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▲Jodie Foster fotografada em Marraquexe, no âmbito da 22.ª edição do festival de cinema marroquino, que a homenageou com um tributo à carreira

Corbis via Getty Images

▲Jodie Foster fotografada em Marraquexe, no âmbito da 22.ª edição do festival de cinema marroquino, que a homenageou com um tributo à carreira

Corbis via Getty Images

Jodie Foster: "Sentia-me em competição com a versão mais jovem de mim própria. Agora nos sessentas, já não quero saber"

Entrevista com a grande actriz norte-americana a propósito do seu regresso aos ecrãs, em língua francesa, na pele de uma psicanalista em “Vida Privada”, de Rebecca Zlotowski.

Nasceu em Los Angeles, foi actriz-prodígio quando entrou, ainda criança de colo, no mundo do show biz. Depois da publicidade e das séries televisivas, começou a deixar vincada a sua personalidade no cinema pela mão de Martin Scorsese, que por duas vezes a dirigiu, à entrada da adolescência, em papéis que dificilmente seriam tolerados hoje em dia. Estávamos na década de 70 do século passado quando a jovem prostituta que interpretou em Taxi Driver lhe valeu, com apenas 14 anos, uma primeira nomeação para os Óscares. Polivalente, bilingue, versátil em qualquer género, conquistaria duas vezes a estatueta de Melhor Actriz, por Os Acusados (1988) e O Silêncio dos Inocentes (1991), no mesmo ano em que decidiu tornar-se cineasta, desejo que acalentou — assim o conta mais à frente — desde que se lembra de ser quem é.

Actriz de causas com uma filmografia invejável, Jodie Foster é uma das maiores artistas da sua geração e uma interlocutora inspirada, generosa, nos momentos pontuais em que se torna possível conversar com ela — aconteceu agora, em Marraquexe, no âmbito da 22.ª edição do festival de cinema marroquino (terminou no passado fim de semana), que a homenageou com um tributo à carreira. Nos últimos meses, Jodie Foster tem estado empenhada a promover o novo filme da francesa Rebecca Zlotowski, Vida Privada (estreou-se em Cannes, fora de competição), em que contracena, entre outros, com Daniel Auteuil e Virginie Efira. A personagem é uma psicanalista de renome, avó divorciada em crise de auto-estima.

No novo filme de Rebecca Zlotowski, interpreta uma psicanalista chamada Lilian Steiner que atravessa dúvidas profundas a nível pessoal e profissional, em contraponto às mulheres determinadas que interpreta habitualmente no grande ecrã. Lidou bem com esta diferença?
Foi uma descoberta. Nunca tinha interpretado uma terapeuta, mais especificamente, uma psicanalista freudiana. Nunca estive sequer perto disso. Tal como a Lilian, acho que não seria boa nessa profissão. Que dizer: percebemos logo que ela não é boa ouvinte. Está demasiado preocupada com ela própria. Além disso, tem um problema alérgico nos olhos, não consegue deixar de chorar! E imagina coisas da vida dela a partir das histórias que os pacientes lhe estão a contar.

Não sei se é suposto uma psicanalista fazer isso…
Não é, pois não? Mas este filme vem lançar essa dúvida, isto é: e se os papéis mudarem? O que acontece se o paciente que é suposto partilhar os seus segredos se calar? E se a doutora, que é suposto escutar, se tornar uma tagarela a investigar os seus próprios segredos? Por aqui entra a comédia.

O papel obrigou-a a alguma preparação especial?
Nem por isso. Estamos habituados a fazer terapia na América, mas é curioso: no meu país, a psicanálise freudiana foi descartada há muitos anos. Freud é uma figura cancelada, pela misoginia que lhe está associada e não só. Na Europa é diferente. Freud e Lacan continuam a fazer escola. A verdadeira riqueza intelectual das teorias de Freud está na sua aplicação à literatura e ao cinema. Os filmes e os livros tornaram aquele legado numa coisa apaixonante e divertida, nos filmes de Hitchcock, por exemplo, que estão cheios de referências, escadas em caracol, etc. Todo um interesse pela psique humana. O filme da Rebecca inscreve-se, em parte, nesta linha hitchcockiana, entre o thriller e a comédia, com um lado feminista.

