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No início desta semana, a Polónia era casa de um considerável arsenal enviado pelos Estados Unidos: dezenas de intercetores para sistemas Patriot, milhares de munições para morteiros e centenas de mísseis. O equipamento encontrava-se em solo polaco para ser enviado para a Ucrânia para ser utilizado no esforço de guerra contra a ofensiva russa. Porém, antes de esta transferência se iniciar, o Pentágono bloqueou-a. Ao mesmo tempo, vários aviões, que também carregavam intercetores de defesa aérea com destino à Ucrânia, foram obrigados a regressar aos Estados Unidos.
A suspensão do envio de equipamento militar norte-americano apanhou Kiev de surpresa, que imediatamente chamou o responsável interino pela embaixada na Ucrânia e agendou uma chamada entre Volodymyr Zelensky e Donald Trump — que se realizou esta sexta-feira e foi classificada como “produtiva”. Mas a decisão também surpreendeu oficiais europeus, congressistas norte-americanos e até oficiais do Pentágono, pois terá sido tomada de forma unilateral pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, com apoio de um subsecretário, relataram três funcionários do Congresso e um antigo oficial norte-americano à NBC News.
Esta não foi a primeira vez que Hegseth suspendeu estes envios: já o tinha feito em fevereiro e novamente em maio. Desta vez, o porta-voz do Pentágono declarou que a decisão tinha sido tomada devido à dimensão das reservas dos Estados Unidos. “Não podemos dar armas a todos. Parte do nosso trabalho é dar ao Presidente um enquadramento para que ele possa avaliar quantas munições temos e para onde as estamos a mandar”, declarou Sean Parnell esta quarta-feira. Contudo, outras três fontes do canal norte-americano avançam que, ainda que as reservas estejam em níveis mais baixos, não estão em mínimos críticos.
A decisão acontece numa semana em que Donald Trump e Vladimir Putin também falaram ao telefone, mas “sem progressos” na direção de um cessar-fogo, relatou o Presidente norte-americano. O relato de Washington vai ao encontro da versão do conselheiro do Kremlin, Yuri Ushakov, que disse que o líder russo tinha declarado que “a Rússia não vai abandonar os seus objetivos”. A guerra de atrito que se arrasta há mais de três anos nos territórios ucranianos não parece ter fim à vista.
▲ A guerra continua a assolar a Ucrânia, mas sem avanços significativos de qualquer um dos lados
AFP via Getty Images
Neste contexto, Moscovo e Kiev estão perfeitamente cientes de que o apoio norte-americano é essencial para a sobrevivência ucraniana. “Quanto menos armas forem entregues à Ucrânia, mais próximos estamos do fim [da guerra]”, declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Já Volodymyr Zelensky olhou para os 30 intercetores para os sistemas de defesa anti-aérea Patriot que tinham ficado retidos na Polónia, que, lembrou, são produzidos apenas pelos Estados Unidos, pelo que são “muito importantes”.
Sistemas Patriot à parte, à terceira suspensão de Washington (e antecipando outras surpresas no futuro), a Ucrânia começa a estar mais preparada para enfrentar esta guerra de atrito sem o apoio dos Estados Unidos. Isso não quer dizer que Kiev desista de tentar reverter esta suspensão: a chamada de Zelensky com Trump esta sexta-feira é prova do empenho ucraniano. No entanto, começa a olhar para formas alternativas de fortalecer as suas capacidades militares.
A indústria militar tecnológica “em alta”: investimentos internos
Em 2023, um ano depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia, Kiev produzia 600 mil drones para combater a ofensiva russa. Em 2024, o número disparou e ultrapassou os dois milhões, segundo dados reunidos pela Revista de Estudos de Segurança da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Este ano, a Ucrânia pretende mais do que duplicar esse número para os 4,5 milhões.
