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© Dusdin Condren / Divulgação

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Kevin Morby: “Na música estamos constantemente rodeados de álcool. É preciso falar sobre isto” /premium

É uma certeza da nova música americana e este verão apresenta o novo disco (5º em 7 anos) em Lisboa e Braga. Ao Observador, Kevin Morby falou de religião, "slow living" e vida de estrada.

A entrevista já estava na reta final. Já se falara de Oh My God, o novo álbum de Kevin Morby. Já se falara também de religião, de popularidade, de trompetes, saxofones e pianos. Já se discutira a dificuldade do músico norte-americano em não estar sempre a pensar no passado e no futuro, o seu gosto em viver sem ter sempre o pé no acelerador e o seu encanto pelo Porto e por Lisboa. Mas faltava discutir um tema que Kevin Morby acha que se discute pouco. Assim que foi questionado sobre ele, embalou.

Há menos de um ano, em julho de 2018, Richard Swift morreu. Swift era muita coisa: músico, compositor, produtor musical, cantor. Foi membro da banda The Shins e fez parte da formação ao vivo dos The Black Keys. Gravou discos, montou um estúdio no qual trabalhou como engenheiro de som, andou na estrada. Menos de dois anos antes de morrer, sentou-se com Kevin Morby em Stinson Beach, na Califórnia, para dar forma a City Music — o quarto álbum de Morby e o antecessor deste novo Oh My God, lançado no último mês de abril.

Richard Swift não foi apenas o músico-engenheiro que Kevin Morby convocou para produzir consigo o seu disco anterior, era também “um amigo”, como o autor de Oh My God o classificou no Twitter perto de duas semanas antes de este morrer. Nessa altura, Swift estava hospitalizado e um conjunto de amigos e familiares apelava na internet a doações, já que o músico “não tem seguro de saúde” — escrevia-se à data — “e o custo dos cuidados” que estava a receber “era muito elevado”.

Na altura, o círculo próximo de Richard Swift apelava a quem pudesse “partilhar o peso deste fardo” financeiro. Pedia ajuda, dizia que “qualquer coisa ajudava” e seria “profundamente bem-vinda e apreciada”. Kevin Morby partilhou o apelo e escreveu: “O Richard Swift é um amigo. Tive a sorte suficiente de trabalhar com esta lenda viva no álbum City Music“. Swift, acrescentava então Morby, tinha “um toque mágico”, capaz de transformar um álbum mediano num álbum fantástico. “É a arma secreta de muitos dos vossos álbuns favoritos. Por favor, ajudem-no a melhorar”.

[Eis o teledisco de “City Music”, single do álbum homónimo de Kevin Morby em que Richard Swift trabalhou:]

As esperanças não se cumpriram e a ajuda não foi suficiente: Richard Swift morreu duas semanas depois, com 41 anos. Fizeram-se obituários na imprensa, a internet lamentou a morte e, precisamente uma semana depois, a família, a sua editora e a agência que o representava emitiram um comunicado conjunto, onde davam conta das causas da morte. No comunicado, lia-se:

Sim, o Richard Swift sofria de vício do álcool e em ultima análise foi isso que lhe tirou a vida. Com o apoio da família e amigos e a ajuda da MusiCares [uma organização sem fins lucrativos que apoia músicos com problemas financeiros, de saúde ou em necessidade de reabilitação], o Richard deu entrada em clínicas de reabilitações para múltiplas estadias nos últimos dois anos. Porém, o seu corpo faliu antes de conseguir ultrapassar a doença. Foi-lhe diagnosticada hepatite e problemas de falência do fígado e do pulmão em junho [mês anterior]. Muitos hospitais esforçaram-se por estabilizá-lo durante esse mês, mas não foi possível curar-lhe o corpo e, pelo desejo dele e com o consentimento da sua família, passou para uma unidade de cuidados paliativos. O Richard faleceu ao início da manhã de 3 de julho de 2018 numa unidade de cuidados palitativos de Tacoma, Washington. Deixou a sua mulher Shealynn e os três filhos de ambos, Madison, Adrian e Kennedy.”

