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Longa vida ao imortal Ozzy Osbourne (1948-2025)

A partir da infância de terror e de uma Birmingham metalúrgica, mudou a história do rock'n'roll, sobreviveu e renasceu sucessivamente e, mesmo morrendo aos 76, ganhou lugar entre os que não acabam.

Há poucos dias foi celebrado, foi venerado como rei, adorado como uma divindade que já não conseguia estar em pé perante os súbditos. Ali estava, a partir do palco instalado num estádio em Birmingham, a certeza de que até os mais poderosos acabam por fraquejar, mesmo que apenas na pose física que em tempos tiveram. Sentado num trono no centro do palco, atirou-se ao microfone com as forças que lhe restavam, revendo clássicos e recebendo aplausos, num dia de homenagem que começou com dezenas de músicos que nunca ousariam faltar à distinção. Poucas semanas depois da passagem desta cavalaria de honra, o “príncipe das trevas”, pai do heavy metal, lenda do rock’n’roll, morreu, aos 76 anos. Se não fosse a natureza a vencer, superando até aquele que sempre cantou a escuridão inevitável com mais estilo do que todos os outros, juraríamos que era uma partida do homem nascido John Michael naquela mesma cidade industrial onde recebeu distintas vénias e honrados agradecimentos.

Que nos perdoe. John Michael ficou lá atrás há muito tempo. Ozzy, a marca que imprimiu na história, ganhou-a ainda em criança, durante a infância que sempre amaldiçoou. Cresceu pobre, numa família que vivia para a fábrica e daquilo que a mesma lhe dava — tal como toda a cidade de Birmingham. Foi abusado sexualmente por jovens provavelmente ainda mais miseráveis, tornou-se ladrão, foi preso e acabou por entregar-se ao rock’n’roll. Foi por isso que a 5 de julho último surgiu perante o mundo numa espécie de despedida visionária. Ozzy sabia ao que ia, não caminhava sem desconhecimento. Sofria de Parkinson de forma agressiva, com problemas na coluna desde há décadas, acumulando mau comportamento quase desde que se lembra, envenenando-se consecutivamente para depois voltar à vida, deixando muitos surpreendidos e questionando: “Mas ele vive?”. Vivia, entregue — precisamente — ao rock’n’roll. O mesmo que o trouxe de volta, ainda que por pouco tempo, mas o suficiente.

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▲ Geezer Butler, Tony Iommi, Bill Ward e Ozzy Osbourne: os Black Sabbath na década de 70

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Não poderia ser de outra maneira, pelo menos não de acordo com a mitologia que o próprio ajudou a moldar: foi o tal rock que o criou. Primeiro álbum dos Black Sabbath, homónimo, 1970, primeira canção, homónima, e ali estava Birmingham e aqueles rapazes a desprezar tudo, apaixonados por Boris Karloff, encenando a tragédia que eternamente veste de negro, o som de uma tempestade inacabável. E a voz de Osbourne, fantasmagórica, prestes a quebrar ou a quebrar tudo à volta dela. A guitarra aterradora e contundente de Tony Iommi, o baixo como se fosse um exército, do inigualável Geezer Butler (o mesmo que escrevia a maior parte das letras à espera de ressuscitar demónios antigos), a bateria em passo de machado bruto de Bill Ward. Disco adentro e os riffs, o down stroke, o power chord, os solos, a força, a intensidade, mais lenta para ser tremenda, mais rápida para ser chocante, a frustração transformada em descarga elétrica. Depois dos Led Zeppelin, depois dos Deep Purple, em conjunto com outros, mas mais alto que todos eles nesta criação: ali estava o heavy metal.

Os Black Sabbath não queriam fazer canções felizes, não queriam cantar a pop nem o amor nem o sexo, pelo menos não de forma sedutora ou suada. Era a industrialização das guitarras a partir de uma Inglaterra que tinha tudo menos swing. Uma música que precisou de ser coletiva para nascer, mas que tinha um lado solitário do qual não se via o fim. Ozzy, recordando a sua existência traumática como John Michael, haveria de a juntar aos excessos que rimam sempre com sucessos, como dantes, como sempre. A estrada e o dinheiro e a glória levaram-no até 1979 recheado de álcool e droga. Deseperados, os restantes camaradas de banda despediram-no e substituíram-no por Ronnie James Dio (pelo menos até 2013). Mas, recordamos: John Michael era Ozzy e assim continuou, numa carreira a solo de enorme sucesso, vestindo a personagem que deixou de ser alter-ego e assumiu o corpo daquele homem para sempre. Osbourne morria, renascia e era aclamado como o todo-poderoso do género.

