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Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Luis Fernando Verissimo: o tímido hilariante

A edição de 2018 das Correntes d’Escritas homenageou um dos mais importantes e populares escritores brasileiros, capaz de uma ironia fina e de impressões únicas. Nuno Costa Santos traça-lhe o perfil.

Se a ideia é falar de Luis Fernando Verissimo o melhor é deixar o aborrecimento à porta, como quem deixa os sapatos para não sujar o tapete. Diz que foi o homenageado da edição deste ano das Correntes d’Escritas (festival literário que terminou no fim de semana) e que não pôde estar presente por razões de força maior. Quaisquer que sejam essas razões, e certamente serão muito respeitáveis (até porque como sabemos Verissimo, de 81 anos, teve problemas de saúde sérios em tempos recentes), o público presente na Póvoa ficou poupado à sua estridente timidez. Foi ele que escreveu um dia: “Quando falo em público, não sei quem sofre mais, se sou eu ou se é o público”.

Sim, Verissimo, apesar dos textos, é tímido. Sem saber bem porquê, apareceu assim no mundo. É dos que, para citar uma carta que endereçou a outros tímidos, seus companheiros de recolhimento, sonham em ficar quietos em casa. “Ou, de preferência, no útero”. Não se pense em humildade. Para a sua mente lúcida, ser-se tímido é, para o escritor, uma forma de se ser vaidoso. Por isso fica o seu conselho para os recatados: tire da ideia o sentimento de estar no centro. “Convença-se: o mundo não está só esperando para ver qual é a próxima que você vai aprontar”.

A vida privada é uma comédia

Mas deixemos a timidez e concentremo-nos na desfaçatez. No atrevimento de um autor, nascido em 1936, em Porto Alegre, desenhador de uma obra que é feita de muitas miniaturas mas também de romances, guiões, cartoons — e que ganhou balanço na década de 80 com o livro O Analista de Bagé, à volta de um “analista” que, em contexto de consultório, tem uma interpretação, digamos, desbragada de Freud e um gosto por sentenças que nenhum paciente alguma vez esquecerá.

Capa da edição original de “O Analista de Bagé”

É também o criador de um detective particular, Ed Mort, uma paródia do herói noir da literatura e do cinema, e da Velhinha de Taubaté, “a única pessoa que ainda acredita no governo”. Em Portugal a Dom Quixote tem-se, ao longo dos anos, dedicado a publicar livros como O Clube dos Anjos, As Mentiras que os Homens Contam e O Melhor das Comédias da Vida Privada. Este, editado pela primeira vez em 1994, foi adaptado a uma série de televisão que levou o olhar do escriba sobre a vida e o dia-a-dia para a sala do telespectador comum.

Vamos à estante buscar justamente O Melhor das Comédias da Vida Privada, pleno de rasgos criativos e ângulos inesperados para tratar ficcionalmente temas comuns como questões domésticas: a família, as fidelidades e as infidelidades, os encontros e as separações. E a sensualidade brasileira, a esgueirar-se aqui e ali, como uma respiração. “A classe média é uma terra estranha” é a sentença que inaugura o capítulo “Convenções” e diz muito daquilo que interessou a Verissimo nesse projecto: explorar essa estranheza de um modo criativo mas permitindo ao mesmo tempo que as pessoas se pudessem reconhecer nos episódios e comentassem: “Isto podia ser comigo”.

É a entrada para o dicionário que tanto traz formulações que cruzam humor e poesia como esta: “Abacaxi: o abacaxi é fruta a contragosto” ou Baleia: “A baleia é um mamífero que preferiu continuar no mar. Quer dizer, é uma sentimental”.

Há aí um livro, ainda não editado em Portugal (esperemos que o seja), intitulado Ver!ssimas — Frases, Reflexões e Sacadas sobre Quase Tudo, editado em 2016 pela Objetiva e com prefácio do novo virtuoso da crónica brasileira, António Prata, escriba publicado em lusitanas terras pela Tinta da China (convém visitá-lo!).  Prata diz que este é um inventário tão vasto do que há entre o céu e a terra que se um dia um óvni pousar no seu quintal e um ET pedir uma obra de referência sobre os terráqueos é de lhe entregar este livro. As frases foram capturadas em diversas criações do autor, num trabalho que merece um agradecimento a Marcelo Dunlop e, no caso das ilustrações, a Fernanda Veríssimo e Fraga.

