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Voou connosco desde Lisboa para Madrid. Uma viagem pela manhã fresca de verão com destino a uma paralela da Gran Vía da capital espanhola para descobrir se é uma imitação ou se é uma “super fake”, como os especialistas lhe chamam. Foi adquirida em Camdem Town, Londres, há um par de anos, por entre aquelas lojas de rua que tantas imitações de carteiras de marcas de luxo vendem. São essas as peças que tanto em Portugal como em Espanha mais se tentam colocar à venda em leiloeiras online — como é o caso da Catawiki — na tentativa que passem por verdadeiras, quando na verdade são apenas falsificadas. Em 2024, a Catawiki rejeitou em Portugal a maior percentagem de anúncios falsos em categorias como carteiras (11,37%), acessórios de moda (5,80%) e vestuário (4,09%). Os artigos desportivos também registaram uma percentagem elevada de rejeições relacionadas com a autenticidade (8,38%), em especial artigos de futebol (10,19%), bem como artigos de coleção da Disney (7,94%). Isto traduz-se em 250 mil euros em produtos de contrafação impedidos de entrar no mercado.
Mas, como é que se controla que as falsificações não sejam colocadas à venda? No ano passado, dos milhões de objetos leiloados, a Catawiki teve uma margem de erro de 0,02%. Ou seja, apenas 0,02% foram cancelados (e reembolsados) devido a problemas de autenticidade. Tudo graças a um processo de revisão minucioso levado a cabo por uma equipa de centenas de especialistas — de áreas como arte, design, joalharia, moda e carros clássicos — com um olho treinado que revê e seleciona cuidadosa e digitalmente todos os objetos submetidos a esta leiloeira online, que está disponível em mais de 50 países em todo o mundo.
“No ano passado vim a Madrid porque tivemos uma carteira muito boa que foi vendida. Mas antes de ser enviada, eu tive dúvidas. Então voei até Madrid e verifiquei. A carteira era tão boa mas era falsa”, revela Lorenzo Altimani, especialista de moda da Catawiki, sediado em Itália e especializado em carteiras e óculos de marcas como a Louis Vuitton e Cartier. “Todas as marcas, na realidade”, comenta. Como é que garantiu que era mesmo uma imitação? “Quando eu rodei o fecho da carteira fez um barulho e não estava a rodar bem. E eu fiquei ‘não, isto nunca aconteceria com a Hermès'”, explicou. Assim, em caso de dúvidas, todos os especialistas rejeitam o objeto, não chegando por isso a ir a leilão.
▲ Lorenzo Altimani é especialista de moda da Catawiki desde 2020
As dúvidas têm vindo a ser cada vez mais comuns. Os dados partilhados pela Catawiki revelam que cada vez se falsifica mais e que as falsificações são cada vez mais sofisticadas, fazendo com que detectá-las se torne num autêntico desafio. Os especialistas chamam a estas casos os “super fakes”, imitações que dificultam o seu trabalho por serem “99% quase reais”, chegando mesmo ao ponto de os falsificadores utilizarem partes de, por exemplo, carteiras ou relógios verdadeiros para criar depois um artigo de contrafação. Na Catawiki estes passam ainda por categorias como desporto, peças de coleção da Disney, moedas, cartas Pokémon, ténis de marca e vestuário.
Como identificar se uma carteira de luxo é falsa? “É pensar ao contrário”
A suposta carteira da Gucci que levámos até Lorenzo foi rapidamente detetada como falsa a olho nu — e bem treinado deste especialista. “A Gucci nunca fez um modelo assim”, começa por dizer, logo depois de uma reação bastante genuína à peça em tons de castanho, com um estampado com o logótipo da marca e uma corrente dourada a servir de alça. “Isto grita barato”, afirma, acrescentando que espera que o preço de compra não tenha sido muito alto, nada mais de 20 euros. Na verdade custou cerca de 50 libras (cerca de 58 euros) naquele mercado da capital britânica, tal como acontece com tantas outras peças de contrafação que são vendidas a altos preços por serem “muito boas imitações”. Para Lorenzo, não é o caso. “Nunca vi um fecho assim, a corrente da alça é muito leve, o tom do dourado é muito claro, até o logótipo… mas também a qualidade no geral, é muito plastificada e não está bem acabada”, explica.
