Na ida a Pequim, tudo foi planeado. O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, viajou num comboio particular blindado (onde há um helicóptero e lagostas vivas) e foi adotado um exigente protocolo de segurança em redor da sua presença na capital chinesa. Num ambiente tão controlado, nada é deixado ao acaso. E também não foi um acaso a aparição da filha adolescente do chefe de Estado norte-coreano, que é tida com a potencial herdeira do regime. Esta foi, aliás, a primeira viagem ao estrangeiro de Kim Ju-ae acompanhada pela família — e manda (mais) um sinal de que a jovem está a ser preparada para assumir a liderança do país.
Há poucos detalhes sobre a vida Kim Ju-ae, a “amada”, “respeitada” e “querida” filha de Kim Jong-un, como é tratada pelo regime. Uma das poucas informações confirmadas é que é filha de Ri Sol Ju, a atual primeira-dama da Coreia do Norte. A sua estreia em público aconteceu em novembro de 2022, durante um teste de um míssil balístico intercontinental, quando tinha cerca de dez anos. De resto, a figura da adolescente é uma incógnita. Os serviços secretos sul-coreanos especulam que tenha nascido em 2012 ou 2013, mas não há sequer uma confirmação sobre a data do seu aniversário.
▲ A visita a Pequim assinala a estreia em palcos internacionais de Kim Ju-ae
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Ainda assim, desde novembro de 2022, Kim Ju-ae tem aparecido em público com mais frequência. Participa em eventos do regime, é uma figura central na celebração do aniversário do pai (e não só), é uma das convidadas para lançamentos de mísseis e até já foi levada à embaixada da Rússia em Pyongyang a 9 de maio, no dia em que o Kremlin celebra a vitória das tropas soviéticas sobre o nazismo. A ida a Pequim tem, contudo, um maior simbolismo: é a apresentação da “querida filha” ao mundo, em particular a a grande potência vizinha: a China.
O regime norte-coreano tem funcionado por dinastias e é governado pela mesma família. Kim Il Sung foi o fundador do atual governo da Coreia do Norte após a Segunda Guerra Mundial; seguiu-se-lhe o filho, Kim Jong-il, e agora o neto, Kim Jong-un. Nesta linha de sucessão até agora exclusivamente masculina, tudo parece estar a ser preparado para haver uma mulher a comandar o regime: Kim Ju-ae.
▲ A primeira vez que Kim Ju-ae apareceu em público em 2022
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Há rumores de que o atual chefe de Estado tem um filho homem, que será mais velho do que Kim Ju-ae. A informação tem sido confirmada pelos serviços secretos da Coreia do Sul, que estão sempre atentos ao que se passa no regime rival. Não obstante, esse rapaz que terá nascido em 2010 nunca apareceu em público e um dos melhores amigos da infância de Kim Jong-un (que estudou com ele na Suíça), o cozinheiro português João Micaelo, negou, numa entrevista, que houvesse um varão na dinastia. As secretas sul-coreanas referem também que Kim Jong-un tem mais uma filha, nascida em 2017, que estará fora da sucessão.
Pode uma mulher liderar o regime patriarcal da Coreia do Norte?
Até ao momento, apenas homens estiveram à frente do regime norte-coreano, considerado por muitos analistas patriarcal. Poderá Kim Ju-ae levar a uma mudança de paradigma? Se por um lado é certo que a filha do líder da Coreia do Norte ainda é uma adolescente, por outro está a ganhar destaque mediático nos últimos tempos. Num regime em que todas as aparições públicas são coreografadas, ganha um importante significado.
▲ Kim Ju-ae tem aparecido ao lado de Kim Jong-un em vários eventos públicos
Em fevereiro de 2023, poucos meses depois de Kim Ju-ae ter aparecido pela primeira vez em público, o antigo ministro da Unificação da Coreia do Sul, Kwon Young-se, manifestava, numa audição parlamentar, “muitas dúvidas” de que uma “mulher pudesse suceder” ao atual líder norte-coreano. “O ministério da Unificação continua, ainda assim, aberto a várias possibilidades e está a monitorizar o que se passa”, assegurou o governante.
