No labirinto do departamento de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), esconde-se um laboratório de alto risco: aqui, só se entra com óculos de proteção postos, quando estão em curso as sínteses químicas que Maria Helena Garcia, investigadora, adora por serem “um puzzle” a resolver. Em ambiente estéril entre tubos cheios de azoto, surge a molécula que o seu grupo descobriu em 2013 e de onde dois anos depois extraiu uma nanopartícula que obteve resultados promissores contra o cancro de mama triplo negativo, em testes em animais. Aos 74 anos de idade e já jubilada, Maria Helena Garcia fundou uma empresa, a R-Nuucell, para fazer chegar a sua Ru-Drug a quem precisa. Hoje, aos 77, a investigadora não parou de correr — agora, por investimento.
Maria Helena Garcia dedicou a sua carreira ao estudo de compostos metálicos, como o ruténio, para memórias óticas de computadores. Em 2004, decidiu que estava na altura de mudar e entrou na área dos metalofármacos destinados ao cancro. O mais conhecido é a cisplatina, que remonta aos anos 60 e foi “o primeiro medicamento baseado no metal que ainda hoje continua a ser utilizado”.
Quatro mulheres diagnosticadas com cancro da mama a cada minuto
Contudo, assinala a investigadora, “a platina é muito perniciosa no organismo, porque ele não consegue lidar com ela e cria muitos efeitos secundários”. Caso contrário ao do ruténio que, “na tabela periódica, está na mesma linha do ferro, é metabolizado de uma maneira muito mais amigável”: afinal, a nossa hemoglobina também tem ferro.
O cancro de mama triplo negativo é metastático, e para este tipo de tumores ainda não existem “medicamentos específicos e eficazes”. As metástases são o “grande problema” e “o tratamento que existe são cocktails de medicamentos em que se junta um para o ovário, outro para o pulmão e outros para a mama e experimenta-se”, relata Maria Helena Garcia. “Acontece que a quimioterapia, como não é dirigida, cria muitos efeitos secundários. Após alguns tratamentos, as células deixam de responder e então muda-se o cocktail de medicamentos.”
Além disso, “normalmente, a esperança de vida para o cancro de mama triplo negativo é de 25% a cinco anos”.
Um coração de ruténio que come células cancerígenas
A patente deste “coração de ruténio enrolado em cadeias de carbono e hidrogénio”, como o descreve a cientista, está registada desde 2015. Desde que descobriram a molécula que precedeu a Ru-Drug, Maria Helena Garcia e a investigadora Andreia Valente, sua sócia, estiveram em conferências por todo o mundo e venceram concursos como o ScienceIN²Business, uma iniciativa do Laboratório de Inovação da Ciências ULisboa que lhes permitiu contactar com investidores. Essa iniciativa culminou na entrada em cena, em 2017, dos business angels Miguel Ribeiro Ferreira e Isabel de Botton, e de uma vitória no concurso INNOV-ID de 2020. Além dos seus business angels, a empresa tem como parceiros privados a Ciências ULisboa e a Portugal Ventures. “No dia em que a íamos fundar, fechou o país”, recorda Maria Helena Garcia. Acabou por ser oficialmente criada ainda em plena pandemia de Covid-19, em fevereiro de 2021.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Tecnicamente, chama-se Something In Hands, “o que eu acho que também não está mal, porque temos algo nas mãos”, conta ao Observador. “Temos nas nossas mãos moléculas que têm a potencialidade de ser eficientes contra as metástases, uma vez que elas é que são o grande problema do cancro, então vamos estudar cancros metastáticos, que realmente não têm tratamento ainda.” Mais tarde, mudaria de nome para R-Nuucell.
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Em 2022, a empresa conseguiu mais um financiamento de 75 mil euros, através do programa piloto Women TechEU, que seleciona empresas tecnológicas lideradas por mulheres na União Europeia. “Ganhámos muita experiência, muito know-how com os nossos mentores, que nos ensinaram a desenvolver modelos de negócio e a apresentar o nosso produto”, garante a investigadora.
Como funciona a nanopartícula?