Após este breve exemplo somos convidados a tentar adivinhar, entre as carteiras que tinha expostas, quais eram as verdadeiras e quais eram as falsas. O nosso olho pouco ou nada treinado errou mais do que acertou, o suficiente para percebermos um pouco da lógica por detrás desta arte. “Têm de pensar ao contrário”, esclarece. Quanto mais perfeita uma carteira parece, mais falsa é. É por esta razão que marcas como a Hermès, Louis Vuitton, Chanel, Dior, Gucci, Prada ou Bottega Veneta produzem as suas carteiras à mão, o que torna mais difícil o trabalho dos falsificadores de reproduzirem apontamentos como, por exemplo, as costuras. “A Hermès é cosida à mão, por isso, se vires imperfeições na costura, isso significa que a carteira é boa. As pessoas pensam que tem de ser tudo perfeito, mas não, é feito à mão”.
▲ Da esquerda para a direita, logótipo de uma Chanel verdadeira e logótipo de uma imitação
Picasa
▲ Da esquerda para a direita, ferragens de uma carteira verdadeira da YSL e ferragens de uma imitação
Os quatro principais detalhes que o cliente tem de ter em conta quando está à procura de uma carteira de luxo, seja online, num leilão ou numa plataforma de compra e venda como a Vinted, são os logótipos, as costuras, as ferragens e os números de série. “Depois, com base nessa avaliação, junta o quadro completo e percebe se é falsa ou não”, explica. Outra forma é também pela cor e qualidade do material: se parecer “muito barato” ou com um brilho artificial é porque é falsa. O interior da carteira também é um ponto importante a ter em conta, uma vez que se pode verificar o forro e a etiqueta com o logótipo da marca: muitas vezes quando são falsas, a etiqueta é feita com o tipo de fonte errada. “É preciso treino mas também é preciso um bocadinho de intuição”, acrescenta.
Lorenzo alerta ainda para o facto de agora, por exemplo, a Louis Vuitton já não marcar os números de série na carteira e, em vez disso, colocar um microchip dentro da peça. “Há algumas aplicações que permitem digitalizar o microchip. E, basicamente, se obtivermos um resultado positivo, isso apenas nos diz que a carteira tem um microchip. Esta é uma forma de verificarmos se tem efetivamente um microchip. Mas agora até as falsificações têm o microchip”, explica, acrescentando que o único sítio onde se consegue obter todas as informações sobre a peça é na própria loja da marca.
Uma nota final que deixa para quem procurar uma Chanel vintage é o medalhão que vem agarrado ao fecho da carteira: tem de ser redondo e nunca em forma de gota. “Não compres. Esta informação veio diretamente da Chanel”, explica, acrescentando que não é por ser vintage que vai ter detalhes diferentes das carteiras mais recentes — “Existem normas, mesmo para as vintage”. Também os números de série da Chanel têm sempre um pouco de brilho, nota.
Os falsificadores tendem a ser criativos
Tal como aconteceu com a falsa Gucci do Observador, é comum que sejam colocadas à venda carteiras com modelos que não foram sequer criados. O especialista de moda da Catawiki acrescenta que esse é um fact check a ter em conta quando se procura uma carteira: verificar se existe. “Os falsificadores conseguem ser muito criativos e fazem modelos que nunca estiveram no mercado”, explica. Para os especialistas, no entanto, esta é uma muito fácil forma de saber se a peça é imitação ou não, uma vez que sabem de trás para a frente as coleções das marcas com as quais trabalham.
Também na categoria de relógios da Catawiki há criatividade. Ao Observador, o especialista de relógios e diamantes Joaquin Fernandez Cebrián recorda que, quando começou a trabalhar para aquela leiloeira online em 2016, foi informado sobre uma coleção da Seiko que estava a ser vendida no chão das ruas de Istambul. Tanto nas carteiras como nos relógios, a China e a Turquia são os principais países que produzem estas falsificações. No entanto, apesar de serem falsos, os relógios vendidos naquelas ruas eram de uma coleção que ainda não tinha sido lançada pela marca: “Houve fuga de informação”, revelou.
