Numa sala clássica e luminosa, sem um pormenor fora do sítio, Margarida Rebelo Pinto aponta para três jarras de flores e comenta, “não são lindas?” Entre elas, uma mão cheia de tulipas roxas, presente do filho, Lourenço, e um ramo coquete enviado pelas cabeleireiras. Tudo a propósito da apresentação do novo livro, A Grande Ilusão, dois dias antes, pelo ex-assessor de Passos Coelho, Miguel Morgado, no hotel Brown’s Avenue, de Pedro Luz.
Mais de um quarto de século depois de Sei Lá, passados quatro anos do último título e com perto de um milhão e meio de livros vendidos, a escritora da “vida como ela é”, como se define, está de volta, mas num registo diferente. Com outro editor também. Em vez de amigas que falam de sexo ou de histórias de amor romântico, fala da “geração da solidão”, a sua. A mesma que nos anos 80 e 90 cresceu com o país e, por isso mesmo, cheia de ilusões.
Ao longo de ano e meio, rodeada de retratos seus e da família, abençoada pelo silêncio de uma vivenda em Paço de Arcos e por uma vista invejável sobre a Costa da Caparica (que em dias limpos chega à Arrábida), escreveu sobre gente que conseguiu tudo menos ser feliz. Não lhes poupa adjetivos: individualistas, insatisfeitos, desorientados, infantis, a última geração Disney. Eles e elas. Nem O Sexo e a Cidade os salvou. Pelo contrário. “Depois, felizmente, é tudo South Park”, diz. “É espetacular.”
▲ A capa de "A Grande Ilusão", livro de Margarida Rebelo Pinto, publicado pela Alma dos Livros
O que é isso da “geração da solidão”?
É uma geração que sem querer acabou por escolher a solidão. Uma consequência de as pessoas serem individualistas, autocentradas, viverem para o trabalho. A geração X. Nós tínhamos 20 anos e pensávamos, “aos 30 já consigo comprar uma casa maior”. Aos 30, tínhamos sido promovidos algumas vezes e era, “agora tem de ser um sítio com garagem”. Nem sequer havia realidade se não houvesse planos para o futuro.
Sem se viver o momento.
Sempre naquela ânsia de “eu quero mais, eu consigo melhor para mim”. E isso, muitas vezes, também nas relações. Há pessoas na minha geração que estão no segundo ou terceiro casamento. Só que o tempo passou e está tudo a entrar no terceiro ato.
O que é o “terceiro ato”?
É aquela expressão maravilhosa da Jane Fonda, em que ela diz que não há velhice; há o terceiro ato. Estamos vivos e vamos aproveitar a vida. É uma geração que não quer envelhecer. É a primeira geração que é muito amiga dos filhos.
Várias personagens dizem que os filhos são as pessoas mais importantes das suas vidas.
E depois há filhos que crescem e ficam independentes, mas há filhos que não crescem. Ao mesmo tempo, os pais estão doentes e precisam de cuidados, e nós continuamos sempre a correr. Eu sou obrigada a parar porque sou escritora. Os meus amigos pedem-me conselhos. Chamam-me Dr. Love. Eles e elas. E comecei a ver muitas pessoas sozinhas. Amigas, conhecidas, leitoras que me escrevem.
Mandam cartas?
Imensas. Grandes desgostos de amor, situações abusivas, situações abusivas com filhos, que são um espelho de pais abusivos. Durante muitos anos pelo Facebook e agora, as mais novas, pelo Instagram.
E responde?
Tento responder, porque precisam mesmo de atenção e não custa nada. Tenho uma história maravilhosa com o meu canalizador. Um dia às 10 da noite começa a mandar mensagens: “Doutora Margarida, desculpe incomodá-la, mas como é a escritora do amor e eu estou com um desgosto de amor…” Estava sentada no sofá e pensei, “vou dar-lhe 10 minutos do meu tempo”. E então escrevi-lhe uma série de coisas muito simples: “mude de hábitos, comece a fazer coisas novas porque vai sentir-se melhor, tenha paciência consigo”. E ele foi-me mandando mensagens, uma semana, um mês, três meses depois, a dizer “já me sinto muito melhor”.
