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IMT pede informações à Noruega sobre alegado acesso remoto aos autocarros chineses da Yutong. Há transportadoras a fazer análises técnicas

Foi à Noruega que o IMT decidiu pedir informações adicionais sobre os testes feitos naquele país aos autocarros chineses Yutong, que teriam um dispositivo dissimulado que permitia o acesso remoto.

Noruega, Dinamarca e Reino Unido são alguns dos países que estão a investigar a existência, e os seus riscos, de ferramentas que permitam o controlo remoto dos autocarros da construtora chinesa Yutong. Em Portugal, o regulador AMT aponta a obrigação de os autocarros terem homologação e certificação, mas atira para o IMT essa responsabilidade. O Instituto de Mobilidade e Transportes, por seu turno, e depois de insistência do Observador, indica ter pedido informações às entidades norueguesas, onde o caso começou.

Na Noruega, um país que não pertence à União Europeia, foram feitos testes para determinar a capacidade de defesa dos veículos elétricos de transportes de passageiros da Yutong a ciberataques. Os autocarros usados pela transportadora pública tinham, alegadamente de forma “dissimulada”, um cartão SIM (como os que são usados nos telemóveis), que além de permitir atualizações de software poderia, em tese, servir para desligar remotamente os autocarros.

Depois das descobertas feitas na Noruega, também a Dinamarca detetou que mais de metade dos autocarros elétricos da empresa nacional (pública) de transportes são desta marca chinesa. O receio de que a China possa interferir na segurança nacional dinamarquesa, bloqueando as grandes cidades ou o país — com ações como parar os autocarros ou trancar os passageiros no seu interior —, levou as autoridades dinamarquesas a lançar uma investigação urgente para determinar a dimensão da ameaça e os potenciais riscos.

Em Portugal, há autocarros Yutong a circular, garantindo as entidades gestoras dos transportes ou as transportadoras que os veículos estão certificados e homologados. Mas assumem estar vigilantes. Ao Observador, a AMT (Autoridade da Mobilidade e dos Transportes) atira para o IMT (Instituto de Mobilidade e dos Transportes) a responsabilidade sobre a homologação dos autocarros e às gestoras das concessões a verificação dos veículos recebidos.

“A homologação de veículos é matéria da competência do IMT e a afetação dos veículos ao serviço público de transporte de passageiros depende das autoridades de transportes (áreas metropolitanas, comunidades intermunicipais e municípios), que são as gestoras dos respetivos contratos”, indica ao Observador a entidade reguladora que assume ter apenas a responsabilidade pela emissão de “parecer prévio vinculativo sobre as peças de procedimento para o lançamento de procedimentos e adjudicação desses contratos de serviço público, estando prevista a necessidade de os veículos cumprirem regras legais de homologação/certificação”. No entanto, a entrega dos veículos terá de ser verificada “pelo gestor do contrato, que deve reportar algum incumprimento legal”.

Contactado também pelo Observador e, após insistência, o IMT diz apenas que “já pediu informações adicionais às entidades norueguesas, as quais responderam que estão a compilar mais dados sobre os testes e poder partilhar com o IMT e com outras entidades congéneres”. Foi a única indicação dada ao Observador por fonte oficial do instituto público que aguarda agora por informações da Noruega.

Transportadores com autocarros da marca chinesa acompanham caso. Guimabus diz estar a fazer análise técnica

A Carris Metropolitana, através de fonte oficial da Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML), confirmou que “existem prestadores de serviços da Carris Metropolitana que têm autocarros dessa marca”. “Representam menos de 2% do total da frota” a circular na área metropolitana de Lisboa, garante a mesma fonte, sem especificar as subconcessões.

“A TML obriga a que todo o material circulante esteja certificado e homologado pelas entidades competentes, nacionais e comunitárias, o que se verifica, e segue as normas aplicáveis à conectividade e proteção de dados dos veículos em operação”, afirma a fonte oficial da TML.

