As obras de reconstrução estão a terminar e a Coleção Armando Martins já brilha por todo o edifício do antigo Palácio dos Condes da Ribeira Grande. Ao todo são quatro galerias, onde uma exposição permanente e mais duas temporárias marcarão nova vida naquela zona da cidade de Lisboa. Arte portuguesa dos finais do século XIX à atualidade e arte contemporânea internacional ao mais alto nível serão anfitriãs do novo espaço que incorpora um hotel de cinco estrelas como base de financiamento e futura sustentabilidade.
A ideia já estava na cabeça de Armando Martins desde os finais dos anos 90 e chega agora à sua concretização. Sonho tornado realidade pelo colecionador, um engenheiro mecânico e promotor imobiliário conceituado, no espaço de quase um hectare de terreno e em 13 mil m2 de construção. O hotel tem 64 quartos, os hóspedes podem usufruir do museu e quem vai ao museu pode usufruir do hotel. As obras de arte estão por todo o lado e vão das galerias aos quartos, corredores do hotel e espaços comuns. De resto, a entrada do hotel e do museu é precisamente a mesma, à direita fica a bilheteira do museu, à esquerda a receção do hotel, cuja direção está a cargo de Vera Cordeiro. As reservas abrem ao público a 22 de março através do site oficial. Há um restaurante, o Contemporâneo, e uma cafetaria, Café. A ementa assenta na gastronomia portuguesa, mas promete inspirar-se nas exposições que forem passando pelo museu.
A antiga capela do século XVIII, totalmente restaurada, apresenta uma programação performativa e musical regular e mostrará já na inauguração um trabalho criado pelo espanhol Carlos Aires para o local, que terá um bar das artes associado, o àCapela. Um pátio/jardim medeia o edifício antigo e um novo espaço construído de raiz, que aloja duas das galerias e os escritórios da equipa do museu e cuja fachada, criada por Maria Ana Vasco Costa, foi já premiada internacionalmente nos Public Building Design Awards.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
As exposições permanentes ficam no Piso 0 do edifício do Palácio — o século XX português até aos anos 80 do lado esquerdo, e arte portuguesa dos anos 80 até agora e arte contemporânea internacional do lado direito, as exposições temporárias nas galerias novas (3 e 4), rés-do-chão e 1º andar do edifício novo respetivamente, que mostrarão ao público coleções privadas de várias proveniências e também obras de alguns artistas emergentes no grande hall. A artista de ascendência marroquina Marion Mounic será a primeira a expor aí. Guerra, Realidade, Mito e Ficção e Antropoceno são os títulos das duas primeiras mostras temporárias.
Malhoa, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, Guilherme de Santa-Rita, Eduardo Viana, Mário Eloy, Cruzeiro Seixas, Menez, Ana Vieira, Sá Nogueira, Júlio Pomar, Costa Pinheiro, Lourdes Castro, Julião Sarmento, Skapinakis, René Bértholo, Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa, Cabrita Reis, Rui Chafes, Paula Rego, Vieira da Silva e tantos outros contam a história da arte portuguesa que se mistura depois com a contemporaneidade internacional assinada por nomes como Thomas Ruff, Thomas Struth, Dan Graham, John Baldessari, Tony Craig, Marina Abramovic, Tapiès, Ernesto Neto, Olafur Eliasson, Berlinda de Bruyckere, Miguel Branco, Niizuma…
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1974: “Comprei o meu primeiro original, uma pintura de Rogério Ribeiro, que ofereci a mim próprio.”
Armando Martins cruzou-se com a arte um pouco antes de acabar o curso de engenharia mecânica. Começou então por colecionar serigrafias, muitas de Manuel Cargaleiro, mas também de outros artistas. Um amigo bancário, com veia de marchand, foi quem o entusiasmou a adquirir estas peças. “Íamos comprando a meias, ficávamos com algumas, outras vendíamos”.
Mas foi quando fez 25 anos, em março de 1974, que decidiu avançar para outros voos. “Achei que já não me interessava muito continuar com os papéis e deixei as serigrafias, comprei o meu primeiro original, uma pintura de Rogério Ribeiro, que ofereci a mim próprio.” A obra está em exposição no MACAM, precisamente na sala dedicada ao colecionador.