▲ Nos anos 80, já histórico por ter sido a voz e a atitude dos Black Sabbath, continuamente a fazer história, por ser tão exagerado quando fundamental

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Foi no início da década de 80 que casou com Sharon Arden, manager que o ajudou a encaminhar-se a solo. Três anos depois da colaboração empresarial, tudo o resto se seguiu, também ela adotando o apelido Osbourne com orgulho e com poder de influência sobre a carreira do marido. De tal forma que foi tão amada quanto odiada, consoante a época, consoante os resultados, consoante as consequências, consoante as tendências. Nada de novo num rock masculinizado até à última tarola. Ozzy já tinha sido casado, com Thelma, com quem teve dois filhos, Louis e Jessica. Com Sharon teve mais dois, Jack e Kelly, mas também teve um teatro eterno de dramas e horrores — que incluíram violência e uma tentativa de homicídio, dele sobre ela. Osbourne, o marido, foi preso, perguntou-se a ele próprio como é que o álcool e outros eteceteras o tinham levado ali, separaram-se, juntaram-se, haveriam de repetir o jogo, mas haveriam de ficar juntos, ainda que ninguém tenha desenhado esta existência em casal como argumento.

Foi com Sharon que desenhou a Ozzfest, um festival itinerante dedicado ao rock, ao peso e à quase obrigatória missão de fazer do nome Ozzy Osbourne uma marca, fixada em sucessivas gerações que, por estilo ou por curiosidade, por opção ou por herança, por inevitabilidade ou por declarado amor, o recuperaram consecutivamente, ouvindo-o, comprando-lhe os bilhetes e os discos, vestindo-o, tatuando-o no corpo sempre que possível. Ozzy fez-se parte da família do heavy metal mesmo quando cantou baladas, mesmo quando gravou telediscos diplomáticos para a MTV, mesmo quando foi estrela de um reality show, The Osbournes (2002-2005), que ironicamente lhe parodiou a família como se esta fosse a Addams das histórias e dos filmes (e que até foi premiado nos Emmys, registe-se). Mas também foi esta paródia que lhe deu o sustento financeiro para ir interrompendo gravações e digressões que o corpo e a mente já não aguentavam.

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▲ Ozzy em 2024, quando entrou no Rock and Roll Hall of Fame

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Em 2019 fez a última. A decadência foi aumentando como é suposto que faça. No ano seguinte, este caminhante já de passo curto seria diagnosticado com Parkinson, um par de anos depois viriam cirurgias à espinha. E Ozzy percebeu que o “príncipe das trevas” adorado e transformado em ícone haveria de ter um fim — muito mais próximo do que distante. Ele mesmo, que gravou The Wizard, Paranoid, War Pigs, Iron Man, Sabbath Bloody Sabbath, Changes, Crazy Train, Mr. Crowley, Perry Mason, Bark at the Moon, Mama I’m Coming Home; ele mesmo que se atirava ao microfone em constante queda em direção ao abismo, que o agarrava como se dele dependesse a vida, que levantava os braços como monstro que queria ser, abrindo a boca e engolindo o mundo; ele que, no meio de tanta teatralidade, mais caricatural ou mais sentida, ficou também na história por ter mordido um morcego em palco e daí ter sido inoculado contra a raiva, a doença, apenas essa. Também ele haveria de morrer.

Tal clarividência deprimiu-o, deixou-o arrumado a um canto, uma lenda transformada em anónimo que apenas esperava. Sharon Osbourne, naturalmente, trabalhou a ideia da despedida. Um adeus em grande, na cidade que lhe deu tudo — o terror e a origem da glória — com amigos, fãs, inspirados seguidores e versados vassalos sobre a arte do herói em causa. Resultou a ideia da mulher-manager-apaixonada-negociante no tal 5 de julho que passou por aqui há poucas semanas. Ozzy guardou-se, aguentou, celebrou, agradeceu e foi onde tinha de ir. O concerto teve o nome poético que agora lhe reconhecemos: Back to the Beggining. Longa vida aquela que continuará a ter, de cada vez que um grito sobre uma guitarra elétrica fizer sedução a partir de um susto.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

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