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Philipp Bagus
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▲Philipp Bagus é professor de Economia na Universidade Rei Juan Carlos, em Madrid.

Jesús Mohedano/DR

▲Philipp Bagus é professor de Economia na Universidade Rei Juan Carlos, em Madrid.

Jesús Mohedano/DR

"Haverá políticos que começarão a autoproclamar-se 'os novos Milei'", diz o economista Philipp Bagus

Philipp Bagus, professor de economia e confesso seguidor da Escola Austríaca de Economia (a mesma de Milei), escreveu sobre o Presidente da Argentina, que acredita poder dar a volta ao país.

É o próprio Javier Milei que escreve o prefácio do livro, editado em Portugal pela D. Quixote, “Javier Milei – A Causa da Liberdade”, escrito por Philipp Bagus, professor de economia em Madrid e confesso seguidor da mesma escola económica do Presidente da Argentina. Milei refere-se a Bagus, nesse prefácio, como “o meu querido amigo”, que conheceu em fevereiro de 2021. Quase três anos depois, Milei ganhou as Presidenciais de 2023, assumindo o poder da Argentina em dezembro desse ano.

E empreendeu uma agressiva reforma económica, que passou por cortar no Estado, com o despedimento de cerca de 50 mil funcionários e cortes de subsídios que estão a infligir dano em parte da população. Mas Milei acena com os dados económicos. A inflação baixou, as contas públicas já apresentam excedentes, e o PIB está a crescer. Foi aos 11 anos que Milei decidiu estudar economia. A política, diz-se na biografia, não lhe interessa. “Ainda hoje, como Presidente da Argentina, continua a dizer-se ‘Economista’. A sua paixão é divulgar as noções básicas de economia entre a população em geral. Ler e estudar economia fá-lo feliz, é quase uma obsessão”.

Começou por ser um pós-keynesiano, depois passou a neokeynesiano e neoclássico. “Mas, de repente, depara-se-lhe um artigo de Murray Rothbard. Trata-se de um capítulo do tratado ‘Homem, Economia e Estado’. Devora as 140 páginas em três horas. Depois disso, o mundo torna-se num lugar diferente para Milei”. E torna-se um economista da Escola Austríaca. Mas acaba, também, por ir parar à política, conta Philipp Bagus que atribui esse passo ao objetivo de espalhar ideias e ser o divulgador. Antes desse projeto político, conta o economista no livro, Milei contrata uma pessoa para investigar a sua vida, para verificar se tem “esqueletos escondidos no armário”. Conta Bagus: “O responsável pela investigação informa-o: ‘Tenho boas e más notícias. A boa notícia é que não encontrei nenhum corpo. A má notícia é que vão inventar qualquer coisa'”.

Milei foi eleito em 2023. Fará este ano dois anos de Presidência, não sem antes ser “testado” nas eleições parlamentares de outubro. Será uma espécie de referendo, admite Bagus que acredita que o partido de Milei vai conquistar mandatos. Mas recusa que Milei diga o que as pessoas querem ouvir, antes vê-o como uma pessoa que “diz o que pensa e faz o que diz”. Ainda assim, não conseguirá implementar tudo o que defende.

Tal como Javier Milei, é também um apoiante da Escola Austríaca de Economia. Isso implica que a biografia que escreveu “Javier Milei – A Causa da Liberdade” é tendenciosa? Teve isso em conta ou procurou fazer uma apreciação imparcial de Milei?
Naturalmente, tentei fazê-lo da forma mais imparcial e sem preconceitos possível, ou pelo menos tão imparcial quanto humanamente possível para mim. Mas conheço-o pessoalmente e considero-o um amigo. No entanto, procurei igualmente analisar fontes mais críticas, como por exemplo o da biografia “El Loco”. Sabia que podia ser tendencioso, mas tentei ser o mais objetivo possível. Espero ter feito um bom trabalho nesse campo.

Milei está a corresponder às expectativas dos defensores da teoria da Escola Austríaca? O seu trabalho corresponde, até agora, ao esperado?
Considerando a situação em que estava, ou que ainda está, o seu sucesso é intrigante ou fascinante. O país estava à beira do colapso quando chegou ao poder em dezembro de 2023. A taxa de inflação era de 25% ao mês. O défice era de 15%. Não tem maioria no parlamento. E o país encontrava-se em recessão. Agora, está a crescer. Em junho, o crescimento homólogo foi de 6,4%. Desde maio/junho de 2024, o país regista crescimento. A taxa de pobreza tem vindo a diminuir, caiu mais de 20% desde o início de 2024. Milhões de argentinos saíram da pobreza. Inclusivamente, a UNICEF – a instituição das Nações Unidas – reconheceu que, em 2024, 1,7 milhões de crianças saíram da pobreza. Portanto, isto é um grande sucesso. Não é totalmente inesperado, pois, aplicando ideias libertárias e de liberdade, obtém-se mais crescimento e menos pobreza. Mas a dimensão do sucesso é muito significativa. Como referi, o défice era de 15% e ele cortou 30% da despesa pública em pouco tempo. Outros economistas diriam que a queda da despesa pública é má para a economia e provocará uma grande recessão. Mas aconteceu o contrário.