Após insistência do Observador, a mesma fonte acrescenta que “o responsável de Segurança de Informação da TML está a acompanhar o assunto, nomeadamente as informações relacionadas com verificações técnicas a nível internacional” e, “caso alguma entidade inspetiva ou supervisora entenda realizar qualquer diligência adicional, será prestado o devido apoio”.

Já nos transportes públicos do Porto, a STCP garantiu que “não possui qualquer viatura da marca Yutong Bus na sua frota”, pelo que “não existe qualquer relação entre os autocarros da STCP e as situações recentemente noticiadas relativas a veículos dessa marca”.

“A STCP mantém, em todos os processos de aquisição e operação, um rigoroso controlo técnico e de segurança, garantindo o cumprimento integral das normas europeias aplicáveis, nomeadamente no que respeita à conetividade e proteção de dados nos sistemas instalados nos seus veículos”.

Já na semana passada o Jornal de Notícias noticiou que a empresa municipal de transportes vimaranense Guimabus tinha recebido, em setembro, 50 novos autocarros da marca Yutong. Questionada sobre a polémica, a Guimabus disse apenas que, face às notícias, irá “analisar tecnicamente a situação para tirar conclusões objetivas”.

Também no norte do país, a empresa Transportes Urbanos de Braga (TUB) foi chamada para uma reunião com o presidente da câmara, João Rodrigues, que quis saber os riscos que existem. A empresa não tem qualquer autocarro desses em circulação mas houve recentemente um concurso público que terminou com a compra de 35 autocarros à fabricante chinesa Yutong.

Braga prioriza segurança tecnólogica e proteção de dados nos autocarros chineses

Noutro concelho nortenho, a Câmara de Viana do Castelo comprou, por 7,15 milhões de euros, 17 autocarros elétricos desta marca com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para assegurar o novo sistema de transportes urbanos do concelho. O presidente da autarquia afirmou esta terça-feira estar tranquilo com as garantias de segurança transmitidas pela Yutong e defendeu que “há notícias que só servem para criar alarido e agitação social”.

Uma consulta ao Portal Base mostra que outras entidades públicas também compraram autocarros à Yutong, incluindo no Barreiro (1,4 milhões), em Amarante (3,9 milhões) e em Santa Maria da Feira (6,5 milhões). O maior contrato, porém, é o da Guimabus, que ascende a quase 20 milhões de euros em autocarros comprados à Yutong France, subsidiária da empresa que é uma das maiores fabricantes mundiais de veículos de transporte público. Aliás, todos os contratos que constam do portal Base são com a Yutong France.

Flixbus também confirma ter “um parceiro com dois autocarros” da Yutong

Estes autocarros, cujo preço é mais competitivo do que outras marcas concorrentes, também existem ao serviço de empresas do setor privado, incluindo a Flixbus.

“A FlixBus confirma ter um parceiro com dois autocarros Yutong, um elétrico e outro a diesel, a operar na sua rede em Portugal. Esta percentagem é mínima em relação à frota em operação no nosso país”, afirma a empresa ao Observador.

“A nível global”, a empresa diz estar, “neste momento, a iniciar conversações não só com os seus parceiros, mas também com outros intervenientes do setor e com a Yutong, a fim de tentar compreender melhor a situação, dado que os autocarros de longo curso diferem dos autocarros urbanos”.

Mas, para já, a FlixBus “não realizou qualquer teste e não tem planos para o fazer enquanto não tiver mais esclarecimentos sobre a situação”. “Confiamos que os fabricantes de autocarros cumprem todas as obrigações legais para fornecer veículos seguros no momento da compra pelos nossos parceiros de operação e durante a manutenção”, acrescenta a empresa.

O Observador contactou, também, a Barraqueiro, empresa que tem várias marcas incluindo a Rede Expressos, que garantiu que “nenhuma empresa do Grupo Barraqueiro tem na sua frota autocarros Yutong”.

