João Ferreira regressa às referências bíblicas e, entre criticas ao euro, diz que “não se pode servir dois amos ao mesmo tempo”

18 Maio 2019

De regresso à Grande Lisboa, João Ferreira começou o fim de semana de campanha com uma arruada em Alcochete e um almoço na Quinta de Conde, onde criticou PSD e CDS por causa dos transportes públicos.

Após três dias passados no Alentejo e no Algarve, a caravana da CDU regressou esta sexta-feira à região onde tinha arrancado a campanha oficial no início da semana: a Grande Lisboa. Esta manhã, João Ferreira juntou meia centena de apoiantes em frente à câmara municipal de Alcochete para uma breve arruada pelas lojas e cafés do centro da vila e para uma intervenção dedicada aos apelos habituais: o voto na força política com provas dadas em Bruxelas, a impossibilidade de distinguir PS, PSD e CDS nos temas centrais e o foco no essencial — a eleição de 21 eurodeputados portugueses e mais nenhuma leitura política desta eleição.

Mas se vamos falar de foco, há que ser realista e admitir que, este sábado, há concorrência forte. O programa oficial da campanha da CDU acaba com um comício em Almada às 15h30, porque os olhos estão todos postos nas 18h30, hora de início dos jogos que vão ditar quem é o vencedor do campeonato. “A festa começou agora, a seguir vou para o estádio da Luz toda vestida de vermelho“, ouve-se da voz alta de uma das apoiantes da coligação, com a bandeira da foice, do martelo e do girassol em punho. Enquanto o cortejo vai ensaiando umas rimas de ordem (“O mínimo que o país aguenta / são 850”, grita a dona do microfone), João Ferreira entra nas pastelarias e lojas para repetir o pedido: “Mais força para a CDU”.

"Aqui não é para vencer. É para escolher 21. A decisão é escolher quem se vai sentar nos 21 lugares"
João Ferreira, candidato da CDU às eleições europeias

O apelo à distinção entre a CDU e as outras forças políticas repete-se entre os discursos nas tribunas e as conversas na rua. Se do púlpito João Ferreira pede aos eleitores que comparem a atuação da coligação no Parlamento Europeu com a dos outros partidos, na rua tenta convencer quem o interpela que, ao contrário do que por vezes se diz, não são todos iguais. Fala calmamente, tímido, pergunta se pode deixar um panfleto. E ouve, numa loja a meio do percurso: “Depois chegam lá e esquecem-se do povo!” Paciente, responde: “Ora bem, mas nem todos esquecem“. E recorda, no dia após a publicação da sondagem da SIC e do Expresso que lhe dá 8% das intenções de voto e a possibilidade de perder um eurodeputado: “Aqui não é para vencer. É para escolher 21. A decisão é escolher quem se vai sentar nos 21 lugares”.

Mais à frente, pára num café para cumprimentar quem está na esplanada e pedir força para a CDU. “Eu tenho dado sempre força”, responde-lhe uma das senhoras. “Então continue e arranje mais alguém!“, pede-lhe o candidato. Aos desejos de boa sorte, retorque sempre: “A sorte é bem vinda, mas precisamos de votos também”.

Sobre a moeda única “não se pode servir dois amos ao mesmo tempo”

A meio da arruada, João Ferreira foi interpelado por dois jovens — um rapaz do Seixal e uma rapariga de Alcochete — que lhe entregaram uma carta sobre as alterações climáticas. Naturais dali, explicaram depois ao Observador que estão apostados em interpelar todos os candidatos que passem na zona para lhes perguntar que propostas concretas têm para defender o planeta. João Ferreira respondeu-lhes e demorou-se com eles. Agradeceu-lhes por serem conscientes e “críticos”, lembrou detalhadamente as cinco medidas de que falou ontem no Alentejo e convidou-os a ir ao site do Parlamento Europeu ver o que tem feito cada eurodeputado na área ambiental. Depois de outro agradecimento, João Ferreira avançou com a confiança de quem tinha seguramente arregimentado mais dois votos para a CDU.

Aos jornalistas, mostrou-se confiante com o apoio que tem recebido nas ruas. “Tenho a certeza, por onde passamos, há reconhecimento do trabalho que temos feito”, disse o candidato da CDU, sublinhando que as pessoas com quem fala têm ficado convencidas de que “as decisões no Parlamento Europeu vão ter uma grande influência no país”. “Fazemos o possível e o que está ao nosso alcance” para um “debate clarificador”, assegurou, antes de voltar a vincar a “diferença” com quem “se refugia nas questões acessórias” e a lembrar “os desafios [a PS, PSD e CDS] a pronunciarem-se sobre o que vão fazer no Parlamento Europeu”.

