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Os escritores José Rodrigues dos Santos e Raul Minh'Alma disputam, nos últimos anos, o título de escritor português mais vendido
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▲Os escritores José Rodrigues dos Santos e Raul Minh'Alma disputam, nos últimos anos, o título de escritor português mais vendido

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

▲Os escritores José Rodrigues dos Santos e Raul Minh'Alma disputam, nos últimos anos, o título de escritor português mais vendido

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

José Rodrigues dos Santos ou Raul Minh'alma. Quem é, afinal, o escritor português que mais vende em Portugal?

Editora Manuscrito diz que título é de Raul Minh'alma. GfK, que audita o setor, diz que é José Rodrigues dos Santos, editado pela Planeta. Em que ficamos? Tudo depende de como se olha para os números.

16 de janeiro de 2025, 11 horas. Um e-mail chega a vários jornalistas. Assunto: Press Release: Raul Minh’alma foi o autor português mais vendido em Portugal em 2024. Perante a notícia, o autor Raul Minh’alma assume sentir-se “profundamente feliz e emocionado”. “Embora seja já a terceira vez que consigo este feito, depois de 2020 e 2021, a alegria que senti foi como se tivesse sido a primeira vez”, revela o comunicado da editora, citando o autor. “Mais difícil do que chegar ao topo é ficar lá e eu tenho tido a alegria de conseguir isso graças ao maravilhoso público português que me tem dado a honra da sua preferência.”

A fonte da informação, segundo o mesmo e-mail, é a GfK, a entidade independente responsável por auditar as vendas de livros e medir as audiências televisivas em Portugal, além de outros estudos de mercado.

O Observador contactou a consultora alemã pedindo acesso à lista de autores portugueses mais vendidos em Portugal em 2024. A resposta não tardou. Os autores portugueses mais lidos no último ano, segundo a GfK, são, por esta ordem: José Rodrigues dos Santos, José Saramago e Raul Minh’alma. O top 10 fica completo com Nuno Caravela, Fernando Pessoa, Álvaro Magalhães, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Valter Hugo Mãe, Manuel Clemente e Pedro Chagas Freitas. Na resposta enviada por escrito surge uma ressalva: “os três primeiros têm volumes de vendas muito próximos”.

Confrontada, a Manuscrito, que edita a obra de Raul Minh’alma, começou por justificar ao Observador a “discrepância” com a métrica de avaliação. “O JRS vendeu mais em €€, mas o Raul vendeu mais unidades, logo, é o autor que mais exemplares vendeu. A diferença entre ambos, a nível de exemplares vendidos, é pequena, de facto, mas o Raul vendeu 69.286, e o JRS 68.782 exemplares”, justifica o gabinete de assessoria de imprensa, por e-mail. Por estas contas, Minh’alma teria vendido mais 504 livros do que Rodrigues dos Santos. No entanto, José Rodrigues dos Santos poderia ter arrecadado mais receita, já que os livros que edita são tendencialmente mais caros: 22,50€ é o preço fixado pelo editor ou importador no caso do último volume, contra 18,90€, no caso da última obra de Minh’alma.

Mas a tese é rapidamente desmentida pela GfK, que esclarece que “o top foi feito com base em unidades vendidas em 2024”. “Ambos os autores têm volumes de vendas muito próximos e, segundo os dados GfK, José Rodrigues dos Santos tem a maior quantidade de exemplares vendidos em 2024”, garantem ao Observador.

Em Portugal quem audita o mercado do livro é unicamente a GfK. É a consultora responsável por fornecer os dados à APEL — Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que periodicamente os envia às editoras e à comunicação social. A GfK audita as vendas ao consumidor final a partir de uma amostra representativa do mercado português composta maioritariamente por retalhistas da grande distribuição, especializados e não especializados. “Estimamos uma cobertura de 80-85% do total do mercado (fisico/online)”, esclarecem.