Sem segundas intenções?
Era uma coisa genuína. Ele estava mesmo atrapalhado.
E aí é um homem. É comum?
É para aí um homem para 20 mulheres. Isto era uma pessoa que me conhecia. Uma mulher pode telefonar a uma amiga e estar uma hora a falar de um assunto. Depois, no dia a seguir, está outra vez uma hora a falar daquele assunto. Os homens não fazem isto. Até porque os homens geralmente não falam dos problemas ou das preocupações
Mas falam consigo.
Falam comigo. Eles acham que eu sou o “Zé Manel”. Desde miúda. Estive dois anos em Direito na Católica – a fazer amigos e a perder tempo, porque tinha zero vocação – e já nessa altura me contavam imensas coisas. Eu puxava por eles. Tenho uma sede insaciável de perceber o que vai na cabeça das pessoas. O que as motiva, que medos têm. Sou filha de uma psicóloga e de um biólogo. E o meu pai fez parte do curso de psicologia com a minha mãe, só para lhe fazer companhia, porque a adorava.
Conversavam muito?
Conversávamos os cinco. Somos todos, os três irmãos, muito observadores. Não sei que escritora é que disse, “não tenho outra ambição que a do entendimento”, mas é assim que penso. Quando estou a construir um livro — venho da publicidade, fui 10 anos copy — primeiro escolho um conceito, que é uma questão sobre a qual quero refletir. Aqui é, “o que correu menos bem nesta geração vitoriosa que conseguiu tanta coisa?” Porque a maior parte destas pessoas são bem-sucedidas.
Diz no livro, “os homens deixam-se ficar e as mulheres deixam-se ir”. O que quer dizer com isto?
O [historiador e escritor francês Jules] Michelet diz uma coisa linda que é, “o homem caça e luta, a mulher intriga e sonha”. Mesmo a Laura, que representa a mulher normalizante, que tem a ver com a maneira portuguesa clássica de ser e estar, a dada altura se pergunta, “e se…”. Há sempre aquele namorado da faculdade. Algumas destas personagens são pessoas que eu conheço…
…amigos?
Sim.
E sabem?
Sabem, sem problemas.
É comum fazer isso?
Sim. Pergunto se querem ler antes. Só uma amiga é que uma vez pediu. Troco os nomes, as profissões, os contextos, portanto é indetetável. Mas é muito divertido.
Avisa sempre?
Quase sempre.
Nesse contexto de caça e sonho, um traço frequente nestas personagens é estarem ou terem estado envolvidos em relações extraconjugais.
Porque isso também faz parte do ser humano e foi uma realidade para a qual acordei muito tarde. Achava que não era o mais comum.
Quando é que se apercebeu disso?
Talvez entre os 45 e os 50. Sou filha de um casal que namorou desde os 16 anos. Cresci numa família em que fidelidade, felicidade, sexualidade, conjugalidade – era tudo entre duas pessoas que viviam debaixo do mesmo teto. Havia histórias de traições na família, mas não se falava. A geração boom tem uma capacidade infinita para pôr um véu de normalidade sobre as coisas.
▲ "É aquela expressão maravilhosa da Jane Fonda, em que ela diz que não há velhice, há o terceiro ato. Estamos vivos e vamos aproveitar a vida. É uma geração que não quer envelhecer."
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Aqui é transversal. E muitas personagens querem manter aquelas situações dúplices.
O [politólogo e ex-deputado do PSD] Miguel Morgado apresentou o livro e às tantas diz assim, “Isto é um espelho. E eu cheguei à página 20 e estava lá”. Achei graça. Claro que ele não está lá. Não sei nada da vida dele. Mas ele disse, “vocês vão-se rever numa página qualquer ou várias vezes”.
