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Victor Machado

Victor Machado

Mais competitividade para maior crescimento

É necessária mais competitividade para potenciar o crescimento nacional. Esta foi uma das conclusões do Encontro Fora da Caixa, organizado pela CGD, em Castelo Branco, no dia 3 de novembro.

Se fosse preciso encontrar um ponto em que todos os participantes do mais recente Encontro Fora da Caixa estiveram de acordo, esse seria, sem dúvida, o momento positivo que Portugal está a atravessar em termos de produtividade, investimento e, até, de inovação. Mesmo assim, muito há ainda a fazer para melhorar e continuar a crescer, nomeadamente, em termos de competitividade para fazer face aos desafios globais, como também ficou patente.

Esta foi mais uma edição dos encontros que a Caixa Geral de Depósitos (CGD) organiza desde 2017, com o objetivo de descentralizar o debate e envolver o tecido empresarial de todos os distritos nacionais. Desta vez, a iniciativa decorreu no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco, subordinada ao tema “Competitividade e crescimento: como impulsionar a produtividade industrial em Portugal”, com moderação de Paulo Ferreira, jornalista do Observador.

Da instabilidade global às oportunidades nacionais

A abertura do encontro ficou a cargo de Paulo Moita de Macedo, presidente da Comissão Executiva da CGD, que, ao analisar o momento presente a nível global, sublinhou que “a instabilidade geopolítica e as alterações nas políticas comerciais são vistas como a maior ameaça ao crescimento económico global”. Entre os vários pilares fundamentais das mudanças geopolíticas, apontou os muito falados acordos comerciais e as tarifas, assim como as questões relacionadas com as políticas ambientais. A este propósito, deu como exemplo o facto de os seis maiores bancos dos EUA terem decidido abandonar o objetivo Net Zero 2030, “enquanto na Europa, a Caixa e outros bancos mantêm os seus targets, e isto não é uma coisa que não tenha custos”.

A propósito do tema da segurança e migração, que tantas questões tem levantado, nomeadamente, na União Europeia, Paulo Moita de Macedo recordou também que “se não fosse a migração, países como Portugal e Itália não conseguiriam ter a oferta de turismo que têm, o PIB não crescia como cresceu”. Sobre este assunto, recordou que o que permitiu o crescimento do PIB em Portugal, nos últimos anos, foi precisamente “a crescente empregabilidade das mulheres e a receção de mais de um milhão de pessoas”.

Ao longo da sua intervenção, chamou igualmente a atenção para o Relatório de Draghi, o qual veio revelar como “a separação da Europa face aos EUA não é só grande, como crescente”, e o pior, nas suas palavras, é que “já faz um ano que esse relatório foi feito e, basicamente, muito pouco se avançou”.

Quanto a Portugal, o CEO da CGD apoiou-se num estudo da McKinsey para lembrar que “nos próximos 15 anos, Portugal pode mais do que duplicar o crescimento do PIB”, mas para tal deve “conseguir desenvolver as suas indústrias estruturais, designadamente, aumentando a dimensão das que são mais produtivas e fazendo surgir outras nesse top; mas também crescendo em novas arenas, e acelerando através de inteligência artificial generativa e automação”. Para potenciar um crescimento idêntico ao dos EUA, defendeu que há que transformar o país num hub de talento global, aumentar a escala e a produtividade das empresas, e ainda atrair capital internacional para setores-chave, como o comércio eletrónico, a cibersegurança, as baterias, entre outros. Mas porque as lideranças são determinantes, já a terminar sublinhou ainda que “é na gestão das empresas que reside a criação de valor”.

Produtividade, confiança e ambição

Enquanto keynote speaker do evento, Armindo Monteiro, presidente da Confederação Empresarial de Portugal, começou por sublinhar o muito que já foi possível percorrer no nosso país em termos empresariais, em apenas 50 anos, que é a curta duração da “liberdade económica”. O responsável criticou o “assistencialismo como modo de vida”, defendendo a necessidade de se “combater esta ideia da dependência, da mão estendida a Bruxelas”, mas deixando claro que não se opõe à existência de fundos para a coesão, por exemplo. No seu entender, a questão principal é “o que fazemos com isso”.

Em relação à questão da produtividade, afirmou que “se não tivermos a capacidade de sofisticar o modelo de negócio, de criar diferenciação no valor, não conseguimos de maneira nenhuma também dar bons salários, dar boa remuneração a quem arrisca, e pagar mais impostos. Tudo isto depende daquilo que o negócio produz”. “Não se colhe sem semear”, avisou ainda, e para isso os empresários “têm de criar valor”.

Considerando que estamos a viver uma espécie de “crepúsculo da democracia”, lamentou que algumas pessoas tendam a considerar que “a democracia só é importante se nos der prosperidade”. Na sua opinião, “esta ideia errada passa por um apelo sedutor do autoritarismo”, tudo em prol da expectativa de prosperidade. Mas “esta ideia é perigosa, porque os nossos valores democráticos dependem de uma nação de nove séculos e não podem ser postos em causa por uma questão de prosperidade”, rematou.