Foram despedidos funcionários públicos, deixando pessoas no desemprego. A taxa de desemprego aumentou e houve cortes nos serviços públicos. Isso não causa sofrimento? Não é uma forma de austeridade?
Bem, austeridade no setor público significa mais espaço para o setor privado. O governo gastava 50% do PIB. Agora, estes recursos já não estão sob controlo estatal, mas disponíveis para a economia privada. Isto torna possíveis muitos projetos de investimento privado que antes não eram viáveis, explicando o crescimento económico. Havia muitos subsídios para empresas, bem como proteção à indústria nacional, as empresas estavam protegidas da concorrência estrangeira e os argentinos não podiam comprar produtos melhores e mais baratos de outros países, tendo de comprar apenas os produtos nacionais caros e inferiores. Ao abrir o país, como Milei fez, essas empresas protegidas podem enfrentar dificuldades e despedir trabalhadores. Estes sofrem por perderem o emprego e terem de procurar outro, mas é vantajoso para os consumidores argentinos, que agora podem comprar produtos que considerem superiores e mais baratos. O mesmo acontece com os funcionários públicos. Se forem despedidos, como 50.000 o foram, sofrem. Mas isso possibilita a redução de impostos. E os impostos foram reduzidos, especialmente o imposto da inflação.

A inflação é tudo, é o principal alvo de sua atuação?
Sim, foi eleito para baixar a inflação. E, como disse, estava em 25% no primeiro mês do seu mandato. Agora, durante três meses consecutivos, está abaixo de 2% ao mês. Portanto, a diferença é enorme. A redução da inflação foi conseguida com sucesso. A inflação, como imposto, é progressiva e afeta sobretudo os mais pobres. Esta é a principal razão para a queda da pobreza, porque o imposto que é a inflação foi reduzido. Sim, os funcionários públicos despedidos sofrem. Mas há outros que beneficiam com a redução da inflação. É preciso reconhecer que a Argentina foi um país muito corrupto, onde muitos empregos públicos foram criados apenas para amigos e familiares, não trabalhavam assim tanto. Eliminar estes postos de trabalho acho que é positivo.

Não é um problema a taxa de desemprego ser mais elevada? E o poder de compra dos argentinos é também muito baixo?
Sobre o desemprego: a taxa tem-se mantido mais ou menos estável. Não sei os números exatos agora, mas creio que ronda os 7%. Segundo o que me recordo, o emprego está em máximos. Ou seja, o número de pessoas com emprego está em máximos. Mais pessoas entraram no mercado de trabalho durante a governação de Milei. O poder de compra aumentou. Os salários reais subiram em 2024 para todos os grupos exceto funcionários do Estado. Em média, os salários reais subiram 13%. Desde meados de 2024, os salários reais cresceram e cresceram mais depressa do que a inflação. Naturalmente, a Argentina continua pobre. Sempre será possível encontrar pessoas muito pobres e em situações precárias. Mas, de uma forma geral, a vida das pessoas está melhor do que há um ou dois anos.

Foi a ideologia de Milei que o fez ganhar as eleições ou foi o discurso populista? As pessoas conhecem as teorias?
Como digo no livro, houve muitas razões que o levaram a ganhar, e muitas razões pelas quais alguém com esta ideologia conseguiu chegar a Presidente. Eu costumo dizer que foi como uma constelação de estrelas que se junta de mil em mil anos, e tudo se combinou. Uma das razões foi o facto de a Argentina ter sido arruinada pelo socialismo durante tanto tempo, e estar à beira do colapso, à beira da hiperinflação. As pessoas disseram: “Bem, vamos tentar outra coisa. Mesmo que ele pareça louco, vamos dar-lhe uma oportunidade’, porque estavam fartas dos outros políticos. Claro que a sua retórica foi muito importante, e também o carisma. Ele aparece como uma espécie de estrela rock, e muitas pessoas gostam dele, continuam a gostar muito dele. Não todas, claro — os funcionários públicos despedidos não gostam — mas grande parte da população gosta realmente dele. E não tanto pelas teorias, mas porque o veem como alguém autêntico.