As únicas relações que parecem saudáveis são as de amizade. Aliás, o último capítulo é uma grande declaração de amizade.
Acredito mesmo que a amizade é uma forma sublime de amor. A amizade é como o amor, mas uma coisa mais pura, sem cobranças nem prazo de validade. Somos mais generosos com os nossos amigos porque não fazemos uma idealização. Aceitamo-los como são. Quando as pessoas entram numa relação amorosa, idealizam imenso.
Mesmo a personagem que é psicóloga diz que ajuda tanta gente, mas que consigo própria não consegue fazer a mesma coisa.
E aparece-lhe um tipo que parece espetacular, que tem imensas qualidades, “até um dia”. Os psicólogos dizem que há um período de pose. Seis meses, mais ou menos. Depois, começa a desaparecer. E no período de pose as pessoas sonham muito. É impressionante a capacidade que as pessoas têm para sonhar com uma coisa que começou agora.
Um sinal de imaturidade?
Mais do que imaturidade, infantilidade. Pessoas de 50, 55, 60 anos. É como se, de cada vez que o amor entra no sistema sanguíneo, as pessoas se esquecessem de tudo. Mas têm carreiras sólidas, dedicam muito tempo aos filhos, cuidam dos pais. É como se houvesse ali uma falha no sistema.
A nível emocional e afetivo?
A nível emocional. Não cresceram. Ainda está tudo na Disney.
Outra referência é a série O Sexo e a Cidade, que estava a passar na televisão na altura em que escreve o Sei Lá.
Foi uma série fundamental para a minha geração.
Fundamental de que maneira?
Para o mal. Criou-se a ilusão de que o homem ideal é o Mr. Big. E o Mr. Big é um narcisista manipulador que deixa a personagem principal em stand-by durante seis temporadas.
Ou seja, O Sexo e a Cidade pretendia ser uma série sobre emancipação feminina, mas sem querer é machista?
Teve coisas ótimas. Pôs as mulheres a falar de sexo umas com as outras.
Sentiu essa diferença?
Incrível. Aliás, o Sei Lá começa assim. Com uma conversa entre mulheres. E a primeira frase é, “o que mais me chateia é quando perco a ponta”. Estávamos em 99. Não tinha a noção do impacto que aquilo ia ter.
E o que a levou a escrever o Sei Lá?
O Sei Lá reporta a uma fase anterior da minha vida, quando, a meio dos anos 90, tinha um grupo de amigas mais velhas. Umas já se tinham divorciado, outras viviam com os namorados. E eu, que era miúda, ficava fascinada. Aquela frase do início ouvi-a de uma delas. Quando acabo o Sei Lá, estreia-se O Sexo e a Cidade e penso, “isto é espetacular, porque isto é igual ao Sei Lá”: um grupo de amigas cosmopolitas, a falar de sexo, a gostarem de ir aos restaurantes, a viver na cidade. Lisboa nos anos 90 estava ao rubro.
Sentiam-se no centro do mundo?
Sentia-se a cidade a ferver. O Bairro Alto era muito giro, com bares de todos os tipos. As pessoas saíam muito à noite, conversavam umas com as outras. Podia sair sozinha porque ia sempre encontrar alguém.
E saía sozinha?
Saía. Pap’ Açorda, Bartis, Os Três Pastorinhos. Estava sempre alguém.
Sem telemóveis, sem nada?
Era uma liberdade incrível. Não havia a ansiedade que há hoje. Havia uma confiança nas coisas. Ia para a praia, para a costa da Caparica, sem a ansiedade de saber se os meus amigos estavam lá. Deviam estar de certeza. E lá ía, no meu Volkswagen Polo, a ouvir o mesmo CD mil vezes, a cantar. Everything But The Girl, Sting, Rui Veloso, Xutos… Sabia tudo de cor.
Que ansiedade é essa de que fala?
A ansiedade das redes sociais, dos telemóveis, do Whatsapp. As pessoas querem fotografar o momento em vez de o viverem.
É muito agarrada ao telemóvel?