No dia em que Swift morreu, Kevin Morby publicou uma mensagem nas redes sociais: “O meu bom amigo Richard Swift morreu. Era amado por muitos e colocou a fasquia muito, muito alta. Tão alta que agora está lá em cima, no céu. Tenho saudades tuas, Richard. Vou sentir a tua falta. Vemo-nos no outro lado. Obrigado por todo o teu trabalho árduo e inspirador e obrigado por me fazeres rir. Beijos e abraços”.

(@ Barrett Emke)

Richard Swift não foi o primeiro nem será o último músico a morrer por abuso de álcool ou drogas, os exemplos são muitos. Há um problema de que não se fala muito no dia-a-dia e Kevin Morby prestou-se a falar dele. Disse ao Observador: “Acho que há uma coisa muito importante que a comunidade musical tem de começar a fazer: falar mais sobre isto. As pessoas não falam sobre porque é que o Richard Swift morreu, dizem apenas que morreu. Acho que se tem de discutir mais este assunto.”

O que é “este assunto” a que Kevin Morby aludiu? “É um bocado como a galinha e o ovo”, explicou. Por um lado, o músico acredita que esta arte “atrai pessoas doridas” — na versão em inglês, damaged people —, “sombrias”, que procuram na música um refúgio e uma terapia para expiar dores. Pessoas que procuram “um alívio”. Por outro lado, porém, entende que não se pode tirar a vida de estrada  da equação quando se fala no problema: “É estranho porque as pessoas vão para a música por essas razões, mas depois começam a fazer digressões, as pessoas começam a olhar para elas e…”

O raciocínio ficou em suspenso, mas Kevin Morby retomou e aprofundou: “Do que vejo, acho que os atores e as atrizes têm personalidades diferentes dos músicos, embora cada um seja diferente. Nós, músicos, queremos que as pessoas olhem para nós, mas ao mesmo tempo também não queremos ao certo que as pessoas olhem para nós. Grande parte de nós é sensível e tímida e acabamos por nos expor verdadeiramente, em palco e ao lançarmos discos”.

[“Beautiful Strangers”, tema que Kevin Morby compôs para dedicar às vítimas de atentados terroristas depois do ataque no Bataclan, em Paris:]

O circuito musical, apontou o músico ao Observador mais em tom de constatação do que de aviso, “é o sítio perfeito para que os vícios se entranhem nas pessoas”. Isto porque um músico está “constantemente rodeado de álcool e é estimulado por muita gente a, de certa forma, começar a perder o controlo”. Acresce que as pessoas “precisam de ter acesso a ajuda e a terapia” e muitas vezes os músicos independentes (os outros terão outros problemas, como não ter um controlo tão grande sobre as suas agendas e as suas vidas) “não têm dinheiro para isso” — ainda mais nos Estados Unidos da América, onde os custos de saúde são avassaladores.

O problema é endémico e há alguns meses era o norte-americano Ryley Walker quem publicava uma mensagem nas redes sociais — posteriormente eliminada — dando conta do cancelamento de uma digressão europeia por estar com “problemas sérios de saúde mental” relacionados com adições. “É um bom exemplo, uma pessoa fantástica e que espero que esteja bem, mas não sei”, confessou-nos o autor de Oh My God.

"Na estrada acabas por beber mais do que o habitual. Tenho tido muita sorte por não ter problemas sérios com drogas ou álcool. É mesmo preciso falar sobre isto."

Ele, Kevin Morby, também não é imune, embora garanta estar tão bem quanto possível. Quando se está numa digressão, “é mais ou menos impossível” ter um estilo de vida saudável, já que “mesmo que estejas sóbrio e não tomes drogas”, é muito difícil ter hábitos saudáveis “quanto ao que comes ou como dormes”. Apesar de garantir que nunca teve hábitos “tão pouco saudáveis” em digressão, que “é simplesmente difícil fazer alguma coisa certa” nessas alturas, garante que não bebe “demasiado” quando está em casa. Ainda assim, “na estrada acabas por beber mais do que o habitual”. Contas feitas, deve e haver, não está perfeito mas não é dos casos mais graves: “Tenho tido muita sorte por não ter problemas sérios com drogas ou álcool”. Mas “é mesmo preciso falar sobre isto”.