Na altura já sabia que ia ter mais peças, mas não definira a dimensão da coleção, nem imaginara alguma vez vir a expô-la ao público. Continuou a adquirir obras e o acervo constitui-se como uma grande viagem à arte contemporânea. A dada altura, decidiu fazer uma exposição com obras de Cargaleiro, em Penamacor, de onde Armando Martins é natural, com cerca de 25 ou 30 peças entre obras da sua propriedade e empréstimos de amigos. Foi no final dos anos 80.
Pelo caminho tinha ficado o Brasil. Armando Martins viveu no Rio de Janeiro entre 1978 e 1983. Trabalhava como engenheiro mecânico e liderava a área técnica e comercial da empresa de fundição de um português que se tinha refugiado ali a seguir ao 25 de Abril, o engenheiro Alfredo Alves. Armando respondera a um anúncio de jornal, pois estava cansado do emprego nos Cabos d’Ávila, onde trabalhava desde finais de 1973. “Era muito difícil trabalhar, estávamos sempre em greves, em reuniões gerais, os engenheiros mais velhos passaram a ter medo de descer à fábrica porque todos tinham tido alguns problemas no passado, eu, como era mais novo, tinha uma boa relação com toda a gente, era também examinador de condução e todos achavam que os ajudava, tinha feito exame ao Octávio Pato e outros e convidara-os a ir à fábrica numa festa de Natal como surpresa. Só que não se conseguia fazer nada de jeito. Ainda desenvolvi um trabalho para mudar todas as caldeiras da fábrica, mas quando cheguei ao final, mandaram-me meter o projeto na gaveta porque não havia dinheiro para investir”, lembra.
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Foi o escolhido entre os cento e muitos candidatos que tinham respondido ao tal anúncio. “Embarquei para o Brasil no dia 15 de agosto de 1978, suspendi o casamento, voltei, casei e regressei em dezembro. A estadia foi feita de trabalho e foi a sua grande escola. “Aprendi uma coisa fundamental e que as universidades não ensinam, aprendi a tomar decisões.” O patrão, um homem muito duro, num dia em que Armando teria que fechar um negócio de grande monta, 400 ou 500 milhões de dólares, foi quem o ensinou. “Os nossos clientes eram as cimenteiras e as minas, tratava-se de uma mina de cobre, e eu não queria fechar o negócio sem falar com ele, mas ele adiava a conversa todos os dias. Até que me disse: se você não consegue fechar o negócio sozinho, vá-se embora que eu resolvo!” Armando Martins não gostou da repreensão, mas a partir daquele momento passou a tomar as decisões sozinho. “Ganhou-se muito dinheiro, eles ganharam muito dinheiro, eu ganhei muito dinheiro.” Tinha 28 anos, viajou pelo Brasil de lés a lés, onde havia fábricas de cimento e minas ele estava lá. Os primeiros dois anos foram passados dentro de aviões, até conhecer todos os diretores das fábricas e donos de empresas, depois passou a resolver muita coisa por telefone.
O passo seguinte foi investir em imobiliário, mas já em Portugal, onde veio a fundar o Grupo Fibeira SGPS, hoje com provas dadas na promoção imobiliária. Ainda construiu uma moradia no Rio de Janeiro, mas não chegou a habitá-la. Vendeu a casa antes de regressar. “Queria voltar antes de Portugal entrar na União Europeia. O meu objetivo era estar cá durante a integração.”
Sediou-se novamente em Lisboa, em finais de 1983, cidade aonde chegara com 14 anos para frequentar o Liceu D. João de Castro. O dois primeiros anos de liceu tinham sido feitos em Medelim, Idanha-a-Nova, num colégio acabado de abrir pelo padre responsável pela sua saída do seminário. “O meu pai ficou muito contente, a minha mãe é que não.” Fez exame no liceu D. Nuno Álvares Pereira, em Castelo Branco, e rumou à capital. Findo o curso liceal, tirou engenharia mecânica no Instituto Superior Técnico.