Infelizmente sou bastante, porque estou sozinha. Mas vejo casais juntos e agarrados ao telemóvel. E uma coisa terrível, que são as crianças. Às vezes, em restaurantes, passou hora e meia, os adultos estão a conversar e os miúdos estão de fones grossos, alienados.
Descreve esta como a geração que cresceu quando o país estava a crescer, que sentia que o futuro era radioso, e que agora está muito sozinha. Quando é que se deparou com esta ideia?
Quando é que choquei de frente? Aí há 10 anos, quando cheguei aos 50. Percebi que ainda não tinha crescido numa data de coisas. Tinha uma visão híper romantizada das relações. O amor romântico é uma coisa muito complicada. Pode fragilizar-nos, desfocar-nos do trabalho, da família, das coisas que verdadeiramente interessam. Há um momento em que a pessoa tem de perceber que já não tem assim tanto tempo. As prioridades mudam.
Que prioridades mudaram para si?
Eu dava muita importância ao amor romântico, às relações arrebatadas. Produções de Hollywood. Mas, se não se mete a mão na massa para construir, não passam de um sonho.
Deixou de acreditar no amor romântico?
É uma ótima base para uma relação, mas é como se fosse a base da piza. Depois é preciso ter paciência, tolerância, aturar os filhos dos outros, fazer cedências…
Dá muito trabalho.
Dá muito trabalho.
A sua geração não tem arcaboiço para isso?
Prefiro dizer que têm bastante dificuldade. Mesmo as mulheres que se queixam têm muita dificuldade em aceitar e perceber a outra pessoa.
Por que razão foi tudo tão fácil quando eram mais novos?
Os anos 90, as multinacionais a virem para Portugal, uma progressão rápida na carreira. Trabalhava-se e conseguia-se. Em 2009, 2010, 2011, começou tudo a ruir. O [escritor] Michael Cunningham diz que a partir dos 40 o mundo começa a encolher à nossa volta. Eu sou muito otimista, portanto acho que é a partir dos 50, 55. Há uma sensação de que já se viu muita coisa, mas não se aprendeu o suficiente. E a matemática não está do nosso lado. Há uma ideia de finitude. O Nuno [uma personagem] diz, “choquei de frente com a velhice” porque está a perder a visão. Como se fosse contra um muro numa moto a 200 km/hora.
▲ "A minha geração é a primeira em que as mulheres, além de terem alcançado independência financeira, deixaram de ser segregadas por serem divorciadas ou terem filhos de mais do que um casamento"
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
E a nível pessoal, como é que lida com a ideia de envelhecer?
Sempre fui a mais nova, de irmãos, de amigos, portanto para mim não é complicado. A verdade é que não sinto a idade que tenho. A única coisa que sinto que vou perdendo é a paciência. Não perco a alegria de viver, a energia. Vou ao ginásio quase todos os dias, durmo bem, tenho resistência.
E a parte estética, da aparência, lida bem com isso?
Lido, porque tenho a genética da minha mãe e a ela está a correr-lhe lindamente. Quando fiz 50 achei normal. Agora não me sinto nada a chegar aos 60. Até porque os 60 de agora não têm nada a ver com os 60 da geração que nasceu em 1930.
Olhando para o Sei Lá, o que é que a fez querer escrever aquela história, daquela maneira tão diferente do que se escrevia em Portugal?
Há quem diga que há uma literatura antes do Sei Lá e outra depois do Sei Lá. Eu concordo. Foi um marco.
Porquê?
Eu queria contar histórias. Nunca pensei se fazia falta ou não fazia falta. Nem sequer olhava para o mercado. Queria contar a vida como ela é. Os escritores têm todos um tema. E não é por acaso que, com 37 anos de imprensa, tenho uma crónica que se chama A Vida Como Ela É. Acaba por ser um retrato muito geracional. Tem os bares, os restaurantes, as marcas daquela época.
Relativos a um determinado extrato social.
Sim, uma burguesia que vive bem, à-vontade.