▲ A capa do livro "O Protocolo Caos", de José Rodrigues dos Santos, edições Planeta. E a de "Fomos Mais do que um Erro", de Raul Minh'Alma, da editora Manuscrito

O que está na origem da discórdia sobre o que define o líder de vendas português? A tradução

A contabilização da GfK “inclui edições traduzidas”, confirmam ao Observador. Parece um detalhe, mas revela-se decisivo no caso de José Rodrigues dos Santos, traduzido para várias línguas. Já “os títulos do Raul Minh’alma são apenas em português”. Confrontada com a comunicação feita pela Manuscrito, a GfK postula que a editora possa “ter considerado apenas a categoria de Literatura”. “Na categoria de Literatura, o Raul Minh’alma está em primeiro, mas não quando consideramos todas as categorias, já que o JRS tem vários títulos em Literatura Importada/traduzida”. Assim, conclui fonte da consultora: “Se não considerarmos as obras traduzidas para outras línguas, e apenas obras escritas em português, o Raul Minh’alma vendeu mais”.

É exatamente isso que faz a Manuscrito, como confirma ao Observador a diretora de marketing do Grupo Editorial Presença, Joana Araújo. A editora considera apenas a categoria “Literatura”, e exclui a “Literatura Importada”, que é considerada uma categoria à parte. “Nós, à semelhança das outras editoras nacionais, como não operamos noutro mercado, considerámos estar subentendido”, diz a diretora de marketing. No entanto, os livros traduzidos que são contabilizados são os que são vendidos no mercado nacional — a GFK audita apenas o mercado livreiro nacional. Por outras palavras, os livros que catapultam José Rodrigues dos Santos para o lugar de autor mais vendido são livros do autor traduzidos para inglês ou francês, por exemplo, mas vendidos em Portugal.

Na mesma resposta por escrito ao Observador, a editora admite: “Se quisermos ser 100% precisos, porém, o título é: Raul Minh’alma, autor de literatura portuguesa mais vendido em Portugal em 2024”, diz. “Raul Minh’ Alma foi o autor português mais vendido em Portugal, durante o ano de 2024, de livros em língua portuguesa”.

A Planeta, por sua vez, insiste em focar a comunicação com o que não é alvo de dúvida: o livro português mais vendido em 2024. Trata-se do 26.º romance de José Rodrigues dos Santos, O Protocolo Caos, lançado em outubro. “Inspirado em factos reais, O Protocolo Caos transporta-nos ao coração da atualidade mais escaldante e mostra-nos como a Rússia e os seus cavalos de Troia no Ocidente usam as redes sociais para destruir o nosso mundo”, lê-se na sinopse.

O livro chega mesmo ao segundo lugar dos livros mais vendidos em Portugal sem distinção de nacionalidade de autor, só sendo superado por A Criada, de Freida McFadden (que já foi o mais vendido em 2023). Voltando aos livros mais vendidos de autores portugueses, o escritor e jornalista integra uma segunda vez a lista com O Segredo de Espinosa (9.º lugar). Já Raul Minh’alma figura também duas vezes no top graças a Fomos Mais do Que um Erro (2.º lugar) e Tudo Foi Como Tinha de Ser (4.º lugar).

O Observador quis saber exatamente quantos livros vendeu cada autor nos últimos 12 meses, mas a GfK não divulga esses dados. Questionada, a Planeta avança que José Rodrigues dos Santos vendeu “mais de 85 mil livros em 2024” (não inclui os títulos publicados anteriormente pela Gradiva), citando dados internos da editora. Já a Manuscrito diz que, em 2024, foram vendidas “70 mil unidades de todos estes livros”, notando que “os números referem-se a todos os títulos do Raul Minh’alma vendidos em 2024: sete romances, uma edição especial e três livros de textos soltos”.

Nos canais de comunicação das editoras, ambas preferem exaltar valores globais. A Manuscrito diz que a “vasta obra [de Minh’Alma] conta com mais de 800 mil exemplares vendidos”. A Planeta assegura que “entre as edições dos seus livros em Portugal e no estrangeiro o autor [José Rodrigues dos Santos] já vendeu um total de 6 milhões de exemplares”.