O “slow living” de uma alma antiga

Kevin Morby sabe do que fala quando diz que a música atrai “damaged people”, ou pessoas com problemas. Ele próprio não tem um passado totalmente livre de percalços (alguém o terá?). Filho de pais que vieram de “lares problemáticos” — o avô paterno, por exemplo, sofria de alcoolismo —, o músico que em 2018 passou a barreira dos 30 anos nasceu no Texas mas cresceu em Kansas City, no estado do Missouri.

A bateria foi o primeiro escape à sensação de distanciamento do mundo, numa banda que formou aos 10 anos chamada Creepy Aliens. “Era apenas um puto e tocava bateria, mas não precisas de ouvir essa banda de todo”, apontou ao Observador, rindo-se ao ser confrontado com a memória. Depois veio a guitarra, só mais tarde a voz. Sensível, “impressionável” e “nostálgico” desde miúdo como já assumiu em várias entrevistas, dedicou um tempo invulgar da sua infância e adolescência a pensar na passagem do tempo e no sentido e efemeridade da vida, motivado também pelo contacto com as artes — nomeadamente com a literatura, cinema, música e fotografia, “as mais presentes”.

Na adolescência e aproximação à idade adulta, dos 15 aos 17 anos, passou um período mais conturbado em que sofreu de ataques de pânico regulares. Um ano depois de deixar de os ter, já depois de ter largado a escola, abandonou Kansas City e o Missouri rumo a Nova Iorque. Na cidade dos sonhos, ainda jovem, sobreviveu à custa de biscates em cafés e trabalhos de estafeta.

Kevin Morby foi para Nova Iorque para perseguir um rumo artístico e tentar vingar na música. Acabou por consegui-lo, como baixista de uma banda de folk-rock chamada Woods (que também já atuou em Portugal por mais de uma vez) e como guitarrista e vocalista dos The Babies, que formou com a sua ex-colega de casa — já com experiência no punk nova-iorquino — Cassie Ramone.

Kevin Morby num concerto dos The Babies, em 2011, com caracóis, óculos escuros e guitarra à Bob Dylan (@ Cory Schwartz/Getty Images)

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Seria a solo, já depois das experiências e digressões com bandas, que Kevin Morby se assumiria em definitivo no meio musical, mas a sua ida de Kansas City para Nova Iorque poderia bem dar uma curta-metragem de um dos seus videoclips — e evidencia bem um traço da sua personalidade que se reflete na música que faz e nos temas sobre os quais tem escolhido cantar. Embora as duas cidades estejam separadas por quase 2.000 quilómetros, que demoram 18h (sem pausas) a serem percorridos de carro, Morby optou por ir de comboio em vez de se deslocar de avião. Numa entrevista à Vogue, em 2016, afirmou: “Fui pelo caminho lento. Tinha medo de voar, só tinha estado num avião duas vezes”.

O medo dos aviões não foi, porém, o único motivo para a viagem ter sido feita por via terrestre: “Tenho dificuldades em encaixar na minha cabeça que posso entrar num avião e estar lá em duas horas — ou tinha, pelo menos (…) É como dormir com alguém cedo demais numa relação. Não é preciso chegarmos ao destino tão rápido, é bom que de certa forma nos apaixonemos” pela viagem, relatou. Um tipo mais urbano e modernaço chamaria a isto slow living.

"Acho que as coisas só funcionam se avançares prestando atenção a cada passo do caminho. Até para digerir a vida preciso de a viver sem a apressar. Importa mais aproveitar a viagem que se faz do que o destino, por mais careta que possa soar."