Já conhecia esta cineasta?
Pessoalmente, não. A primeira vez que falámos foi por videochamada. Eu decido quase sempre os papéis que faço em função do argumento. É a parte mais importante do processo. E este guião estava muito bem escrito. Achei graça ao modo como o texto troça da psicanálise, de uma forma elegante e original, no momento, por exemplo, em que a terapeuta e a hipnotizadora entram em competição. Tal como acontece com uma das personagens do filme, também eu fiz hipnose uma vez na vida, para deixar de fumar. Não senti nada e, à saída, mal queria acreditar que tinha acabado de pagar 90 dólares pela consulta. Mas nunca mais voltei a fumar. Funcionou!

Este é também um papel que me diz muito porque os meus 50 anos foram difíceis, creio que é um período complicado para toda a gente, para qualquer mulher. Não nos sentimos bem na nossa pele. Para mim, foi uma fase confusa, em que interpretei poucas personagens. Preferi realizar, realizei bastante, mas trabalhei muito menos como actriz, como se me protegesse de alguma coisa. Sentia-me constantemente em competição com a versão mais jovem de mim própria.

[o trailer de “Vida Privada”:]

Essa fase já passou?
Agora que já entrei nos sessentas, atravessei a linha e já não quero saber. Não sei o que aconteceu com o meu corpo, se houve alguma transformação hormonal. Mas deixei de me ralar. Posso redescobrir-me como actriz e dar voz a outras histórias, como aconteceu em O Mauritano e [na série] True Detective. Já em Vida Privada, nunca me tinha acontecido falar tanto em francês num filme, embora eu tenha passado a vida a dobrar em francês todas as personagens que interpretei. Falo o idioma desde criança, a minha mãe me matriculou numa escola francesa quando eu tinha 9 anos de idade. Quer dizer: a Lilian Steiner não sou eu, mas acho que ela traz tudo isto de mim e fecha uma porta qualquer. Ao mesmo tempo, talvez abra outra.

Sentiu-se uma actriz diferente por falar em francês neste filme?
Foi um desafio grande. Em francês, tenho muito mais receio de falhar. O tom da minha voz é mais alto. Fico com a impressão de que me posso enganar a qualquer momento. Apesar de ser fluente em francês, é em inglês que a minha cabeça funciona. Mas esta insegurança da língua, afinal, combina bem com a falta de confiança da personagem. Há uma parte de mim que vem da minha educação francesa e que nunca consegui expressar realmente, até agora. Foi preciso esperar pelo filme da Rebecca. É uma parte de mim que os meus amigos na América não conhecem. Nem a minha própria mãe conheceu [Evelyn Ella Almond, 1928-2019]. Ela matriculou-me numa escola francesa, mas nunca falou a língua. Não podia ler os meus trabalhos de casa quando eu era miúda.

"Fui tão sortuda por ter tido uma infância diferente que isso compensou a falta de normalidade. Às vezes leio livros sobre os anos 70, Scorsese, De Niro, Paul Schrader, e só penso: eu estava lá! E tenho tantas memórias dessa vida singular. Andar estrada fora, com a minha mãe, de hotel em hotel. Trabalhar com equipas de 150 pessoas. Não tinha bem consciência disso nessa altura, era demasiado nova. Às vezes penso no que teria sido se não fosse actriz."

Ao longo da sua carreira, descreveram-na como uma pessoa consistente, controlada, pragmática. Revê-se nesse retrato?
Não sei. Já faço o que faço há tanto tempo… Sei que não gosto de perder tempo. Gosto de estar preparada quando as câmaras começam a rodar, fazer uma take ou duas, e basta. Gosto de sentir que sei acertar à primeira e que há ali uma frescura que se perderia se a cena fosse repetida muitas vezes. Todos nós temos as nossas técnicas, os nossos truques. Interpretar é um processo intelectual que depois se traduz em emoções.