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“Com o hotel sustento a operação museológica e dou-lhe continuidade”
O Palácio dos Condes da Ribeira Grande, um edifício do século XVIII, que durante o século XX albergou várias instituições de ensino, tendo sido por último ocupado pelo Liceu Rainha D. Amélia, entre 1960 e 2002, foi adquirido por Armando Martins há 17 anos já com o intuito de o transformar em museu para instalar a sua coleção de arte. “O meu projeto original do museu era no Cais do Sodré, no edifício onde está o relógio da hora legal. Ganhei esse espaço num concurso público para uma concessão a 90 anos.” O arquiteto catalão Ricardo Bofill, com quem o colecionador trabalhara na edificação do Atrium Saldanha, também em Lisboa, ocupara-se do projeto museológico para o Cais do Sodré, do qual fazia também parte um pequeno hotel e uma área de escritórios, além de um grande parque de estacionamento por baixo. No entanto, Armando Martins acabaria por perder o direito ao edifício em sede de tribunal arbitral. “Decidi nunca mais querer nada com câmaras nem com governos!”
No acervo imobiliário do colecionador entrou então, em 2007, o Palácio dos Condes da Ribeira Grande. A crise financeira de 2008, o suprime, congelou o projeto do museu, mas as aquisições de obras para a coleção não, e, nessa altura, já direcionadas para a constituição museológica. “Diria que a minha decisão de construir um museu aconteceu no final dos anos 90, já tinha umas 200 peças”, hoje, no total, são cerca de 600. “Passei a comprar peças de grandes dimensões e que pudessem ser expostas em contexto de museu.” Até aí, Armando Martins só comprava arte do século XX português. Foi com a ideia de fazer um espaço aberto ao público que se apercebeu que teria que juntar à coleção valores internacionais. “Antes tinha tido oportunidades fabulosas de adquirir peças internacionais a preços fantásticos, chegaram a oferecer-me coisas por cento e pouco mil contos, que vim a encontrar por mais de 20 milhões de euros mais tarde, em Basileia.”
A coleção é atualmente constituída por obras nacionais em 55% e 45% internacionais. O gosto pessoal foi o grande orientador, mas os galeristas Pedro Cera e Cristina Guerra ajudaram nas compras internacionais. “Comprei algumas coisas a privados, ao Jorge de Brito comprei meia dúzia de muito boas peças, ele que tinha uma coleção do outro mundo. Nos últimos anos de vida dele, almoçávamos uma vez por mês, ali ao Guincho, e depois passávamos em casa dele. Enquanto ele dormia meia hora, eu andava a ver os quadros. Uma vez contei 80 ou 85 Vieiras da Silva, quadros empilhados atrás uns dos outros! Comprei-lhe algumas peças interessantes. Havia uma Vieira da Silva que estava reservada para mim, íamos fechar o negócio dois ou três dias antes dele morrer, o almoço já estava marcado, mas ele telefonou a desmarcar porque se estava a sentir mal. O filho João, mais tarde ainda ma quis vender, mas o preço já era outro. Felizmente, a obra, Au fur et à mesure (1965), ficou no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva.” Na coleção de Armando Martins, porém, ficou Maio de 68, uma obra de Maria Helena adquirida também a Jorge de Brito — “o ano em que entrei para o Técnico!”
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A ideia de um hotel que sustente uma instituição cultural é inédita em Portugal. “E lá fora também! Há uns anos fui aos Estados Unidos, convidado por uma família que estava a lançar uma cadeia de hotéis também de pequena dimensão, era a neta do criador do uísque Jack Daniels. O primeiro hotel que eles fizeram foi numa fábrica de uísque e tinha uma galeria lá dentro tinham obras também no restaurante, era essencialmente fotografia, e os quartos também tinham peças de arte. Tinha uma curadora ou diretora. Contei-lhes que o meu projeto era fazer um museu de arte contemporânea ancorado num hotel. E faço-o por esta razão: a exploração de um museu será sempre negativa financeiramente, os bilhetes devem dar para pagar os vigilantes e pouco mais. Faço um hotel porque me dei conta que grande parte das fundações que existem em Portugal, quando o fundador desaparece, entram em colapso. Daí que assim sustento a operação museológica e dou-lhe continuidade.”