Parece ser alguém honesto, que não mente só para conseguir votos. Nesse sentido, não é populista. Uma definição de populista é alguém que diz ao povo aquilo que ele quer ouvir, promete soluções fáceis, como ‘vamos taxar os ricos, redistribuir, e tudo ficará bem’. Milei fez o contrário. Ele disse exatamente o que faria: reduzir o tamanho do Estado. Disse também que, no início, as coisas iam ser duras, que haveria sofrimento. Não mentiu sobre isso. O que disse foi: “Desta vez, o sofrimento vai valer a pena.” Por isso, nesse sentido, não é populista. No livro falo do conceito de populismo de direita de [Murray] Rothbard, que diz que a elite política — os políticos, os burocratas, os meios de comunicação estatais, os académicos estatais, os empresários subsidiados —, aquilo que Milei chama de “casta”, esse establishment vive às custas da população que trabalha. Milei coloca-se do lado dessa população trabalhadora, o populus, e nesse sentido é a defesa do populus contra o estabelecido. Essa retórica também foi importante para vencer. Mas a questão sobre quantos dos seus eleitores são verdadeiros libertários convictos, provavelmente não muitos. Na primeira volta conseguiu cerca de 30%. Dentro desse grupo, uma parte significativa partilha a ideologia. Mas na segunda volta juntou também conservadores, menos radicais mas anti-Peronistas ou anti-Kirchneristas, e chegou aos 55%. Foi uma aliança entre libertários e conservadores anti-socialistas.

Javier Milei ganha eleições presidenciais e promete transformar Argentina numa “potência” através da “liberdade”

Como foi possível passar, num país como a Argentina, que tem um Estado tão pesado, do peronismo ou o kirchnerismo para a visão oposta: que advoga um Estado mínimo? São duas visões completamente diferentes. E com um Estado argentino tão grande como é possível virar para o lado completamente oposto?
Parece quase um milagre.

Não é mais difícil atingir o objetivo num país, como a Argentina, que tem um Estado com muito peso?
Há mais resistências depois de décadas de peronismo e houve uma mentalidade socialista peronista na Argentina e depois Milei veio com o que chama de batalha cultural, uma luta pelas ideias. E fê-lo com muito sucesso, usando a televisão, a rádio, foi uma estrela na televisão e conseguiu transmitir as teorias económicas complexas na televisão, onde só se pode dizer uma ou duas frases. E é muito difícil pegar nestas ideias complexas e transmiti-las de forma simples, de forma a que as pessoas percebam. É uma das características de Milei que eu considero das mais especiais, ter esta capacidade de explicar estas ideias da Escola Austríaca de Economia, do libertarianismo, de forma tão atrativa e apelativa. E depois fez um espetáculo de teatro, onde no final destruía uma maqueta do Banco Central. Foram modos muito inovadores de levar essas ideias às pessoas. Ele próprio apresenta-se como um divulgador, ou seja, alguém que populariza ideias. E penso que pode ser insuperável nessa capacidade. Levou dez anos. E, claro, a situação era propícia, no sentido em que a Argentina atravessava uma crise, a corrupção era enorme e as pessoas estavam fartas da política. Mas foi isso que tornou possível que ele chegasse ao poder e mudasse, de facto, a mentalidade. E vê-se isso nos jovens. Entre os jovens, a percentagem de apoio a Milei é, ainda hoje, a mais elevada — não só nas eleições, mas também agora. Ele conseguiu realmente mudar a forma de pensar da juventude. Assim, as novas gerações de argentinos são, em grande medida, “mileinials” ou libertários.

Mas vemos essa mudança dos jovens acontecer também noutros países, não em favor de políticos libertários, mas sim de políticos de direita e de populistas. Vemos esse movimento da juventude para figuras como Trump, e na Europa para partidos da extrema-direita, que estão a crescer. Portanto, não é um caso específico da Argentina, nem o de seguir as teorias de Milei. É um movimento global.
Sim, é uma tendência geral. E penso que a razão é a seguinte: como também digo no livro, os jovens são rebeldes. Estão contra o status quo. E o status quo hoje tem uma orientação de esquerda. Assim, como refiro no livro, a esquerda alcançou uma hegemonia ideológica na opinião pública. E, claro, tendo tido ou continuando a ter essa hegemonia, também acabam por adotar posições que, pelo senso comum, parecem muito estranhas. Por exemplo: alguém que é homem e afirma ser mulher e depois vai para uma prisão feminina; ou participa nos Jogos Olímpicos e compete contra mulheres, derrotando-as fisicamente. Pelo senso comum, isto parece uma loucura, mas é a consequência lógica desse wokismo quando levado ao extremo. E foi isso que aconteceu. Portanto, penso que existe uma espécie de reação contra tudo isso, que aparece sobretudo entre os jovens. E os jovens, claro, estão mais abertos a novas ideias. Eles ainda não têm a sua posição definitiva. A ideologia fixa-se muito mais quando as pessoas envelhecem.