Na opinião do ex-ministro da Coreia do Sul, a tese mais provável é que a visibilidade pública de Kim Ju-ae em momentos oficiais tinham um objetivo propagandístico para “solidificar a lealdade em redor de Kim Jong-un e da sua família”. “É uma medida para preparar a quarta geração de sucessão hereditária”, apontou Kwon Young-se, acreditando que o atual líder norte-coreano continua a “ter a intenção de prolongar a sucessão hereditária do poder”.
Dois anos depois, a adolescente continua a aparecer em público e até acompanhou o pai numa viagem ao exterior. Kim Ju-ae eclipsou não só a imagem da mãe, como também da irmã de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, que tem vindo a perder destaque mediático e que era considerada uma potencial sucessora. A jovem de 12 ou 13 anos converteu-se no principal rosto feminino da família: em várias fotografias reveladas pelo governo, aparece sempre ao lado do pai, numa posição de destaque.
▲ Kim Yo-jong, a irmã de Kim Jong-un, era o principal rosto feminino do regime norte-coreana. Mas a filha do líder substituiu-a
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“Quando se olha para o simbolismo, certamente parece que ela está a atravessar a última etapa até ser apontada como sucessora”, acredita Yang Moo-jin, o antigo presidente da Universidade de Estudos Norte-coreanos em Seul, em declarações ao Washington Post.
▲ Kim Ju-ae ao lado do pai enquanto inspeciona o primeiro satélite militar de reconhecimento do país, em 2023; novamente em contexto militar em 2024 e 2025 e nos 79 anos do Partidos dos Trabalhadores
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Apesar de Kim Ju-ae ser uma mulher, a crescente exposição nos meios de comunicação estatais pode ser uma estratégia intencional do regime norte-coreano. Em declarações ao New York Times, Cheong Seong-chang, analista e autor de livros sobre a família de Kim Jong-un, destacou que o líder da Coreia do Norte está a tentar tornar num “facto consumado” o estatuto de sucessora da filha ao dar-lhe destaque mediático, mesmo sabendo que muitos dirigentes do regime ainda resistem à ideia de ver uma mulher à frente do país. O especialista assinalou que esta visibilidade pode preparar a elite política e a população para aceitar a adolescente como futura líder.
A imagem da jovem também tem sido trabalhada. Quando apareceu pela primeira vez em público, aos dez anos, Kim Ju-ae tinha um ar infantil. Agora, a adolescente apresenta uma imagem mais sofisticada e trabalhada. “A criança transformou-se numa figura polida e está entrelaçada na história do poder dinástico da Coreia do Norte”, comentou, ao New York Times, Donald Southerton, um especialista sobre a história do país. “Cada fotografia, cada desfile e saudação parece ser uma história encenada de sucessão, legitimidade e continuidade para a dinastia Kim.”
▲ Kim Jong-un com a filha Kim Ju-ae na abertura de um novo resort em junho de 2025
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Adolescente pode ter sido apresentada às elites chinesas
Contrariando a opinião de vários governantes como Kwon Young-se, os serviços secretos sul-coreanos, em 2024, concluíram, através de “várias análises de aparições públicas e ao nível de protocolo usado desde o seu surgimento”, que Kim Ju-ae é a “sucessora mais provável”. O governo da Coreia do Sul manifestou algumas reservas sobre esta análise das secretas, dizendo que é ainda “prematuro” tirar essa conclusão.
Porém, é inegável que Kim Ju-ae tem vindo a ganhar importância dentro do regime. À Reuters, Rachel Minyoung Lee, especialista do thinktank norte-americano Stimson Center, notou que as suas aparições públicas não acontecem apenas em eventos militares. A adolescente participa em atividades políticas e económicas; no início de 2024, até visitou um galinheiro ao lado do pai.
