precisamos sim ter um governo com autoridade, e sem autoritarismo. Por isso nos submetemos ao sufrágio popular. E tenho certeza que uma vez eleito, o que falta um pouco ao general Mourão é um pouco de tato, um pouco de vivência com a política. E ele rapidamente se adequará à realidade brasileira e à função tão importante que é a dele. General Augusto Mourão, agradeço a sua participação, mas nesses dois momentos ele foi infeliz, deu uma canelada.

A convivência entre Bolsonaro e o seu escolhido para vice-Presidente, o general Hamilton Mourão, não tem sido fácil. Enquanto Bolsonaro esteve hospitalizado, o seu número dois desdobrou-se em gaffes: falou mal do 13º salário; colocou a hipótese de um “auto-golpe” no caso de o seu governo ser recebido com luta por parte do legislativo; disse que a Constituição de 1988 “foi um erro” e propôs que esta fosse substituída por um texto fundamental escrito por “notáveis” e sem passar pelo Congresso. Nesta entrevista, Bolsonaro foi chamado a comentar estes casos, com especial ênfase para a proposta de uma Constituição sem consulta do Congresso — e a maneira como o fez foi tudo menos cordata para o general Hamilton Mourão. Além de se ter enganado no nome do seu vice duas vezes — corrigindo-se à primeira e ignorando a segunda vez em que se enganou — disse que lhe falta “um pouco de tato, um pouco de vivência com a política” e que ele “deu uma canelada”. O tom, aliás, foi logo dado no início da resposta: “Ele é general, eu sou capitão, mas eu sou o Presidente”. Assim, Bolsonaro deixou claro que é ele que manda e que o general Hamilton Mourão é uma figura de bastidores. O mesmo já tinha ficado claro no discurso de vitória de domingo: além de uma tradutora para linguagem gestual, Bolsonaro tinha apenas ao seu lado o responsável pela sua política económica, Paulo Guedes. O candidato a vice-Presidente apareceu, sim, mas lá ao fundo, vagueando e de mãos nos bolsos.

As propostas

Fernando Haddad

Nós vamos fazer as reformas devidas por emenda constitucional. Quais delas? Em primeiro lugar, a reforma tributária. No Brasil, quem sustenta o Estado é o pobre. Infelizmente, quem paga mais imposto proporcionalmente à sua renda é o pobre e os muito ricos não pagam absolutamente nada, paga uma proporção muito pequena da sua renda. A reforma tributária será feita por emenda constitucional, que prevê, inclusive, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco salários mínimos, proposta defendida por nós desde janeiro de 2018 e que contempla o nosso plano de governo. Segunda reforma importante é a reforma bancária. Não é possível continuar convivendo com a concentração de bancos, com as taxas de juros que eles cobram do empresário que quer produzir e do consumidor que quer comprar no crediário. Se nós fizemos com que o juro baixe, o lucro do empresário sendo maior que o juro, as pessoas vão voltar a investir e vão voltar a contratar. E se nós diminuirmos os impostos da classe média e dos mais pobres, eles voltarão ao mercado de consumo e exigirão dos empresários que contratem força de trabalho para produzir mais.

Depois de abrir mão de uma nova Constituição, Haddad sublinhou ainda assim que pretende fazer duas emendas constitucionais: uma para reformar o sistema tributário e outra para reformar o sistema bancário. Aqui não há nada de novo: tanto uma como outra já faziam parte do programa do PT, embora não tivessem sido anunciadas como fazendo parte de possíveis emendas constitucionais. Aqui, Haddad continua a falar à base do eleitorado do PT: as classes mais pobres e, no limite, alguma classe média menos endinheirada. No entanto, procura dar a estas medidas um novo embrulho, mais apelativo ao centro, ao falar também para os empresários.

Jair Bolsonaro

Nós não pretendemos acabar com o Bolsa Família, muito pelo contrário. Nós pretendemos acabar com as fraudes para que aqueles que realmente precisam possam ter um dinheiro um pouco maior. Homens e mulheres do Bolsa Família, fiquem tranquilos. Não pretendemos criar ou aumentar o Imposto de Renda, a cobrança do Imposto de Renda. Mentira. A proposta do nosso economista Paulo Guedes é que quem ganhe até 5 mínimos não descontará Imposto de Renda. E acima disso, uma tabela de 20% para todos. Não pretendemos recriar a CPMF, eu fui um dos que votou contra a CPMF no passado. Nós queremos um Brasil aberto ao negócio com o mundo todo, fazer parcerias com o mundo todo.