A guerra obrigou a Ucrânia a investir na sua indústria militar e o país reclama agora o título de maior produtor de drones para uso militar do mundo. Estes aparelhos são essenciais para a Ucrânia, pois compensam a escassez de tropas que a frente de combate enfrenta, tendo em conta que as forças russas são muito mais numerosas. Analistas ouvidos pela Associated Press relatam que a estratégia está a resultar e que a produção de drones em massa está a ajudar a aguentar as linhas da frente.
O investimento não passa apenas pelo aumento da produção, mas pela sua modernização. Esta semana, o ministro da Defesa ucraniano, Rustem Umerov, anunciou um novo projeto de lei, que prevê um “enquadramento legal e fiscal especial que lhe permitirá aumentar e modernizar a produção, assim como construir novas instalações”. Para além de drones, este projeto visa ainda uma aposta em munições de artilharia — como as que ficaram retidas na Polónia.
Este foco na indústria militar interna tem dado resultados: 40% do armamento que está a ser utilizado pela Ucrânia contra a Rússia é de produção doméstica, contabiliza a Bloomberg. “O meu país está a tornar-se o arsenal do mundo livre”, declarou Oleksandr Kamyshin, conselheiro de Zelensky para os assuntos estratégicos, citado pela agência. A guerra consolidou de tal forma esta indústria que oficiais ucranianos relataram que, a longo prazo, o país poderá exportar equipamento militar para a Europa.
E, fora da Ucrânia, parece haver interesse nesse sentido. “A cena militar-tecnológica ucraniana está em alta neste momento“, afirmou Roman Sulzhyk, antigo executivo bancário que gere um fundo para starups de tecnologia militar.
Investimentos conjuntos com os Estados Unidos
O interesse económico gerado pela indústria militar ucraniana pode ser um trunfo para Kiev conseguir mais apoios. Foi isso mesmo que aconteceu esta quinta-feira, quando Zelensky assinou um acordo de produção de drones com uma empresa norte-americana, a Swift Beat. “Estamos a falar de centenas de milhares de drones já este ano e a possibilidade de aumentar significativamente a produção no próximo ano”, escreveu o Presidente ucraniano nas suas redes sociais.
A empresa, fundada por um antigo executivo da Google, é especializada na aplicação de Inteligência Artificial, o que contribui, ainda mais, para a modernização da indústria, relata a Radio Free Europe. O estabelecimento de parcerias com empresas internacionais retira dos ombros da Ucrânia a responsabilidade exclusiva por financiar estes projetos e é particularmente eficaz quando se trata de empresas norte-americanas, dada a dimensão da indústria militar nos Estados Unidos.
▲ Kiev estende a mão a Trump, com propostas com benefícios financeiros
LUDOVIC MARIN / POOL/EPA
Mas Kiev não quer esgotar as suas parcerias com empresas privadas e procura um investimento conjunto diretamente com a Casa Branca, algo que Zelensky colocou em cima da mesa durante a chamada telefónica com Trump. “Estamos prontos para projetos diretos com os Estados Unidos e acreditamos que isto é criticamente importante para a segurança, especialmente quando se trata de drones e tecnologias relacionadas”, declarou Zelensky acerca da conversa com o seu homólogo.
Não seria a primeira vez que Kiev consegue apoio da administração Trump através de um acordo de natureza económica. Foi precisamente isso que aconteceu com a assinatura do acordo dos minerais, em maio deste ano — em vez de um investimento na área militar, tratou-se de um investimento nas indústrias energética e tecnológica. Desde que o Presidente norte-americano regressou à Casa Branca, o fluxo de apoio direto diminuiu consideravelmente — segundo dados do Instituto Kiel, na Alemanha, citados pela AP, entre março e abril não foi mesmo entregue qualquer ajuda. Em vez de pacotes de ajuda, a Ucrânia procura agora ajuda na forma de investimentos conjuntos, com benefícios financeiros para os seus parceiros, neste caso os Estados Unidos.
Apoio e investimentos conjuntos da Europa
As hesitações e bloqueios da ajuda norte-americana não levaram apenas Kiev a mudar de tática. Em Bruxelas, o distanciamento levou à aprovação de um novo plano para aumentar os gastos da comunidade europeia com Defesa e segurança. Esta quinta-feira, a primeira-ministra da Dinamarca, que acaba de assumir a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, reafirmou este compromisso.