Autores não querem saber de tops, exceto quando os ganham. Mas admitem que vendas são importantes

José Rodrigues dos Santos não liga a tops. “Olho para os números, mas não faço comparações com outros autores”, diz ao Observador o popular jornalista e pivô da RTP. “Preocupo-me com os meus números, não só em Portugal, como no estrangeiro”. Está editado em mais de vinte línguas, figura com frequência no top de vendas de países como a França, a Bulgária, a Suíça, o Canadá, a Hungria e a Turquia. Identifica os mercados com mais resistência — como o alemão —, interessa-se pelas capas, observa a forma como o livro é comunicado em diferentes mercados, procura perceber o que resulta e o que não. Mas, sobre tops, diz: “Não presto atenção”.

Se há algo que une os dois autores é a celeridade da produção. Aos 60 anos, JRS escreve dez páginas por dia, edita um volume por ano — em 2025 serão dois, um já na primavera e outro no outono. “Se não estiver a escrever não me sinto bem. Quando estou sem fazer nada começo a escrever, como um futebolista se estiver sem fazer nada começa a brincar com a bola”.

A cadência com que publica já levou muitos a questionar se é o próprio a escrever os livros, tese que negou ao Observador em 2023. “Escrevo profissionalmente desde os 17 anos. É natural que faça parte da minha maneira de ser”. A frequência com que publica, diz, está longe de ser uma estratégia de marketing.

“Existe um pudor que resulta de uma certa demonização do dinheiro, que faz parte da nossa cultura já desde os ensinamentos religiosos. Mas uma pessoa que trabalha quer saber quanto é que ganha. O salário é importante. E as vendas são o salário do escritor. É o que lhe dá a independência"
José Rodrigues dos Santos, escritor e jornalista

“Há muitos casos de autores que publicam e o publicar muitas vezes até pode ser prejudicial porque banaliza o livro”, nota. “Há escritores que escrevem menos e que quando publicam conseguem vender mais, pois criam uma expectativa prolongada em relação à saída”, continua, dando como exemplo Dan Brown, popular autor ao qual é não raras vezes comparado e que vai passar a ser publicado em Portugal também pela Planeta.

José Rodrigues dos Santos diz-se movido pelo “brio”, mas não nega que as vendas, mais do que os tops, são importantes. “Existe um pudor que resulta de uma certa demonização do dinheiro, que faz parte da nossa cultura já desde os ensinamentos religiosos. Mas um profissional tem essa preocupação. Uma pessoa que trabalha quer saber quanto é que ganha. O salário é importante. E as vendas são o salário do escritor. É o que lhe dá a independência, ponto”.

Basta olhar para o perfil de Instagram de Raul Minh’alma para perceber que os tops importam. A biografia do escritor nesta rede social contempla um emoji de um troféu dourado seguido da seguinte frase: “Autor de literatura portuguesa mais vendido em Portugal em 2020, 2021 e 2024”. A primeira publicação do feed, afixada no perfil, data de 13 de janeiro e mostra o escritor num supermercado a abeirar-se da estante com o top de livros mais vendidos. No vídeo, agarra e folheia o seu próprio livro para logo voltar a colocá-lo no mesmo sítio. “Nº 1 no TOP graças aos melhores leitores”, lê-se sobre a imagem.

“Os dados que me comunicaram indicam que sou eu [o autor mais lido], ainda que por poucos”, responde ao Observador, por telefone. Raul Minh’alma, pseudónimo adotado por Pedro Miguel Queirós para as suas obras literárias, diz que foi a editora que lhe facultou os dados. “Aquilo que me foi comunicado é que seria eu e não seria por muito”, reitera. “Na altura, aquilo que me foi comunicado é que [a dúvida] podia ter que ver com os livros estrangeiros que estavam publicados, ou seja, do outro autor, que estavam publicados em Portugal e que depois, afinal, parecia que podia ser ele, mas que afinal era eu”, continua. “Não sei quais livros é que podem ser considerados para estas contas, se for um escritor mais vendido… Como não estou publicado em muitos países estrangeiros…” O autor está publicado no Brasil pela editora Novo Conceito, que comprou os direitos de publicação de seis livros do escritor em 2022.