A obra está a ser realizada totalmente com capitais próprios, o que promete um projeto artístico verdadeiramente independente — já com a declaração de Interesse Cultural, o que permitirá haver empresas que possam ser mecenas do MACAM. Apalavrado está já o apoio mecenático de uma instituição bancárias e alguns apoios de outras empresas estão na calha. O serviço educativo, denominado Mediação, e já com uma diretora a trabalhar e mais seis mediadores contratados, também contará com um patrocinador nacional. A primeira escola a visitar o MACAM será a de Penamacor, a 27 de março.
“Colecionar arte é uma droga”
A coleção mantém-se a crescer, mesmo que agora as aquisições se façam a um ritmo mais baixo, uma vez que o investimento é muito elevado neste momento. Um compromisso assumido com a Fundação Arco vai fazer Armando Martins comprar pelo menos uma peça nesta edição da feira madrilena, que agora decorre. Antes disso, e há pouco tempo, a aquisição de uma escultura de Pedro Cabrita Reis para o jardim já tinha sido de monta. E um Jorge Pinheiro, adquirido no final de 2024, ocupa a parede traseira do gabinete de Armando Martins.
“Colecionar arte é uma droga”, diz sabendo que a palavra pode ser suscetível a várias interpretações. “Agora já me contenho um pouco mais, mas, muitas vezes, quando via uma peça de que gostava muito, ficava ansioso até a comprar, tinha mesmo de a comprar! O problema era como pagá-la, mas isso vinha depois. A primeira peça que comprei custou 56 contos e eu, na altura, ganhava 24 contos por mês, andei seis meses a pagá-la. É uma droga cara, mas, apesar de tudo, é uma boa droga! É a única vantagem que se tem. Passei alguns apertos para pagar algumas obras. Mas neste momento, que me lembre, só tenho aí um artista a quem devo uma ou duas prestações.”
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Hoje, Armando Martins recorda que em miúdo sonhava com o curso de engenharia aeronáutica para poder voar, frisando que a arte o libertou para voar em direção a diferentes dimensões. “Punha as primeiras obras que ia comprando numa sala lá de casa e à noite quando chegava ia olhar para elas. Agora tenho lá uma, que provavelmente virá aqui para o meu gabinete, que está num corredor e quando chego ligo o projetor que a ilumina. As obras de arte são assim. Olho para elas todos os dias e todos os dias posso ter leituras diferentes do que vejo nelas. As obras de arte dão-me essa liberdade. Com os livros tenho mais dificuldade, a certa altura a minha cabeça já não está lá e depois tenho que voltar ao princípio para me lembrar da história. Com as obras de arte estou mais livre, vejo o que quero ver num dia e no dia seguinte será outra coisa.”
O sonho de voar vem de longe. “Na escola primária houve um grupo de padres franciscanos que nos foi visitar e desafiar para irmos para o seminário [Armando chegou a frequentar o Seminário do Tortosendo]. Disseram-nos que depois do curso no seminário, eventualmente nos mandariam para África, evangelizar, e que teríamos um aviãozinho para pilotar e andar de um lado para o outro. Não sei se foi isto que me marcou ou não, mas nunca mais me esqueci do avião.” A completar 76 anos este mês de março, avança agora: “Ter uma coleção de arte e tê-la escondida ou guardada em armazém não é uma finalidade para ninguém. Para quê? Que seja interessante para a população de Lisboa, para a população em geral, para o país”.
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“Há muitos nomes fortes na coleção e esses nomes fortes têm aqui boas obras”
Estudada e passada à lupa por Adelaide Ginga, historiadora de arte e diretora do MACAM, a coleção de Armando Martins tem tudo para agradar ao público e ao país. Quando, em 2019, começou a trabalhar no projeto do museu, Adelaide encontrou apenas uma pequena listagem Excel daquilo que tinha sido adquirido ao longo dos anos. O trabalho de inventariação, estudo e conservação estava todo por fazer. Toda a coleção foi estudada pela primeira vez, ainda há históricos de obras que estão a ser apurados. Foi feita uma campanha para revisão do estado de conservação das obras, foi criada uma base de dados de raiz, feita uma campanha fotográfica.
“Foi um desafio como este, o de tornar real um novo museu construído de raiz, é acima de tudo um sonho. Qualquer coisa que acontece uma vez na vida, quando acontece. Arrancar com um projeto, desenhá-lo, construí-lo, moldá-lo de acordo com aquilo que são os ideais é excecional. E muito foi, de facto, construído de acordo com aquilo que são os princípios museológicos idealizados”, conta ao Observador.