É justo colocar Milei e Trump ou Meloni no mesmo saco?
Trump defende tarifas mais altas. As tarifas são impostos. Portanto, Milei não quer tarifas mais altas, quer menos impostos. Já Trump, pelo contrário, quer mais inflação. Ele pede ao presidente da Reserva Federal para baixar as taxas de juro, o que significa imprimir mais dinheiro. Milei, pelo contrário, quer imprimir menos dinheiro — na verdade, quer destruir o banco central e travar a emissão de moeda. Portanto, neste ponto, são totalmente opostos. E, claro, Trump é um analfabeto em economia. É um oportunista. Não é um professor de economia como Milei. O que Milei tem em comum com Trump ou Meloni é a oposição ao wokismo, e contra ideologias de género, contra a histeria climática, contra o radicalismo feminista que concede privilégios e contra o aborto. Em questões mais culturais, anti-socialismo, e anti-wokismo, nessas áreas, podem ser aliados. E penso que a ideia de Milei é também tentar convencer essas pessoas do libertarianismo noutras áreas.

O papel mínimo do Estado defendido por Milei, mas que assume não poder ir tão longe

Falemos um pouco da Escola Austríaca de Economia. Qual é, nessa teoria, o papel do Estado? Que serviços deve o Estado fornecer às pessoas?
A Escola Austríaca não estuda equilíbrios matemáticos, como faz a Escola de Chicago ou a Escola Keynesiana, mas sim o processo dinâmico do mercado, impulsionado por pessoas reais. E a Escola Austríaca chega à conclusão, depois de estudar esse processo de mercado, de que todos os bens e serviços podem ser fornecidos nesse mesmo processo [de mercado] de forma melhor, mais barata, mais eficiente e mais justa do que o Estado consegue fazer. O Estado não consegue melhorar o resultado deste processo dinâmico de mercado porque não tem o conhecimento necessário para o conseguir. Esta é uma das conclusões mais importantes — ou mesmo a mais importante — da Escola Austríaca: o Estado não tem o conhecimento para melhorar este processo. Portanto, a resposta é: nenhum.

Nem mesmo na defesa ou na segurança interna?
Não. Milei considera-se, em termos filosóficos, anarcocapitalista, mas na prática é um minarquista. O que ele quer dizer com isto é que concorda com a ideia teórica de que também a segurança pode ser privada, fornecida de forma mais barata, mais eficiente e melhor se estiver em concorrência do que se for um monopólio. E que é também mais justo — ou, dito de outra forma, é injusto tirar dinheiro às pessoas para financiar os militares, para as taxar com o objetivo de financiar as forças armadas. Ele diz que, em teoria, isso é injusto, mas reconhece que, na prática, é muito difícil chegar lá. Por isso, na prática, o seu objetivo é ter um Estado mínimo. Que o Estado apenas se ocupe das forças armadas, ou seja, da segurança externa e da defesa; da segurança interna, isto é, da polícia; e da jurisdição, ou seja, do sistema judicial. Portanto, na prática, ele é um ‘minarquista’; na ideologia é anarcocapitalista. E é por isso que ele diz coisas como “a tributação é roubo”, “os políticos são parasitas”, “o Estado não é a solução, o Estado é o problema”, porque esta é a sua visão filosófica.

Tudo ficaria para a iniciativa privada?
Sim.

Mas há alguma garantia de que a iniciativa privada forneça todos esses serviços a preços acessíveis e de forma abrangente? E, nessa visão, existe espaço para regulação, ou não é necessária?
Milei não cortou os apoios sociais. O que cortou foram subsídios e transferências para as províncias. Mas porque é que não cortou os benefícios sociais? Porque, sendo um país tão pobre, se cortasse esses apoios, as pessoas morreriam de fome. Portanto, não é possível fazê-lo já. Primeiro é preciso crescimento económico. Assim, a primeira coisa que ele fez foi estabilizar a macroeconomia, travar a hiperinflação e, a partir daí, criar condições para o crescimento. Só depois será possível ir reduzindo o papel do Estado, passo a passo. E, com mais crescimento, a economia e a sociedade passarão a ter mais recursos, e poderão então cuidar muito melhor dos pobres, dos incapacitados e dos que não conseguem sustentar-se sozinhos num país tão pobre como a Argentina. Antes de Milei, muitas pessoas passavam fome. Não havia sequer a garantia de que todos tivessem acesso a comida suficiente. Mesmo estando na constituição, mesmo que haja redistribuição, nunca se pode garantir que ninguém passe fome. Se tiver um país socialista e ele for muito pobre, as pessoas passarão fome na mesma. O que é preciso fazer é ter um país livre, onde exista crescimento económico e recursos suficientes, e se as pessoas não quiserem que outros passem fome e sofram, então encontrarão soluções sem depender do Estado para os ajudar. Nada impede as pessoas de ajudarem outras pessoas.