A capa de “Ver!ssimas”

Depois vem o festim de inteligência e concisão, frequente, sim, naquele lado do Atlântico, onde frases de Millôr Fernandes e Nelson Rodrigues estão nas bocas do mundo, prontas para ser usadas, como um disparo, em várias circunstâncias da vida social. A Epígrafe é logo um achado:

“Já pensei em fazer uma variação. Em vez de escolher uma citação de, digamos, ‘Guerra e Paz’ como epígrafe de um romance meu, publicar todo o ‘Guerra e Paz’ e botar uma frase minha no fim. As possibilidades comerciais, inclusive, melhorariam”.

É a entrada para o dicionário que tanto traz formulações que cruzam humor e poesia — condimentos que inspiraram, por exemplo, as Greguerias do vanguarista-humorista Rámon Gómez de la Serna, da primeira metade do século XX espanhol — como esta: “Abacaxi: o abacaxi é fruta a contragosto” ou Baleia: “A baleia é um mamífero que preferiu continuar no mar. Quer dizer, é uma sentimental”. Ou esta: “Chaminé: Os olhos são as janelas da alma, e o nariz é a chaminé”. Ou ainda esta, a melhor: “Sorriso: Ela deu um sorriso tão bonito que o rabo dos meus olhos começou a abanar de alegria”.

A vida, sim, mas também as pequenas circunstâncias da existência, tão definidoras do que somos como as outras, ganham atenção particular, não fosse este um arguto cronista das pequenas coisas que os escritores assim muito sérios deixam no ecoponto. “Ser ou não ser? Ser, claro. Se bem que não ser tem algumas vantagens fiscais”.

Mas a subversão amável, preferindo, por temperamento, a ironia ao gesto de partir a loiça, é o prato mais pedido da casa. A Bíblia é vista como tendo tudo para acompanhar uma insónia:

“Enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência — e uma mensagem positiva”.

O Brasil é um país no qual “o fundo do poço é apenas uma etapa”. Sobre Linguagem, adianta: “Tortuosos são os caminhos da língua. Espera um pouquinho, ficou meio pornográfico”. A morte tem um lado bom porque é “nunca mais se queixar da coluna”. Ou ainda nesse mesmo dossier, obsessão de qualquer escritor: “Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca”. Na entrada Formiga, sobre o mesmo tema, tratado noutra perspectiva, temos o seguinte pedido: “Eu não acredito em reencarnação. Mas, por via das dúvidas, depois que eu me for, não pisem em nenhuma formiga que lhe parecer familiar”. Cuidado.

Não gosta de escrever, gosta de ter escrito

A vida, sim, mas também as pequenas circunstâncias da existência, tão definidoras do que somos como as outras, ganham atenção particular, não fosse este um arguto cronista das pequenas coisas que os escritores assim muito sérios deixam no ecoponto. “Ser ou não ser? Ser, claro. Se bem que não ser tem algumas vantagens fiscais”. O colunista e autor de Aventuras da Família Brasil manifesta ter uma relação, digamos, pouco romântica com o gesto de escrever. É ele que diz, com ameno pragmatismo: “A minha musa inspiradora é o meu prazo de entrega”. Também tem por hábito citar uma frase de Zuenir Ventura, que diz que não gosta de escrever, gosta de ter escrito.

“Aventuras da Família Brasil”

Nos jornais, em Porto Alegre, iniciou-se como funcionário do departamento de arte da Editora Globo e, no Rio de Janeiro, foi tradutor e publicitário. Começou a escrever tardiamente, depois dos 30, vários anos após ter vivido nos Estados Unidos, onde o seu pai deu aulas, na Universidade de Berkeley. Se calhar é altura de dizer, para as duas ou três pessoas que não o saibam, que é filho de Érico Verissimo e que assume que um dos primeiros influenciadores terá sido o pai, praticante de uma informalidade formal que cedo perseguiu.

