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Jürgen Kohler, 52 anos de vida, ainda dá uns toques na 11.ª divisão alemã

Jürgen Kohler, 52 anos de vida, ainda dá uns toques na 11.ª divisão alemã

Kohler: "Aquele slalom do João Pinto é de um génio"

Em semana de final de Mundial de clubes, falamos com um duplo campeão mundial (Alemanha 1990, Dortmund 1997), cujo passado reúne nomes tão díspares como Van Basten, Vítor Pereira e Foda, Franco Foda.

Trema. Jürgen. Trema, outra vez. Jürgen Kohler. Ei-lo, um dos melhores centrais dos anos 90. Começa em 1983 no modesto Waldhof Mannheim, onde se faz internacional AA, chamado pelo inimitável Franz Beckenbauer em setembro 1986. É a primeira internacionalização de um total de 105 até 1998, quando marca presença no terceiro Mundial. Nesse extenso período, Kohler coleciona títulos até dizer chega, com Bayern (campeão alemão em 1990), Juventus (vencedor da Taça UEFA-93 mais campeão italiano e Taça de Itália em 1995, estes dois últimos com Paulo Sousa no plantel) e Borussia Dortmund (campeão europeu e mundial em 1997, com Paulo Sousa, novamente, e bicampeão alemão em 1996 e 2002). Pelo meio, um troféu individual com a eleição de melhor jogador do ano, em 1997. E talvez o de melhor entrevistado alemão em 2017.

Boa tarde, é o Kohler?
É o próprio. [com uma voz cautelosa]

Daqui Rui Miguel Tovar, jornalista de Portugal.
Estás bom? [muda o chip e a voz completamente descontraída]

Tudo bem, obrigado. E o Kohler?
A fazer compras de Natal.

Quer que ligue mais tarde?
Se me deres 15 minutos, agradeço-te imenso.

Até 20.
Até já, então.

[passam-se 20-e-tal minutos]

Allô.
Ah, agora sim, diz-me.

Quero fazer-lhe umas perguntas.
Go ahead.

Em 2002, abandonou o futebol. Porquê o regresso na década seguinte, em 2011?
Então não sabes que o futebol faz bem à saúde?

Mas não foi o Kohler que deixou de ser treinador por problemas cardíacos?
Ah, sim, sim, mas isso são águas passadas. Quando treinava o Aalen, na 3.ª Divisão alemã, os médicos mostraram-me o cartão amarelo.

Então?
O meu coração não estava a bater bem e sugeriram-me que parasse. Assim o fiz. Troquei o banco de suplentes pelo lugar de diretor-desportivo, um trabalho mais tranquilo e logo à procura de um sucessor para mim mesmo, o que não deixou de ter a sua piada.

E o que mudou entretanto?
Muita coisa. Naquele tempo, havia uma válvula do coração que não estava a fechar e isso dava-me picadas de dor. Só me lembrava de outros casos arrepiantes. O antigo futebolista Wolfgang Kleff [eterno suplente do lendário guarda-redes Sepp Maier] estava seriamente doente e o andebolista Sebastian Faisst, com apenas 21 anos, morreu a meio de um jogo. Eu só não queria estar numa ou noutra situação e optei por parar.

Como é que sente hoje?
O caso está ultrapassado. Tomo um comprimido regularmente e tenho de andar três vezes por semana entre 30 a 40 minutos. Resultado: o meu coração já não se queixa e a roupa entra facilmente no meu corpo. Perdi muitos quilos.

E ainda joga?
Com calma, sempre. Jogo muito de vez em quando e estamos a falar de uma equipa da 11.ª divisão alemã. Ou seja, o ritmo é quase nulo.

Para si, imagino.
Só fico lá atrás à espera da bola.

"Escreve aí que ainda marquei uns golos, se faz favor. Só para não pensarem mal de mim" Quantos? "Tantos que nem tenho dedos para eles todos. Olha, lembro-me de um ao Benfica"

Como sempre.
Escreve aí que ainda marquei uns golos, se faz favor. Só para não pensarem mal de mim [gargalhada forte, alegre]

Quantos?
Tantos que nem tenho dedos para eles todos [outra gargalhada, mais divertida ainda]. Olha, lembro-me de um ao Benfica.

Quando?
Taça UEFA 1992-93. Perdemos aí 2-1, ganhámos 3-0 em Turim. O primeiro golo é meu. Só não escrevas que é de baliza aberta, okay?

Okay, prometido. Como é que foi?
Um canto, bola para a área, o guarda-redes [Silvino] sai-se mal num duelo com o Dino [Baggio] e há ali uma carambola qualquer. De repente, a bola está à minha frente e só chutei.