Yutong diz cumprir “todas as leis e regulamentos”

A Yutong respondeu à polémica lançada pelos dois países nórdicos garantindo que “cumpre todas as leis e regulamentos aplicáveis”, bem como recorre a “soluções habituais na indústria automóvel nos locais onde os seus veículos são utilizados”.

O construtor chinês, citado pela Lusa, assegurou que todos os dados recolhidos pelos seus veículos não são enviados para a China, mas sim armazenados na Alemanha, nos servidores da Amazon Web Services – uma empresa em cujos servidores é guardada boa parte dos dados informáticos europeus. E garante, também, que ninguém pode aceder aos dados dos autocarros sem autorização dos clientes.

Yutong garante que ninguém pode aceder a dados dos autocarros sem autorização do cliente

O presidente da transportadora pública norueguesa, a Ruter, esclareceu, entretanto, que não se encontraram indícios de atividade maliciosa por parte da Yutong.

No entanto, Bernt Reitan Jenssen revelou que a transportadora implementou um conjunto de medidas de proteção, para garantir o controlo total dos veículos e a sua segurança: os cartões SIM encontrados nos veículos foram extraídos e reforçaram-se as firewalls (bloqueios informáticos) que têm como objetivo isolar os autocarros em relação a sistemas externos.

“Preocupada”, IL manda lista de 15 perguntas a Luís Montenegro

Apesar destas garantias, a Iniciativa Liberal (IL) mostra-se “preocupada” com as informações que chegam da Noruega e da Dinamarca sobre o que chama de “mecanismos ocultos de acesso remoto em autocarros elétricos de fabrico chinês da marca Yutong”. O partido liderado por Mariana Leitão enviou, por isso, uma lista de 15 questões endereçadas diretamente ao primeiro-ministro, Luís Montenegro.

“O que está em causa não é apenas um eventual problema técnico, mas sim a possibilidade de países terceiros com regimes autoritários acederem remotamente a sistemas de transporte público, recolherem dados em massa, ou até condicionarem o seu funcionamento em momentos críticos”, avisou a Iniciativa Liberal, que quer saber “quantos autocarros desta marca estão neste momento em circulação em Portugal” e “que inspeções e investigações planeia o Governo fazer em coordenação com as autarquias no sentido de confirmar que os equipamentos adquiridos não possuem este mecanismo detetado na Noruega e Dinamarca, ou qualquer outro que ponha em causa a total independência de funcionamento destes veículos”.

Mariana Leitão, lider da Iniciativa Liberal (IL),  fala à comunicação social durante a visita ao Externato Cooperativo da Benedita no âmbito da campanha para as eleições autárquicas, Benedita, Alcobaça, 01 de otubro 2025. BRUNO TEIXEIRA PIRES/LUSA

▲ Iniciativa Liberal, liderada por Mariana Leitão, recorda os casos da Huawei e da Nuctech e envia 15 perguntas a Luís Montenegro.

BRUNO TEIXEIRA PIRES/LUSA

O partido liderado por Mariana Leitão recorda o caso de 2023 quando foi proibida a rede 5G para telemóveis Huawei (uma marca chinesa) em Portugal e pergunta se “o Centro Nacional de Cibersegurança ou outras entidades de segurança do Estado foram envolvidos na análise dos riscos associados” e se “foram solicitadas auditorias independentes (por entidades nacionais ou europeias) aos sistemas digitais e de comunicação dos autocarros Yutong atualmente em operação em Portugal”.

Por outro lado, a IL recorda outro caso que pode ter alguns paralelismos com este, o caso dos scanners da empresa chinesa Nuctech instalados nos portos portugueses. “Que lições tirou o Estado português do caso Nuctech para evitar novas situações semelhantes, como a dos autocarros Yutong, onde foi detetada a possibilidade de acesso remoto pelo fabricante?”, pergunta a IL, questionando o Governo sobre se “existe alguma estratégia nacional de proteção tecnológica que impeça a aquisição de equipamentos críticos de países terceiros com regimes autoritários, garantindo a soberania digital e operacional de Portugal”.

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