“Na verdade era um receio meu”, assume Minh’alma sobre a dúvida levantada pelo Observador. “É um receio meu estar a comunicar uma coisa que, na verdade, não é. Mas tenho de confiar nos dados que me foram passados”.

▲ O perfil de Instagram de Raul Minh'alma, onde o autor de 32 anos reune cerca de 255 mil seguidores

Nascido em 1992 em Marco de Canaveses, Raul Minh’alma formou-se em Engenharia Mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto antes de enveredar pela carreira literária. A importância dada aos números, todavia, não se perdeu. “As vendas são um dos medidores de sucesso, ou pelo menos um barómetro, para perceber como é que está o mercado. Estou sempre atento às vendas, pelo menos mensalmente, até para perceber se é preciso ajustar alguma coisa”, explica. “Tenho consciência daquilo que estou a vender e por isso também estou a par das melhores alturas do ano, de quando é preciso criar alguma campanha especial ou comunicar de forma diferente. Há alturas específicas em que se vendem mais livros e há outras alturas em que já não se vende tanto”, elucida.

“Dezembro é sempre o melhor mês”, anuncia. Antes do Natal vende “dezenas de milhares” de exemplares. “O mês de dezembro garante a sustentabilidade para o ano inteiro”, confirma.

Foi aos 17 anos que começou a escrever poesia e, em 2011, lançou o seu primeiro livro de poemas com o título Desculpe Mãe. Mas é em 2016 que tudo muda, quando passa a ser editado pela chancela Manuscrito, do Grupo Editorial Presença e lança Larga Quem Não Te Agarra (2016). Com 24 anos, conhece o seu primeiro bestseller. Seguem-se Todos os dias são para sempre (2017), Dá-me um dia para mudar a tua vida (2018) e Foi sem querer que te quis (2018), que se tornou o livro mais vendido de 2019. Seguiram-se Ganhei uma vida quando te perdi (2019), no mesmo ano, Durante a queda aprendi a voar (2020), Se me amas não te demores (2021), Como Se Fosse a Primeira Vez (2022), Tudo Foi Como Tinha de Ser (2023) e Fomos Mais do que um Erro (2024).

Raul Minh’alma conta com onze livros publicados, todos eles bestsellers. Uma nota de imprensa da editora caracteriza os romances como “histórias de amor com uma forte componente de desenvolvimento pessoal”. “O compromisso é ajudar o leitor enquanto lhe conta uma emocionante história”, resumem.

48 Horas com José Rodrigues dos Santos, máquina de fazer livros: “Posso não ser profeta, mas o grande público é que interessa”

“É só um livro por ano, apesar de tudo”, responde ao Observador, sobre a escrita eficiente. “Consigo escrever um livro em dois ou três meses”, diz, referindo-se ao processo de escrever, de facto. O que toma tempo é “a procura da história ideal”, aponta. “Passo por esse pânico, sempre à procura de uma história que me agarre o suficiente. Às vezes é ao longo de dois meses que ando nesse processo criativo, à procura dessa história ideal, pelo menos para mim”. Tem encontrado sempre o que procura, já que os livros chegam às livrarias todos os anos, entre outubro e novembro.

Nas redes sociais, os comentários atropelam-se em elogios ao autor e sua obra. “Tenho os melhores leitores do mundo”, escreve o autor, que considera que há “claramente” um preconceito generalizado com os seus livros. “Claramente”, dispara. “Diria que 90% das pessoas que não gostam dos meus livros nunca leram um”, graceja.  “Não é só comigo, é transversal, mas comigo acontece muito”. “Dizemos não julgues um livro pela capa, mas há quem o faça”.

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