Mais uma vez, Bolsonaro procura cativar o eleitorado entre o qual teve menos votos: os mais pobres. Ao dizer aos “homens e mulheres do Bolsa Família” que podem ficar “tranquilos”, está a falar para 13,7 milhões de famílias brasileiras de baixos recursos. E foi isso que continuou a fazer ao dizer que não vai criar ou aumentar impostos — e ao sublinhar que não vai cobrar impostos a quem receba até cinco salários mínimos. Depois, mudou a agulha e voltou o discurso para a classe média, para a classe média-alta e para os empresários. Além de dizer que não pretende “recriar” a CPMF — sigla para Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras — defendeu uma flat tax de 20% sobre o salário. Neste capítulo, embora com maior discrição, Bolsonaro volta a dizer à sua equipa e ao seu eleitorado que quem manda é ele — isto porque, também enquanto ele esteve hospitalizado, o economista Paulo Guedes chegou a propôr uma taxa em muito parecida com o CPMF, que vigorou entre 1997 e 2007.

Jogar pesado na questão da segurança pública, fazer com que as mulheres se sintam protegidas no Brasil.

De novo, Bolsonaro procura apelar a outra esfera do eleitorado que lhe oferece maior relutância: as mulheres. Pegando no tema da segurança, um dos principais pilares da sua campanha, Bolsonaro tenta apagar o seu passado de declarações misóginas. Desta forma, não só fala de segurança, como também fala da segurança das mulheres.

A despedida

Fernando Haddad

Queria agradecer Renata, Bonner, a oportunidade de reiniciar o segundo turno na presença de vocês, podendo conversar com o eleitor e com a eleitora. E pedir a todos que acompanhem essas três semanas. O futuro do país está em jogo. O futuro da democracia está em jogo. O futuro dos seus direitos sociais e trabalhistas está em jogo. Queremos, respeitosamente, pedir sua compreensão, seu apoio, a sua atenção, para que você vote conscientemente. Muito obrigado!

Quando lhe pedem que se despeça, Haddad volta a investir em ideias do PT (“o futuro dos seus direitos sociais e trabalhistas está em jogo”) e sem falar diretamente de Bolsonaro torna a insistir na ideia de que este é perigoso para a democracia: “O futuro da democracia está em jogo”. E, depois, torna a pedir votos a quem até agora não o considerou como o melhor candidato: sublinhando que o faz “respeitosamente”, pede “compreensão”. Esta formulação já parece ter como público-alvo o eleitorado anti-petista que não chegou a votar em Bolsonaro. Porém, no jogo de apelar aos que já tem e de convencer aqueles que ainda o desconsideram, Haddad acaba por não falar de forma clara para ninguém.

Jair Bolsonaro

Vamos pacificar e unir o povo brasileiro, sob a bandeira verde e amarela, sob o nosso Hino Nacional, juntando todos que foram divididos no passado pela esquerda. Dessa forma podemos mais que sonhar, temos a certeza que faremos um Brasil diferente do que foi feito até o momento. Não aceitaremos o toma-lá-dá-cá, e nem imposição partidária para escolhermos o time de ministros. Será um time, aí sim, de notáveis, competentes, e com autoridade para buscar o que é o melhor para o Brasil e não para agremiações político-partidárias.

Aqui, Bolsonaro procura projetar-se como uma figura nacional, acima de ideologias e sobretudo de partidos. Ao evocar a imagem da “bandeira verde e amarela”, que por oposição às bandeiras vermelhas do PT foi um dos símbolos das manifestações contra os governos de Lula e Dilma,  Bolsonaro fala de seguida da divisão provocada pela “esquerda”. Depois, falou contra o “toma-lá-dá-cá” — leia-se corrupção — e dos jogos partidários, dos quais procurou afastar-se, cavalgando, mais uma vez, a ideia de que é um outsider , com ficha limpa. Pegou ainda na expressão “notáveis” — os tais que o seu vice referiu na gaffe da constituinte — e disse que os seus ministros, esses sim, seriam “notáveis”.

As verdades, as quase verdades e as mentiras de Haddad e Bolsonaro

Fernando Haddad

Conforme eu tenho dito ao longo dessa campanha, eu, que tenho apenas 20 dias de campanha e consegui atingir 29% dos votos, mais de 30 milhões de brasileiros e brasileiras confiaram no nosso projeto.