Ironicamente, anos mais tarde, Kevin Morby veio a assumir a um jornal espanhol que se não pudesse ser músico talvez gostasse de trabalhar num aeroporto. Um jornalista da revista nova-iorquina The Fader, que o acompanha desde o início de carreira, descreveu-o um dia como alguém que tem “uma alma em trânsito”. As noções de movimento e viagem surgem habitualmente na sua música e parecem aparecer como  metáfora para a vida (oiça-se “Slow Train”, dueto do seu primeiro álbum com Cate Le Bon). Questionado, não nega inteiramente: “Acho que é uma metáfora verdadeiramente boa. Mesmo olhando para a minha carreira, fazer um caminho lento de crescimento tem sido bom. Acho que as coisas só funcionam se avançares prestando atenção a cada passo do caminho. Até para digerir a vida preciso de a viver sem a apressar. Importa mais aproveitar a viagem que se faz do que o destino. Por mais careta que possa soar, acredito mesmo nisso”, apontou ao Observador.

Paradoxalmente, o músico que é habitualmente elogiado pela crítica sobretudo pela poética das suas letras — mesmo que os arranjos musicais sejam, regra geral, de clarividente bom gosto — tem dificuldades em fugir de reflexões sobre o passado e futuro que lhe dificultam a fruição do dia-a-dia. Como apontou ao Observador, é “uma pessoa muito reflexiva”, que está “constantemente a pensar sobre o passado e constantemente a indagar-me sobre o futuro, por vezes talvez demais, há momentos em que me deveria focar mais no presente”.

(@ Dusdin Condren)

© Dusdin Condren / Divulgação

O fascínio com temas que têm ocupado a arte há muito tempo como o sentido e efemeridade da vida, a morte, o amor e as frustrações a tudo isto associadas tem-lhe servido de combustível para a escrita. No primeiro álbum, Harlem River, de 2013, tinha canções que apontavam para movimento e viagem como “Miles, Miles and Miles”, para a rapidez da passagem do tempo como “Slow Train” (em que cantava sobre esperar um comboio que já partira) e para amores perdidos (ou, se quisermos ser mais prosaicos, a efemeridade do amor e das relações humanas) em “If You Leave and If You Marry”. Apresentava-se aí como um poeta-cantor melancólico ao estilo de um Bob Dylan especialmente sombrio, de um Townes Van Zandt mais moderno e menos country fora da lei, de um Leonard Cohen se este enveredasse mais regularmente pelo folk-rock. Seguia o caminho, enfim, do cançonetismo americano mais desencantado e despojado.

No segundo álbum, Still Life, editado um ano depois, o tom poético-depressivo de Kevin Morby prosseguiria, com canções sobre o amor (nomeadamente o amor perdido, como em “Drowning”, onde cantava os belíssimos versos “Se o amor é como um oceano / se o nosso amor é como o mar / então estamos a afundar-nos”), a derrota, a aproximação de um trágico fim (“Não estou morto / mas estou a morrer”, apontava em “Amen”) e a morte. Os assuntos não mudariam muito no terceiro álbum, Singing Saw, mas surgiriam revestidos já de arranjos musicais mais elaborados e cuidados, de uma beleza ímpar. É talvez a sua obra-prima, o seu álbum mais conseguido, ilusoriamente sereno, despojado de artifícios, repleto de letras que sobreviveriam lidas (sem música) e em que a voz de Kevin Morby no canto se aprimorava e se sustentava, segura, sem precisar de grande suporte, como até aí não acontecera.

City Music, o álbum anterior a este novo Oh My God, de ímpeto mais elétrico e acelerado e com a vida urbana em pano de fundo, não deixava de conter momentos melancólicos, sofridos, com dor e isolamento. Ouvindo-se “Come To Me Now”, “Aboard My Train” — sim, são mesmo incontáveis as referências a comboios e viagens na sua música — “Dry Your Eyes” ou a muitíssimo recomendável “Downtown’s Lights”, não se ficava com dúvidas.

É notório que Kevin Morby tem há muito um fascínio com contos trágicos, poesia infeliz (não no seu resultado, mas no seu tom), melancolia e acalmia. Ele próprio já o assumiu em entrevistas anteriores e fê-lo novamente, agora ao Observador: “Se estou a contar uma história, é-me natural falar dessas coisas. Além disso, o meu melhor amigo morreu quando eu tinha 20 anos. Acho que quando isso aconteceu, abriu-se uma porta para um certo fascínio e sensibilidade para temas como a morte, a vida depois da morte, a curta duração  da vida… tudo isso começou a tornar-se muito interessante para abordar também enquanto autor, com a minha experiência”.

