Se fosse preciso encontrar um ponto em que todos os participantes do mais recente Encontro Fora da Caixa estiveram de acordo, esse seria, sem dúvida, o momento positivo que Portugal está a atravessar em termos de produtividade, investimento e, até, de inovação. Mesmo assim, muito há ainda a fazer para melhorar e continuar a crescer, nomeadamente, em termos de competitividade para fazer face aos desafios globais, como também ficou patente.
Da instabilidade global às oportunidades nacionais
A abertura do encontro ficou a cargo de Paulo Moita de Macedo, presidente da Comissão Executiva da CGD, que, ao analisar o momento presente a nível global, sublinhou que “a instabilidade geopolítica e as alterações nas políticas comerciais são vistas como a maior ameaça ao crescimento económico global”. Entre os vários pilares fundamentais das mudanças geopolíticas, apontou os muito falados acordos comerciais e as tarifas, assim como as questões relacionadas com as políticas ambientais. A este propósito, deu como exemplo o facto de os seis maiores bancos dos EUA terem decidido abandonar o objetivo Net Zero 2030, “enquanto na Europa, a Caixa e outros bancos mantêm os seus targets, e isto não é uma coisa que não tenha custos”.
Ao longo da sua intervenção, chamou igualmente a atenção para o Relatório de Draghi, o qual veio revelar como “a separação da Europa face aos EUA não é só grande, como crescente”, e o pior, nas suas palavras, é que “já faz um ano que esse relatório foi feito e, basicamente, muito pouco se avançou”.
Quanto a Portugal, o CEO da CGD apoiou-se num estudo da McKinsey para lembrar que “nos próximos 15 anos, Portugal pode mais do que duplicar o crescimento do PIB”, mas para tal deve “conseguir desenvolver as suas indústrias estruturais, designadamente, aumentando a dimensão das que são mais produtivas e fazendo surgir outras nesse top; mas também crescendo em novas arenas, e acelerando através de inteligência artificial generativa e automação”. Para potenciar um crescimento idêntico ao dos EUA, defendeu que há que transformar o país num hub de talento global, aumentar a escala e a produtividade das empresas, e ainda atrair capital internacional para setores-chave, como o comércio eletrónico, a cibersegurança, as baterias, entre outros. Mas porque as lideranças são determinantes, já a terminar sublinhou ainda que “é na gestão das empresas que reside a criação de valor”.
Produtividade, confiança e ambição
Enquanto keynote speaker do evento, Armindo Monteiro, presidente da Confederação Empresarial de Portugal, começou por sublinhar o muito que já foi possível percorrer no nosso país em termos empresariais, em apenas 50 anos, que é a curta duração da “liberdade económica”. O responsável criticou o “assistencialismo como modo de vida”, defendendo a necessidade de se “combater esta ideia da dependência, da mão estendida a Bruxelas”, mas deixando claro que não se opõe à existência de fundos para a coesão, por exemplo. No seu entender, a questão principal é “o que fazemos com isso”.
Considerando que estamos a viver uma espécie de “crepúsculo da democracia”, lamentou que algumas pessoas tendam a considerar que “a democracia só é importante se nos der prosperidade”. Na sua opinião, “esta ideia errada passa por um apelo sedutor do autoritarismo”, tudo em prol da expectativa de prosperidade. Mas “esta ideia é perigosa, porque os nossos valores democráticos dependem de uma nação de nove séculos e não podem ser postos em causa por uma questão de prosperidade”, rematou.
Nas suas palavras, “a produtividade depende sobretudo da qualidade dos fatores de produção, com o investimento à cabeça. Se não tivermos investimento, a produtividade não pode aumentar”. Entre as medidas para aumentar a produtividade, Armindo Monteiro destacou a criação de um “forte incentivo ao investimento em Portugal, um forte incentivo ao investimento público e responsabilização”. Quanto às empresas, considerou que estas necessitam de “produzir conhecimento” e de “mais inteligência”, sendo que “precisamos de ser globalmente competitivos”, e também de aderir mais ao “associativismo”, pois “todos os desejos são demasiado difíceis para serem vencidos sozinhos”.
Informação para melhor gerir o risco
“Sem riscos não há retorno”, começou por lembrar Rui Martins, diretor de Estratégia da Caixa Gestão de Ativos, na apresentação que fez sobre “Tendências económicas e de mercados financeiros”. Mas aqueles riscos podem ser encarados como “fontes de oportunidades de investimento”, referiu, aludindo ao trabalho desenvolvido na Caixa Gestão de Ativos. O orador reconheceu que o ano de “2025 foi uma grande fonte de riscos”, nomeadamente, em termos de incerteza geopolítica e económica, “mas felizmente, ao longo dos últimos meses, temos vindo a assistir à redução dessa incerteza”. Por exemplo, a Reserva Federal dos EUA tem vindo a apresentar “uma postura mais expansionista que o perspetivado” e no Banco Central Europeu (BCE) há um “fim do ciclo de cortes das taxas diretoras, devendo estas permanecer estáveis ou, até, vir a aumentar”. Há igualmente uma “moderação da atividade inferior ao inicialmente antecipado”, da mesma forma, observa-se “robustez dos resultados empresariais” e uma “política fiscal, da maior parte dos países, expansionista”.
A importância da “imaginação de futuro” para que Portugal se cumpra
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“Eu acho que Portugal tem tudo para ser outra coisa, mas parece que somos sempre um país do quase” e “isso está ligado à ideia de que nos falta uma imaginação de futuro”. Esta foi uma das leituras sobre o nosso país que António Sampaio da Nóvoa, professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e reitor honorário da mesma instituição, fez em diálogo com o escritor Gonçalo M. Tavares, durante a gravação do podcast XXI Conversas para o Século XXI, a que os participantes do Encontro Fora da caixa puderam assistir.
Ao longo da conversa, foi possível acompanhar alguns dos momentos mais significativos da carreira de Sampaio da Nóvoa, como o facto de ter conseguido o que se pensava “impossível”, ou seja, a fusão entre a Universidade de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa, com vista à construção de uma nova universidade de língua portuguesa de referência no mundo. Outro momento recordado durante o podcast aconteceu enquanto embaixador de Portugal na UNESCO, onde, apesar das “grandes desilusões” que guarda dessa passagem, conseguiu que, em 2019, fosse oficializado o Dia Mundial da Língua Portuguesa a 5 de maio. Atualmente, a educação e a língua portuguesa continuam a ser paixões que persegue, tendo partilhado um dos projetos que, em 2024, levou a cabo a título pessoal ao longo de três meses, durante os quais visitou, sozinho e sem aviso prévio, escolas de todo o país, o que lhe permitiu ter contacto real com o que se passa no terreno.
Impulsionar a produtividade industrial
O último painel do evento reuniu representantes do tecido empresarial de Castelo Branco, como Jorge Amaral, CEO da Mecalbi – Engineering Solutions, Nascimento Justino, fundador da Movaço, e Paula Afonso, Administradora da José Afonso & Filhos. Todos partilharam as características dos seus negócios, bem como as vantagens e desvantagens de se localizarem no interior do país, apresentando as suas empresas como altamente competitivas nos mercados globais.
O encerramento do encontro contou com a presença do grupo musical Royal Bermuda, que partilhou uma viagem sonora de fusão entre melodias do Mediterrâneo e de ritmos da América Latina.