▲ Da esquerda para a direita, um relógio Rolex verdadeiro e um falso
“Eu não gosto de dizer a palavra réplica. Prefiro dizer contrafação ou falsificação. Mas estamos a deparar-nos no mercado com novas técnicas que estão a produzir clones perfeitos”, explica Joaquin Fernandez Cebrián. Para detectá-los, tal como na moda, há sinais a ter em atenção: as gravações do verso do relógio, o acabamento, a precisão dos parafusos ou dos diamantes — quando é o caso —, logótipos, movimento mecânico do relógio, ponteiros desalinhados e ponteiros dos segundos instáveis. Para fazerem uma verificação total, os especialistas pedem sempre ao vendedor o máximo de fotografias da peça, de vários ângulos e por vezes até no escuro. “Também pedimos para desmontarem a bracelete para vermos o número, que tem de corresponder ao que vem no documento de identificação do relógio”, acrescenta.
O especialista nota ainda os números de série clonados e as gravações alteradas nas falsificações. Os relógios de marcas de luxo como a Rolex, Cartier, Omega ou Patek Philippe são constituidos por dois componentes principais. Estes são a caixa (o invólucro exterior) e o movimento (o mecanismo interno) e ambos têm número de série ou de referências que são únicos e que devem corresponder ao modelo, ao ano de produção e às especificações da marca. O que acontece com as imitações é copiarem estes números — já existentes noutras peças — e gravarem em caixas ou em movimentos incorretos. Ao olho comum podem parecer relógios verdadeiros mas há falhas que revelam a verdade: seja na gravação, tipo de letra ou formato do número da série no relógio falso.
Caixas, recibos e cartões de garantia (tudo falso)
Na Catawiki, um relógio leiloado com caixa e o documento que prova a sua identidade pode chegar aos 30 mil euros. Estes dois itens também chegam às mãos dos falsificadores, com cada vez mais versões com design profissional. No caso dos cartões de garantia, utilizam a Inteligência Artificial para gerar tipos de letra semelhantes para criarem depois as imitações ou então juntam papéis não autênticos com caixas autênticas compradas no mercado secundário, criando um conjunto convincente.
▲ Da esquerda para a direita, cartão de garantia verdadeiro de um Rolex e imitação de um cartão de garantia
Para perceberem que são falsos, os especialistas têm em conta os logótipos descentrados, o papel de baixa qualidade, a qualidade da impressão, o número de série e informação sobre o modelo, que por vezes está desatualizado e não corresponde ao modelo do relógio ou ao ano de lançamento. Mesmo os selos em relevo e os hologramas podem ser sinais de um modelo falsificado. “Às vezes pedimos para nos enviarem fotos do documento contra a janela para vermos o reverso com luz de fundo. Fazemos tudo o que pudermos para detetar qualquer falsificação”, garante.
Também na categoria de moda os recibos e as caixas onde a carteira seria vendida tentam dar a volta aos especialistas. “Os super fakes vêm com tudo, caixa, recibo, saco”, enumera Lorenzo, dando o exemplo da Birkin de tom gold que tinha exposta. Foi uma das que enganou os presentes — demasiado perfeita para ser verdadeira — chegou à Catawiki numa caixa falsificada com o logótipo da Hermès dentro de um saco de boa qualidade, diz-nos o especialista, e com recibo. A própria carteira tinha detalhes que indicavam ser falsa: os pontos estavam demasiado alinhados e afastados, os parafusos arredondados em vez de achatados e a própria carteira tinha um brilho artificial. Neste caso, é fácil concluir que também os outros itens são falsos. Em comparação, Lorenzo expõe uma Kelly 35 verdadeira em couro Togo azul com algumas marcas de uso: rugas na pele. “Se a carteira não tiver estas rugas neste tipo de pele significa que é falsa porque o couro Hermès é sempre assim”, exemplifica.
▲ Da esquerda para a direita, Louis Vuitton verdadeira e imitação
“Façam sempre a vossa pesquisa”, sugere, acrescentando que o cliente se deve certificar de que: “O artigo existe. Verifique os logótipos. Se não tiver qualquer tipo de comparação vá ao site da marca e veja o logótipo. Por isso, se vir que o tipo de letra ou o espaçamento é diferente, seja um pouco inteligente. E, depois, certifique-se de que o aspeto é de boa qualidade e que os acabamentos são agradáveis. Se parece um pouco barata é fácil perceber que a carteira é falsa.”
O Observador viajou a convite da Catawiki.