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Chuva, chuva e mais chuva. Todo este mês de março tem sido assim. E não vai parar pelo menos até à primeira semana de abril. Segundo as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o comboio de tempestades vai continuar a afetar o estado do tempo e justifica a precipitação sem fim à vista. Depois de três depressões consecutivas — Jana, Konrad e Laurence –, aproxima-se já uma outra para esta quarta e quinta-feira, também com direito a nome: chama-se Martinho.
A nova depressão que se aproxima de Portugal continental e do arquipélago da Madeira desloca-se desde o Atlântico Norte e vai trazer de novo chuva forte e muito intensa acompanhada por granizo, vento com rajadas e agitação marítima. A instabilidade vai manter-se até ao fim de semana, quando já estivermos em plena primavera: que este ano chega quinta-feira, dia 20 de março, às 9h01 da manhã.
Mas, depois disso, também não há previsão de que a chuva pare.
Mas será este estado do tempo normal para esta altura do ano? De onde vem esta chuva intensa e até quando vai ficar por cá? Estamos com as águas de março em vez de abril águas mil?
“Situação atípica”. Região sul, onde já choveu mais do dobro do normal, afetada por quatro depressões seguidas
Para climatologistas e meteorologistas não há nada de tão anormal assim na quantidade de chuva que tem caído em Portugal, embora reconheçam, de um modo geral, que a passagem de regiões depressionárias com uma frequência tão elevada, contando-se já três no período de três semanas, “é uma situação atípica“. Quem o admite é Ricardo Deus, chefe da divisão do Clima e Alterações Climáticas do IPMA, em declarações ao Observador.
“A passagem de superfícies frontais e de situações depressionárias no território continental é frequente e acontece com muita regularidade, é uma das características do nosso clima”, ressalva, notando que estas depressões isoladas “são muito frequentes, ainda mais numa altura do ano em que estamos quase a iniciar a fase de transição das estações”.
“Estamos quase na primavera e estes regimes afetam-nos mais nestas fases do ano”, explica.
Continente e arquipélago da Madeira afetados por nova depressão na quarta-feira
O que é mais atípico é a localização da passagem das depressões em Portugal. “Tudo isto é muito usual acontecer em latitudes mais elevadas e mais a norte”, afirma. Só que tem sido a sul que tem chovido mais. Ricardo Deus revela que, de acordo com a monitorização do IPMA, nesta região, em alguns locais, já foi ultrapassada a percentagem de “200% de precipitação nos primeiros quinze dias de março”.
“Já choveu duas vezes mais do que é normal no mês de março na região sul”, informa, repetindo que as regiões depressionárias “instalaram-se e afetaram claramente a parte sul do nosso território continental”.
“Mantendo-se este cenário de precipitação até ao final do mês, provavelmente este março acabará por ser um forte candidato a ser o mais chuvoso dos últimos 20 anos“, diz ainda o climatologista.
De facto, em termos de precipitação acumulada, e de acordo com os dados do IPMA, é preciso recuar até 2001 para encontrar um registo mais alto do que os 190,3 mm até agora registados, sendo que o mês ainda vai a pouco mais de meio. O dado de anomalia de precipitação acumulada também só encontra rival à altura em 2001, mas mais uma vez ainda há tempo para o recorde ser batido.
Dados estatísticos do IPMA
Pedro Miranda, investigador do Instituto Dom Luiz, não tem dúvidas de que estamos a assistir a um fenómeno mais extremo, em relação a outros anos, no que diz respeito à precipitação registada nesta altura do ano.
O especialista destaca que a maior parte das depressões que chegam cá “formam-se perto da costa do Canadá”. “Quando o ar chega ao Atlântico, que está muito mais quente, a diferença de temperatura é o ingrediente exato para criar estas depressões. O caminho que elas seguem é para leste, em direção à Europa, mas a forma como elas se deslocam é condicionado pelo anticiclone dos Açores”, acrescenta.
“Temos um clima mediterrânico que se caracteriza por estarmos numa zona que é o limite sul da frente polar. Há certos anos em que a frente polar não chega a Portugal e temos poucas depressões aqui a chegar e há outros anos em que ela chega e chegam também as depressões”, esclarece o climatologista, que não deixa de recordar a “grande variabilidade inter-anual no que diz respeito à chuva” do clima português.
Neste momento, além do anticiclone açoriano estar a permitir a entrada de tempestades que se formam ao largo da Gronelândia, um outro, o da Islândia, que se encaixou junto às ilhas britânicas, está a empurrar todas as depressões no sentido da Península Ibérica, onde, nos últimos dias, tem chovido mais do que no resto de toda a Europa. Aliás, a Europa Central está mesmo a sofrer com uma massa de ar quente que tem feito disparar as temperaturas em países como a Roménia, Turquia, Ucrânia e mesmo Rússia.
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Chuva vai marcar início da primavera e persistir durante a primeira semana de abril
Esta variabilidade do clima português vai marcar o início da primavera, agendada para a próxima quinta-feira, 20 de março. Em Portugal, devido à passagem desta nova depressão, espera-se tempo característico de inverno.