Foi uma actriz-prodígio, começou a interpretar mal saiu do berço. As entrevistas que deu quando tinha apenas 14 anos revelaram uma pessoa com uma maturidade invulgar. Nessa altura, as mulheres tinham um papel muito secundário na fabricação do cinema americano. Que comentário pode fazer sobre isso?
O cinema daquele tempo era um mundo de homens, literalmente. Cresci rodeada de pais e de avôs, costumo dizer. Eles acarinharam-me, protegeram-me, ensinaram-me tudo. Quase não havia mulheres quando comecei, nem sequer na maquilhagem. Nesse sentido, fui muito privilegiada por homens que nem sequer se davam conta de que não estavam a dar oportunidades a outras mulheres. Mas nem me lembro de começar no cinema. Quando dei por mim, já lá estava.

▲ Jodie Foster como Lilian Steiner, a psicanalista que é a protagonista do filme "Vida Privada"

Gostava de ter tido uma infância como a de qualquer outra criança?
Acho que não, nunca senti arrependimentos. Fui tão sortuda por ter tido uma infância diferente que isso compensou a falta de normalidade. Às vezes leio livros sobre os anos 70, Scorsese, De Niro, Paul Schrader, e só penso: fui testemunha dessa história. E tenho tantas memórias dessa vida singular. Andar estrada fora, com a minha mãe [que era então a sua agente], de hotel em hotel. Trabalhar com equipas de 150 pessoas. Não tinha consciência disso nessa altura, era demasiado nova. Às vezes penso no que teria sido se não fosse actriz. Porque eu não sinto que tenha nascido com esse dom. Nunca quis cantar ou dançar em cima de uma mesa só pelo prazer de entreter as pessoas.

Por outro lado, sempre desejei ser o centro das atenções. As minhas personagens acabaram por tornar-se fortes também por isso. Nunca quis ser só a amiga da filha do protagonista. Quis que os filmes falassem de mim, do caminho da minha personagem, da minha transformação. Claro que fui terrivelmente egocêntrica ao longo de todos estes anos. Dei corpo a muitas vítimas e a muitas mulheres lutadoras. Também desejei que os filmes em que entrava contassem não só para mim, mas para a humanidade. Nunca me afastei dessa ideia. O filme que mais me marcou na juventude foi seguramente O Caçador [Michael Cimino], a um nível físico e emocional. É um desses trabalhos excepcionais que nos permitem mergulhar realmente na complexidade do comportamento humano.

Martin Scorsese surgiu em videoconferência na homenagem que Marraquexe lhe prestou e falou de si em criança, quando você lhe entrou no escritório. Dirigiu-a em Alice Já Não Mora Aqui e em Taxi Driver. Qual é a memória mais forte que tem deste último?
Aquilo que ainda me impressiona muito em Taxi Driver é a relevância com que esse filme fala do seu tempo. Cristalizou o desespero americano da década de 70, os anos finais da Guerra do Vietname. Por duas ou três vezes na vida, tive a rara sorte de entrar em filmes que se tornaram no ponto culminante de grandes artistas. Taxi Driver é um desses casos.

"Os filmes que falaram por mim, aqueles que eu mais gostaria de ter realizado, são sobretudo filmes humildes, sem galardões. Tenho uma identidade e uma carreira como actriz, com todos os sacrifícios que isso implica. Respondo por isso. Mas os filmes que realizei são outra coisa, fi-los por amor, com vontade de expressar realmente quem eu sou."