Neste momento não há possibilidade de tirar da esfera do Estado a saúde ou a segurança social. Mas o objetivo é retirar esses dois serviços ao Estado? E as pensões também ficam fora do Estado? Como seriam financiadas?
A transição é sempre difícil. Não só nas pensões, também no sistema de saúde, os jovens e saudáveis acabam por pagar pelos mais velhos, que precisam de mais cuidados. Por isso, a transição é muito difícil. Houve muitos planos para fazer essa transição. No fim, o problema é que uma geração tem de pagar duas vezes: tem de pagar pelos mais velhos, que não tiveram condições para poupar para si próprios porque o Estado lhes retirou contribuições através dos impostos, e ao mesmo tempo tem de começar a poupar para si mesma. Num sistema privado, as pessoas poupam para as suas próprias pensões, para garantirem a sua reforma. E, claro, isto é muito melhor. Se fizermos as contas, por exemplo, na Alemanha ou em Portugal, de quanto um trabalhador médio paga todos os meses para a segurança social, e se esse dinheiro fosse investido nos mercados financeiros a longo prazo, e depois compararmos a pensão pública que essa pessoa vai receber com o património que teria acumulado numa vida inteira a poupar dessa forma, a diferença é enorme.

Mas como se faz a transição?
Como disse, é difícil, porque existem pessoas idosas que não tiveram a capacidade de poupar, uma vez que a segurança social foi-lhes retirada e dada aos mais velhos. Sim, é uma transição difícil, mas não impossível. E pode ser feita.

Como? 
Se houver crescimento económico, torna-se muito mais fácil. Pode dar-se aos jovens a opção de permanecer no sistema antigo ou passar para o novo. Claro que isto demora várias décadas.

Não seria um sistema misto, complementando o sistema público com a poupança privada?
Pode pensar-se numa transição desse tipo, em que durante algum tempo existam ambos. Mas o objetivo final é ter apenas o privado.

E se as pessoas perdessem, por algum motivo, todo o dinheiro investido, como aconteceu em alguns casos nos Estados Unidos, haveria ajuda pública ou não? Haveria algum tipo de rede do Estado?
Primeiro diria que isso é quase impossível. Se se investir, por exemplo, no índice S&P 500 e se analisar os maiores colapsos ao longo de 30 ou 40 anos de trabalho — mesmo contando com a Grande Depressão — nunca houve um período em que, após 40 anos, não houvesse grandes ganhos acumulados. Mas, digamos, num caso extremo em que perde tudo — é totalmente livre de investir no que quiser — por exemplo, bitcoin ou outra criptomoeda. Nesse caso, dentro das ideias libertárias, o Estado não deveria usar dinheiro de impostos para salvar essa pessoa. Ela teria de contar com a ajuda voluntária dos seus concidadãos, com a caridade privada.

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▲ Milei com a motosserra que Philipp Bagus considera "lendária": "Simboliza a vontade de aparar brutalmente a casta e o Estado", diz no livro.

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Milei defende que o banco central é dispensável, ou seja, o Banco Central da Argentina não é necessário. Nesse caso, quem define a política monetária, nomeadamente as taxas de juro, são os bancos privados?
São os fornecedores e os que procuram poupança. Há pessoas que poupam dinheiro e o oferecem no mercado, e há pessoas que pedem crédito ou empréstimos. E daí resulta um preço de mercado, que é a taxa de juro. É assim que deveria ser: a taxa de juro não devia ser manipulada pelos bancos centrais. Aliás, este é o ponto central da teoria austríaca dos ciclos económicos: o problema surge quando os bancos centrais manipulam artificialmente as taxas de juro para níveis demasiado baixos. Quando isso acontece, muitos projetos de investimento começam a parecer rentáveis e dá-se um boom de investimento. Mas a taxa de juro não reflete as poupanças reais das pessoas; foi cortada artificialmente. E, então, surge uma crise, porque não existem recursos suficientes para concluir com sucesso todos esses projetos que começaram de forma errada, com base nessa taxa de juro artificialmente baixa. Acabar com o banco central seria, na minha opinião, do ponto de vista teórico, uma das maiores coisas que Milei poderia fazer — ou talvez mesmo a maior. Porque o sistema de moeda fiduciária, combinado com o sistema bancário de reservas fracionárias, conduz inevitavelmente a ciclos de boom and bust, de expansão e colapso, como a Grande Depressão ou a Grande Recessão. E isso significa enormes dificuldades para as pessoas: milhões perdem os seus empregos, empresas entram em falência, há recessões, depressões. Quero dizer, isto é realmente terrível para quem vive essas situações. Portanto, seria ótimo acabar com o banco central.