João Ferreira defendeu que, sobre o euro, "não se pode servir dois amos"

João Ferreira acrescentou ainda que “quem centra a campanha” em questões como se o candidato gosta mais ou menos de feiras, se é mais ativo ou menos ativo, ou “o que cada um fez enquanto esteve no Governo“, acaba por distrair “do essencial”, que é “o que cada um fez no Parlamento Europeu e o que cada um pensa fazer no Parlamento Europeu”.

Questionado sobre a moeda única, assunto que, apesar de merecer a oposição do PCP, ainda não foi particularmente abordado na campanha, João Ferreira destacou que “não há discussão séria sobre o futuro do país sem a questão do euro”. E lembrou que a adesão à moeda única tornou Portugal num dos “países mais endividados” da Europa, mais dependente e subordinado à economia estrangeira. “Assumimos que não queremos um país que tenha salários estagnados” e que “esteja dependente do ponto de vista económico”.

E, depois de no Algarve ter destacado a proximidade entre as ideias da CDU e algumas convicções dos católicos, usou uma imagem bíblica para defender que “não se pode servir a dois amos” e para defender que Portugal ou se adapta à economia alemã ou às necessidades portuguesas. “Quem acha que se pode servir a dois amos, estes 20 anos são a resposta”, rematou João Ferreira.

PSD e CDS choram “lágrimas de crocodilo” sobre os transportes públicos

De Alcochete, João Ferreira seguiu para a Quinta do Conde, para um almoço no Centro Cultural, Social e Recreativo A Voz do Alentejo, cheio para a ocasião. Depois da feijoada, foi o presidente da câmara de Sesimbra, Francisco Jesus, eleito pela CDU, quem foi ao púlpito para apresentar o discurso do candidato — e para lembrar como, nos últimos anos, enquanto eurodeputado, João Ferreira “esteve inúmeras vezes no contacto com os pescadores em Sesimbra” e contribuiu para “a defesa da pesca costeira” a partir do Parlamento Europeu. “Os outros não vão” ao terreno, garantiu o autarca.

João Ferreira subiu ao púlpito para um dos discursos mais aplaudidos da semana. Apostado em falar aos eleitores da área metropolitana de Lisboa sobre as questões que lhes importam, falou primeiro na “grande campanha, muito intensa, de norte a sul, que a cada dia mobiliza mais gente”, mas o tema em que se demorou mais foi o dos passes sociais intermodais. Assim que mencionou o tema, a sala irrompeu num ruidoso aplauso.

“Aqueles que eram já utilizadores dos transportes públicos sabem bem”, disse João Ferreira, antes de dar um exemplo local. Quem apanhava o comboio em Coina todos os dias para ir para Lisboa pagava, entre a Fertagus, a Carris e o metro de Lisboa, um passe mensal de 121,95 euros. Agora, “passou a custar menos 82 euros, porque ficou nos tais 40 euros”. Novo aplauso.

O cabeça de lista da CDU lembrou, depois, como o passe social já era uma reivindicação da coligação. “Em 1997, quando a CDU reivindicou o passe social intermodal, ninguém falava nisso. Conseguimos agora, mas podíamos ter conseguido há mais tempo”, nomeadamente em 2016, “quando PDS e CDS votaram contra” a proposta da CDU. Agora, “aí estão os candidatos do PSD e do CDS a chorar lágrimas de crocodilo sobre o estado dos transportes.”

“Não esquecemos que o Governo PSD/CDS, em vez de adquirir barcos, vendeu um barco da Soflusa, deu ordens para reduzir a velocidade de operação, tentaram acabar aos sábados, domingos e feriados as ligações” fluviais, lembrou João Ferreira, lamentando a obsessão pelas regras do défice”. O financiamento das necessidades dos portugueses, insistiu, “tem de estar à frente” das regras do défice.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: jfgomes@observador.pt
Ambiente

A onda verde na UE e os nacionalismos

Inês Pina
134

Se hoje reduzíssemos as emissões de CO2 a zero já não impedíamos a subida de dois graus centígrados. E estes “míseros” dois graus vão conduzir ao fim das calotas polares e à subida do nível do mar.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)