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O que mais surpreendeu a historiadora foi o núcleo de arte portuguesa. “Eu tinha a ideia de que a coleção era contemporânea e mais internacional. Quando comecei a desbravar a documentação existente, percebi que havia um núcleo de arte moderna ainda com alguns resquícios do naturalismo do final do século XIX que, compreendi, deveria ser de excelência. Quando vi as obras ao vivo tive a certeza que sim. Não esperava que esse núcleo tivesse tanta qualidade e tanta consistência e, depois, obviamente, que me surpreendeu a qualidade das obras internacionais. Há uma característica na coleção que é uma enorme variedade. Ela foi sendo construída sem uma linha de orientação definida, está assente no gosto pessoal do colecionador, mas também nas oportunidades e várias situações de mercado. Há muitos nomes fortes na coleção e esses nomes fortes têm aqui boas obras. Estamos a falar de uma coleção que tem bons nomes e que tem excelentes obras, e que são obras representativas dos autores. Estamos a falar de Marina Abramovic, Olafur Eliasson, Paloma Varga Weisz, Adam Pendleton, Ernesto Neto, que ainda há pouca tempo teve uma enorme exposição no MAAT, e que aqui tem uma peça extraordinária, por exemplo. O facto é que não há obras menores”, explica com entusiasmo.
São tudo obras que nunca vimos. E essa é a grande questão. É a possibilidade de passarmos a aceder a uma coleção que era privada. E daí a proposta inovadora que Adelaide Ginga apresentou a Armando Martins e que foi por ele aceite, a de apresentar numa das galerias de exposições temporárias outras coleções privadas sem espaço de apresentação público. “Existem tantos colecionadores que têm há anos as coleções armazenadas que, não só gostariam de ver as obras, como essas obras precisam de se relacionar com os públicos e de ser vistas. O que acontece muito com as obras das coleções privadas é que muitas vezes são compradas diretamente ao próprio artista e vão do ateliê para a casa do colecionador ou para o armazém, não são vistas por ninguém, não são dadas a conhecer. Muitas só o artista as conhece porque tem a lista do que vendeu, há uma reprodução e pouco mais. Havendo a sensibilidade de tornar pública uma coleção privada, faria sentido que este projeto pudesse estender esse princípio a outros.” É o que vai acontecer nas Galerias 3 e 4.
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Para Adelaide Ginga, o MACAM é um museu “muito complementar relativamente aos outros já existentes”. “Entre Alcântara e Belém, neste Crescent Art District, que cada vez mais se enriquece, colmata uma lacuna grande que é facultar o acesso a esse núcleo de arte portuguesa, que o MAC/CCB não tem e que o MAAT só tem a partir dos anos 60 do século XX, mas que de qualquer forma não tem em exposição permanente. Aqui percebe-se perfeitamente qual é a evolução da arte em Portugal do final do século XIX até ao final do século XX e depois ao XXI.”
Em diálogo a nível nacional quer com o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, quer com o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, o MACAM apresenta no núcleo internacional artistas e obras únicas, constituindo-se como um espaço de alternativa, com uma capela dessacralizada, toda restaurada e dedicada às artes performativas, e um jardim cheio de obras.
Na Mediação e Participação de Públicos, o serviço educativo do MACAM, a ideia é deixar de ter visitas passivas. “Vai haver visitas de muitos tipos, guiadas, visitas-jogo, e muitas outras ofertas para envolver os visitantes, as escolas, as famílias, os estrangeiros, e também as comunidades. O museu está situado numa zona de antigos bairros ainda muito residenciais, com estratos sociais muito diferenciados e que são todos convidados a participar da vida deste equipamento cultural que nasce aqui entre Alcântara, Ajuda e Belém. A ideia é que todas as pessoas sintam que têm um equipamento cultural para usufruir e que podem contar com ele quer seja para o polo escolar das diferentes juntas de freguesia, quer como um local a visitar pelos seniores. Que haja ainda uma possibilidade de eles se relacionarem com a arte contemporânea, e que tragam os netos depois”, deseja a historiadora de arte.