Nesse caso os bancos não teriam muito mais poder do que o consumidor, de forma a manipular a taxa de juro para que não seja justa?
Os bancos seriam apenas intermediários. Imagine: eu tenho poupanças e levo o meu dinheiro a um banco. Há vários bancos. Um banco oferece-me 3%, outro oferece-me 4%. Eu escolho o de 4%, sabendo que pode ser mais arriscado. Depois, você quer um empréstimo para comprar um carro e vai aos bancos. Um deles diz: pode ter um crédito automóvel a 6%. A diferença é o lucro do banco. Claro que há concorrência entre os bancos, mas eles são apenas intermediários, fazem a ponte entre os que têm poupanças (neste caso, eu) e os que precisam dessas poupanças (neste caso, você). Aliás, já hoje seria possível fazê-lo diretamente, sem bancos, através da internet, em plataformas que liguem aforradores e tomadores de crédito sem o intermediário bancário.

Mas não acha que devia haver, ou teria de haver, alguma regulação?
Para os bancos?

Para a determinação das taxas de juro. Sem banco central, tudo se decide pelos operadores de mercado. Haverá uma prática justa?
Sem o banco central, eu tenho poupanças você precisa de poupanças: juntamo-nos, eu digo “tenho dinheiro posso dar-lhe” e negociamos. Que tal 5%, e você responde se aceita ou não. Ninguém fixa nada de fora, são apenas os participantes do mercado a negociar entre si. São milhares a oferecer poupanças e milhões a pedir poupanças. No fim, como em qualquer mercado, forma-se um preço — tal como acontece com os tomates. Há muitos produtores de tomates, muitos consumidores a querer tomates, e no fim estabelece-se um preço de mercado, ou até vários preços. Atualmente os bancos são muito poderosos e privilegiados porque têm garantias implícitas de resgate. Estão, de certa forma, em simbiose com o governo: compram dívida pública, têm o banco central estatal que os apoia e lhes dá liquidez em tempos de crise, e gozam do privilégio das reservas fracionárias. Não deviam ter todos esses privilégios. A banca devia ser uma indústria como qualquer outra, sem privilégios especiais. Num mercado livre, os bancos teriam muito menos poder do que têm hoje.

Evolução da cotação do dólar em relação ao peso argentino

Já podemos medir o impacto do fim dos controlos cambiais na Argentina? 
Já é possível.

Foi uma questão importante para a Presidência de Milei.
Foi muito importante, porque havia taxa de câmbio fixa e controlos de moeda, que foram levantados, penso que a 12 de abril. Os críticos diziam que o câmbio ia cair rapidamente, mas tal não aconteceu. Este é um bom sinal: não houve ataque especulativo contra o peso, o que significa que os investidores internacionais e os participantes de mercado acreditam no programa de reformas de Milei. Caso contrário, esperariam novos défices, nova inflação, e, então sim, especulariam contra o peso. Mas a moeda manteve-se relativamente estável. Agora há câmbio livre — o que é positivo. As pessoas podem comprar e vender dólares livremente na Argentina, pelo menos os particulares. Ainda existem algumas restrições para empresas, que precisam de ser removidas, mas o sistema é já muito mais livre do que antes. E foi referido recentemente que, no último mês, o peso caiu cerca de 10%, mas a taxa de inflação não subiu. Há uma certa desconexão entre a taxa de câmbio e a inflação, o que é positivo. Neste caso, significou até que as empresas argentinas ficaram mais competitivas. Alguns economistas tinham previsto que, se o câmbio se depreciasse, haveria mais inflação. Mas não foi isso que aconteceu. O peso desvalorizou 5 a 10%, mas a inflação foi inferior a 2%. Portanto, nesse aspeto, foi um sinal encorajador.

O fim do controlo cambial

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A 12 de abril deste ano, Javier Milei anunciava: “Eliminámos o cepo para sempre”. O cepo era o controlo cambial que vigorava na Argentina desde 2019, quando Mauricio Macri, que o tinha levantado em 2015, voltou atrás nessa abertura, retomando o caminho de cepo instalado em 2011 por Cristina Kirchner e que depois de Macri foi mantido por Alberto Fernández.

Milei, em abril deste ano, estabeleceu o fim do controlo cambial, ainda que, numa primeira fase, a flutuação do peso face ao dólar tenha bandas (na primeira fase entre 1.000 e 1.400 pesos — com o objetivo de vender dólares se chegasse ao nível mais alto e a comprar no baixo). Depois dessa fase, as bandas têm sido alargadas em 1% por cada mês. No final de agosto, a banda está entre os 950,5 e os 1.471 pesos. Neste momento a cotação está em torno dos 1.350 pesos. O peso está a perder 20%, desde o início do ano, face ao dólar.