Um disco religioso de um não crente (e o encanto pelo Porto e por peixe fresco)

Oh My God é o quinto álbum lançado por Kevin Morby em sete anos e este verão será apresentado pelo músico norte-americano de 31 anos em Lisboa e Braga, respetivamente no Teatro São Luiz (em concerto programado pela Galeria Zé dos Bois), a 7 de julho e no gnration, em Braga, no dia seguinte. Curiosamente, o novo disco tem alguns pontos de ligação com o terceiro, Singing Saw: também conta com produção musical do norte-americano Sam Cohen, também foi lançado dois anos depois do álbum antecessor (ao contrário dos restantes, editados à média de um por ano) e é um regresso aos discos menos acelerados e ancorados no som da guitarra elétrica.

A monotonia não se instala e também há rock nesta nova etapa do percurso musical globalmente ascendente de Kevin Morby. Basta ouvir o quarto tema, “OMG Rock and Roll”, tema folk-rock que começa com ritmo mais rápido e teor lírico mais desprendido, estilo “que se lixem os problemas, temos o rock”, isto antes de um coro celestial vir confundir tudo e dar uma guinada no rumo da canção. Mas nem o folk-rock nem a guitarra elétrica têm aqui o protagonismo que assumiram em anteriores álbuns do músico, nomeadamente em City Music.

Na apresentação promocional deste novo trabalho, Kevin Morby considerou-o o seu “álbum mais conseguido” e “uma peça coesa”. Mal seria se assim não fosse, não é? “Sinto sempre que fiz o meu melhor álbum quando os acabo. Presumo que sentir isso seja bom, se não o sentisse não quereria lançá-los e mostrá-los às pessoas”, apontou ao Observador, fazendo ainda uma espécie de auto-avaliação dos seus discos em jeito de balanço: “Gosto dos primeiros dois álbuns, Harlem River e Still Life, mas acho que ainda estava a tentar encontrar a minha voz. Os três seguintes — o Singing Saw, o City Music e este Oh My God — parecem-me igualmente bons, simplesmente acho que com este tive um pouco mais de tempo para trabalhar, não tive de apressar as coisas, como chegou a acontecer no Still Life e mesmo no City Music…”

Se este novo álbum é diferente do anterior, que por sua vez já se distanciara do som mais sereno e menos elétrico de Singing Saw, é sobretudo porque Kevin Morby está a tentar evitar por todos os meios ter uma profissão monótona e aborrecida, revelou: “Alterar as coisas permite-me mudar o tom do que canto, a banda que me pode acompanhar ao vivo. Procurar o oposto do que fiz antes permite que isto não se torne chato”.

Este é, também, o mais próximo que Kevin Morby já esteve de fazer um álbum conceptual (mas também espiritual e religioso). Os coros femininos são constantes, as expressões “oh my lord” e “oh my god” são permanentemente repetidas e o som do piano e dos sopros (nomeadamente saxofone e trompete) parece celestial, a pairar com uma serenidade beatífica. O conceito deve-se em parte às suas raízes e cultura e em outra parte ao momento atual dos EUA, apontou: “No sítio de onde venho, a religião está mais ou menos em todo o lado. Os acontecimentos do último par de anos levaram a que a espiritualidade se espalhasse mais pelas minhas canções, pelo grau de divisão e violência que tenho assistido no meu país.

"À medida que vamos envelhecendo, vamo-nos sentindo cada vez mais mortais e tendemos a olhar para as coisas com mais afeto. Começamos a encontrar significado em coisas que nos pareciam irrelevantes, a que nem ligamos quando somos mais novos, como amar e confiar no que nos rodeia."