E depois?
Fizemos o 2-0 ainda na primeira parte, pelo Dino, novamente num canto, agora do outro lado. Na segunda parte, 3-0 pelo Ravanelli. Sabes quem jogava nesse Benfica? Paulo Sousa.

Pois é, jogaste com ele na Juventus.
E também no Dortmund, onde somos campeões europeus e mundiais.

Pois é, tu foste campeão mundial pela Alemanha e pelo Dortmund. Uma proeza.
Se fores ver a final da Taça Intercontinental 1997, o 2-0 do Dortmund começa num magnífico roubo de bola do Paulo Sousa.

Por falar em roubos de bola, o Kohler era um especialista.
Ahhhh, obrigado.

A sério, o Kohler era aquele defesa por quem ninguém passava.
Pára, estás a deixar-me envergonhado [volta a tal gargalhada]. Sabes quem é que me obrigou a ser assim como tu dizes?

Quem?
O Van Basten. Ele era impressionante.

Uau, o Van Basten é o meu ídolo desde o Euro-88.
Não me fales desse Europeu, se faz favor.

Então?
Então?

Ahhhhh, o 2-1 da Holanda à RFA na meia-final.
Foi a primeira vez que o apanhei e jurei para nunca mais. Guess what? Joguei contra ele mais umas 17 vezes. Que sina, a minha.

Juraste para nunca mais porquê?
Esse jogo correu-nos mal, mal, mal. Primeiro, fomos eliminados em casa. Depois, fomos eliminados pela Holanda. Quer dizer, somos vizinhos e simplesmente não nos damos. Depois, estávamos a ganhar 1-0 e fomos surpreendidos pelo 2-1 em cima do minuto 90. Depois, estive nos dois golos da Holanda, um penálti mal marcado sobre o Van Basten e aquele deslizar na relva do Van Basten no 2-1.

E depois?
Estás a abusar, ehehehehehe. Depois, só tinha 22 anos e tive de conviver com as críticas o verão todo. Foi duro, muito duro. Quando lês coisas más sobre ti, ficas em baixo.

Mas não há nada de positivo desse Euro-88?
Para melhorares, tens de superar todos os obstáculos. Se dizem mal de ti, tens de dar a volta ao texto. Por uma incrível coincidência, dois anos depois, Alemanha-Holanda no Mundial-90.

Coincidência?
Então não te lembras?

Nem por isso.
Holanda e Irlanda acabaram empatadas em tudo, na fase de grupos. Foi preciso um sorteio para definir o segundo e o terceiro classificado.

E depois?
A Irlanda ficou em segundo e jogou com a Roménia, não sei onde. A Holanda ficou em terceiro e jogou connosco, em Milão. Estás a ver, certo? Em Milão, a Alemanha dos três interistas Brehme, Matthäus e Klinsmann vs a Holanda dos três milanistas Rijkaard, Gullit e Van Basten.

Van Basten, lá está.
Nessa noite, ele passou ao lado do jogo.

Culpa do Kohler?
Culpa de todos, na verdade. A Holanda passou ao lado de todo o Mundial e nem um jogo ganhou em quatro possíveis, vê bem. Jogámos em grupo, com força e determinação, muita determinação. O Klinsmann fez o 1-0, o Brehme o 2-1.

E?
O Koeman reduziu, de penálti.

Penálti, outro?
Van Basten, again. Em 1988, nem lhe toquei. Aqui, se houve falta, se, foi fora da área. Harsh call [do árbitro].

Nessa altura, já tu e ele se conheciam de ginjeira pelos Juve-Milan.
Parecia um jogo do gato e do rato. Ora eu jogava bem e ia todo contente para casa, ora ele marcava-nos um, dois ou três golos e lá ia eu todo desmoralizado para casa. No túnel de acesso ao relvado, ainda antes dos jogos, nós nem nos dávamos por aí além, cumprimentávamo-nos apenas, só que ele olhava para mim e esticava um dedo ou dois ou três, como quem diz ‘hoje marco estes golos’. Engraçado, esta relação.

Fantástico.
Tenho a certeza disto: sem Van Basten, nunca teria sido o central que fui. Ainda tenho lá em casa uma camisola dele do Milan.

Pediste-lhe uma camisola?
Acredita se quiseres, ele é que me pediu. Foi depois de uma vitória da Juventus, por 2-1. Estávamos a festejar com os adeptos e ele veio ter comigo. Assim, do nada. Ao meu lado, estavam Roberto [Baggio], Casiraghi e Schillaci e ele pede-me a camisola. Uaaaaaau. Grandes tempos. Gloriosos.