As mudanças cambiais de abril foram feitas com a rede de mais um empréstimo (o 23.º) do FMI, desta vez de 20 mil milhões de dólares (12 mil milhões foram entregues logo), que nem passou pela aprovação do Senado. A Argentina recorreu 23 vezes ao Fundo Monetária Internacional desde 1958, e é o maior devedor da instituição. Quando firmou o novo acordo em abril devia ao FMI mais de 40 mil milhões de dólares.

Antes da abertura de abril havia muitas restrições na compra e venda de moeda estrangeira, em particular dólares, para controlar a saída de divisas da Argentina. O cepo acabou por criar um câmbio paralelo (ao oficial), designado por blue, e outras derivações, que negociava o dólar a uma taxa mais alta do que o câmbio oficial. Com o fim do cepo, o câmbio oficial passou a ser a referência. O peso argentino acabou por desvalorizar, mas não em níveis como alguns economistas estimavam. A inflação é, aliás, um dos foguetes que o Presidente Milei lança cada vez que fala do seu mandato. Essa foi aliás a segunda fase do plano. A primeira foi o fim do défice orçamental.

Os críticos acreditam que este plano vai levar a uma desvalorização grande do peso, conduzindo a mais inflação, uma desaceleração da economia e mais pobreza.

Milei vetou o aumento das pensões acima da inflação, uma medida que tinha sido aprovada pelo Senado. Ainda não sabemos como o Senado vai reagir. Mas isto não mostra também alguma insensibilidade em relação aos pensionistas, que perderam poder de compra? Não é um veto insensível?
Primeiro: a pensão em dólares aumentou de cerca de 80 dólares, o que era muito baixo, antes de Milei chegar ao poder, para 320 dólares neste momento. Multiplicou-se por quatro em termos de dólares.

As pensões estão ligadas à inflação, mas mesmo assim não compensa a perda do poder de compra. [Javier Milei mudou a fórmula de atualização das pensões, fixando-as mensalmente consoante a inflação. Todos os presidentes têm mudado as regras e, como salienta o El País, de todas as vezes os pensionistas não têm saído a ganhar].
Em termos reais, aumentaram em 2024 cerca de 13%. O que acontece é que a oposição quer regressar ao poder, e por isso quer que Milei falhe. E como é que o tentam fazer? Bem, o pilar central do programa de reformas de Milei é a ideia de não haver défice. Ele diz: “Comigo, não haverá défice, confiem em mim, nunca permitirei défice.” Assim, o banco central não precisa de imprimir novos pesos para financiar esse défice, e foi isto que fez com que as expectativas de inflação descessem precisamente graças ao orçamento equilibrado. Portanto, se o orçamento equilibrado for posto em dúvida pelos mercados, o peso vai desvalorizar, as expectativas de inflação vão subir e a inflação subirá. E assim, todo o programa de reformas fica em risco. E é precisamente isso que a oposição quer: desestabilizar o governo. Não se preocupa com o futuro dos argentinos, só pensa no seu próprio poder, em voltar a ser eleito. O que faz? Quer aumentar a despesa pública para criar défice. Claro que Milei vetou isso, mas não por não gostar dos pensionistas ou por ser uma má pessoa. Vetou porque, se não o fizesse, criava-se um défice, e com isso voltaria a subir a inflação e começaria a especulação contra o peso.

As eleições intercalares [26 de outubro] vão ser muito importantes para Milei?
Essenciais, porque não tem maioria no parlamento.

Vão ser uma espécie de referendo a Milei?
Pode ser visto assim. Já houve eleições antes, por exemplo na CABA (Cidade Autónoma de Buenos Aires), e se as pessoas não apoiassem a agenda de reformas de Milei, ele não teria ganho lá. Além disso, nas sondagens também está bastante bem. É importante, porque neste momento a oposição pode travar todas as reformas e leis que ele apresente. E até pode, na verdade, derrubar o veto que ele fez, com uma maioria de dois terços, que existe no Parlamento. Por isso, está fora de questão que Milei vai conseguir conquistar muitos lugares novos que antes não tinha. A questão é: quantos?

Milei aumentou alguns impostos, como os que recaem no rendimento e nos combustíveis. Isso não vai contra a própria escola de pensamento que ele defende? Ele disse até, durante a campanha — você refere isso no livro — que preferia cortar um braço do que aumentar impostos.
Parece uma contradição, claro. O importante, no entanto, é a direção global. O que aconteceu com os impostos no seu conjunto? No geral, os impostos foram reduzidos. Sim, aumentou o imposto sobre o rendimento e o imposto sobre os combustíveis, mas reduziu fortemente aquele que é o mais pesado de todos: o imposto da inflação. Se olharmos para o programa de reformas, ele queria ter um orçamento equilibrado. Para isso, basicamente parou de imprimir dinheiro, mas como a despesa era tão alta, para chegar ao equilíbrio orçamental, teve de aumentar alguns impostos. Ainda assim, no conjunto, os impostos foram bastante reduzidos. E isso vê-se, claro, também na despesa. Como Rothbard dizia, aquilo que mostra verdadeiramente o peso do governo sobre os ombros das pessoas são as despesas do Estado. Podem ser financiadas por impostos ou por inflação. No fim, não interessa, são sempre as pessoas que pagam. E a despesa pública global já desceu, como disse, 25 a 30%. Portanto, sim, talvez ele devesse “ter cortado o braço”, como prometera, mas seguiu claramente na direção certa, e de forma muito decidida.