Foi nos EUA que se alfabetizou e ganhou com o inglês uma relação directa, enformadora da sua escrita, económica, curta, assente em diálogos convincentes, próprios de alguém que terá com certeza bom ouvido. E, já que se toca no assunto, convém lembrar que a música conta e muito para Verissimo, sendo apreciador de jazz. A entrada sobre o assunto em Ver!ssimas é esta: “Não confio em nenhum músico de jazz que não esteja morto há pelo menos vinte e cinco anos”. Ele próprio toca um instrumento, sem se considerar a última coca-cola do deserto: “Ainda toco saxofone, eventualmente, se bem que haja discussões sobre se ‘tocar’ é o verbo exato”.

Além de burilador de sentenças, é um bom entrevistado. Ele diz que não, que não é nada espontâneo. Numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro contou: “Meu humor, se existe, é mais uma questão de técnica, produto de leituras e influências, do que de vocação”. Mas se é assim, pergunta-se: porque é que há frases nesta antologia retiradas de entrevistas, onde o entrevistado não tem tempo para mudar sequer o tipo de letra? Se é verdade que o sucesso lhe é caro (“Claro que gosto disto. É o que paga o uísque das crianças”), tendo sido contabilizados, no ano em que fez 70 anos, mais de 5 milhões de exemplares das suas obras vendidos, admite que a sua real vocação é a de aposentado. Aposentado mas vital. Até porque, disse-o na mesma entrevista, procura não pensar na morte, na esperança de que ela também o esqueça.

Crítico da corrupção no PT, mas diz que o facto de o índice de mortalidade infantil no Brasil ter caído muito nos anos de Lula redime qualquer governo. Tem sido vilipendiado pelas suas posições nesse caldo de bons rapazes que é a internet.

Na entrada Distração de Ver!ssimas, desabafou: “A gente se distrai e, quando vê, está com oitenta anos. É injusto isso”. Até porque há muitos prazeres para ter, como o gosto pelo futebol. Torce pelo Sport Club Internacional, grande rival do Grémio. E também torce pela boa comida, tendo por hábito viajar para Paris para provar os melhores petiscos.

Colaborador, entre outras publicações, da Veja dos anos 80, do Estado de São Paulo e do português Expresso, deixou recentemente de colaborar no Zero Hora, onde esteve durante mais de 40 anos. A decisão foi motivada, segundo disse publicamente, sem irritação, pela circunstância de a administração ter querido afastar aqueles, mais velhos, com salários mais altos. Politicamente à esquerda, mantém-se crente no poder auto-regenerador da democracia.

Crítico da corrupção no PT, mas diz que o facto de o índice de mortalidade infantil no Brasil ter caído muito nos anos de Lula redime qualquer governo. Tem sido vilipendiado pelas suas posições nesse caldo de bons rapazes que é a internet. Numa sessão da Feira do Livro de Porto Alegre contou que, não frequentando o virtual, ficou a saber que houve alguém que o mandou viver na Coreia do Norte e que, apesar de ter sido chamado de “esquerda caviar”, o caviar não tem estado interessado na sua mesa. Sobre a tão falada questão do politicamente correcto, para surpresa de alguns, defende que o “politicamente correcto está correto”.

Mesmo com esta vocação progressista, Luis Fernando Verissimo tem perfil de conservador. Não político mas pessoal. É homem de hábitos, do seu cantinho. Não gosta que o aborreçam. Mesmo nas questões públicas, a gente fica na dúvida sobre a sua crença em utopias, quando, em Ver!ssimas, dita: “Sou um céptico total, mas aberto a revelações” ou “Não sei para onde caminha a humanidade. Mas, quando souber, vou para o outro lado”. E advoga a velha arte da auto-desconfiança: “Conhece-te a ti mesmo, mas não fique íntimo”.

Nuno Costa Santos escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.

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