O festival também mostrou um clip com a montagem de alguns dos seus melhores papéis, de Taxi Driver a Os Acusados, de O Silêncio dos Inocentes a Sala de Pânico. Porque é que as suas personagens tiveram sempre que se bater tanto, porque é que houve sempre tanta luta?
É a eterna história do destino dos heróis. Dura há milhares de anos. O herói solitário encontra um problema e, para ultrapassá-lo, vai ter de percorrer um longo caminho, uma longa floresta de experiências, com demónios e monstros pelo meio, até à sua salvação. Nesse caminho, transforma-se. A parte lixada de tudo isto é que as mulheres nunca foram, ou só raramente foram, autorizadas a fazer parte desse mito. No cinema, eu diria que O Silêncio dos Inocentes tem uma beleza fundadora que inaugura algo muito importante em relação a isso. O livro de Thomas Harris, tal como o filme de Jonathan Demme — é o meu favorito de todos os que fiz — pegaram numa ideia de herói de tragédia grega e aplicaram-na a uma mulher, como nunca havia acontecido.

Em 1991, realizou a sua primeira longa-metragem, Little Man Tate/Mentes que Brilham. Porque é que deu esse passo?
Porque sempre quis ser realizadora, desde criança, desde os meus primeiros episódios televisivos. Num deles, descobri que o actor que interpretava o pai da minha personagem era o realizador. Lembro-me muito bem de ter ficado espantada com isso, nunca mais me saiu da cabeça: “Afinal os actores também podem realizar…” Mas no meu círculo, realizadores-mulheres era coisa que “não existia”. À medida que fui crescendo, habituei-me a procurá-las, mas no cinema europeu. Lina Wertmüller, Margarethe von Trotta e, claro, Chantal Akerman e o seu Jeanne Dielman [23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles]. Só mais tarde apareceu Jane Campion. E é quase chocante pensar agora que, nessa altura, eu nunca me questionei sobre o que podia ser o ponto de vista feminino no cinema, da mesma forma que hoje sabemos olhar para um filme recente de que gosto bastante: Retrato da Rapariga em Chamas, de Céline Sciamma.

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▲ O realizador Bong Joon-ho entregou o Prémio de Tributo do júri do Festival Internacional de Cinema de Marraquexe, em Novembro deste ano

Corbis via Getty Images

Estamos no icónico hotel La Mamounia, onde Hitchcock rodou, nos anos 50, O Homem Que Sabia Demais. A Jodie nunca fez filmes com Hitchcock, mas trabalhou com alguns dos melhores cineastas americanos do nosso tempo. Em algum momento foi intimidada por eles, pelo cinema deles?
Não acho que os génios me tenham intimidado, já que mencionou um. Aliás, os filmes que falaram por mim, aqueles que eu mais admiro e gostaria de ter realizado, são sobretudo filmes humildes, sem galardões. Tenho uma identidade e uma carreira como actriz, com todos os sacrifícios que isso implica. Respondo por isso. Mas os filmes que realizei são outra coisa. Fi-los por amor, com vontade de expressar realmente quem sou, sem ambições nem sonhos de grandeza. E isso tornou-os ainda mais especiais para mim.

De todas as personagens que interpretou, qual é a mais parecida com a verdadeira Jodie Foster?
Boa pergunta. Vou escolher a Ellie Arroway em Contacto, de Robert Zemeckis. Uma mulher ambiciosa, solitária, à procura de uma experiência emocional, quase espiritual, que a deixará mais só ainda, porque ninguém a poderá seguir até esse lugar.

Voltando a Vida Privada: outro aspecto curioso de Lilian Steiner é o facto de ela gravar em áudio as sessões com os seus pacientes. Não consegue viver realmente o presente. Prefere gravá-lo. Não quer enfrentar o que lhe acontece. É uma vulnerabilidade muito actual, concorda?
Lilian Steiner acha que vai conseguir resolver aquele mistério e torna-se detective. Na verdade, o caminho que ela vai percorrer mostra-lhe diversos lados de si própria que ela não estava disposta a ouvir, ou que recusava ver. No fundo, ela tem contas para acertar com a sua própria psique. Vida Privada consegue tornar esta descoberta numa viagem divertida e comovente ao mesmo tempo. O filme está muito ancorado na ideia de desbloquear um medo primordial que todos nós temos: o medo do abandono.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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