Haddad não tem 20 dias de campanha — tem mais do que o triplo. Na lógica que o candidato do PT tentou avançar nesta entrevista, a sua campanha começou no dia em que Luiz Inácio Lula da Silva desistiu de ser o número 1 da candidatura do PT e deu assim o seu lugar a Haddad. Ora, isso aconteceu a 11 de setembro — ou seja, 27 dias antes das eleições e não 20, como o candidato referiu. Seja como for, o tempo de campanha de Haddad é muito mais extenso do que 20 ou 27. Isto porque Haddad foi anunciado como candidato a vice-Presidente de Lula no dia 6 de agosto. Ou seja, o ex-prefeito de São Paulo teve 63 dias de campanha até à primeira volta das eleições — ao que acresce o facto de a impossibilidade legal de Lula concorrer a partir da prisão ter feito com que Haddad fosse, na prática, sempre o número 1 do PT.

Resultado: Errado

Reforma tributária será feita por emenda constitucional, que prevê, inclusive, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco salários mínimos, proposta defendida por nós desde janeiro de 2018 e que contempla o nosso plano de governo. 

Sim, o PT e defende a isenção de impostos para quem ganha até cinco salários mínimos já desde janeiro de 2018. A 21 de janeiro, o Estado de S. Paulo escrevia que o PT preparava uma “plataforma de governo que põe o Estado como ‘motor do desenvolvimento’, prega gestão fiscal ‘anticíclica’ para estimular o crescimento em época de crise, isenta quem ganha até cinco salários mínimos de pagar Imposto de Renda”. E no programa do PT consta a promessa de “isentar o Imposto de Renda das Pessoas Físicas de todos aqueles que ganham até cinco salários mínimos”.

Resultado: Certo

Jair Bolsonaro

Então o meu muito obrigado, em especial à região Nordeste que, apesar de ter perdido lá, nunca alguém que fez oposição ao PT teve uma votação tão expressiva como eu tive. 

Não é verdade que Bolsonaro tenha o melhor resultado no Nordeste enquanto oposição ao PT. Bolsonaro teve 25,8% do Nordeste, ao passo que Haddad teve 51%. No entanto, nas eleições de 2006, que ditaram a reeleição de Lula, o adversário do petista, Geraldo Alckmin, conseguiu 26,1% de votos no Nordeste.

Resultado: Errado

Nós não pretendemos acabar com o Bolsa Família, muito pelo contrário. Nós pretendemos acabar com as fraudes para que aqueles que realmente precisam possam ter um dinheiro um pouco maior. Homens e mulheres do Bolsa Família, fiquem tranquilos.

A relação de Jair Bolsonaro com o Bolsa Família tem mudado ao longo do tempo. Enquanto deputado, era até bastante crítico deste programa social criado em 2003 pelo Governo de Lula. “Disputar eleições num cenário desses é desanimador. É compra de votos, mesmo! Que bom se o eleitor tivesse o mínimo de discernimento”, disse em 2010, ano de eleições. Em 2011, disse que o Bolsa Família é “um projeto para tirar dinheiro de quem produz e dá-lo a quem se acomoda, para que use seu título de eleitor e mantenha quem está no poder”. Em 2012, voltou a insistir na ideia de compra de votos: “Se eu der 20 reais para você votar em mim, posso perder meu registro, ser cassado. Agora, o governo dá para 10 milhões de famílias de forma vitalícia 40 milhões por ano, e tudo bem”. Aí, a crítica era para todo o programa e não apenas para as eventuais fraudes.

Na atual campanha, tem sido dúbio. A verdade é que, desde que é candidato, nunca disse com todas as letras que queria acabar com o Bolsa Família. Em vez disso, refere que os números de fraude são altos — numa entrevista recente, apontou para 30% de “benefícios que foram dados sem qualquer critério”. Na entrevista desta segunda-feira, voltou a prometer um combate à fraude.

A posição pode levantar ainda mais dúvidas quando, no programa de governo, Jair Bolsonaro prevê a criação de um “Programa de Renda Mínima”  com um valor “acima” do Bolsa Família. O que é, afinal, esse “Programa de Renda Mínima”? Bolsonaro explica que a meta é a de “garantir, a cada brasileiro, uma renda igual ou superior ao que é atualmente pago pelo Bolsa Família” — uma descrição que pode até ser interpretada como a instauração de um rendimento básico universal. Ora, o Bolsa Família não é isso — e Bolsonaro sabe-o. Por isso, no programa eleitoral acaba por prometer uma “modernização” e “aprimoramento” deste programa social. No entanto, aquilo que promete — dinheiro para todos — é diferente do que o Bolsa Família pretende fazer, que é dar dinheiro aos mais pobres. Se o Bolsa Família serviria apenas para comprar votos, um subsídio para todos, independente do rendimento ou da condição social que tenham, garantiria muitos mais.

Resultado: Enganador

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