A visita à China é mais uma prova de que Kim Jong-un pode estar a apostar nesta filha para assumir o poder depois dele. “É a favorita para ser sucessora a líder suprema da Coreia do Norte”, diz o especialista Michael Madden à Reuters, que explica que Kim Ju-ae está a “adquirir experiência protocolar que lhe será muito útil como a próxima líder da Coreia do Norte”.
Fazendo fronteira com a China, o governo da Coreia do Norte sobrevive em larga medida graças ao apoio chinês. Se bem que desde a invasão da Ucrânia a Rússia tenha ganhado importância, é Pequim que continua a ser o principal sustentáculo económico e diplomático do regime de Kim Jong-un. Daí que esta ida a território chinês de Kim Ju-ae seja bastante importante — e possa servir como uma espécie de apresentação da jovem à elite do Partido Comunista Chinês e ao Presidente Xi Jinping, algo que nunca aconteceu, por exemplo, com a irmã do líder norte-coreano.
▲ Pai e filha depois de um teste de lançamento de míssil balístico intercontinental
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Em Pequim, a jovem está a “ganhar prática ao cumprimentar e interagir com líderes estrangeiros e outras elites”, opina Michael Madden. Rachel Minyoung Lee tem uma opinião semelhante, mas ressalva que também pode ser uma forma de Kim Jong-un se mostrar como um “líder normal de um país normal” a homólogos estrangeiros. Da mesma forma, a especialista é mais cautelosa sobre a possibilidade de isto ser uma forma de a apresentar à liderança chinesa. “É difícil de dizer, porque nunca tivemos uma situação idêntica. O jovem Kim nunca aparecia” e estudava na Suíça, assinala.
▲ Kim Jong-un assiste a um lançamento de um míssil ao lado da filha em dezembro de 2023
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Os problemas de saúde de Kim Jong-un que podem apressar a escolha
Kim Jong-un tem apenas 41 anos. A esperança média de vida na Coreia do Norte era de 72,6 anos em 2020, o que significa que o líder norte-coreano ainda tem expectavelmente vários anos à frente do país. Na Coreia do Sul, alguns governantes acreditam que isso é uma prova de que ainda é demasiado cedo para escolher um sucessor, desvalorizando as aparições públicas de Kim Ju-ae. Mas o líder norte-coreano tem um historial de problemas de saúde.
As secretas da Coreia do Sul publicaram um relatório, em 2024, em que alegam que Kim Jong-un sofre de problemas de saúde relacionados com a obesidade: terá hipertensão e diabetes, sendo que Seul referiu que o líder do país estava à procura de um tratamento no estrangeiro. Acresce também o facto de ser conhecido por abusar do álcool e de fumar compulsivamente.
O pai e o avô de Kim Jong-un tiveram problemas cardíacos, que se revelaram fatais. Em 2020, a imprensa sul-coreana noticiou que o líder do regime esteve “gravemente doente” e foi operado ao coração, informação que foi negada por Pyongyang. Porém, tendo em conta o atual quadro clínico e os antecedentes dos familiares, o líder norte-coreano pode ter apressado a escolha para a sua sucessão.
▲ Jovem aparece muitas vezes ao centro ao lado do pai, no Dia da Estrela Brilhante, o aniversário de nascimento do antigo líder norte-coreano Kim Jong-il
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O regime norte-coreano é um dos mais fechados do mundo. Embora as secretas da Coreia do Sul reúnam informações pontualmente sobre o que se passa na vida da família de Kim Jong-un, há sempre uma sombra de dúvida sobre quais serão as futuras ações do governo. Por agora, Seul acredita que Kim Ju-ae está bem posicionada para suceder ao pai. Contudo, a qualquer momento, tudo pode mudar — e o alegado filho mais velho pode aparecer e ser escolhido como sucessor.