Segundo Ricardo Deus, climatologista do IPMA, não é de esperar que março termine de outra maneira que não com chuva. E mais: “Prevê-se que este regime de precipitação possa entrar também em abril.”
O instituto faz uma previsão relativamente alargada, que garante chuva até ao final da primeira semana de abril, com uma redução da precipitação registada nas semanas seguintes, na generalidade do território português.
“Não quer dizer que tenhamos estes dias torrenciais de chuva associados a regiões depressionárias, como agora. Não estarão em causa estes regimes persistentes pelos quais estamos a ser afetados”, ressalva Ricardo Deus. Apenas continuará a chover, mas talvez não com a chegada de novas depressões.
Já Pedro Miranda, do Instituto Dom Luiz, não arrisca a fazer uma previsão individual. “As previsões além de dez dias não são fiáveis na Europa”, recorda, destacando mais uma vez a carga de imprevisibilidade que afeta o clima português.
Alterações climáticas justificam “fenómenos mais extremos”, mas Portugal sempre teve variação na precipitação
É este grau de incerteza que Ricardo Deus associa ao fenómeno de precipitação dos últimos dias. “Temos anos em que chove mais e anos que chove menos, mas nos últimos 20 anos temos tido cada vez menos períodos sobre este tipo de influência de circulações“, recorda, notando que a perceção da população de que está a chover mais que o habitual pode justificar-se com a falta de memória em relação à precipitação de anos anteriores a 2000.
Considera que a chuva anormal para a altura do ano tem mais que ver com a variabilidade do clima português do que propriamente com uma associação tão direta assim às alterações climáticas.
Pedro Miranda também não estabelece a relação exata entre a chuva e alterações climáticas, mas não tem dúvidas de que estamos a “assistir a mais fenómenos mais extremos“, de um modo geral, que são uma “consequência das alterações climáticas”.
“A variabilidade de precipitação já existia, e anos com depressões umas a seguir às outras também, mas devido às alterações climáticas essas depressões em geral têm mais água e, portanto, podem produzir precipitações intensas em curtos períodos, que têm mais impacto”, informa o climatologista, que assinala, mais uma vez, que os fenómenos extremos promovidos pelas alterações climáticas podem ir da precipitação à seca.
Da seca em 70% do território português há seis meses para “excesso de precipitação” e barragens cheias
É o próprio especialista a notar que passámos de uma “situação de seca para quase excesso de precipitação“, o que revela mais uma vez a variabilidade do clima português. Em setembro de 2024, 13,6% do território português era afetado por “seca severa”, 32,4% por “seca moderada” e 23,3% por “seca fraca”. Ou seja, quase 70% do território português estava em seca ainda há seis meses.
Estado da seca em Portugal, em setembro de 2024, com 70% do território nacional a registar algum grau de seca
O inverno fez o seu papel e a chuva atenuou o fenómeno, em fevereiro, data do último registo do IPMA em relação à monitorização da seca e mês em que choveu bastante, igualmente marcado por comboios de tempestades, só uma pequena faixa da região do Algarve, a abranger Portimão, registava índices de “seca fraca”.
Estado da seca em Portugal em fevereiro de 2025, em que só a zona a castanho mostra alguma seca
O mais provável é que depois de serem adicionados os registos de março, essa pequena parcela de território deixe de estar, pelo menos temporariamente, em seca. Pedro Miranda recorda, no entanto, que embora a chuva encha os reservatórios, incluindo barragens, eles têm um limite.
“As albufeiras foram feitas para guardar água de uns anos para os outros e de umas estações para as outras, mas a água evapora”, nota, assinalando a solução que pode surgir apenas enquanto de curto ou médio prazo, perante um novo fenómeno de ausência de precipitação prolongada que tem vindo a verificar-se nos últimos anos à medida que o verão decorre.
Semana com comboio de tempestades. Chuva coloca seis distritos a amarelo já esta terça
Também tem estado mais frio. E também vai nevar na Serra da Estrela até ao final do mês
Já em relação às temperaturas que se têm feito sentir, Ricardo Deus destaca, numa análise dos últimos 15 dias, que “temos a temperatura máxima e média abaixo do normal“. “O mês ainda não terminou, mas em todo o território a temperatura é persistentemente abaixo do que é normal”, garante.
O climatologista destaca que este regime, de precipitação intensa e baixas temperaturas, “favorece, a partir de determinados graus de altitude, que ocorra neve, sendo que em Portugal Continental o único sítio que tem as condições para isso acontecer é a Serra da Estrela”. Espera-se então que este território continue a registar nevões até ao final do mês.
Ainda sobre a temperatura do mar, que tem registado temperaturas elevadas, o chefe de divisão do IPMA destaca que o Atlântico em determinadas regiões “está com uma persistência de temperatura da superfície acima do normal”. “Como é óbvio podemos associar a relação entre a atmosfera e o oceano, se um dos elementos está com temperatura mais elevada é normal que exista uma relação bidirecional entre os dois sistemas”, conclui.
Artigo atualizado às 10:50 de terça-feira, com a confirmação relativa ao nome da nova depressão Martinho que se aproxima de Portugal