Os mais gloriosos de sempre?
Nãããã, esses foram no Borussia. Foi onde me fixei por mais tempo, de 1995 a 2002. Foi onde os meus três filhos nasceram e tornaram-se adeptos incondicionais do clube. E também nesse período ganhei um número inacreditável de títulos, sobretudo os dois internacionais: Liga dos Campeões [ao lado de Paulo Sousa, na final dos 3-1 à Juventus] e a Taça Intercontinental [novamente com o português, 2-0 ao Cruzeiro, em Tóquio], ambas em 1997. Os adeptos de lá estão sempre com a equipa, do princípio ao fim, independentemente dos resultados. Por isso mesmo, era a equipa europeia com melhor média de adeptos por época, superior até ao Manchester United. Estou a falar dos anos 90, atenção. Enchíamos sempre o estádio, sem exceção. Nem uma cadeira vazia.

Desse Mundial [de 90], só tenho pena de uma coisa. Aquela taça é lindíssima, mas não é como as outras e não dá para a encher de champanhe. No balneário, abrimos garrafas e mais garrafas de três litros, mas não bebemos da taça

E a seleção alemã?
Outro tipo de sensações, mais patrióticas, está claro. Vestir a camisola do país e ouvir o hino são acontecimentos únicos, insubstituíveis na carreira de qualquer jogador. Tal como ouvir adeptos alemães no estrangeiro é uma sensação única. No Mundial-90, em Itália, o Meazza era praticamente nosso, até naqueles quartos-de-final com a Holanda. Na final com a Argentina do Maradona, em Roma, também ouvi muitos alemães, o que nos deixa mais orgulhosos e guerreiros. Desse Mundial, só tenho pena de uma coisa.

Então?
Aquela taça é lindíssima, mas não é como as outras e não dá para a encher de champanhe. No balneário, abrimos garrafas e mais garrafas de três litros, mas não bebemos da taça.

Depois da conquista desse Mundial, a RFA visitou Portugal. Lembras-te?
Na Luz, empatámos 1-1. Um particular em agosto, certo?

Certíssimo.
Foi o início da era Berti Vogts, sucessor do Beckenbauer. Com Vogts, ganhámos o Euro-96.

O tal golo de ouro do Bierhoff, na final com a República Checa.
Esse mesmo.

Curiosamente só jogas uma vez nesse Euro, precisamente com a República Checa, na fase de grupos.
Curiosamente, não.

Ai não?
Lesionei-me aos 12 minutos, num lance com o Kuka. Fiquei arrumado para o resto do Euro.

Xiiiiii, desculpa aí.
No problem. Ainda por cima, era o capitão dessa seleção.

A partir daí, quem é que foi?
Outro Jürgen, claro.

Klinsmann?
Klinsmann. Fez um grande, grande, grande Europeu. Marcou um golo sensacional à Rússia, com a parte fora do pé. Já para não falar do seu carisma. Tínhamos uma seleção forte.

Na qualificação seguinte, para o Mundial-98, jogaram com Portugal.
E voltei à Luz. Outro empate, agora 0-0. É quando o João Vieira Pinto faz aquela maravilhosa jogada individual. Aquele slalom é de um génio, marca-te a vida. Lembras-te?

Claro que sim.
Felizmente para nós, o Köpke defendeu para canto. Lembro-me disso porque fui o primeiro a ser ultrapassado, ainda longe da área. Fiz-lhe um carrinho simpático e ele fugiu para o lado. Só depois é que começou a fintar em direção à baliza. Num segundo, com dois toques de bola, ultrapassou Ziege e Eilts. Na altura do remate, já eu estava pertíssimo do João Vieira Pinto, juntamente com o Sammer.

Sammer, grande Sammer.
You bet. Dou-me muito bem com ele, é um amigo sério e sempre presente. Ainda foi meu treinador no Dortmund em 2001-02 e fomos campeões alemães na última jornada. Só que perdemos a final da Taça UEFA.

Para quem?
Agora que me lembro disso, o árbitro era português.

Quem?
Melo Pereira.

Melo?
Sim, Melo. Tenho a certeza. Nunca nos esquecemos do nome do árbitro que nos expulsa no jogo de despedida [gargalhada acionada, aqui vai ela eheheheheheh].

Ahhhhh, Vítor Pereira. Sim, sim, sei quem é.
Fui expulso aos 31 minutos. Dominei mal a bola, o Tomasson ficou com ela e eu tive de fazer penálti. Como era o último homem do Dortmund e o Tomasson estava em posição de marcar, foi vermelho direto. Cumprimentei o árbitro, desejei-lhe felicidades e saí de campo.

Portugal sempre no teu caminho.
Sempre. Sabes uma coisa?

Nem ideia.
Estreei-me pelos sub-21 da Alemanha em Portugal, um ano antes da estreia pelo AA. Perdemos 2-1, não sei onde.

Lembras-te de alguém?
Não consigo ir tão longe, sorry. Só sei que fazia dupla com Foda.

Foda?
Foda, Franco Foda. Ainda jogámos no Euro-88.

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