A Ru-Drug “faz terapia dirigida, ou seja, vai ter menos efeitos secundários que a terapia normal, porque está desenhada para fundamentalmente incidir nas células cancerígenas, poupando as células saudáveis”, explica a investigadora.
O fármaco é injetado por via intravenosa e acumula-se nos tumores aproveitando as fissuras nos vasos sanguíneos, imperfeitos devido ao crescimento desordenado das células. No cancro de mama triplo negativo, e noutros cancros metastáticos, “numa fase muito inicial começam a ser libertadas células cancerígenas que vão para o sangue, e para o sistema linfático, e semeiam cancro da mama nos ossos, no pulmão, no cérebro”, salienta Maria Helena Garcia sobre as metástases. “O nosso medicamento, que está inserido em nanopartículas, passa muito bem pelos buraquinhos, mas já não sai, fica retido. E como o ambiente do tumor é ligeiramente ácido, o medicamento que está dentro da nanopartícula é libertado e fica ali, tic tic tic, a comer as células cancerosas.”
Um estudo de 2024 realizado em ratinhos de laboratório demonstrou que, ao fim de seis tratamentos de quimioterapia ao longo de três semanas com a Ru-Drug, “os animais tratados tinham menos 30% de metástases no pulmão (órgão mais irrigado e onde as células do cancro de mama triplo negativo começam a surgir primeiro) do que os ratos que não tinham sido tratados”.
Quanto a efeitos secundários da Ru-Drug, não foram detetados quaisquer outros diferentes dos causados pela quimioterapia tradicional. A química de 77 anos salienta que foram seguidas as regras de ética que determinam o sacrifício do animal caso este entre em sofrimento, e destaca o caso de um rato que após a cirurgia para remoção do cancro e mais dois tratamentos, “resistiu seis meses, feliz, saltitante, bem-disposto, na gaiola”.
Num estudo paralelo, o grupo de investigação também comparou a Ru-Drug à cisplatina: “Pudemos comparar os resultados e verificámos, realmente, que o nosso composto ainda era melhor”, detalha.
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Os próximos passos? Chegar aos 15 milhões de euros
Terminado com bons resultados o estudo “limitado” e com “orçamento reduzido”, a R-Nuucell quer agora avançar para estudos mais prolongados no tempo e, no futuro, entrar em ensaios clínicos.
Prolongar o estudo implica o investimento de 100 mil euros. Após essa etapa, adivinha-se uma mais onerosa, que implica três milhões de euros com vista a estudos de farmacocinética — para perceber como é que o corpo reage à substância — e de segurança em laboratórios credenciados.
A etapa final de avanço para os testes em seres humanos, que têm que ser feitos “através de hospitais com amostras grandes de doentes”, já exige 15 milhões de euros. “O nosso objetivo seria chegar à fase 1 dos ensaios clínicos e depois, eventualmente, colocar uma farmacêutica a tomar conta do medicamento, licenciarmos a nossa patente”, diz Maria Helena Garcia. “A dada altura, o produto abandona-nos, deixa-nos sozinhos no nosso laboratório da universidade e vai sozinho à vida dele.”
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Andreia Valente, a co-fundadora da R-Nuucell, salienta que atualmente no panorama do financiamento é dada prioridade à Defesa e se assiste a um desinvestimento na ciência. Além do fármaco contra o cancro de mama triplo negativo, o centro de investigação está ainda envolvido em projetos para outros cancros metastáticos sem cura, como o do pâncreas e o colorrectal.
“Não devemos ter o complexo de sermos um país pequenino e que os outros têm os meios todos e têm tudo. Isso é verdade, mas também é verdade que com os nossos meios e com o nosso entusiasmo, e com a nossa capacidade de utilizar recursos limitados, tem conseguido bastantes resultados e, portanto, temos que confiar em nós”, aponta.
A porta do laboratório no edifício C8 é difícil de abrir, mas Maria Helena Garcia passa por lá quase sempre que vem à faculdade por gostar do “cheiro”. “Eu sou uma química de raiz.” Atrás de si, amontoam-se tubos e condensadores que geram o que pode vir a ser um fármaco útil “à Humanidade”. Afinal, “a terapia personalizada é o futuro do tratamento dos cancros”, conclui.