Nas suas palavras, “a produtividade depende sobretudo da qualidade dos fatores de produção, com o investimento à cabeça. Se não tivermos investimento, a produtividade não pode aumentar”. Entre as medidas para aumentar a produtividade, Armindo Monteiro destacou a criação de um “forte incentivo ao investimento em Portugal, um forte incentivo ao investimento público e responsabilização”. Quanto às empresas, considerou que estas necessitam de “produzir conhecimento” e de “mais inteligência”, sendo que “precisamos de ser globalmente competitivos”, e também de aderir mais ao “associativismo”, pois “todos os desejos são demasiado difíceis para serem vencidos sozinhos”.

Informação para melhor gerir o risco

“Sem riscos não há retorno”, começou por lembrar Rui Martins, diretor de Estratégia da Caixa Gestão de Ativos, na apresentação que fez sobre “Tendências económicas e de mercados financeiros”. Mas aqueles riscos podem ser encarados como “fontes de oportunidades de investimento”, referiu, aludindo ao trabalho desenvolvido na Caixa Gestão de Ativos. O orador reconheceu que o ano de “2025 foi uma grande fonte de riscos”, nomeadamente, em termos de incerteza geopolítica e económica, “mas felizmente, ao longo dos últimos meses, temos vindo a assistir à redução dessa incerteza”. Por exemplo, a Reserva Federal dos EUA tem vindo a apresentar “uma postura mais expansionista que o perspetivado” e no Banco Central Europeu (BCE) há um “fim do ciclo de cortes das taxas diretoras, devendo estas permanecer estáveis ou, até, vir a aumentar”. Há igualmente uma “moderação da atividade inferior ao inicialmente antecipado”, da mesma forma, observa-se “robustez dos resultados empresariais” e uma “política fiscal, da maior parte dos países, expansionista”.

A finalizar, Rui Martins partilhou algumas perspetivas, nomeadamente, a “recuperação modesta em 2026”, no que diz respeito ao crescimento. Quanto à inflação, indicou as “incertezas sobre o processo de desinflação nos EUA, com a inflação na área Euro a evoluir em linha com o objetivo do BCE”. O responsável referiu ainda a “expectativa de estabilização das Euribor, sendo antecipado que encetem um novo ciclo de aumento no final do próximo ano”.

A importância da “imaginação de futuro” para que Portugal se cumpra

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“Eu acho que Portugal tem tudo para ser outra coisa, mas parece que somos sempre um país do quase” e “isso está ligado à ideia de que nos falta uma imaginação de futuro”. Esta foi uma das leituras sobre o nosso país que António Sampaio da Nóvoa, professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e reitor honorário da mesma instituição, fez em diálogo com o escritor Gonçalo M. Tavares, durante a gravação do podcast XXI Conversas para o Século XXI, a que os participantes do Encontro Fora da caixa puderam assistir.

Ao longo da conversa, foi possível acompanhar alguns dos momentos mais significativos da carreira de Sampaio da Nóvoa, como o facto de ter conseguido o que se pensava “impossível”, ou seja, a fusão entre a Universidade de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa, com vista à construção de uma nova universidade de língua portuguesa de referência no mundo. Outro momento recordado durante o podcast aconteceu enquanto embaixador de Portugal na UNESCO, onde, apesar das “grandes desilusões” que guarda dessa passagem, conseguiu que, em 2019, fosse oficializado o Dia Mundial da Língua Portuguesa a 5 de maio. Atualmente, a educação e a língua portuguesa continuam a ser paixões que persegue, tendo partilhado um dos projetos que, em 2024, levou a cabo a título pessoal ao longo de três meses, durante os quais visitou, sozinho e sem aviso prévio, escolas de todo o país, o que lhe permitiu ter contacto real com o que se passa no terreno.

Victor Machado

Impulsionar a produtividade industrial

O último painel do evento reuniu representantes do tecido empresarial de Castelo Branco, como Jorge Amaral, CEO da Mecalbi – Engineering Solutions, Nascimento Justino, fundador da Movaço, e Paula Afonso, Administradora da José Afonso & Filhos. Todos partilharam as características dos seus negócios, bem como as vantagens e desvantagens de se localizarem no interior do país, apresentando as suas empresas como altamente competitivas nos mercados globais.

Victor Machado

O encontro foi moderado por Paulo Ferreira e contou também com a presença de Ana Carvalho, administradora executiva da CGD, segundo a qual, o momento atual está a ser vivido pelas empresas portuguesas com “maior tranquilidade”, o que se deve “ao esforço que as próprias empresas foram fazendo ao nível do robustecimento dos seus capitais próprios”. “Na prática, não só o contexto é mais risonho, como também vemos as nossas empresas bastante mais preparadas depois de uma trajetória de robustecimento e capitalização das suas atividades”, reforçou. Ana Carvalho referiu ainda que, em 2025, foi notada uma “dinâmica de investimento muito apoiada pela CGD”, sendo que, no que diz respeito aos investimentos de médio e longo prazo, de janeiro até ao presente, a CGD já financiou 2,7 mil milhões de euros em mais de 3400 empresas.

O encerramento do encontro contou com a presença do grupo musical Royal Bermuda, que partilhou uma viagem sonora de fusão entre melodias do Mediterrâneo e de ritmos da América Latina.

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