Embora aqui haja uma personagem que é…
… a Vanessa [rececionista de um ginásio, criada no Bairro da Liberdade]. Porque também conheço.
Sente que há mais cruzamento de classes hoje do que nos anos 80 ou 90?
Muito mais. Para bem da sociedade portuguesa.
Estamos mais democráticos?
Estamos muito mais democráticos nas migrações entre as diferentes classes sociais. Os betos estão em vias de extinção. E não acho mal. Porque são meios fechados já esgotados. Tenho duas personagens preferidas neste livro. Uma é a Bárbara, porque avança, sem preconceitos. Teve uma aventura que acabou com o casamento dela mas ela vive bem com isso. Tem um romance com um homem que é casado e também vive bem com isso. E gosto muito da Laura, porque é uma mulher com cabeça, que tirou o seu curso, não se deslumbra com ascensões sociais e depois choca de frente com os tiques de uma suposta elite, que acha que é elite porque tem um brasão ou nome de família, e que forma um microcosmo endogâmico e bastante desinteressante. Falta espírito de meritocracia na sociedade portuguesa. É uma coisa que nos atrasa. E nós merecemos ser mais.
Tem ideia de quantos livros já vendeu?
Em 2005 já tinha vendido meio milhão e fiz uma festa. Depois vendi um milhão. Ainda não cheguei ao milhão e meio. Do Sei Lá foram mais de 300 mil. O Não Há Coincidências ainda vendeu mais. O editor era o Gonçalo Bulhosa, que depois fez a Oficina do Livro com o António Lobato Faria. Depois separaram-se e continuei com o António, até este.
E dedica o livro ao António Lobato Faria. Porquê?
Porque, depois do meu pai e do meu irmão, é o homem mais importante da minha vida.
Mas este livro já não é editado por ele.
Precisava de mudar. Isto agora é diferente. Os livros são promovidos nas redes sociais. Há muitas miúdas no Instagram a promover livros. Gosto mais desta maneira de funcionar, é mais democrática.
Como foi essa separação?
Tomei a decisão, passei um mês a chorar, tive uma conversa com ele, e foram mais 15 dias a chorar. Porque ele é o meu marido profissional. Ajudou-me a escrever todas as histórias, desde o terceiro romance, que foi o Alma de Pássaro, até ao penúltimo. Pensava que não ia conseguir escrever livros sem o António. Nunca nos zangámos, nunca nos separámos. Ele conhece toda a minha família. Eu adoro a família dele. Na apresentação [deste livro], ele estava sentado na primeira fila ao lado da minha família.
Portanto, foi uma decisão estratégica.
Foi.
E da parte dele, como foi a reação?
Ele, como é uma pessoa de uma profunda elevação, percebeu que profissionalmente era a melhor coisa para mim. Pessoalmente, ficou muito triste, exatamente como eu. Super difícil, super.
É uma coisa pouco falada, a relação entre um autor e o editor.
E é tão importante. Um autor não é ninguém sem um grande editor. Temos de ter uma pessoa que nos guie, que nos aponte os defeitos, que nos diga “não podes escrever isto”, “fora com este capítulo”, e o António fazia isso. Olhava para os meus manuscritos, riscava, riscava, riscava, e eu dizia, “está bem”.
Uma espécie de casamento entre amigos.
É uma coisa impressionante. O Sei Lá escrevi sozinha e o Gonçalo Bulhosa ajudou-me com o fim: “Faz um fim feliz, porque tu és uma escritora pop”. Isto num café na Avenida Roma. Há muitos amigos que me tratam por Maggie Pop. O Não Há Coincidências também escrevi sozinha. Mas depois foi tudo com o António.
Estava preparada para o sucesso do Sei Lá?