“A política é algo que Milei tem de fazer — não gosta, mas faz”

Milei apresenta-se como economista e não como político. Mas para si, que escreveu um livro sobre ele, como é que o vê, economista ou político?
Vejo-o como um economista que entrou na política, mas que não gosta nada da política. Tem de lidar com ela. Ele diz que há três campos: a gestão do governo, as reformas; o político (fazer acordos, as coligações, etc, e ele não gosta mesmo nada disso); e a batalha cultural, que é a divulgação de ideias. E ele próprio admite que o que mais gosta é de espalhar ideias. Gosta de dar conferências — já fez isso em Davos, nas Nações Unidas, nos Estados Unidos e na Europa. É isso que realmente o entusiasma. No fundo, penso que é, no seu íntimo, um economista, que gosta de ser um divulgador de ideias, alguém que procura popularizar conceitos económicos e políticos. Isso é o que ele é mais genuinamente. A política é algo que tem de fazer — não gosta, mas faz.

A ideia de Milei é que o poder e a política corrompem as pessoas. Está ele livre desse risco? Já lhe perguntou isso em 2022: está livre de se tornar um político corrupto e com um poder extremo?
Penso que sim. Bem, ele na altura respondeu que valia a pena tentar. Está perfeitamente consciente dessa possibilidade. Mas, pelo que conheço dele, nas conversas e pelo que tenho observado, acredito que ele está verdadeiramente interessado nas ideias. E está a dar a sua vida pelas ideias de liberdade, não quer saber de poder ou fama. Preocupa-o em tornar a Argentina novamente livre. E também em espalhar estas ideias pelo mundo. E, sendo assim, penso que está bastante imune à corrupção. Claro que não conheço todos os detalhes do governo, nem todas as pessoas à sua volta. Mas, pessoalmente, estou convencido de que ele é imune a isso.

[Já depois da entrevista ter sido realizada noticiou-se que as autoridades argentinas estão a investigar um alegado esquema de corrupção envolvendo próximos de Milei, incluindo a sua irmã Karina Milei. Javier Milei, entretanto, comentou a investigação, dizendo ser mentira, declarações proferidas numa caravana de campanha que foi cancelada por tentativas de agressões, com arremesso de pedras e outros artigos]

Autoridades argentinas investigam alegado esquema de corrupção no círculo próximo de Milei

Fala muitas vezes com ele?
O que é “muitas vezes”?

Todos os meses, há seis meses?
Comunico com ele por WhatsApp todas as semanas ou a cada duas semanas. Mas, pessoalmente, a última vez que falei com ele foi em abril, antes disso em janeiro, depois em dezembro e depois em junho.

E já nota diferenças no comportamento de Milei antes de ser presidente e agora?
Não, não. Poderia imaginar-se que fosse mais arrogante, ou que já não tivesse tempo para mim. Mas ele continua a responder a todas as mensagens no WhatsApp, nem que seja com um polegar para cima ou qualquer reação. É sempre muito simpático. Está sempre disponível, muito amigável, “Philipp querido”.

Ele continua a ser um outsider?
Sim, é um outsider que entrou na política. Mas no fundo continua a ser um economista. E ele disse-me: “Quando acabar os meus oito anos, vou para o campo, ficar na quinta, com os meus cães, ler economia e, de vez em quando, dar umas palestras para ganhar a vida.” Renunciou inclusivamente à pensão a que teria direito depois de ser presidente. Portanto, sim, é um outsider que entrou na política por um tempo, mas que voltará a sair dela.

Se for bem sucedido isso fará uma grande diferença nos países vizinhos, na América Latina?
Sim, penso que sim. Por um lado, há já aquela tendência geral que referimos antes: muitos jovens começam a afastar-se das ideias de esquerda. E depois, se Milei tiver sucesso, naturalmente outros vão querer imitá-lo. Haverá políticos que começarão a autoproclamar-se “os novos Milei” nos respetivos países, porque ganhou visibilidade. E pessoas que nunca se interessaram pelas ideias do libertarianismo ou da Escola Austríaca de economia começarão a dizer: “Agora que já foi experimentado e correu bem, também nós queremos isso.” E acredito que vai começar primeiro pela América Latina.

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