“Todos esperamos que os EUA continuem a apoiar a Ucrânia. Mas se houver qualquer lacuna, eu pessoalmente acredito que temos de a preencher“, declarou Mette Frederiksen ao lado de Zelensky e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Neste sentido, o vice-primeiro-ministro dinamarquês pôs a bola rolar e anunciou que as empresas ucranianas de produção de equipamento militar poderão começar a operar na Dinamarca já em setembro. Lund Poulsen apelou ao seus pares europeus que sigam o exemplo e abram portas para que a indústria da Ucrânia possa continuar a crescer longe do palco de guerra.
▲ Mette Frederiksen renova apoio a Kiev, ao lado de Zelensky, von der Leyen e Costa
Getty Images
Na verdade, o projeto de lei anunciado esta quarta-feira pelo ministro da Defesa já prevê esta relocalização das indústrias para fora da Ucrânia, mais especificamente para países do Grupo de Contacto para a Defesa da Ucrânia, mais conhecido como Grupo Ramstein, um conjunto de 57 países responsáveis pelo envio de apoio militar para Kiev. “Isto é principalmente sobre o estabelecimento de novas fábricas e instalações de produção tanto em território ucraniano como no estrangeiro”, explicou Umerov.
Mas entre todas estas soluções, há uma questão que a Ucrânia e a União Europeia continuam sem conseguir dar resposta sem o apoio dos Estados Unidos: os sistemas Patriot, que têm sido a primeira linha de defesa contra os ataques aéreos russos.
Comprar Patriot a Washington: diretamente ou com a Europa como intermediária
A solução para este problema foi posta em cima da mesa durante o encontro entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky em Haia, à margem da cimeira da NATO e novamente mencionada na chamada desta sexta-feira: a Ucrânia está disponível para comprar sistemas Patriot a Washington. Na sequência da chamada, o chefe de Estado ucraniano disse que tinha ficado agendada uma reunião entre as equipas dos dois países para discutir esta possibilidade.
No entanto, no encontro nos Países Baixos, Trump já tinha mostrado uma preocupação com reservas dos intercetores utilizados neste equipamento, recorda o Financial Times. Os Patriot norte-americanos não são utilizados apenas na Ucrânia, mas em Israel ou no Qatar, onde, recentemente, entraram em ação devido aos ataques iranianos contra território israelita e a base militar norte-americana no Qatar, no âmbito da “Guerra dos 12 dias”.
Alguns sistemas Patriot norte-americanos também estão estacionados na Europa, mas não podem ser entregues a Kiev, sem a permissão dos Estados Unidos, relatou um oficial ucraniano à Associated Press. “A verdadeira questão é o quão longe os Estados Unidos estão dispostos a ir na sua relutância em apoiar a Ucrânia“, questionou, criticando a falta de “determinação política”.
Se a administração Trump continuar a afastar-se do apoio direto a Kiev, que marcou a anterior administração Biden, a possibilidade pode passar por uma compra indireta: os Estados europeus compram sistemas e intercetores Patriot a Washington e enviam para a Ucrânia. A proposta está a ser discutida na Europa, avançou o Politico, que cita seis pessoas com conhecimento deste processo, mas os aliados de Kiev ainda não assumiram nenhum compromisso.
Esta solução permite contornar a “relutância” norte-americana, pois as compras dos países europeus podem ser contabilizadas para os gastos com Defesa na casa dos 5% previstos pela NATO — uma meta na qual Donald Trump insistiu e que, portanto, iria ao encontro dos seus desejos.
“Dado que alguns tipos de armas que são extremamente importantes para nós não são produzidas por ninguém no mundo democrático, exceto pelos EUA, nós, juntamente com os nossos parceiros europeus, estamos prontos a comprá-los”, declarou um oficial ucraniano ao Politico. A disponibilidade de Kiev foi deixada clara. A “determinação política” de Washington nem tanto.