Ninguém está preparado. Lembro-me de uma amiga me dizer, “Agora já não precisas de ir aos saldos da Zara. Já podes ir à Stivali.” E eu perguntei-lhe “O que é a Stivali?” O livro sai em março de 1999 e no verão está tudo com o livro na mão. No ano a seguir há alguém que leva o Não Há Coincidências para o Big Brother e o Não Há Coincidências ainda vende mais do que o Sei Lá. E depois no fim do ano faço um livro que se chama As Crónicas da Margarida e quando em dezembro entro na FNAC estão os três livros no top. O Sei Lá e o Não Há Coincidências estão uns dois anos no top da Fnac.
Diz que o Sei Lá democratizou a literatura. Porquê?
Vou dar um exemplo. Em 2007 tive um AVC. Fui parar a um hospital público e estive internada uma semana. Nenhum médico tinha lido o meu livro. Mais de metade das enfermeiras conhecia os meus livros. Todos os auxiliares, todos os maqueiros, tinham lido os meus livros. Ou seja, a literatura começou a chegar a pessoas que não liam literatura. Mas assim de uma forma completamente massificada. Uma vez entrei no metro e havia seis pessoas a ler o Não há Coincidências. Chegava à praia e as pessoas estavam a ler o meu livro. Aquilo alastrou. Divertia as pessoas, as pessoas reviam-se nas histórias, havia uma identificação. Mas também tive sorte, porque o livro foi parar ao Big Brother.
Acha que outros autores encarariam isso como sorte?
Não fiz de propósito, mas não me caíram os parentes na lama. Por que é que não hei-de dar entrevistas à Caras? Tenho um livro para vender.
É assim que olha para os livros, como um produto para vender?
Escrevo o que quero e o que acho importante naquele momento. Feito o livro, e porque no fundo sou uma publicitária, é encontrar um título chamativo, uma capa que funcione, um texto apelativo para a contracapa.
Envolve-se em tudo?
Tudo. Isto que está aqui é tudo pensado: esta fotografia foi escolhida porque estas cores ficam bem com estas. É o trabalho publicitário, embrulhar.
▲ "Eu vivo disto. Posso estar um ano fechada em casa a escrever. E, portanto, quero vender o resultado de meses e meses a pensar, a organizar, a pôr e a tirar personagens, a rever"
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
O que puder fazer para vender, faz?
Eu vivo disto. Posso estar um ano fechada em casa a escrever. E, portanto, quero vender o resultado de meses e meses a pensar, a organizar, a pôr e a tirar personagens, a rever. Este demorou um ano e meio pelo menos. E a meio estava na dúvida. Ainda comecei outro. Não foi um processo nada linear.
O Sei Lá foi muito criticado. Como é que lidou com isso?
Diziam que era uma coisa mais fútil, que não tinha qualidade. Tive a sorte de ter tido grandes protetores. O meu pai foi um grande protetor. O António Alçada Baptista leu os primeiros seis capítulos do Sei Lá e disse (ele chamava-me “Bicho”), “Ó Bicho, isto é bom. Tens de acabar.”
As críticas vieram tanto de homens como de mulheres?
Sou atacada porque estou a fazer uma coisa nova. Aí os ataques vêm de todos os lados. Mas, ao longo da minha vida profissional, quer no jornalismo quer na literatura, os ataques mais violentos que tive ou as situações de injustiça mais fortes que tive vieram de homens.
Porquê?
Não sei. Aos 27 tinha tido três situações profissionais de #MeToo, nas quais bati com a porta. Mas tinha condições socioeconómicas para isso. Vi colegas sem essas condições e com medo de perder o emprego. Nunca tive medo de homem nenhum. Não tenho medo.
Não tem medo de homens ou em geral?
Não tenho medo. O único medo que senti na vida foi… Quero ver o meu filho crescer. Tive um AVC, estive três dias nos cuidados intensivos e tinha a certeza de que não ia morrer. Era uma deficiência cardíaca, que foi corrigida. Há meia dúzia de anos subi sozinha ao Morro do Vidigal [no Rio de Janeiro] num motoboy para ir a uma festa. Não tenho medo. Sou de uma geração que não entrava no metro quando o metro estava muito cheio para não ser apalpada. Cresci a ouvir assobios na rua…
Ainda é assim.