Oh My God não é um disco de um crente. Kevin Morby tem vindo a esclarecê-lo desde que o editou e corroborou a ideia ao Observador: “Não significa que tenha passado a acreditar em Deus, não é isso. Acho simplesmente que quando trazemos vocabulário e expressões religiosos para a discussão talvez estejamos a colocar na equação reflexões sobre o que deve ser a vida e a estimular a humanidade das pessoas”. A fé e a implantação da religião na cultura mundial e norte-americana em particular “fascinam” o músico, que fala como uma alma antiga num corpo de 31 anos: “A dada altura, à medida que vamos envelhecendo, vamo-nos sentindo cada vez mais mortais e tendemos a olhar para as coisas com algum afeto acrescido. Começamos a encontrar significado em coisas que nos pareciam irrelevantes, a que nem ligamos quando somos mais novos. Coisas como amar e confiar em quem nos rodeia e nos que nos rodeia. Torna-se mais importante manter os olhos abertos e não tomar por garantido o dom que é estar vivo, começa-se a encontrar beleza mais regularmente em coisas mundanas“.

Não faltam momentos de destaque — o som do piano, primeiro, e dos sopros, já na ponta final, no tema inaugural e que dá o título ao disco; a voz de Kevin Morby em tom profético em “Nothing Sacred / All Things Wild”, a cantar sobre aspirações de juventude e sobre a bênção que é a confusão (presumivelmente amorosa); a “pianada” baladeira de “Seven Devils” que felizmente há-de terminar numa guitarra elétrica fabulosamente usada, com riffs ali naquela zona gostosa que fica à beira do azeite mas não lá chega; o tom The Band que se ouve quando “Hail Mary” acelera; a canção capaz de resumir todo o disco, aprumadíssima, que é “Piss River”; as palavras, nada foleiras, dirigidas a um “tu” que se tornou “um anjo” (ok, pode parecer mas não é foleiro) no último minuto de “Savannah”; o piano e os sopros da instrumental “Ballad of Faye” ou os coros da faixa de encerramento “O Behold”.

Um ouvinte especialmente crítico, exigente, com uma boa dose de cinismo e resistência à emoção, pode bem dizer que este disco seria ainda melhor se terminasse no final da oitava canção. Na verdade até teria razão, acabasse aí e seria um disco perfeito, sem uma única canção de qualidade dúbia, sem momentos “mortos”, incisivo e belo do início ao fim. Na reta final, há momentos que parecem acrescentar pouco ao que Kevin Morby já cantara na primeira metade do álbum, aos acordes que antes se ouviram, à supremacia das canções anteriores, mas também ninguém disse que Oh My God era o disco do ano, só que é mais um passo acertado de Kevin Morby rumo a um estatuto de um dos melhores escritores de canções da música indie norte-americana do presente. Está escrito, é isso mesmo.

Felizmente, Kevin Morby gosta muito de Portugal para não passar por cá com regularidade. Desde 2014, ano em que se estreou em território português com dois pequenos concertos em Aveiro e no Porto, os promotores de concertos e festivais nacionais acordaram para a sua música e começaram a convidá-lo para vir todos os anos: em 2015 tocou no Primavera Sound do Porto, em 2016 no festival de Paredes de Coura, no auditório de Espinho e no então chamado Mexefest, em 2017 no Super Rock e no ano passado novamente no festival de Paredes de Coura.

A relação está para durar e prossegue este ano com concertos em Lisboa e Braga, nos quais Morby se apresentará apenas com um trompetista, dividindo-se ele entre voz, guitarra e piano. A regularidade das visitas, pouco habitual para um músico norte-americano, foi rapidamente explicada em jeito de conclusão da entrevista: “Ando muito em digressão e adoro Lisboa, adoro a ZDB e outros espaços. No Porto então já passei muito tempo, adoro andar aí ao pé do rio e poder entrar num restaurante à confiança sabendo que terão peixe fresco e o cozinharão para mim. Adoro o espírito que se sente em Portugal. Também já passei uns dias numa zona balnear à cidade de Lisboa, lembro-me que comprámos peixe diretamente ao pescador e o cozinhámos na mesma noite”.

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