É muito triste, e acho que agora ainda está pior. Saí de uma agência de publicidade por #MeToo, saí de um jornal por #MeToo e saí de um canal de televisão por #MeToo.
Mas nunca disse nada. Teria ajudado, falar?
Falar com quem? Nos anos 90 não se ia ao departamento de recursos humanos explicar o que aconteceu. Até porque era uma prática completamente institucionalizado em algumas empresas.
Houve um ataque célebre do João Pedro George, que publicou um livro sobre a sua escrita intitulado Couves e Alforrecas.
Prefiro não falar sobre isso.
Está a par da polémica causada pelas declarações do João Pedro George sobre a autora Madalena Sá Fernandes?
Vi o vídeo, mas não quero entrar em polémicas. As pessoas não mudam. Tento rodear-me de pessoas boas. Acredito que há pessoas tendencialmente boas, generosas, atenciosas e pessoas tendencialmente invejosas, ressabiadas, frustradas. Acredito no sol e na sombra. No voo e na queda. E no bem e no mal. Não sou maniqueísta, mas acho que temos de estar atentos aos sinais. Venho de uma família em que as pessoas cuidam muito umas das outras. Olhe só – levanta-se para ir pegar numa fotografia – o gineceu. É uma família muito amiga. Estão aí quatro gerações. É uma sorte.
Vem daí esse “não ter medo”?
Oitenta por cento do otimimo vem desta pessoa, que é a minha mãe, que é fortíssima. Tem 87 anos. A minha irmã [Maria do] Rosário [Palma Ramalho, ministra do Trabalho] é fortíssima. A minha cunhada, casada com o meu irmão, é fortíssima. Isto é um matriarcado.
A sociedade portuguesa e o meio literário em particular ainda são muito machistas?
No mundo inteiro. Não é só em Portugal. As artes sempre foram machistas.
Na sua opinião, porquê?
Os homens não entendem as mulheres, então têm medo delas. Não é uma fraqueza; é uma característica. Homens que tiveram muitas irmãs ou que conviveram e cresceram com mulheres têm muito menos medo.
No fundo, tudo se resume a medo?
É não entender. E não entender pode provocar medo e desconfiança.
Este assunto mexe claramente consigo. Porquê?
Mexe. Porque vejo muitas mulheres que gostavam que os homens fossem diferentes. E isto é um reflexo da nossa geração. Mulheres muito independentes, com carreiras muito sólidas, e que estão a dar um sinal ao inconsciente dos homens de que não precisam deles. Os homens estão ali em terra de ninguém: “Se eu não sou o provedor, então sou o quê?” A minha geração é a primeira em que as mulheres, além de terem alcançado independência financeira, deixaram de ser segregadas por serem divorciadas ou terem filhos de mais do que um casamento. Deixou de haver aquele rótulo horrível das fáceis e das outras. Nos anos 80 ainda havia.
Mas o seu livro acaba num tom de esperança.
Claro, porque eu sou uma otimista.
Mesmo no final, aparece esta frase, “Viver em vez de esperar, viver em vez de temer, viver em vez de lutar. Ou seja, simplesmente estar”. Parece quase uma coisa zen.
Há 10 anos tive um grande desgosto de amor, fui para o Brasil e aprendi a meditar. E isso mudou a minha vida. Interiorizei aquela ideia de que os europeus não gostam nada, “aceita que dói menos”. Ou seja, aquilo que não puderes mudar, aceita. Medito todos os dias. Baixou-me os níveis de ansiedade, melhorou a minha saúde, durmo melhor, como melhor, sou mais focada, sou mais tolerante com os outros e sou muito mais tolerante comigo própria.
Era muito intolerante consigo própria?
Era o meu maior carrasco. Agora sou a minha melhor amiga. E acho que sou uma boa amiga dos meus amigos. São coisas muito importantes para mim. É a idade. A idade tem coisas fixes.